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Full text of "Revista archaeologica"

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THE J. PAUL GEITY MUSEUM LIBR/ 



REVISTA 

ARCHEOLOGICA 



E HISTÓRICA 



PUBLICAÇÃO AIENSAL 



PROPRIETÁRIOS E REDACTORES: 

A. C. BORGES DE FIGUEIREDO 

Bibliothccario da Sociedade de Geographia de Lisboa 
E 

M. ALEXANDRE DE SOUSA 

Ofticial do exercito 



VOLUME 

1887 



LISBOA 
Typographia de Adolpho, Modesto & C.^ 

FORNECEDORES DA SOCIEDADE DE GEOGRAPHIA 

Rua Nova do Loureiro, 2.5 a 43 

18 8; 



THb J. PAUL GETTY CENTÇR 



NDICE 



XYIII 



VIII 



Pag. Est. 

Aiimlclo roínaiio 70 x 

Aiilijíiiidadfs de Montemór-0-novo 129 

Antiguidades pheiíicias na Península 175 

Ao leitor 1 

Ara romana dcscolicrta em Castro Daire fi2 ix 

Arclieoloj,'ia : iiiijiorlancia, estudo, notas varias 1, l."i, 4o líiG 

Arciíitíícto lie Odiveilas (O primeiro) lio xvi 

Balsa ( perto de Tavira) ;J3 

Beja 18o 

Bencatel 100 

Bihliographia 80, 96, 128, 159 17o 

Brigantium (o supposto) em (>astro de Avellãs 8o 

Bronze (objectos d?) — na Hispanlia lo 

Calcos (modo de tirar) 16 

Castro Daire í Ara romana descoberta em) 52 ix 

Ceitis de D. Allbnso v KJG 

Chinfrans de D. AíTonso v; vej. Real. 

Cippo funerário romano descoberto em Vizeu 81 xii 

Citaina 39 

Constiluiçõcs 10 182 

Conslituições do arcebispado de Lisboa, decretadas por D. João Es- 
teves de Azambuja ( 1102-1114) 10, 28, 60, 77 94 

Descobertas arcbeologicas lo 

Descobertas em Pompeia (Novas) 31 

Dias egypcios (os) 6o 

Dinfieiro de D. Saiicbo ir 57 

Duas inscripçõos de Olisipo o 

Edade de pedra ; na Guadalupe 6 9 

Elvas (Três monumentos epigraphicos d') 97 

Epigrapbia : 

de Olisipo o 

de Tuy 17 

de Balsa 33 

de Citánia 43 

de Faro 47 93 

de Mertoia 64 

de Castro D.iire 52 rx 

num tijolo 76 xi 

de Vizeu 81 

de Castro de Avellãs 8o 

de Sacoias 92 

tle Elvas 97 135 

de Bencatel 100 

(Epitapbio do século xii) 109 

de Montemór-o-novo 113 129 

de Odiveilas 147 

de Duas Egrejas (Miranda do Douro) lo9 

de Beja 18:i 

Epitaphio do século xii 109 

Escuipturas em madeira, da Guadalupe 8 



IX 

I 



r 

III-VI 
VI i 
VIII 

IX 



xir 



XVI, XIX 



Pag. 


Est. 


166 


XVIII 


45 




49 




6 




8 




64 


IX 


129 





índice 



Espadins ile D. AlTonso v 

Estudos nrcheoloííioos om Portugal (os) 

Geoiírifia áral)i' de Portujral (La) 

Guadaluix' pivliislorica (A) 

ídolos da Guadalupe 

Inscriprão clirislã dcscoliorla em Mcrtola 

Inscripção de Moiiteiuór-o-novo. 113 

Lei de'í8 de ai!oslo de 1721 relaíiva á conservação dos monumen- 
tos arelipoio^tricos (extracto) 46 

Mais um monumento rpjgraphico de Bencatel 100 

Mealha de D. AlTonso i 27 

Mecia Lopes de llaro (D.) 161 184 

Modo d" tirar calcos de inscripções 16 

Montemór-o-novo 129 

MonuMieiitos de Balsa 33 

Monumentos epigrapi ieos de Beja 185 

Monumentos epigrapliicos de Tuy _._ 

Monumentos históricos 156 

Notas sohre a toponymia portuguezi 102 

Numismática poi tugueza : 

mealha de 1). Atíonso i 

diniieiro de D. Sancho ii 

fracções de real de D. João i 

reaes de I). João i 

reacs hrancos de D. Duarte 

reaes grossos e meios reaes ou chinfrans de D. AíTonso v 

espadins e ceitis de D. Allbnso v 

Numismaíica romana : 

Vli BS HUM A B E ATA .- 10 ii 

Óbidos, vej. Constituições e Visitação. 

Odivellas 145 177 xvi, xix 

Pedra formosa (A) da ('itania 42 

Pom|ieia (Novas descobertas em) 31 

Porco, sua importaiicia cultual 53 

Pretiistoria : A Guadalupe prehistorica 6 

Primeiro architecto de Odivellas (o) 145 xvi 

Qu'>stionario archcologico HO 

Heal — Fracções de real de D. João i 72 xi 

reaes de 1). João i 83 xii 

reans brancos de D. Duarte 117 xiv 

reaes grossos e meios reaes ou chinfrans de D. AíTonso v 133 xv 

S. João do Mocharro d'Obidos, vej. Constituições e Visitação. 

Silex : — (Armas e utensílios) na Guadalupe 7 

» ■> na Hispanha 15 

Supposto Brigantiuíu em Castro de Avellãs (o) 85 

Tijolo do século xvi 76 xi 

Toponymia [)orfugneza (Notas sobre a) 102 

Três monumentos epigraphicos d'Elvas e do seu termo 97 136 

Túmulos em Pompeia 31 

Uma moeda rara 10 il 

Visitação á egreja de S. João do Mocharro dObidos, por D. Jorgeda 

Gosta, em 14 de fevereiro de 1467 119, 137 152 xvii 

Visitação á egreja de S. João do Mocharro d'Obidos, por D. João, 
Itispo de Gaíim, em nome do arcebispo de Lisboa, aos 2 de ju- 
nho de 1473 169 



17 


III-VI 


177 


XIX 


102 




27 


VI 


57 


IX 


72 


XI 


83 


XII 


117 


XIV 


133 


XV 


166 


XVIIt 



REVISTA 

ARCHEOLOGICA 

E HISTÓRICA 

AO LEITOR 

O conhecimento das gerações que passaram, mostrando- 
nos as pliases que tem percorrido a liumanidade na sua evo- 
lução continua, dá-nos a explicação de muitas das circum- 
stancias de meio e de modo em que vi^'emos. 

Esse conliecimento do antigo — a arclieologia — não 
consta limitadamente da noção de objectos materiaes que 
chegaram até nós, ou de que ha memoria; mas é constituido 
pelo conjuncto de todas as noticias que se i)ossam obter 
acerca dos diíferentes povos, sobre sua origem e suas mi- 
grações, seus caracteres physicos e sua linguagem, sobre 
stus costumes e usos, sua industria e commercio, como so- 
bre suas artes e monumentos, suas instituições e suas crenças. 

Vasto como é este ramo da sciencia, não é dado a um 
só homem o poder tractal-o em todas suas partes. Algumas 
d'ellas requerem a cooperação d'outros ramos scientiíicos, 
dos quaes nem todos attingiram ainda o conveniente estado 
de perfeição, e alguns exigem um estudo especial muito 
complexo e transcendente, absorvendo de tal modo o tempo 
que não dão logar a outros trabalhos. Dissemos que a ar- 
cheologia é não uma sciencia, mas um ramo d'ella. E que a 
sciencia é una, mas tem variadas manifestações ; é estas, na- 
turalmente e de tal modo estão entre si ligadas, que nenhuma 
pôde tornar-se independente das outras. E nessa solidarie- 

Rev. Arch. e HiST., I, N." I — Jan. 18S7, I 



BEVISTA ARCHEOLOGICA 



dade incontestável, é nesse principio geral de harmonia e de 
ordem qiTe reside a força, a grandeza da sciencia. 

Se todos os ramos da arclieologia estivessem já devida- 
mente estudados, poderia aproveitar-se esse conjiincto de 
materiaes para com o seu auxilio se compor definitivamente 
a historia comparada do passado. Mas são ainda muito in- 
complectos na maior parte os trabalhos archeologicos par- 
ciaes, e o grande arcliivo da terra contém ainda muitos e 
muitos documentos desconhecidos que talvez um dia virão 
lançar luz sobre muitas e graves questões que hoje subsis- 
tem irresolvidas. 

lia ainda na actualidade pessoas que, pretendendo ser 
tidas como illustradas e presumindo-se muito intendidas no 
desinvolvimento da humanidade, perguntam qual a impor- 
tância de ir desenterrar uma inscripeao truncada, um frag- 
mento de lâmpada, uma moeda meio safada; qual a impor- 
tância d'um pedacinho de vaso domestico de vidro ou louça; 
que perguntam qual o interesse de saber-se ao certo se uma 
povoação assentava um decimo de milha distante da sua si- 
tuação actual, se sempre uma localidade teve o mesmo nome 
ou designação diversa. 

«Que importa? Bárbaros! — respondeu A. Herculano — 
Importa a arte, as recordações, a memoria de nossos pães, 
a conservação de coisas cuja perda é irremediável, a gloria 
nacional, o passado e o futuro, as obras mais espantosas do 
intendimento humano, a historia e a religião.» Que importa? 
Importa o conliecimento do estado da industria e da arte das 
gerações passadas, importa o conhecimento dos usos e cos- 
tumes dos liomens d'outras edades, importa a noticia das re- 
lações commerciaes entre os povos que nos precederam, im- 
porta a noção do desinvolvimento intellectual, moral e reli- 
gioso da gente que passou, importa a informação de tudo 
que existiu antes de nós, do que preparou o estado presente 
das coisas, importa a causa da civiHsação actual, importa a 
origem da sociedade d'hoje. 

Outra gente ha também que intende ser hoje em dia 



K IIISTUJUCA 



ocioso tractar novamente assumptos, de ([ue se occiíparam 
antigos escriptores, pela razão de que estes, tendo vivido 
mais próximos, do cpie nós, d'aquillo de que falaram, tinham 
obrigaí^ão de ser melhor informados do que as modernas ge- 
rações. Os que pensam de tal guiza, ou têm a simplicidade de 
crer que todos os antigos auctores foram sensatos e todos de 
inteira seriedade e irreprehensivel honestidade scientifica, ou 
sào tcTo ingénuos que julgam uma profanação corrigir os 
dislates e verberar as falsidades de embusteiros como fr. 
Bernardo de Brito, como 1). Nicolau de Santa lyiaria, e ou- 
tros mais. Para esses a historia serve, não para nos instruir 
das phases, das evoluções por que tem passado a humani- 
dade, não para alargar o circulo dos nossos conhecimentos e 
conduzir-nos á verdade ; serve, sim, para affagar as vaida- 
des ineptas com desconcertos de toda a sorte, para conser- 
var estacionários os espíritos fracos sob paral}'sadoras in- 
fluencias. Para esses a historia é como que um romance, 
onde aos personagens ideados se attribuem qualidades con- 
vencionaes, onde os factos são mero producto do capricho 
d'unia imaginação jjoi' vezes enferma ; em vez de ser uma 
narrativa veridica, onde os homens apparecem sob o seu as- 
pecto real, com sua Índole própria, com seus vícios e virtu- 
des, com seu caracter emfim, e onde os factos são effeitos 
de causas operando em circumstancias determinadas. 

Felizmente que alguns espíritos illustrados vão protes- 
tando contra esse erróneo modo de considerar a historia, 
contra esse desprezo ou indifferentismo j^ela archeologia. Di- 
gnos dos maiores louvores são elles. E é com satisfação que 
nós registamos o facto de alguns prelados haverem instituído 
em seus seminários um curso de archeologia; cabe a honra 
da ideia e da })rimeira execução ao Ex.'"" e Bev.'"" Bispo de 
Beja, digno successor do í Ilustre Cenáculo. 

As considerações que ficam expostas, e de cuja verdade 
estamos convictos, nos movem a publicar a lievista Archeo- 
logica e Histórica^ destinada a vulgarisar as noticias de todo 
O' género que digam respeito ás antiguidades e outros assum- 
ptos históricos, despertando assim o gosto por estes estudos. 



REVISTA AKCIIEOLOGICA 



Demais, por muitas vezes temos ouvido algumas pessoas 
estudiosas queixarem-sc da falta em Portugal d'um reposi- 
tório arclieologico e histórico, de publicação regular, onde 
tenham cabimento quaesquer breves descripções, notas e 
communicações do que se váe descobrindo. Ficará preenchi- 
da essa grande lacuna com a Revista Archeologica e Ilistorica^ 
na qualseràoincluidos os artigos com que nos queiram obse- 
quiar aquelles que, assim em Portugal como no estrangeiro, 
trabalham conscienciosamente nestes assumpos. 

Procuraremos sempre melhorar esta publicação; e, se 
ella merecer a acceitação do publico, dar-lhe-hemos maior 
desinvolvimento. 

Uma secção bio-bibliographica dará com toda a pon- 
tualidade noticias precisas das j^ublicações ríícebidas pela re- 
dacção, e dos seus auctores. 



A Redacção. 



E HISTÓRICA 



DUAS INSCRIPÇíJES DE OLTSIPO 

Em 17!)7, o ncgocianlo Francisco Josó da Silva fez edificar o pré- 
dio (hoje iiileiranieiile reformado) da csfiuiiia do largo de Santo Antó- 
nio para o da Sé de Lisboa. Por essa occasião enconlraram-se dnas 
lapides com iiiscripções romanas, de que tomou copia José Anastácio 
da Costa e Sá. 

O padre Manuel da Gama Xaro publicou as duas inscripções, se- 
gundo a copia de (]osla e Sá, nos Ainincs da Sociedade Arc/ieologica 
Luzilana ()J,4li), precedendo-as d'uma breve indicação da sua prove- 
niência. Dos Annaes transcreveu-as l.evy Maria Jordão na deforme 
obra que intitulou Pni-tuf/uUae Inscriptiones Romanae, obra que mos- 
tra com evidencia a ineptidão epigrapliica do seu auctor. Vêem a pag. 
197, n. 4)38; e pag. t2l8, n. 498. 

Posteiiormenle foram as mesmas inscripções publicadas no vol. II 
do Corpus Inscriplionum Lalinanim (n. :200 e 2^0), pelo illustre sá- 
bio allemão, o sr. professor Emilio Hubner, o qual, á falta d'outro sub- 
sidio seguiu o transumpto dos mencionados Annaes. 

Finalmente, incluiu-as na sua Lishod Antiga o sr. visconde de Cas- 
tilho (vol. I da segunda parte, pag, 9i2-93), anlecedeudo-as da seguinte 
informação : 

«O Diário de Noticias, de Lisboa, de 11 de julho corrente, de 1882, 
mencionava isto : numas obras que no prédio, a Santo António da Sé, 
no largo, esquina da travessa de Santo António da Sé estava fazendo 
a companhia de Credito Predial, appareceu, ao derrubar se uma parte 
do muio que separa o quintal do pateo da cocheira, uma caveira num 
vão do mesmo muro ; e esse vão lapava-o uma lapide com esta in- 
scripção. . . E a pequena distancia, no muro, outra lapide. . .» 

Vendo eu esta noticia na obra do distincto escriptor, dirigi-me á 
Caixa de Credito Predial ou IJanco Ilypothecario, e sollicitei do d'gnis- 
simo vice-governador, o ex."'° sr. conselheiro Lourenço António de Car- 
valho, licença para tirar calcos das inscripções. Com a maior prom- 
ptidão e amabilidade s. ex.'^ me facultou o ver as lapides e tirar cal- 
cos, e aqui reitero os meus agradecimentos pelo obsequio recebido. 

As lapides, cuja espessura é de cerca de O, ""00, tèein : uma (a de 
Oplatino) 0,'";í4 de largo e O, '"31 de alto; a outra é quadrada, me- 
dindo cada lado 0,'°:il. 

É pena que os operários (segundo se cré) se entretivessem a lim- 
par com um prego ou navalha as letlras ; não se p(jde porém levantar 
duvida alguma sobre a aulhenticidade (Kestes monumentos, em que 
se encontram ainda vestígios intactos da gravura. 

Embora esta noticia seja acompanhada do fac-simile das inscripções^ 
aqui as transcrevo. 



REVISTA ARCHEOLOGICA 



A inscripção da lapide que Lapava o vão, onde se achou a caveira, 
ú a seguinte : 

D V i\I y 

CAEGILIVSOP 
TATINVS r AN XXN Vii 
H r S E V I V L V O R N E 
COGNATO OPTI 

'' F A G C V K '' 

D{iis) M{jnibus). Caeciliiis Ofl.Ttimis, an{noriim) XXXVII, h(ic) siiiiis) 
e{st). Jiil{iiis) Orne cognato opli{nio) fjc[iiiuJu})i) cur{M'it). 

A outra inscripção é esta: 

D V M 

IVL V SEVERA A/ 
L V V H Y SE V I V L 
ORNE r M A T R I 
PIENTISSIxMAE 
^ FEG I T ^ 

D[iis) M{anibus). Jtil{ia) Severa, an{norwn) LV, h(ic s{iia) e{sí). Jiil{ius) 
Orne matri pientissimae fecit. 

Como se vê, ambos os monumentos foram mandados fazer por Jú- 
lio Orne: um dedicado a sua mãe Júlia Severa, outro ao seu parente 
Caecilio Optatino. 

Borges de Figukiredo. 



A GUADALUPE PREIIISTORICA 

Se é interessante o estudo da vida da geração que antecedeu á actual, 
para as compararmos e prevermos mais do que por uma phantasia da ima- 
ginação, quaes serão as proporções e a vitalidade das raças que nos hão 
de seguir amanhã; se, por uma progressão comparativa de raça para raça, 
de geração para geração, desde que a historia nos ilhimina, podemos 
apontar a raça que amanhã ha de succumbir, e a que á custa d'esta 
ha de desenvolver-se, revolvendo o seio da terra, liei depositaria do 
retrato e do modo de ser das gerações que absorveu, poi"que, com as 
cinzas (Tessas gerações, guardou os seus mais preciosos Ihesouros, os 
documentos mais incontestáveis da sua civilisação e dos seus costu- 



E HISTÓRICA 



mes, tem o homem investigador maior campo de acção, e pôde en- 
contrar os elos partidos e occultos, que a historia não conhece, d'essa 
cadeia extensissiiua da hinnanidado, que ainíhi nãu tem assigiialada para 
a sciencia o sou princi[)io, nem é possível deniaicar-lhe o íini. 

Se allraenle, por conseguinte, é o estudo das raças ijue a historia 
nos descreve, ainda a(|uellas sobre que está feita toda a luz, é muito 
mais interessante investigar os traços deixados pelo homem prehisto- 
rico, principalmente nas ilhas onde as misturas de raças eram mais 
dilliceis nos primeiros tempos da humanidade. 

O sr. manjuez de Nadaillac estudou e fez ha pouco tempo a descri- 
pção da explendida collecção obtida pelo sr. Guesde nas Antilhas, 
descripção que, pela sua importância, mereceu a allenção da França 
que ultimamente se tem entregado cuidadosamente a estudos archeo- 
logicos. O sr. de Nadaillac diz: 

Encontram-se nas Antilhas os traços de duas raças distinctas que 
existiram nos séculos anteriores á descoberta da America. 

Os habitantes das grandes Antilhas e da ilha liahama eram bran- 
dos e timidos e foram promptamente exterminados pelos hispanhoes. 

Nas pequenas anlilhas viviam os Caraibas, guerreiros ferozes e tal- 
vez anlhropophagos; tèm-os descripto e representado como uma bella 
raça, de alta estatura, nariz aquilino, pelle trigueira, olhos ligeiramente 
obliíjuos, e os cabellos longos, duros e ásperos. 

Esta raça também desappareceu. Restam d'ella apenas alguns des- 
cendentes no Nicarágua, nas Guyanas, e na bacia do Orenoque. 

O sr. de Nadaillac altribue aos antepassados dos Caraíbas as peças 
da collecção do sr. Guesde recolhidas em Guadalupe, Dominica, Mar- 
tinica, Santa Luzia, Porto Hico e São Domingos. 

Estas peças são machados e cutellos de silex, d'uma espécie de 
esmeralda, de mármore, e todos geralmente dum trabalho notável, 
obtido pelo friccionamento com outras pedras. 

Encontram-se em Guadalupe, em todas as altitudes, tanto nas costas 
como no interior, objectos fabricados pelos homens. Uns, são extrema- 
mente pequenos e parecem ter sido destinados a uma raça de anijes; 
outros, pelo contrario, são de grandes dimensões e não poderiam ter 
servido senão para homens (fuma força e d'uma estatura excepcional. 

Alguns, pelo grosseiro do trabalho parecem indicar uma industria 
nascente; outros são comparáveis aos mais bellos machados dinamar- 
quezes e são polidos com uma arte que certamente iião poderia ter 
sido excedida ; e para conseguir esla perfeição foi de certo preciso ao 
homem longo tempo e numerosas tentativas. 

Os machados apresentam todas as formas imagináveis; tanto são 
compridos e estreitos, como curtos e largos: o seu gume é sempre 
muito fino. 

Acha-se também, na Guadalupe, o que os francezes chamam nos cel- 
tas casse-létc, ferramentas, buris, mãos de gral ou pisadores de pedra. 



8 KEVISTA AHCnKOLOGICA 

Os Caraíbas serviam-se também de madeira. Gostavam dos orna- 
mentos como todos os selvagens ; e traziam pesadas argolas dependu- 
radas nas orelhas como durante muito tempo trouxeram os mexicanos 
e os peruvianos. 

Certos machados ou achas eram ao mesmo tempo ornamentos e 
amuletos. 

O machado, symbolo da força, era entre todos os povos primitivos 
rodeado d"um respeito supersticioso. Achamol-o esculpido nus baixos 
relevos babylonicos, nas pedras sagradas da Bretanha, nas cavernas 
neolithicas da França. 

O sr. de Nadaillac cita um objecto curioso desenhado num liloco 
de carbonato de cal crystallisado que se suppõe ter sido um idolo, 
como grande numero dos que se encontram nas Antilhas, e dos quaes 
os mais singulares damos em seguida. 

Um, em pedra vulcânica de còr escura, de quasi um metro de al- 
tura, figurando um homem estendido de costas, os braços unidos ao 
corpo, a cabeça coberta com um casquete ou solidéo e as orelhas dis- 
tendidas coiii pezados ornamentos. 

Outro mostra uma íigura humana tendo ao lado outra figura com 
apparencia de macaco. 

«Teremos ahi, diz o sr. de Nadaillac, um argumento em favor do 
nosso conimuni antepassado e teria tido Darwin precursores entre 
os humildes selvagens?» 

Este idolo, é feito de barro cozido e parece ser importado, porque 
os Caraíbas desconheciam a arte da olaria. 

As figuras esculpidas em madeira são mais notáveis ainda. 

lima d'ellas, de altura de 1,"'08, é notável pelas grandes argolas 
fixas ás orelhas e por manilhas que apertam a parte superior dos braços. 

Outra peça de altura de O, '"78, representa dois homens assentados 
sob um docel ou parasol. As costas da cadeira são cobertas de orna- 
mentos, círculos coticentricos ouespiraes. Os homens trni barretes bor- 
dados que lembram especialmente os dos índios que habitam o valle 
central dos Estados-Unidos. 

Tiras de panno lhes cingem apertadamente as barrigas das pernas. 
Irving refere que em 10 de novembro de 1493, Colombo teve um 
combate com os indígenas de Santa Cruz, em que estes foram derro- 
tados e se retiraram deixando muitos dos seus sobre o campo. 

«Os seus cabellos, descreve o grande navegador, eram compridos 
e rijos, os olhos pintados, o que augmentava a ferocidade das suas 
physionomías e os braços e as pernas, muito comprimidas por faxas 
de panno. estavam desmedidamente inchadas.» 

Os Caraíbas foram no seu principio navegadores; quando entra- 
ram em relações com a Europa tinham já duas espécies de embarca- 
ções. Conservam-se alguns exemplares Jeslas, principalmente das que 
eram cavadas no tronco do tlnuja gigantea, no museu de Washington ; 



K IIISTOIilCA 



lima (lestas embarcações não leni menos (1(; s(3sst!nla prs de compri- 
mento. 

íl mnilo interessante estudar tanto as csciilplnras fcilas nos t)lo- 
cos cliamados errantes, Ião numerosos nas duas Américas, como as 
esculpturas feitas sobre as rocbas. 

iMicontram-se no Novo México, Colorado. Arizona, (iualeinala, Ni- 
carágua, Holivia. Ciuvaua, Hiazil e na Uepuldica Argentina. Na Guada- 
lu[)e eiicontiani-se tanibcm: mas estas esculpturas são mais numero- 
sas na ilha de S. Vicente que foi o ulliuio refugio dos Caraibas. 

O sr. de Nadailiac reproduziu uma íjue viu num bioco errante de 
muitas toneladas. Os ornamentos d'esle bloco não tèm nenhuma si- 
gnificação, que se possa inletprelar boje. 

Km resumo, o homem picliislorico da Guadalupe não 6 senão uma 
das numerosas ramilicações duma raça vigorosa e guerreira que es- 
tendeu o seu domínio sobre muitas das peipienas Antilhas e sobre al- 
gumas partes dos continentes. 

A sua arte grosseira tem todos os caracteres que se encontram 
habitualmente nos povos que tiveram o sile\ por primeira arma, e o 
sr. de Nadailiac diz com muita razão: 

«Não conlieço na longa historia da humanidade facto mais notável 
do que esta analogia constante do génio do homem alravez do espaço, 
analogia á analyse da qual se não podem subtrair os observadores, 
mesmo os mais superíiciaes. 

Quer se tomem os silex aparados ou simplesmente lascados, pro- 
venientes da França, da Hespanha, da Algéria ou do Cabo, da Prata 
ou da Califórnia, e se misturem ao acaso, desafio a vista mais exer- 
citada a classificar cada um delles, segundo a sua proveniência. Acon- 
tece o incsmo com as ferramentas ou armas neolitliicas, com as obras 
de barro mais ou menos primitivas; em to la a parte vemos o mesmo 
trabalho, em toda parte reconhecemos as mesmas formas, os mesmos 
processos de fabricação. Sem duvida causas permanentes ou cau- 
sas accidentaes retardaram ou avançaram em cada região o desenvol- 
vimento da nossa raça ; a iidbiencia do cliína, a força da vegetação, 
a visiiihnnça do mar, a [)resença na su[)erfii'ie do solo de silex ou de 
rochas metamorphicas, suscepliveis diim polido mais ou menos bri- 
lhante, a ausência da terra aproveitável á olaria, e outras causas mate- 
riaes, tèm desempenhado um papel mais ou menos importante : mas 
como resultado final, S('mpre e em toda a parte, as mesmas necessi- 
dades crearam os mesmos meios, para as satisfazer.» 



M. Alkxanoiu:: dk SorsA. 



10 REVISTA AliCHEOLOGICA 



UMA MOEDA RARA 

Pertencente á curiosa classe dos bronzes romanos que, sem nome 
de imperante, tèm por inscripção v R B S ROMA, C O N S T A N- 
TiNOPOLis ou POPVLVS R O M A N V s, e cuja data de 
cunliagem ainda não ponde com [)recisão ser determinada, possuo uma 
espécie muito iiileressanle. Considero rara esta moeda, porque não u 
encontro mencionada polo sr. Cohen, na sua excellente obra sobre as 
moedas cunhadas durante o império romano, nem me consta que haja 
sido já mencionada em revista alguma numismática. 

A moeda de (]ue trato é uni pequeno bronze, do modulo terceiro 
da escola de Alionnet, e cuja discripção é como se segue (Est. ii): 

V R B s ROMA BEATA — Busto de Roma, com capacete e 
couraça, voltado para a esquerda. 

ií. — A loba aleitando Rómulo e Remo; por cima, no campo, (ves- 
tígios de) coroa entre duas estrellas; no ex : r # q 

É interessantissima esta moeda pelo qualificativo junto ao nome 
da capital do império romano — VRBS ROMA beata— , a 
feliz, a bemaventurada cidade de Roma. 

Conjecturo que a emissão d"estas moedas coincidiu com a d'a- 
queiroutras que tèm a inscripção BEATA TRANQVILLITAS, 
as quaes foram em minha opinião, com todas as probabilidades cunha- 
das durante os nove annos de paz que decorreram de 1314 a 323. lia 
uma moeda de Crispo (Cohen, vol. VI, 192, 31), com o reverso de 
BEATA TRANQVIELITAS, a qual foi Cunhada no seu se- 
gundo consulado, c r i s P v s n . c . c o S . 1 1 (1074/321). 

BoiíGES DE Figueiredo. 



CONSTITUIÇÕES DO ARCEBISPADO DE LISBOA 
decretadas por D. João Esteves dAzanibnja (1402 — 1414) 



ADVEIirrjEIVCI^ 

Dosdí! os primeiros lonipos do christianismo tiveram os t)ispGs a faculdade de 
ordenar o que julgavam fonvenientc para a manulon(^'ão da reliiíiào, quer com 
respeito ao clero seu suitordiíiado, (pu-r no tocante aos seculares. Cítm o camiidiar 
dos tempos, ausímenlaridíj o numero d'essas ordenações especiaes, naturalmeiUe se 
foram ajnntanílo atí- formarem corpo de leiíislaçfio |)or (pie cada dioC(!se se re- 
ííia. Demais os concílios, tanio «^eraes como [»articulai'es, lizeram sempre determi- 
nações paja regular o que dizia i'espeito ás coisas da egreja e ainda outras. As 
consliluigões dos bispados sào portanto quasi tào antigas como o clirislianismo, e 



E IIISTOniCA 1 1 



.1 (;|iocli;i fiii (|ii(! nllas começaram a formar collcrção não [todo ser precisamente 
detcrmiiiatla. Lun tios coiicilios (|ii(' m;iis innuiram nos cosiiimcse na (lisci|tlina do 
clero foi o de Constantinopla (in Trulloj celebrado em WA e (|iie é tamijem cha- 
mado iiuiniscxliiin. 

Como (|(ier ponun, que seja, o que c incontestável é que não são as constitui- 
ções — nossa li'}íislação reliiíiosa, do século \vi -uma consequência do concilio 
tridentin(t. como se tem allirmado. O concilio di* Trento aliriíi aijs i;{ di; dezemliro 
d(! liilo e fechou a 4 de ejínal mez do anuo di; loCtiJ c já em loál se iinhlicavam as 
"Oníxtilnirõcs do hispado de Cuindirii. Aipielh; celi-hre concilio não podia inllnir na 
elal)ora(;ão d"uma obra pulilicada vinte e (|ualro annos antes. E esses corpos de 
legislação reli.uiosa, qw. desde loál começaram a correr pela imprensa, não são 
mais, do (|ue collecções de antii;as conslituiçòes, devidamente ordenadas e dis- 
postas, convenientemente revistas e reíundidas, redigidas maisapuradamente, co- 
mo obra de (pie a lypoííraphia ia apodiMai-se. 

Muitos artiííos, porém, dessas ordenações foram conservados integralmente, 
como já corriam, conforme se verá daá Cuiislitnirõfs do arcebispo de Lisboa D. 
João Estev(!s d'Azambuja, (pie hoje são [lela primeira vez publicadas. 

Estão inf(!lizmenl(( imUiladas estas constituições, faltando-lhes o linal, onde es- 
tava a data, a assignatura e o logar do sello /mas nenliuma duvida podt- haver 
ác(!rca da pessoa ([ue as decretou, pelos dois seguintes motivos . Km primeiro lo- 
gar, a lettra do manuscripto é do meado do xv século, e o documento tem todos 
os caracteres de authenticidade ; em segundo logar. tendo havid(j até o anno de 
IíjOO apenas duis arcebispos (;m Lisboa do nome de João, e referindo-se o legis- 
lador ao seu antecessor arcebiítpo D João, este é necessariamente D. João Aniies, 
bispo desde i;{83, elevado ao archi(M»i^C(»pHdo em VM.Ví. São provavelmente estas 
as constituições manuscriptas de 1403:, citadas por Viterbo [Elucid. v. Tirhidhos). 
O volumoso manuscripto d"onde foi separada esta constituição e f|ue tinha por 
Ululo— Lino das visitarõcs do igreja de São João do Mocliarro d' Óbidos— íh- a for- 
mado d'uma enorme (piantidade de cadernos e folhas soltas, documentos já origi- 
nacs já ap(igi'aphos, abrangendo o lapso de tempo decorrido desde 1447 a l"ii3U, e na 
maior parle visitações. Osoutios documentos, exceptuada mais uma constitni(;ão, 
eram alçarás, recibos dos emolumentos de visitantes e certificados da publicação 
d:ellas. Esta copia da egreja do Mocliarro d'Obid'os é de boa lettra do século quinze, 
salvo as poucas epigraphes que vão transcriptas em itálico, e (jue parecem do sé- 
culo iurnediato. 

Num tralialho que estou preparando, não só é commentada detidamente esta 
constituição, mas outras e ainda algumas visitações inéditas de summo interesse para 
o conhecimento dos costumes e doestado do ;-lero iiortuguez naedade media. 

Por hoje limito-me a publicar este antigo documento, iiueressante a muitos 
respeitos, jirecedendo-o do indice dos titulos,"e conservandolhe a orthographia e 
as irregularidades grammaticaes. 

B. de F. 

índice dos títulos 

1-Preambulo ou intróito. 

2-da publicação annnal das constituições ao clero. 

3-ila iiistrucção do clero. 

4-das attribuições do arcebispo. 

o-do vestuário ecdesiastico. 

(j-dos beiKííicios ecciesiasticos. 

7-das oblações c oífertas. 

8-d(is demandadorcs e embusteiros. 

y-da assistência dos clérigos nas suas egrejas. 
10-da residência dos priores e vigários na quaresma, 
li-dos clérigos extranhos á diocese. 



1^ KEVISTA ARCIIEOLOGICA 

d2-cla coti vi vencia tio cliristãos com jiulous e moiros. 
i;}-d;is relaçOos d(í oliristãos com judeus o moii'os. 
li-das cita(;õcs c demandas coiilru pessoas ecclosiasticas. 
lo-das avenças. 

Ití-de apeniioramento dos ol)jectos do cullo. 
17-do arrendanienlo do pt; d"altar. 

18-da laculilad'' de o prior, reitor ou vigário dispijr em testuiiiMiLo de melade 
dos liens moveis (]ue liver e houver das rendas da sua egreja. 

lO-dos ajiisies. emprazamentos ompliiteulicos e outros contractos. 

20-do recebimento dos dizimos das terras. 

2i-da conlissão. 

22-do substalielecimento de funcções. 

23-da falta de alguns priores não irem fora da villa levar a communlião. 

2'i-das feiíicerias e supersti(^'ões. 

2o-do mesmo assumpto. 

20-das barregãs. 

27-da feiliceria e superslições. 

28-do mesmo assumpto. 

29-da alcovitaria. 

30-do caipido pelos mortos. 

31-do trabalho nos domingos e dias santificados. 

32-das danças nas egrejas. 

33-das feiras em certos dias santificados. 

3i-do jejum em certos dias santificados. 

3o-do jogo de dados em certos tlias. 

3G-de uso de remédios de judeus ou moiros, etc. 

37-dos casaiinMitos. 

38-da venda de carnes aos domingos antes da missa, 

39-dos barregueiros. 

40-da guarda do dia de Santa Iria em Santarém. 

41-do cumprimento das constituições. 

42-da comparência no synodo archiepiscopal. 

43-da obrigação de haverem cada egreja copia das constituições. 



CONSTITllÇOES 

1 In nomine patris et filii et spiritiis sanli et virginis glorinse sue 
malris et heati apostnii Johauis eiiaiioellisíe et bealisiiiii inartiris vi- 
çeruMi ])atioiii nostri Nus dom Johaiii jier inefce de dons e da santa 
igreja de rroina arçebis[)0 da iniiy nobre e senpre liall cidade de lix- 
boa, desejando de os nossos sobjeytos seerem insinados e rregidos em 
aquellas coiisa.s que pertencem e fazem mester a saúde das suas al- 
mas e booni Ucgimento de todallas egreias moesteyros c albergarias 
da (bla ndadi! e ar('ebis[)ad() de conselho e consentimento do nosso 
davam e cabiido e da outra crelizia do dito arcebispado consirando 
como per nossos antezesores jjispos e per dom Joham arcebispo a 
quem deus perdooee íoram bordenadas fetas algumas constituições 
sobre as ditas cousas as qiiaaes nom eram sabidas per todos nem gar- 
dailas como diviam, poróm (pieiendo nos |)or ireuerença dos ditos 
nossos aiileresores e por as ditas constituições sereui em sy muy boas 
e honestas que lodos as soubessem e gardassem examinamollas e es- 



E IJISTUKICA 13 



colli(3inos algumas as quaos nos pari'(;ftrom millior spííii:)i]o os tempos 
de hora que eram miiy coiminliaiíees e íezcmos e eslabullecemos c lior- 
(lenamos otilras de iiouo as (jiiaaes queremos e mandamos qne sejam 
conpiidas e gaidadas daipii em diante pella guiza rjue os sobre ditos 
6 per nos 1'oiam liordcnadas e Ictas. 

2 liem porquanto s(!gundo direito em cada hum arrel/ispado e bis- 
pado deue em cada huum anuo seer feto ajuntamento de toda a clelizia 
a fazer sinado em o quall se pubriquem as constiluiçõnes fetas e se 
ordenem outros se com[)rir de se fazer e sse determinem duuidas e 
conleníhis que outro ssy am os crehgos e os leygos nos casos de que 
a egreia perteenç^-e a jurdiram e i)or (pie outrossy segundo huma con- 
stitui(^'am do bispo dom Joliam chi soehiantes que depois Iby arcebispo 
de braagaa se em a dita ciilade auia de fazer o dito sinado em homce 
de juniio em dia de sambarnabas porém nos ho hordenamos que daqui 
em (hante em cada huum ano se faça em a dita cidade aos b dias do 
dito mes pêra no dia seguinte que he de sam Joiíam ante portam la- 
tinam começarem ho sin"ado e eslem em elle per três dias seguintes 
se tanto fezer mester e traga cada huum sua sobripilliza e porem man- 
damos que lodollos priores^Reytores e vigários e capellaães perjjetuas 
que teniiam cura dahnas e rracoyros e beneficiados das egreias do 
dita cidade e arçebis[)ado posto que per nossas letaras e vigayros nom 
sejam chamados em cada liuuiii anno se trabalhem e laçam em tall guisa 
como persoallmente cheguem a dita cidade aos ditos cinquo dias do 
dito mes e em caso que sejam embargados per emfermidade ou outro 
lidimo empedimento emvieem seos procuradores pêra no dia seguinte 
com eiles seer começado perante nos ou per nossos socesores ou 
per outros a quem for comilido per nos ou per elles o dito sinado 
continuado e acabado atee os dytos dias. e os que o assy nom fezerera ou 
se nom escusarem per alguma rrazam lidina fiquem citados pêra pa- 
recerem dy a huum mes perante nos ou nossos socesores e nom pa- 
recendo que o arcebispo possa proceder contra elles segundo seu boo 
aluidrio e o que sobre dito he dos rraçoeyros que mandamos virem 
entendemos que sejam das egreias onde forem rresidentes de dous acima 
e que destes possa escolher o prior huum quall emtender que pêra ello 
he mais perteencente o quall asy escolheto per elle seja thindo de viir 
com elle sob a dita pena a custa sua e dos outros rraçoeyros e os dous 
ou mais se os hy ouuer fiquem pêra seruir a egreia. 

3 Item por quanto a todos os creligos espiciallmente aos das 
hordens sacras e os rraçoeyros e beneticiados perteençe muito de 
seerem emsinados e sabedores em aquellas cousas que lhe perteençem 
e sam thiudos de gardar em sy e emsinar aos outros porem estabel- 
lecemos e ordenamos que todollos que ora somos hordenados de hor- 
dens sacras ou em benefícios curados ou outros sinplizes e forem 
abilles e autos e despostos pêra ello se trabalhem daqui em diante 
de aprenderem gramática pêra per eila entenderem o que rrezarem 



14 REVISTA ASCHEOLOGICA 

e leerem ou o quanto pêra oficiarem e fazerem e ajudarem a fazer 
os oficios (jiuinos da santa egreia por que llie foram dados os benefí- 
cios e de aprenderem a dita gramática ou canto mandamos que se 
trabalhem todos os sobre ditos de aprenderem em lall guisa que na 
primeira visitaçam que se fezer depois do segundo sinado achemos 
que Irabalharom os ipie pêra ello forem despostos de aprender as di- 
tas sciencias ou cada huuaia delias sob pena de seerem priuados dos 
benefícios que ouuerem pêra os auerem outros que saybam as ditas 
ciências e os possam seruir como deuem e sam thiudos e sob a dita 
pena mandamos aquaes quer priores vigayros e outros quaes quer que 
teuerem cura dalmas que se trabalhem de saberem bem e conprida- 
mente quaes e quantos sam os artiigos da fie e os sacramentos da 
santa egreia e preceptos da lley e as sele obras da misericórdia e os 
sete pecados principaaes e mortaaes e que pendença deuem fazer 
aqueiles que os cometem e quaaes e quantos sam os casos a nos prin- 
cipalmente rresaruados pêra os saberem e se non trometerem de absol- 
uer delles saluo quando lhes per nos spiçiaimente forem comitidos e 
por os creligos auerem aazo e se despocerem railhor a saber as di- 
tas cousas, liordenamos e estabellecemos que non seja nenhum do 
nosso arcebispado rreçebudo pêra aver hordens sacras on beneficio 
sinplez saluo sabendobendo (sic) bem cantar ou seendo gramático e pêra 
auer beneficiio curado que sayba as ditas sciencias e mais os ditos 
artigos da ífe e as e as (sic) outras cousas sobre ditas que perten- 
ce de saber aqueiles que teem rregimenlo e cura dalmas e non sa- 
bendo as ditas sciencias e cousas que non possa auer beneficiio nem 
seer em elle confirmado. 

4 Item os casos de que a nos perteençe a asoluiçam ou aqueiles 
que pêra ello nosso poder teen sam estes que se seguem primeira- 
mente aqueiles que fazem ou cometem sacrillegio assy como furtar em 
na egreia ou abrilar ou furtar cousas sagradas ou descontar a egreia 
ou quem jaz com molher de hordens ou quem na egreia faz foi-nizio. 
Item aqueiles que husam do corpo deos ou da crixma ou doutra cou- 
sa sagrada em feytiços ou outras cousas como non deuem. Item aquei- 
les que husam de sorteiros ou dminhadeyros e que fazem escriptos 
pêra chamar os demónios. Item aqueiles que cometem peccado contra 
natura assy como com animallias e per outra maneira Item aqueiles 
que jazem com aquellas que bautizaram ou de confissom ouuirom I- 
tem a(]uellas que ham filhos de outrem e nom de seus maridos e os 
dam aos maridos |)or seus filhos e fazemnos poivm erdeyrios em pre- 
juízo dos filhos lidimos Item aijuelles (|ue jazem com judias ou com 
mouras ou aquellas que jazem con judeos ou com moros Item aquei- 
les qu(! jazem com virgeens per força ou per engano Item aqueiles 
que jazem com Uelligiosas Item aqueiles que casam em graao defeso 
assy como com parentes on cunhados ou com madrmhas ou com afi- 
lhados ou com outras pessoas contra defesa da egreia ou com ellas 



E HISTOIíK'A 15 



liam companhia Item aíjuelles que falsam lelaras ou seellos ou outras 
escripluras do saulo padre Item aquelles que sam excomungados de 
mayor excumiuiliam Item aquelles que cometem per cal quer guisa 
que seja simoiiia. Item acjuelles que poõce logo com maa vontade pêra 
fazer dapuo em paães ou em outra cousa Item a(pielles que crêem a 
outrem alguma herisia Item afjuelles que sam homicidas de fato ou 
de objeto ou de conselho sem inditidimento de seu corpo Item aquel- 
les que fazem alguma cousa para a molher nom em[)renhar Item 
aquelles que ferem seu padre ou sua madre Item aípioilcs (jue feerem 
no cimiterio sagrado aciiute Item acpielles que dizem mal de deos e 
dos seos santos ou ho rrenegam e descrêem a que chamamos brasfe- 
madores. Item aquelles que dizem testimunho falso. Item aquelles que 
sam perjuros. Item a(]uelles que leuam armas ou outras cousas defes- 
sas aos mouros. Item aijuelles (]U(í filliam ordens como o non deuem ou 
per salto leyxando humas e tomando outras ou sem licença de seu bis- 
po. Item aquelles (jue bautizam seos lilhos próprios sen neçesidade ou 
os teem nas fontes quando os bautizam ou crixmam. Item aquelles que 
prometem castidade ou voto e vaão comtra elle ou ho britam ou ho nom 
comprem ou lio nom lêem. Item aquelles creligos que cellebram na 
egreia antredita ou dizem missa depois que comem ou bebem. Item 
aquelles que sam husureyros. Item aquelles que sam excumungados e 
lhe mandam que se saiam da egreia e nom querem tornando ho ofi- 
çiio diuino. Item os creligos que dizem missa aquelles que sabem que 
pubricamente excumungados. Item aquelle que emtra em ordens con- 
tra vontade de sua es[)osa com (pie já ouue companhia. Item quaes 
quer que fezerem ou forem contra estas nossas presentes constitui- 
ções e cada huuma delias e as nom gardarem como em ellas he con- 
thiudo. 

(Continua). 

DESCOin^^RTAS AliCHEOLOGlCAS 

As descobertas archeologicas feitas ao poente de Cáceres, nas pro- 
ximidades da estrada velha que segue i)ara a villa de Arroyo dei 
Puerco, onde se descobriram ha tempos os ex-volos de bronze á deusa 
indigena Atalcina Turibigense, foram : diversos machados de pedra, 
fragmentos de ulensilios de bronze, uma cabeça occa de mulher tos- 
camente lavrada, e vários bocados de cerâmica, taes como ladrilhos de 
forma cubica collocados em sentidos oppostos, sendo o mais nolavel 
do thesouro, uma pequena taça de bronze de 25 milimetros de altura, 
em cuja face anterior estão encrustados em prata dois caracteres ibero- 
lusitanos, análogos aos das moedas autónomas de Évora e de Salacia 
(Alcácer do Sal). 

(Da Correspondência de Espana). 



16 liEVISTA ARCJIKOLOGICA 

MODO DE TIRAR CALCOS DE INSCRIPÇÒES 

A redacção ficará exlremamenle reconhecida a todas as pessoas 
que, no interesse da sciencia, a qnizerem obsequiar com quaesquer 
noticias de ruinas. monumentos e descobertas arclieologicas. Essas no- 
ticias deverão conter, além d"uma breve mas precisa descripção do 
objecto, indicação do local exacto onde existe ou foi encontrado. 

Esperando ver coirespondido o seu convite, e como é possivel que 
nem todas as pessoas de boa vontade, que Ih.e desejem ser agradá- 
veis, estejam acostumadas aos trabalhos epigraphicos, aqui indica o 
modo de tirar calcos das inscripçijes que lhe queiram communicar. 

1.° Limpar bem a pedra, e taval-a com esponja, lendo cuidado 
em não deixar agua na cavidade das letlras. 

2.° Emipianto a pedra está húmida, applicar sobre ella uma folha 
de papel molhado, fazendo com que ella adhira á pedra em todas as 
partes sem formar rugas. O papel deve ser bem forte, mas de pouca 
colla ; é próprio o pa[)el forte de impressão. 

3.° Logo que o papel adhira á pedra, bater-lhe em cima com uin 
escova de pello grosso (escova de lustrar calçado), até que se amolde 
ao cavado de todas as leltras, e que toda a inscripção fique perfeita- 
mente visivel. No caso de romper-se o papel nas cavidades, cobrir os 
buracos com pedaços de papel húmido, que se soldam facilmente com 
algumas pancadas de escova. Retirada a folha, quando está meio en- 
xuta, deixal-a seccar complelamente, extendendo-a numa su[)erficie 
plana, collocando o cavado das leltras para baixo. Se o monumento é 
muito grande para ser coberto por uma só folha de papel, empregam- 
se duas ou mais (numerando-as), de modo que uma folha cubra sem- 
pre uma linha estam[)ada noutra. Estando bem secco o calco, pôde 
enrolar-se ou dobrar-se ; no ultimo caso devem as dobras coincidir 
com as entrelinhas. 

4.° Deve indicar-se a lápis, no alto de cada calco, a proveniência, 
a data e o nome da pessoa que o tirou. 

Convém acompanhar os calcos da medida em metros e centímetros 
(allura, largura, espessura) da lapide; das indicações da sua natureza 
(mármore, calcário, ele); da altura e largura da inscripção e dimen- 
são das leltras; dos ornatos e emblemas, ou figuras, e dum fac-simile 
das leltras. L^m desenho de todo o monumento c de grande utili- 
dade. 

Outros processos ha para reproduzir as inscripções, mas o que 
fica indicado é o melhor i)ara as inscripções lapidares. 

A pholographia duma inscripção (ou d^oulro monumento) é tam- 
bém muito importante, pela sua natural fidelidade. 



E HISTÓRICA 17 



MONUMENTOS EPIGRAPHICOS DE TUY 

I 

Numa caria dirigida ao meu amigo sr. dr. Manuel Ferreira Ribei- 
ro, com data de 7 de novembro ultimo, e publicada em o n.'' 10 das 
Colónias Portuguezas de t20 do mesmo mez, dizia eu o seguinte : 

«Satisfazendo ao seu desejo de que eu interpretasse algumas in- 
scripções que me apresentou por copia, vou communicar-ihe o resul- 
tado do meu estudo. As copias, em litliographia, fazem parte, sem 
duvida, dalguma obra impressa e bispanbola, como se deprehende da 
assignatura do desenhador, ol)ra que desconheço; por esta circum- 
slancia, não seria de extranhar recusar-me eu a patentear a minha opi- 
nião acerca das inscripções (pois assim o desejaj, sem ver o livro onde 
foram decerto já tratadas, por isso que poderia ser victima de qual- 
quer sorte de mystdicação; sendo-me, porém, communicadas pelo meu 
amigo as inscripções, não tenlio diivida alguma em lhe dar a conhe- 
cer f) modo como ;is interpreto, dando-lhe ao mesmo tempo toda a li- 
berdade para publicar integralmente esta minha carta, se o julgar con- 
veniente. Em todo o caso, tenho a observar que a interpretação, que 
dou das inscripções, deve ser sempre aferida pelas copias lithogra- 
phadas que me confiou, e de nenhum modo relativamente aos origi- 
naes, que não vi nem sei onde param. Assente isto, eis o que tenho 
a dizer-lhe acerca das inscripções,» etc. 

Como se vê, não tinha conhecimento da obra a que pertenciam as 
estampas ; tinha me porém sido dicto que se havia levantado questão 
entre vários escriptores hispanhóes sobre o modo de interpretar as 
inscripções, e que se me pedia o meu voto, no intuito de ver se elle 
concordava com o dos gregos ou com o dos troianos. 

Correspondendo ao honroso convite, manifestei o meu parecer 
acerca dos lettreiros, apresentando a interpretação que lhes dei, se- 
gundo as regras da hermenêutica epigraphica, creio eu. 

Havendo sido publicada a minha carta em Í20 de novembro, julguei 
eu que me seriam desde logo manifestadas as obras em que se ha\ia 
tratado a questão, o que era correcto e natural ; mas o facto é que 
só muitos dias depois me foram entregues os dois livros seguintes: 
Recuerdos históricos de occidente. Contestacion d los Recuerdos de uii 
viaje de los snrs. P. Fidel Fila ij D. Aureliano Fernández Guerra, por 
D. Joaquin Fernández de la Granja e La ciudad de Tuij la fundo 
Diomedes de Elolia, pelo mesmo auclor. Conheci então que á primeira 
d" estas obras pertenciam as estampas que me haviam sido communi- 
cadas. Da leitura d'ambos os livros fiquei bem inteirado das opiniões 

Rev. Arch. e Hist., I, N." 2 — Fev. 1SS7. 2 



48 REVISTA AUCHEOLOGICA 

do sr. D. Joaquim de la Granja ; mas muito imperfeitamente da dos aca- 
démicos srs. D. Aureliano Guerra e P. Fita. Felizmente vo dia immediaio 
áquelle em que recebi os livros de la Granja, fui obsequiado com os 
Ilcciíerdos de mi viaje a Santiago de Galicia, por el. P. Fidcl Fita y 
ColomtK fi D. Aureliano Fernúndez Guerra, (]ue este ultimo sábio me 
oflereceu em seu nome e no do seu collal)orador, ao saber, por inter- 
venção do nosso commum amigo sr. D. Eduardo Saavedra. que eu dese- 
java conhecer o livro que motivara a questão. Se não fosse a e.xtrema 
obsequiosidí:de d"estes respeitabilissimos sábios hispanhóes, com cuja 
amizade sobremodo me honro, só muito imperfeitamente conheceria a 
questão, em que o sr. D. Joaquim de la Granja se empenhou. A razão 
da demora em me serem manifestados os livros d'este, bem como o 
não me serem communicadas as obras dos seus contrários, foi. segundo 
me consta, o ter desagradado ao sr. la Granja a interpretação que 
eu dei ás inscripções, por não concordar com a que elle lhes dá (I) E isto 
é confirmado pelo facto de se recusar a enviar-me um calco ou pho- 
tographia da inscripção sobre que principalmente ha disputa (a de 
C A E P O L ), documento indispensável, por sua absoluta fidelidade, 
para a definitiva interpretação d'uma palavra pelo menos. Todas as 
instancias para conseguil-o, feitas durante mais d'um mez pela oíli- 
ciosa intervenção do sr. Ferreira Ribeiro, foram baldadas. Essa recu- 
sa, porém, já me não causou admiração, pois também aos srs. D. Aure- 
liano Guerra e P. Fita não foi permittido tirar calco d'esse lettreiro, 
como na obra dos dislinctos académicos se lê a pag. 92, col. 1.*: 
«Resulta ser idêntica ai original la copia de La Cueva, pues la con- 
frontamos con el mismo libro á la vista; medimos el sillar y los cara- 
cteres; nos convencimos de haber sido abierto el letrero en la edad 
augustea; y cuando nos aprestàbamos à obtener calco, para que se 
grabára después, he aqui se presenta el duefio de la casa, reprende 
ai inquilino que atento y benévolo nos habia franqueado la entrada, y 
se muestra muy cuidadc-so de celar á los ojos de las personas en- 
tendidas aquella piedra de que él no entendia una palabra. Ni raos- 
trándole nosotros cn el manuscrito de La Cueva exactísimamente co- 
piado el epígrafe, y teniéndole ya de nuestra propia mano reprodu- 
cido también, comprendiò que semejanle calco ni enchia ni vaciaba: 
Pêro, ^ quién no tiene sus flaquezas?» Eu teria ido a Tuy, para exa- 
minar a inscripção, se não estivesse certo de que a digressão seria 
baldada. 

Sciente hoje da opinião dos contendores, e embora desconheça 
ainda uma obra anonyma que foi publicada em resposta á primeira 
do sr. D. Joaquim de la Granja *; e porque não pude dar ao assumpto o 
necessário desinvolvimento na minha carta, destinada a ser publicada 

1 Apunfes Históricos sobre la antigiiedad de Tuy por D. xi. N. P., citados por 
D. J. de la Granja no seu livro La ciudad de Tuy. 



E HISTÓRICA 19 



num jornal de Índole inleiramenle alheia ao assumpto, vou de novo 
tratar desse objecto, principalmente com o fim de tornar a questão 
bem conhecida, podendo resultar d'isso o apuramento da verdadeira 
interpretação das epigraphes. Segnirei aíjui, (juanto ás inscripções, a 
mesma ordem em que se encontram na alludida carta. 

II 

Uma das inscripções contém um voto dedicado a Marte. O livro 
Rectierdns de nn viaje apresenta esse lettreiro (segundo um calco) do 
modo como vae representado na estampa lu, n." 1 a; e o livro do sr. 
Ia Granja dá-o da maneira que se vè na mesma estampa, n.° 1 b, de- 
clarando ser esse o verdadeiro fac-simile K É tão grande a dilTerença 
entre uma e outra fignra, que se pôde aíTirmar que uma delias é in- 
fiel. Não podendo averigual-o, passo a dizer o que se me oíTerece 
acerca da inscripção, em presença do estudo comparado das duas co- 
pias. 

Osr. P. Fidel Fita interpreta: «Sagrado á Marte Cariocieco. Pusole 
Ilispanio Ironión, en debido cumplimienlo de su voto»-; e approxima 
o sobrenome Cariocieco do de Coroliaco também dado a Marte numa 
inscripção do condado de SiiíTolk ^. Não me deterei a discutir tal ap- 
proximação, que me parece justa quanto á terminação; mas pondero 
sempre que essa terminação é muito frequente na nossa península, 
como se vô dos seguintes nomes e sobrenomes de divindades célti- 
cas: Abiafelaesiiraecm (C. I. L., ii, 2324), Aegiamunmecus {Ibid., 
2523), Bmenasecus (Ibid., 303), Bniweanabaraecus {Jbid., 683), etc. 
Parece-me, porém, que se deve ler Cairiocieco e não Cariocieco, pois, 
mesmo no caso de ser mais exacta a representação do calco, ainda 
ahi se acha prolongada superiormente a haste vertical do R, no que o 
gravador quiz sem dúvida representar o l. No que respeita ao nome 
do dedicador, é maior a diíTerença entre as copias. Na do calco não 
ha vestígios de leltra inicial de prenome, apparecendo só o nome e o 
cognome. O nome é hispanius. Quanto ao cognome, lé-se no 
caíco I R o N I O e no desenho F R O N T o . Embora o primeiro não 
repugne de modo algum, sou inclinado a crer que a lapide tinha ou 
tem o nome muito vulgar de Fronto; e que o calco não reproduziu 
exactamente as hastes horizontaes do F e do T, que muitas vezes eram 
mal definidas e que podem estar apagadas. Em todo o caso, o dedi- 
cador é um só indivíduo, e não dois como imagina o sr. D. Joaquim 
de la Granja *. 

1 Recuerdos históricos de occidente p. 89. 

2 Recuerdos de un viaje, p. 93, col. 2. 

3 C. 1. L. VII, 93 a. 

* Recuerdos históricos, p. 90. 



20 EEVISTA ARCIIEOLOGICA 



III 

A inscripção. que se encontra na estampa iii, n.° 2, nem é inter- 
pretada pelosr. la Granja, nem (Vella se fala nos Uecnerdos de un viaje. 
O sr. la Granja diz unicamente acerca delia : «es, pues la qne aparece 
en la siguienle lâmina, cuya esplicacion dejamos á los sábios epigrafis- 
tas. Por la espalda y en el centro tiene (a pedra) estas dos leltras c O, 
que parecen aludir à cônsules y en el fondo tocando casi el basamen- 
to o, acaso óptimos» ^ Como se vè, nem mesmo tentou lèl-a, indo 
só topar com as lettras sobredictas, que nada ou quasi nada lhe po- 
diam dizer. 

E todavia não apresenta diííicuidade alguma a leitura d'esta in- 
scripção. O monumento c um marco milliario, que a estampa repre- 
senta por dois lados. A sua leitura é : 

2 M P c A E 5 

^ A M E S 5 . 

Q- T R A dec. 

p- f- /NVIc/0 

5 A V G- P o )! /. 

MAX- t r 

pOT • III 

Isto é: [I]mp{erat07'i) Cae[s{ari) G]a{io) Mes[s{;io)'] Qivinto) Tra{ia- 
nó) [Decaio) p{io) f(elici) i]nvi[ct]o avgivstó) p[ont{ífici)] inaxijmó) [tr{i- 
bimicia) p']ol{estaUí) III, a que naturalmente seguia consiUi 11 p. p. e 
as indicações itinerárias competentes. É, como se vc, um milliario do 
imperador Decio; e o poder tribunicio III leva a assignar ao monu- 
mento a data de 250. 

As leltras M E, que se vêem junto á base do marco, não apresen- 
tam sentido; é provável que no original estivesse m. P. {millia pas- 
suum). . . As lettras c O, que se encontram no lado posterior da pe- 
dra (conforme a estampa indica), podem ser a continuação da inscri- 
pção, e nesse caso deve ler-se COs. Os signaes Q O' Q"^ se vêem 
junto da base, nada querem dizer em minha opinião; foram provavel- 
mente feitos posteriormente á inscripção. 

Comparem-se com este outros milliarios de Decio que se encon- 
tram já publicados no C. I. L., u, 4809, 4812, 4813, 4957; e, d'ahi 
resultará, creio, o considerar-se como inédito aquelle que íica acima 
mencionado. 

1 Ibid., p. 9i. 



E HISTÓRICA 24 



IV 

Eis-me agora chegado ao monumento epigraphico cuja interpreta- 
ção maiores (lilliculdades olíerece, e do qual apresenta a estampa iv 
um exacto fac-simile, segundo o livro do sr. la Granja. Na obra dos 
srs. V. Fita e U. Aureliano Guerra vem fielmente transcripta a inscripção. 

Examinemos as interpretações dadas por P. Fita e la Granja; e 
comecemos por a d'aquelle, visto que foi quem primeiro sobre ella 
deu parecer. Attribuo a interpretação só ao sr. P. Fidel Fita, porque da 
exposição feita a p. 93 dos Rccufrdos de un viaje, evidentemente se 
collige que foi este académico quem deu a interpretação, e não o seu 
collaborador. 



A inscripção diz: 

C AE P O L 
CONV 

TI- CLAVDI 

CHOBRA 
5 AVREA. 

E eis a interpretação do sr. P. Fita: «Es muy verosímil que hayan 
de leer-se: Caepol. . .? comi Ti{berii) Claudi{i) [l{iberto)] Chobraima- 
ra) Áurea [pos{uil)]. «Á Gaepol Conu, liberto de Tibério Cláu- 
dio César, erigió este monumento Cobrámara, Áurea.» El Museo de 
Pestb, en Hungria, posee una inscripcion, donde vemos el nombre 
céltico femenino Cobrámara. — Ephemeris epigraphica, n, 375.» * Mu- 
tilada como está a pedra e a inscripção, ha campo vasto para inter- 
pretações. Não sendo possível haver certeza, só se podem apresentar 
hypotlieses, mais ou menos verosimeis. A do disiincto académico não 
me parece das mais verosimilhantes. 

O sr. D. Joaquim de la Granja tem opinião muito diversa. Pretende 
yêr em gaepol uma palavra «Cepol (Kepol) nombre helénico ó 
Etrusco» ^ (que approxima do grego -/.ioa?./,). Sobre c O N v,— depois de 
apresentar o alvitre de ahi se poderem vêr as lettras que se encon- 
tram no exergo de varias moedas, CONOB (CONstantina ou CONstan- 
tinopla), que alguns quizeram lèr Civitates Omnes ^ostrae Obediant Be- 
neraliotie; — opina que c O N v é «aqueila C O V N A que Bricio lleva 
à las orillas dei Tajo cuando estaba á las dei Mino, la ciudad esclare- 
cidisima de los Celtas en la antigua Ibéria,... Hé aqui, pues, segan 
nosolros, la ciudad y capital de los antíguos Cántabros domados por 

* Reciierdos de un viaje, p. 93, col. 1.' 
2 Recuerdos históricos, p. 84. 



22 REVISTA ARCHEOLOGICA 

Augusto». Quanto a c ii o B R A e a v R E A, diz : «Pudo suceder 
muy bien... que Tuy liabiendo sido una ciudad grande y cabeza de 
Província, como dice Sandoval, y capital de los Gravios, segun Ptolo- 
meo, obedeciesen á ella muclias ciudades áun algunas dei Africa Cesa- 
riana donde babia pueblos denominados Cliobra Auria y tambien Tuden- 
ses nombrados por Plínio y Nebrija, tau gran latino como profundo 
helenista». ^ 

sr. D. Joaquim de la Granja considera o lettreiro completo, pois 
diz na pag. 142 do seu livro Ciudad de Tuy: «No de otro modo está la- 
brada la piedra que contiene la inscripcion c A E P O L G O N V la- 
brada por el frente y no por detrás conociéndose áun por el lado dere- 
cho en que terminan sus letras colosales el roce de pico y senales cla- 
ras de cemento; viniendo de dos cosas que en esta arista terminaba la 
inscripcion indicandolo tambien el punlo puesto en la palabra Aureay>. 

É inadmissível que a inscripção esteja completa; basta attentar na 
disposição das suas elegantes lettras, para se conhecer que ella não ter- 
minava alli, mas continuava noutra pedra (ou outras pedras), que es- 
tava ligada á que existe por esse mesmo cimento de que encontrou 
vestígios. Em inscripção tão bem trabalhada, e da epocha que a forma 
da letlra lhe assigna, nenhum gravador praticava o contrasenso de abrir 
as lettras junto da aresta da pedra, quando tinha espaço de sobejo 
para dispol-as symetricamente. O ponto, que a estampa accusa depois 
de áurea, também nada quer dizer ; o ponto entre as lettras dos mo- 
numentos epigraphícos separa as palavras, ou indica abreviatura. 

Salvo melhor parecer, disse e repito, este monumento é um titulo 
sacro. Em c o N v pôde ver-se a palavra c O N v [e N T.], conventus, 
a que devia seguir-se um locativo, como asturicensis, bracarauguslani, 
caesaraugustani, etc. D'aqui se infere, sendo tal a leitura da segunda 
linha, que a palavra ou palavras da primeira eram nomes de uma ou 
mais divindades tutelares do convento, divindades ás quaes Ti. Glaudi... 
fez dedicação. 

C H O da quarta linha pôde facilmente ser a primeira syllaba de 
cohortis, d'onde resulta o completar-se a palavra immediata d'este 
modo: B K Kcaraugiislanae. Neste caso, Ti. Glaudi... faria parte 
da cohorte como mdes, praefectus, ceiUurio, dtiplaris, etc. 

Dadas estas hypotheses, pôde restituir-se a inscripção do modo que 
segue : 

Jeo ? C A E P O L et. génio 

G O N Ví?n/. hcensis? 

TI- GLAVDIV5 ....?.... pme/f 
CHOXiRAC a ravgvs tau. 
5 AVKEA.eA'. voto.sacrvvi. 

1 Ihid., pag 83. 



E HISTÓRICA 23 



Como se vê do desenho da pedra na estampa iv, o c de c A K P o L 
está mesmo sobre a aresta da piidra. donde se deve coricliiir que ou 
a pedra (bi cortada ou emendada com outra por defeito (jue liiilia, não 
sendo provável que o gravador em inscri[)ção tão bem trabalhada fosse 
abrir a letlra sobre a aresta, quando o espaço lhe não faltava. Prova 
de que a inscripção ei^ualmente está incompleta do lado opposto, é vèr-se 
também o I de c L A V D l sobre a aresta da direita. Assim, ou o pe- 
daço (jue falta da pe(h-a continha outra syllaba ou syllabas da palavra 
C A E 1^ O ].. ou alli se lia a palavra deo. 

Com[)leto a primeira linha com as palavras et ç/enio, a exemplo 
de muitas outras inscripções conhecidas; como: Dii dmcr/iie Gcniasqne 
loci {C. I. L., lu, 3il8): dii militares et Genius bei (Jbid., 3í72);/m- 
piter óptimas máximas et geaias manicipii Flavii Neviodani {Ibid., 
3919); Génio Convenf. asluricensis (C. J. L.. ii. 4072); etc, etc. 

Em uma inscripção {C. 1. L., ui, 1773) muito importante lê-se: Dia- 
nae . Neniores \ Sacrcm \ Ti . Clavdivs . Clavdi \ anvs . Praef . Coh . 
1 1 Bracar . Avgvst \ Ex . voto . svsrep . de svo . 

Não se pôde dizer que este Ti. Cláudio Claudiano seja o Ti. Clau- 
di. . . da inscripção de Tny; mas não se pôde deixar de notar a coin- 
cidência dos nomes e a de fazerem um e outro parte duma cohorte 
bracaraugustana. O cognome do dedicador da inscripção de Tuy era 
segundo a minha opmião uma palavra de poucas lettras, como Celer, 
Silo. Orne. etc. 

Quanto á palavra A V R E A pôde facilmente succeder que na pe- 
dra se não distingam já as hastes horizontaes que ligadas ao ultimo 
A formariam o monogramma /E : pôde ser que por lapso o gravador 
não gravasse o e, e pôde ser uma abreviatura. Eu vejo nessa palavra 
um nome próprio da cohorte indicada na quarta linha. Esta cohorte 
se chamava aarea ou aareana, como outras tinham outras designa- 
ções. Havia uma Coh. I Uispnnoram Aariana (C. I. L.. m, D xxiv, p. 
867), e uma ala também assim denominada {Ibid., 5899). Nada obsta 
a que a cohorte, mencionada na inscripção de c A E P o L. tivesse a 
designação de A v R E A [ E ] ou, melhor, A V R E A [ N A E ] . Deixo 
de apresentar outras hypolheses muito plausíveis, quanto a esta pala- 
vra, pois sô o exame do monumento ou duma pholographia as pode- 
rá confirmar. 

Permillarn-se-me ainda algumas considerações acerca da disposição 
das palavras da inscripção: considerações não feitas para confirmar 
era absoluto a minha leitura, mas explicativas delia. 

Entre as diversas circumstancias, a que se deve attender quando 
se procede á restituição d'uma inscripção, é uma das principaes a 
disposição das lettras e das linhas que a compõem, pois da exacta de- 
terminação do comprimento das linhas se tiram frequentes vezes con- 
sequências que esclarecem o sentido e conduzem ao apuramento da 
verdade. 



24 REVISTA ARCHEOLOGICA 

No caso sugeito, sendo indisculivel a mutilação do monumento, po- 
de suppôr-se que d'elle resta ou exactamente metade, ou uma porção 
menor. 

Ku creio que do monumento existe um pouco menos de metade. 
As razões que para isso tenho e que vou dar, implicam a razão de não 
considerar a parte existente como exacta metade. 

De todas as cinco linhas se conhece o começo, menos da primeira; 
e facilmente se deprehende da disposição d'ellas que nos seus finaes 
devia haver a mesma correspondência que nos princípios se nota, 
attendendo ao tamanho das lettras e á disposição symetrica das linhas. 
Tomando c O N*v como as primeiras lettras de conventiis, e sendo 
geralmente a abreviatura d'esta palavra nos textos epigraphicos c O N v 
ou convent; e além d'isso devendo naquella mesma linha ter 
sido inscripto o nome próprio (Jo convento, muito dilllcilmente se en- 
contrará alguma d essas desiiínações locativas que, mesmo em abre- 
viatura, occupe somente um espaço egual ao occupado por aquellas 
quatro lettras. 

Na terceira linha, considerando-se T l . C L A v D l como prenome 
e nome não do imperador Tibério mas d"outro individuo, facilmente 
se conclue que alli se devia seguir o cognome, o qual, só se muito 
curto fosse, poderia ser comprehendido num espaço menor que o que 
subsiste da linha; e digo menor, porque, sendo a abreviatura epigra- 
phica de Claudius c L ou c L A v D , e, não podendo haver dúvida so- 
bre a existência na pedra do i depois do D , este nome estava escripto 
por inteiro na inscripção, indo a ultima syllaba occupar um espaço 
necessariamente maior do que o occupado pelas lettras TI do começo 
da linha. Pôde, porém, succeder que na pedra estivesse T I . G L A V- 
D I , abreviatura de que ha exemplo. 

Na quarta linha, flinicilmeute se pôde lèr outra coisa que não se- 
ja coliorlis hracaraugiistanae. (3ra, a forma ordinária da abreviatura 
d'a(]uelle nome locativo era bracar.AVGVST; pelo que era 
impossível conter-se o, que falta, num espaço egual ao que comporta 
as seis lettras que subsistem. 

Passemos agora á primeira linha. Qualquer que seja a interpreta- 
ção que deva dar-se ás lettras c A E P o L , é inquestionável que o 
que da lapide se perdeu não comportaria mais de três lettras, não po- 
dendo razoavelmente (creio eu) admittir-se que a parte que falta d'es- 
te lado ainda excedesse a porção que existe na parte inferior do mo- 
numento. Por isso intendo que ou alli havia a primeira syllaba do no- 
me, ou a palavra D E O , separada de c A ]•: P O L pelo espaço cor- 
respondente a uma letlra. Assente isto, a primeira linha devia conti- 
nuar, na pedra perdida, até exceder as linhas seguintes d'uma quan- 
tidade egual á excedente no começo; e neste caso três hypotheses se 
apresentam : ou o nome do deus era muito comprido ; ou, em seguida 
á primeira, era mencionada outra divindade (nesse caso a primeira pa- 



E HISTÓRICA 25 



lavra seria diis); ou alli se lia et ijcriio. Por molivo de exemplos, que 
abimdauí, oplo por que a primeira líiilia terminasse com as |)alavras 
K T (i K N I O , o que melhor (jue outra phrase se combina com as 
palavras da linha immediata. 

Na ultima linha fiz a leitura que fica apontada, lendo presentes 
muitos exemplos; talvez, quanto á ultima [)alavia áurea, eu modiíi- 
casse a minha opinião á vista do monumento, ou em presença d'um 
calco ou duma photographia, como já disse. 

Na estampa v se pôde examinar o processo que empreguei para 
a restituição d'esta epigraphe. 



Juntamente com as estampas das três inscripções romanas, que 
deixo mencionadas, me foi entregue outra que vae reproduzida fiel- 
mente na estampa vi. para eu dar a interpretação dos leltreiros que 
contém. O sr. D. Joaijiiim de la Granja diz no seu primeiro livro, rela- 
tivamente á primeira (est. vi, n.'' \): «Se halla sobre una grau piedra 
cuadrilonga, que todo su aspecto es de una losa sepulchral y en mé- 
dio de signos y otros ornamentos ai parecer pontificales ; por lo que 
creemos que el difunto. á juzgar por aquel epitáfio, era talvez obispo 
de época remota (!j».^ Os signaes e ornamentos são, além d'outios, a 
cruz e o swastika ; e o epitaphio claramente se reconhece dizer que 
sob aquella campa repousava, não um bispo, mas uma mulher chris- 
tã chamada Modesta, nome vulgarissimo na península pyrenaica: 

HIC • REQVIESLET 
^MODESTA 

Estão conjunctos o E T da primeira linha, do mesmo modo que o 
T A da segunda : reqmescet em vez de requiescit. 

A outra inscripção, que se vé na estampa vi, n.° 2, é considerada 
pelo sr. la Granja «de dificil explicacion, salvo la opinion de los sábios, 
pues que algunos caracteres parécennos ser etruscos, arcádicos ó pe- 
lásgicos»! 2 

Não é preciso ser sábio para interpretar esta inscripção. Na allu- 
dida carta ao sr. Ribeiro disse eu a respeito d'ella : 

«É também de lapide sepulchral o fragmento de inscripção que 
acompanha a antecedente na mesma lamina. As únicas três palavras 
que alli se vêem estão escriplas da direita para a esquerda ; foi isto 
erro do copista ou desenhador lithographo, ou eíTectivamente no ori- 

1 fíccuerdos históricos, p. 102. 

2 IbiJ. 



2G REVISTA ARCHEOLOGICA 

ginal se encontra assim? Este ultimo caso não seria único. Gomo quer 
que seja, as palavras que se lêem na inscripção são estas, postas no 
sentido directo : 

> i< l hic i 

P A TR V V 



D D I •; 

que interpreto: hic. [rerjuiescet] patrvv[s] D[i]d[ac]i, . . As 

leltras ATR formam um monogramma. 

Ao terminar, não posso deixar de insistir na observação que a 
interpretação, quedou das inscripções, deve ser unicamente aferida pe- 
las estampas que apresento fielmente copiadas das obras que citei, e 
nunca com os originaes que nunca vi. Esta observação é para algum 
ditoso, a quem o possuidor dos monumentos permitta examinal-os di- 
rectamente ou por meio de copia autlientica (calco ou pliotographia). 
É para lastimar o haver ainda hoje pessoas que, apez;u" de instruí- 
das, levadas pelo desejo de fortalecer ou coníh-mar uma opinião, sub- 
traem ao exame das pessoas intendidas no assumpto documentos inte- 
ressantíssimos de que ellas nada percebem. O que digo não involve 
censura, mas apenas uma simples affirmação. Ninguém ha que possa 
ser egualmente sabedor em todas as matérias : é por isso que ha es- 
pecialistas. Ora eu, reconhecendo no sr. D. Joaquim Fernandez de la 
Granja uma variada inslrucção, considerandoo mesmo muito erudito. 
Dão posso todavia deixar de notar que, decerto por a ellas se não ter 
dedicado, é completamente infeliz nas suas interpretações epigraphi- 
cas ; chegando a considerar como fazendo parle da inscripção de 
ARQVIVS ViRTATz etc. {C. I. L, II, 2435) a palavra astnim,*^ 
que á frente d'ella foi posta para indicar simplesmente que no alto da 
lapide estava gravada uma estrella. 

Das duas obras do sr. D. Joaquim de la Granja vè se (]ue o auctor 
está empenhado em fazer ascender Tuy a uma alta antiguidade, dan- 
do-lhe como fundador a Diomedes de Elolia, no que ha tanta verdade 
como em ter sido Olisipo fundada por Ulysses. Este empenho de pre- 
tender dar a uma povoação remota antiguidade, e querer que fosse 
um heróe o seu fundador, ò sempre desculpável, se não louvável, em 
um íilho da terra que se exalça ; mas é uma empreza muito dillicil e 
sobre tudo perigosíssima. 

Borges de Figueiredo. 
1 Ibid. p. 123. 



E HISTÓRICA 27 



NUMISMÁTICA PORTUGUP^ZA 
Mealha de I). Aiíuiisu I 

Tem havido divergências e duvidas entre os numisnialas portugue- 
zes SC I). Alíoiiso 1 cmilioii a moeda d(í billião chamada Miuilha. 

Embora Fernão Lopes, Severim de Faria, Viterbo e outros escri- 
ptores digam que a Mi-al/ia era a metade cortada da moeda chamada 
Dinheiro, o que não duvidamos (jue assim acontecesse em algumas épo- 
cas, nós acompanhamos os escri|)tores que entendem que a mealha foi 
uma moeda de ciuiho e [)ezo especial e a de menos valor cunhada 
n'esta época. Estamos de accordo com o sr. Teixeira de Aragão n'este 
ponto e acreditamos que D. AHonso 1 e seu filho D. Sancho cunhassem 
uma moeda de metade approximadamente do pezo do Dinheiro, a que 
chamaram Mealha. 

Confirma nos n"esta opinião, a noticia das moedas que com esse 
nome cornam em Leão e Caslella no tem[io (\e D. Alíunso 1; os documen- 
tos existentes de compras e vendas d"a(|uella época em que se citava 
com frequência a Mealha para preenchimento duma dada quantia e não 
é provável que se partisse sempre uma moeda, dando um nome em- 
bora correspondente á fracção, o que seria um capricho, apenas para 
ser citado na maioria das vendas. Além dx-stes argumentos (jue nos 
parecem de força, a variante que hoje apresentamos à Mealha com o 
n." 3 da est. ii citada pelo sr. Aragão, prova que esta foi moeda e da 
qual houve mais d'uma cunhagem ou fabricação. 

A Mealha que apresentamos na est. n.° vi embora não esteja em 
perfeito estado de conservação pode ler-se perfeitamente. A legenda diz: 
— )í< REX ALFOSVS — Cruz equilateral cantonada por quatro pon- 
tos denti-o d'um circulo. 

IV i^o R T ( V G ) A LI E— Escudo com um ponto no centro. Do lado 

de fora do escudo dois triângulos, um em cada lado ao meio do escudo 
e por baixo de cada triangulo um ponto. Tanto o escudo como os triân- 
gulos e os pontos estão dentro dum circulo. 

As diíTerenças entre esta moeda e a n." 3 do sr. Aragão, são : 

No anverso a do sr. Aragão tem Rex Afosu, emquanto que a nossa 
tem Rej- Alfosns. 

Nu reverso— a primeira tem dentro do escudo uma cruz e na le- 
genda Portugal; e na nossa podemos ver claramente dentro do escudo 
um [)onto, e a legenda tem Porlvgalie. 

Com quanto estas differenças não parecessem grandes em outro 
qualquer reinado, no de D. Aflonso I tudo quanto seja levantar a ponta 
do veu que occulta o seu systema monetário e esclarecer alguns pon- 
tos sobre que ainda ha duvidas, tem inconte.^tavel importância e foi 
esta consideração que nos levou a apresentarmos a descripção d"esta 
moeda que adquirimos ha poucos dias. 

M. Alexandre de Sousa. 



28 KE VISTA ARCHEOLOGICA 

CONSTITUIÇÕES DO ARCEBISPADO DE LISBOA 
Decretadas por I). Joã» Esteves de Azambuja (^'Ii02-l/rl4) 

(Continuado de pag. 15.) 

5. Item porquanto antre as outras cousas (]ue mais perteencem aa 
onesteduiade [sic) crelical assy lie que os creligos moormeiite os das 
hoi'deiis sacras ou beneficiados mostrem de fora em nas vestiduras co- 
roa e cirçiliio que deuem trazer a linpeza e boa composiçam que bam 
dauer dentro em nas vontades, porém estabelleçemos e hordenamos 
que todollos creligos de bordens sacras e beneficiados de xb em xb 
dias façam talbar os cabellos em maneira de ciribom e topete e rrapar 
as coroas e barbas em tal guisa que sejam conboçidos por creligos e 
possam cellebrar e fezer os diuinos oficios linpamente e sem escandallo 
alguum e esta meesma maneira em quanto tange ao cirçilbo topete e 
coroa mandamos que gardem e tenbam os creligos de bordens meno- 
res e os que sam e forem casados com buma molher virgem se dos 
priuilegios da egreia quiserem gouuir e porque alguns dos sobre ditos 
creligos delles por louçainba e outros por lhe nom aprazer de seerem 
conbiçidos por creligos mandam fazer as coroas tam pequenas que adur 
lhe parecem e as escondem sob os cabellos; porém bordenamos que os 
dos ordens sacras ou beneficiados as tragam e mandem fazer segundo a 
cantidade e forma a juso escrita e os das bordens meores ou casados 
segundo outrosy a cantidade per nos a juso diuisada e nom fazendo el- 
les fazer as ditas coroas cirçilhos e barbas aos teni)os sobre ditos e 
segundo a dita maneyra mandamos aos priores das egreias e priostes 
em virtude de obediência e sob pena de excomunhom que os benefi- 
ciados ou de ordens sacras que o asy nom fezerem os nom contem 
nem lhe dem parte dos fruitos que nos ditos benefiçios ouuerem nem 
lhe consentam que cellebrem os diuinos oficios em quanto assy anda- 
rem desordenados e mandamos que aquelles que asy perderem por 
asy andarem desordenados que os ditos priores de cada huma das 
egreias hu esto acontecer bo arecadem e façam poer em ornamentos 
em na fabrica da egreia sua e nom ho fazendo elles asy que se torne 
e o aja a fabrica da egreia cathedrall e se os creligos solteyros de or- 
dens meores nom trouuerem coroas segundo a cantidade a juso escri- 
pta depois de buum mez da pubricaçam d'estas constituiçones (sic) dehy 
em diante em (juanto asy nom trouuei-em as ditas coroas e cirçilhos 
nom sejam rrecebidos como autores em juizo ecrlcsiastico nem secul- 
lurall e se os de feito Recebei'em nom valha a sentença (pie jior elles 
for dada nem sse faça per ella execuçam. Item quanto tange as vesti- 
duras dos ditos creligos benefiçiiados e de ordens sacras mandamos 
que as tragam taaes (pie sejam perteencentes a seos estados e que nom 
sejam de panno uer"de nem ucrmclho nem de duas moetades nem bar- 
radas nem farpadas nem mais cúrias (pie ataa mea perna nem Iam lon- 
gas que varram pello chão nem fendidas pellas hilhargas nem detrás 



E IIISTOKICA 20 



saluo os que teuercm bosUis em (jiie caii.iliiucin e (jiie (iniiiido as assy 
líMicrein (jue as ))Ossam trazer delias íciididas hiiurn palmo e meo e 
(|ii(' de diaiilo rts pussaiii Ica/cr (elididas dons palmos ainda (jiie. uom 
lenham beslas nem Irai^am mancas de jiellonya nem j^nrgneyras Iam al- 
ias (|ne. |)assem aalem do j)escon) e que as mani^as delias acolinliadas 
ou anchas i)assem de ires palmos nem trayam gibões abolados na gor- 
gueyra com coidooes ou lacas nem tenham mangas mais largas que 
Inunn i)almo e meo nem mantnnes abertos salno (juando canalgarem 
e (|ne destes (|ue hora teem leitos possam hiisai- ataa o segundo sinado 
nem tragam ca[)eyret(,'s abotoados nem de bicos altridos e (jne [)assem 
(i(i li"es palmos e se alguuns dos ditos beiieliciados ou de ordens sa- 
cras trouerem as ditas bisliduias per nos defesas depois de huum mes 
desta consliluiçam sejam punidos segundo dito he quando ti-ouerem 
circilho nem coroa e se depois desta i)iim(!Íia pena ti'Ounereni as ditas 
rroupas e trajos deflesos os nossos vigaircjs e nieyrinhos lhas possam 
en coutai" {sic) e demandallos e leualas pei'a ssy jtor perdidas e quanto 
tange que nom tragam pano uerde e uermelho nem de duas meetades 
nem barradas nem farpadas nem çapatos verdes nem uermelhos nem 
llorados e fazendo ho conlrayro mandamos que se coroas (sic) Irouerem 
taaes trajos que os nossos vigairos e aljiibeyio e nieyrinhos as possam 
encoutar e demandallos por ellas e leuallas como dito he demais que 
taaes creligos em (juanto taaes pannos e trajos trouuerem nom sejam 
rreçebidos como autores em juizo ecclesiastico nem secullar e se os 
de feito rreceberem (|ue nom valha a sentença que por elles for dada 
nem se faça i)or ella execuçam pois se descontentam depois da nossa 
costiluiçam e amoestaçam de trazer vestiduras e trajos (lue nom per- 
teençem a onestidade da ordem (\ne tomai'om. 

6'. Item porquanto os beneíicios ecclesiasticos sam diuudos aquelles 
que nas egreias vigiam e servem e faz {sic) seja que o creligo que por 
aquelle tenpo serue ao altar delle dena de uiuer e per experiência 
certa sabemos que alguuns rraçoeyros das egreias da dita cidade e ar- 
cebispado despoendo e leyxando os ofícios diuinos por os quaaes Ibes 
sam dados os beneficiios ecclesiasticos e desejando Iam soltamente auer 
os proueytos temporaaes leuam logo e rreçebem ao começo do anno 
todas suas rrações dos frutos das egreias bonde sam lienefiçiados en- 
teyramente, os quaaes lhes deniam seer dados e deslribuidos pello an- 
no e meses e domaas e dias delle asy como seruirem ou seruissem e 
depois que os assy leuam e rreçebem absentamsse e amooram-se das 
ditas egreias de que os assy leuam e nom curam de as seruir nem 
fazem em ellas rresidençia por que acho sejam thiudos, poièm man- 
damos e estabelleçemos que em nas egreias em que os rraçoeyros par- 
tem os fruttos com os priores rreytores e vigaii'os e a parte que acom- 
teçer aos beneficiados e rraçoeyi-os seja posta em celleyro comuum ou 
em outro lugar em que fiellmenle seja gardada e pelo prioste seja sua 
rraçon e parte a cada huum rraçoeyro por aquelles dias que seruir e asy 



30 BEVISTA ARCHEOLOGICA 

como SLMiiir em esta guisa. s. que feita a irepartiçam e sabudo quanto 
■ amouta de pam e vinho a cada huma rraçam per lodo o anuo tanto lhe 
dem em cada hnum mes conpeçando de contar a j)artiç.am do pam per 
sam joham baptista e do vinho per samiyuell e as outras cousas vindas 
e fruclos (pie se gnrdcm e se nom podem sejam partidas antre elles ou 
uendidas asy como ho prioste com os rraçoeiros da egreia virem (jue mais 
cumi)re consirando senpre ho mais pi'Oueito da egreia e o ditopriostre des- 
tribua e rrejiarta as ditas meunças e frutos os dinheiros por (pie forem uen- 
didos tam sollamente antre os rraçoeyros que na dita egreia seruirem 
per as domaas e pei- os dias (]ue na dita egreia seruirem como dito 
he cobrando o (pie lhes amonta a cada luium i)er todo ho anuo e nas 
egreias em (jue os rraçoeiros e priores e vigairos e outros quaaes quer 
ou seus procuradores (?) dam e ministram aos rraçoeyros os fructos 
das suas Harões hordenamos e mandamos (pie lhas nom dem nem mi- 
nistrem em outra guisa senam tam sollament.) pellos meses e domaas 
e dias que seruirem em nas egreias afora aipielles (pie forem escusa- 
dos per infermidade ou justa e rrazoaueJi necessidade corporall ou 
por manifesto (í evidente, proueyto da egreia ou se nos ou nossos so- 
çessores ou algum outro que o de direito possa fazer, mandamos dar 
os fruitos das ditas Rações a alguum ou a algunns que esteuerí^m em 
estudo ou [lor outra alguma e assynada rrazam )iorèm por que pode- 
ria acontecer que o [)ani e vinho nom poderia tam bem seer gardados 
nos celleyros c adegas como compria porém se os rraçoeyros e benefi- 
ciados quiserem feitas as rrepartizões rreçeber as rraçõoes e dar fia- 
dores que as seruam nom sernindo que as tornem e emtreguem pêra 
as auer(3m os que as seruem, mandamos ([ue lhas entreguem e dem 
como derem fiança. 

7. Outro sy hordepnamos mais e mandamos que as obradas e quaes- 
quer ofertas e obrações que vêem aas egreias por os uiuos ou com os 
finados e esso medes os que uierem a oytauo e tercesimo dia e ao an- 
uo que sejam anudas por destrdjuições e partidas tam sollamente an- 
tre aíjuelles que seruirem nas ditas egreias e aas oras e hoficios em 
que e por que se derem aos que forem presentes e interesentes e 
absentes nom ajam delias parte saluo se forem escusados por alguma 
enfermidade corporall ou outro lidimo embargo; e o que nom for as 
matinas perca ho terço do (pie ouuer e essomedes por as outras oras 
do dia que se dizem pella manham perca outro terço se a ellas nom for 
e outro terço i)ella nooa e vésperas e compctras (sic) e as ditas cousas 
sejam partidas depois das veesperas e competras ditas e aja cada hiium 
como mei-çeo e como dito he e a parte dos que nom uierem ajamna 
os í|ue forem presentes e interesentes e ausentes pêro queremos que 
os ditos beneficiados sejam escusados das matinas hnum dia da se- 
mana afora ho domingo e festas dobrezes e que no sejam a todallas 
oras do dia pêro ho dia que se sangrarem ou tomarem alguma menzinha 
e os priores e rreytores e vigairos que derem ou mandarem dar a ai- 



E HISTÓRICA 31 



gunns os frnitos dos ditos beneficiios o os priosles que contra esta 
nossa constituiçam os derem saluo pella guisa e maneira que dito 
auemos e esso medes os rracoeyros fjue os Receberem ou a('Uf)a- 
i"em por tall que sejnm punidos em aquillo em que pecarem man- 
damos (pie percam todo aipiillo (|ue n"eceh(;rem e onuerem e outro 
tanto os priores e priosles (|ue llio derem e na parte das olíertas e obra- 
das e do oytauo e lerçesimo dia e anno e dos aniuersarios os ditos 
priores e rreytores e vigayros e priostes que as derem doutra guisa 
e mandarem dar e essomedes os rraçoeiros que as rreceberem e le- 
uarem saluo como dito ha [nw lio dia em que as derem ou mandarem 
dar ou leuarem ajam a pena sobredita e asy cada uez que o fezerem e 
do que assy perderem em anblos (sic) quasos aja ametade a fabrica da 
egreja em que asy forem beneliciados e a outra metade a fal)rica da see. 
S. Item ponpianto os demandadores e ychacoruos dos quaes al- 
guns enganando mentem em dizendosse seerem huuns e sam outros e 
em suas pregações propoeem e dizem muylas abusooes por o tal que 
enganem os sinplizes e tirem e leucm delles per sotill e enganoso en- 
genho ouro prata dinheiros pão e vinho e quall quer outra cousa que 
podem tirar e taaes como estas buscam e demandam as suas cousas 
([ue nom dem por deus, mas por os ghanhos temporaaes e pellas di- 
tas abusões (pie asy propooee, A censura ecciesiastica be feta vill (sic) 
quanto aa oupiniom dos homens e aautoridade das classes da egreia he 
lançada em desprezamento e periigo das almas e escamdallo de mui- 
tos i)orem querendo nos aas ditas abusooes e mallicias refrear e es- 
tabelleçendo mandamos que os priores reitores vigairios perpétuos das 
egreias da dita cidade e arcebispado e os procuradores delles e os 
rracoeyros e outros beneficiados nom rrecebam nem ouçam algum de- 
mandado ou ychacoruo nas egreias e lugares seus saluo se leuarem let- 
tras apposlolicas ou nossas cartas conhecidas em as quaes faça meençom 
(pie nos vimos as ditas letras apposlolicas e as examinamos, Nem os 
leyxem nem consentam dizer nem propoer algua outra cousa salvo as 
endulgençias e perdoanças ou rremissooes conthyudas nas ditas leta- 
ras apposlolicas ou nossas cousas conhicidas e certas e sejam ainda 
percibidos e anisados qiiaaes (juer creligos que nom sejam fauoraueeys 
nem presumm ser aos ditos demndadores e ychacoruos contra as ditas 
constituições canónicas e esta nossa em periigo das suas almas por o 
tall (jue os ditos demandadores lhes dem parte do gaanho que assy 
ganharem e os que contra esto fezerem mandamos que paguem huum 
marco de prata pêra a obra da see. (Continua.) 



NOVAS DESCOBERTAS EM POMPEIA 

Da mesma forma que em i720, um camponez abrindo um fosso 
descobriu a existência de Ilercolanum sob as cidades modernas de 
Resina e de Portici, o proprietário dum vinhedo a leste do amphithea- 



32 REVISTA ARCHEOLOGICA 

tro de Pompeia descobriu, nos fins do anno passado, procedendo aos 
seus trabalhos agricolas, uma estrada, guarnecida de túmulos na di- 
recção da cidade morta para Vocera. Começaram já as escavações, mas 
não poderam ainda por falta de capitães tomar grande desenvolvimento. 
Comtudo, já encontraram, a meio kilometro de Pompeia, por baixo 
de uma secção de 10 melros de pedra pomes e de duas camadas de 
cinzas, uns cincoenta metros da antiga estrada romana, com pavimento 
de beton e com uma pequena flecha no centro para permittir o escoa- 
mento das aguas. Dos dois lados ha uma espécie de banquetas de terra, 
onde se acham sete túmulos já desentulhados, quatro dum lado e três 
do outro, collocados a seguir e tão próximos que se a disposição fòr a 
mesma até á cidade, o trabalho promette ser muito importante. Os 
túmulos estão alinhados todos com a estrada e os mais recuados tem 
á frente uma balaustrada que restabelece o alinhamento e occupa uma 
porção de terreno reservada provavelmente a futuros túmulos de família. 

Cada um, lorma um i)equeno moiuimento architectonico feito de ti- 
jolo e cal, estucado, ornado de columnas e de estatuas, tem nichos para 
collocar urnas cinerarias, e abobadas por baixo para as ossadas. 

Estes tumnios serviam, facto singular, de logarde aííixação de annun- 
cios; estão cobertos com grosseiras inscripções vermelhas, feitas a pin- 
cel, que encerram factos insignificantes para conhecimento geral; um d"es 
tes annuncios diz: «quem achou um cavallo que fugiu, pôde entregal-o 
em casa do ferrador de Vocera, na ponte do Sarno, do lado de Stabia. 

N'outro, as paredes do tumulo tem numerosos nomes, gravados pe- 
los rapazes e pelos namorados daquella época; por baixo duma d'es- 
tas inscripções, em que se entrelaçam dois nomes, lêem-se as seguin- 
tes palavras: «Lembras-tef» 

As inscripções fúnebres propriamente dietas, as estatuas e os or- 
namentos estão depositados próximo do logar das escavações n'uma ca- 
bana, excepto a maior das efíigies que estendida sobre um montão de 
cinzas serve para segurar a barraca em que dormem os operários. 

As estatuas são evidentemente retratos: reconhecem-se n'ellas, um an- 
cião de lábios grossos, um rapaz de cabeça grega, uma matrona de as- 
pecto carregado com profundas linhas aos cantos da bocca, uma rapariga 
com ares affectados. As cabeças tem ainda vestigios de côr e a julgar 
pelo grosseiro do trabalho foram pintadas. Em quanto ás ossadas, não 
foram achados intactos senão os craneos que tem todos entre os den- 
tes o obulo do costume carcomido pelo azinhavre. 

Detalhe curioso, as urnas cinerarias tem um orifício na tampa com 
um pequeno tubo por onde se lançavam as libações. Não se ponde ainda 
determinar precisamente a época d^estes monumentos, mas parece se- 
rem coevos de Jidio César e de Tibério; isto é, tem aproximadamente 
dois mil annos. Quaesquer outras informações que possamos colher no 
jornal francez d'onde extraímos estas, communicaremos aos leitores. 

M. Alexandre de Sousa. 



E niSTOKICA 33 



MONUMENTOS DE BALSA 
(perto de Tavira) 

Quando eu publiquei, lia quasi viule arinos, o segundo volume do 
Corpus Jnscriplioniun Laliiurnmi (em 18GÍ)), o segundo capitulo, des- 
tinado aos monumentos epigrapliicos da antiga Balsa, e impresso já 
em 1806, não podia produzir senão dois números (13 e 14), nenhuili 
dos quaes continha o nome lomano da povoação. Pouco tempo depois 
recebi, graças á obsequiosidade do sr. Augusto Soromenlio, o opús- 
culo do meu illustre amigo sr. S. P, M. líslacio da Veiga, l^uios lial- 
senses, etc. (Lisboa 1800, 30 pp. 8."). O sr. Veiga alcançou depois o 
mérito immortal de haver fundado o Museu do Algarve, e o mundo 
scientifico espera impacientemente a sua grande obra sobre as anti- 
guidades préhistoricas e históricas d"esta parte tão interessante de 
Portugal, obra annunciada pelo auctor no seu pequeno mas interes- 
sante volume sobre as antiguidades de Mertola K Do opúsculo do mes- 
mo auctor acerca de Balsa pude eu tirar duas outras iuscripções in- 
teressantes d'esta povoação, as quaes publiquei nas addenda do vo- 
lume do Corpus. Uma terceira e uma quarta, publicadas depois pelo 
sr. Teixeira d'Aragão no seu Ihialorio suhre o cemiteriu romano desco- 
berto pro.rimo da cidade de Tavira (Lisboa, 1808, 8.°), foram-me for- 
necidas pelo sr. Soromenho. Muitos annos depois, o mesmo Sorome- 
nho enviava-me as copias de três iuscripções importantes, relativas ao 
circo de Balsa; publiquei-as na Ephemeris epigraphica. Se a estas se 
juntarem mais cinco ou seis, e entre ellas uma grega, publicada pelo sr. 
Veiga, pela maior parte inéditas, mas dum valor insigniílcante (excepto 
uma), e ainda outras muitas mutiladas. Iodas reunidas então no Mu- 
seu do Algarve, o capitulo de Balsa toma um aspecto inteiramente novo. 

Antes de inserir este capitulo no Supplemento ao vol. ii do Cor- 
pus, que estou preparando, será agradável aos leitoies da Revista, ver 
reunidas aqui as mais importantes d"essas iuscripções. Ueixo de parte as 
inscripções simplesmente funerárias, cujo valor scientifico é pequeno. 

•1. Altar de pedra calcaria, achado no cemitério da Torre d' Ares; 
no Museu do Algarve em Lisboa. Lettras (alt. O^^M) do segundo sé- 
culo, muito elegantes. Calco enviado pelo sr. Veiga, e verificado por 
mim no original em 1881. Texto inédito. 



[ApoÍ]\li:U I Aiig{iisto)\ Speratits \ Bjíls{eiL<!Íuni) disp{en- 
sator) I animo li[b{cns)\ \ po\_s{iiit)\. 



AVG 

SPERATVS 

BAI.S-Í3ISP A Apollo Augusto Sperato, ao serviço da cidade de Bal 

ANTMO ■ IJ^b sa como dispensador, erigiu de bom grado este altar. 



PO 



1 Memoria das antiy. de Mertola, etc, Lisboa, 1880 (190 pp.j, 8.°, com uma planta. 
Rev. Arch. e Hist., I, N." 3 — ^L\Kço 1887. 



34 REVISTA ARCHEOLOGICA 

No fim da primeira linha deve ler havido n por ni. O D do dis- 
pensator tem, no traço vertical, outro pequeno traço obliquo, que in- 
dica o uso da abreviatura. Os dispensalorcíi da cidade eram servi pu- 
hlici. Este pequeno altar de Apollo pode ter tido ou não collocação 
num templo dedicado á mesma divuidade; mas também não é impos- 
sível o ter existido em Balsa um templo de Apollo. 

2. Altar de pedra calcaria, achado em 1750 e ainda existente no 
plinto do púlpito da egveja de N^ S/' da Luz, tnna légua de Tavira. 
Calco enviado pelo sr. Veiga, segundo o qual eu corrigi algumas pe- 
quenas particularidades do texto, editado no Corpus, vol. ii, n.° 13. 
Lettras sem elegância (alt. O, '"03), do fim do segundo século ou do 
começo do terceiro. 

FORTVNAE • AVG • Fortiinae Aug[usiae) \ Sacrum. \ Annius Pri- 

SACR • viithnis \ ob honorem \ sexvir{atus)sui, \ edi- 

ANNIVS • PRIMITIX^VS to barcarum \ certamine et \ pugihnn, sportu- 

O B • H O N O R E M lis \ ctiam civibus \ datis \ d{e) s{ua) p[ccu- 

5 IIIIII ■ VIR • SVI • nia) d{omnn) diat). 
EDITO BARGARVM 

CERTAMINE -ET- Consagrado á Fortuna Augusta. Annio Pri- 
PVGILVM • SPORTVLIS mitivo, pela honra que obteve do sevirato, 
ETIAM -CIVIBVS depois de ter cxhibido um combate de bár- 
io DATIS • cas e de athletas, e também depois de ter 
D • S • P • D • D • distribuído dadivas aos cidadãos, deu este al- 
tar, erigido á sua custa. 

O combate de barcas, exhibido pelo rico cidadão Annio Primi- 
tivo, que todavia não era da ordem dos decuriões ou senadores da ci- 
dade, mas, como de origem não livre, somente sévir dos Augustales 
(collegio de libertos, instiluido para o culto dos imperadores), eíTe- 
cluar-se-hia no rio, e o dos athletas no circo mencionado nas inscripções 
que seguem. A palavra barca, provavelmente de origem phenicia, pa- 
rece encontrar-se neste documento pela primeira vez na litteratura 
antiga. A Fortuna, como fonte das riquezas do doador, é muito jus- 
tamente honrada por elle. 

3 — 5. Três inscripções relativas ao circo de Balsa. Lages calca- 
rias, encontradas na Quinta das Antas, na margem do Guadiana. Let- 
tras muito estreitas e mwito elegantes do segundo século; na primeira, 
de ali. de 0"\0(); na segunda Ó'",03 a 0"',0'i ; na terceira, fragmenta- 
da, de 0™,1. Esta ultima inscripção está numa peça de epistylo. Cal- 
cos enviados pelo sr. Veiga; não vi os originaes, que debalde procu- 
rei no Museu do Algarve. Os textos estão publicados na Ephemeris 
epigraphica, vol. iv, 1881, p. G, n.*' 1 — 3. 



E HISTÓRICA 35 



3. C • LICINIVS • BADIVS Gliius Licinius Badiíts \ podiínn circi p{edes) 
PODIVM • CIRCI • P • C • c{entinn) \ sua impensci d{omim) d^at). 
SVA • IMPENSA • D • D • 

Gaio Licínio Badio mandou fazer á sua cus- 
ta cem pés do podiínn do circo, como dom á cidade. 

4. T (J) CASSIVS • CELER Titus Cassius Celer] podiínn circi \ pedes c{en- 

PODIVM-CIRCI tiiiii) I sua impensa \ d(omnn) d{at). 
PEDES • G • 

SVA -IMPENSA Tito Cassio Celer fez á sua custa cem pés do 

5 D • D podiuin do circo, como dom á cidade. 



^- CVM • ANT^ 



. .cum anteipagmentis J et st atuis. 



Não é raro o encarrega rem-se alguns cidadãos ricos ou magistra- 
dos do municipio de mandar fyzer^ á sua custa, certas porções dos 
edifícios públicos, para facilitarem a construcção d'clles. liadio é um 
cognome raro. O podiíim é a parle mais baixa da cavea do circo, de 
construcção massiça, logar reservado ás pessoas de distincção; os 
doadores ahi tinham também, de certo, seus togares. O episiylo co- 
roava provavelmente o portal, exterior ou interior do edifício. A sua 
inscripção exlendia-se por muitas pedras, cujo numero pode ter sido 
de doze ou mais ainda; e as lettras, muito grandes, devem ter produ- 
zido bom effeilo. O fragmento duma das pedras contém apenas ura 
resto da phrase do verso, — que o doador (ou doadores) tinham for- 
necido á parte do edifício, construída à sua custa, os aníepagmenta, isto 
é, as peças d'architectura destinadas a revestir as faces exteriores. 
Não se pode supprir antis; porque a lettra seguinte ao t não foi cer- 
tamente um I, mas sim um k. Demais, as antae, ombreiras de porta, 
ainda que possíveis também num circo, correspondem melhor a um 
templo. Estou certo de que as investigações do sr. Veiga designarão 
o local preciso, onde assentava o circo de Balsa. 

f). Grande pedestal (ali. 1"',24, larg. O™, 5i2) de pedra calcaria, en- 
contrado em 18GG entre o povoado de Santa Luzia, meia légua de Ta- 
vira, e a frerjiiezia da Senhora da Luz, seis kilomelros de Tavira, na 
Quinta da Torre d' Ares; no Museu do Algarve. Lettras não muito ele- 
gantes e como pintadas do segundo século (cerca do tempo do impe- 
rador Commodo). da altura, nas linbas 1 a 5, de O"', 04; nas linhas 6 
a IO, de 0'",035; e nas linhas II a 17, de O™, 02. Copia enviada pe- 
los srs. Francisco Raphael da Paz Furtado e Veiga; calco tirado por 
mim próprio em I88I. Editado pelo sr. Veiga, Povos Balsenses, p. Io, 
e no Corpus, vol ii, n.° 4089. 



30 



REVISTA ARCHEOLOGICA 



i5 



T • RVTILIO • GAL 

TVSCILLIANO • 
Q • RVTIL • RVSTI 
CINI • FIL • T • MAl 
LII • MARTIALIS 

NEPOTE- INHO 
N O R E M • E O R V M 

AMICI 
CVR • L • PACC • MARCI 
ANO • ET ■ L ■ GELL • TVTO 



L • PACC • 


BASILLVS 


P • RVTIL • 


ANTIGONVS 


T • MANL • 


EVTYCHES 


T • MANL • 


EVTYCHIO 


L • MECLON • 


CASSIVS 


P V B L I C I V S 


• ALEXANDER 


LAETILIANVS * 


B A L S E N S I V M 



Tiio Rutilio Gal{cria) \ Tuscilliano, \ 
Qiiinti Rutil{ii) Ritsti \ cini fil{io), Tito 
Man I /// Martialis \ nepoti, in ho | norem 
eoriim \ auiici, \ ciir(aiitibiis) Lúcio Pac- 
c{ió) Marci \ {ano) et Lúcio Gell{io) Tu- 
to, I Lucius Pacc[ius) Basillus, \ Publius 
Rulil{ius) AnliffomiSy \ Titus Manl{ius) Eu- 
iyches, \ Titus ALvxl{ius) Eutychio, \ Lu- 
cius Meclon{ius) Cassius, \ Publicius Ale- 
xander, \ Laetilianus Balsensium. 

A Tito Rutilio Tuscilliano, da Tribu 
Galeria, filho de Quinto Rutilio Rusticino, 
sobrinho de Tito Manlio Martial ; erigiram 
em honra d'elles a sua estatua, os amigos, 
sob o cuidado de Lúcio Paccio Marciano 
e de Lúcio Gellio Tuto, (cujos nomes se- 
guem). 



Tuscilliano e seus antepassados, que vêem honrados com eile, são 
pessoas de boa família, apparenlemente da ordem dos decuriões (em- 
bora não lhes seja attribuida magistratura algimia), e egualmente o 
são os dois amigos, que se encarregaram da execução da estatua do 
fallecido e do respectivo pedestal. Mas, dos amigos enumerados no 
fim, seis são libertos, o septimo um escravo. São prova disso, quanto 
aos cinco primeiros, os seus cognomes gregos, excepto Lúcio Meclo- 
nio Cassio; o qual, todavia, se fosse de melhor condição social que os 
quatro, teria sem duvida collocado o seu nome em primeiro logar. 
Publicio Alexandre tem nome como liberto dum publicum, isto é, 
d'uma communidade, d"um templo, etc; ignoramos qual a communi- 
dade indicada, mas o provável que seja a própria cidade. Laetiliano 
era um dos servi publici da cidade de Balsa, como o dispensador do 
n.° 1. Eu já falei acerca dos Publici e apresentei exemplos delles na 
Ephemeris epigraphica, vol. ii,1875,p. 89. Linha 6 iNHO|NOREM 
está escripto sem interpuncção, segundo o uso frequente de unir a 
preposição ao seu substantivo. 

7. Pedestal encontrado e conservado com o precedente, e um pou- 
co maior que elle (ali. l'",4(), larg. 0"',()0); altura das lettras 0'".:J3 a 
O^^jOi; ellas são menos elegantes que as do n.° 6, mas parecem ser 
d'uma época não muito mais antiga (do tempo de Marco Aurélio, pou- 
co mais ou menos). Descoberto e editado com a inscripção preceden- 
te. Calco tirado por mim em 1881. 



E IILSTOKICA 



37 



T • MANLIO 
TFQVIRFAV 
STINO • BALS • 
MANLIA • T • F ■ 
F A V S T I N A 
SOROR • FRA 
TRI • piíssimo 

Tf- VIR -ir 

DD 
EPVLO • DATO 



Tito Maiilio I Titi f(ilio) Qiiir(ina) Fau \ stino Bal- 
s{ensi) I Manlia Titi f{ilia) \ Faiistina \ soror fra \ 
íri piissimo, \ duumviro bis, \ d{edit) d{edicavit) | epu- 
lo dato. 

A Tito Manlio Faustino, filho de Tito, da Tribu 
Quinina, Manlia Faustina, filha de Tito, sua irmã, ao 
irmão piissimo, duas vezes duumviro, deu este mo- 
numento, inaugurando-o com um banquete publico. 



Manlio Faustino, um dos personagens importantes da cidade, como 
o indica o seu cargo iterado de primeiro magistrado^ ciiama-se Bal- 
sensis, isto é, cidadão de Balsa. Mas é duvidoso que elle tenha nasci- 
do em Balsa, pois indica como sua tribu a Quirina, que estava muito 
espalhada na Ilispanha, mas que íião parece ter sido a tribu dos fi- 
lhos de Balsa. Porque, numa inscripção descoberta em 1742 no sitio de 
Torrejão, freguezia de lialeizão, perto de Beja, um certo Gaio Blossio 
Saturnino se chama da tribu Galeria, et Neapolitatms Afer Areniensis, 
Íncola Balsensis (C. I. L., vol. ii, n.° 105). Como elle é natural de 
Neapolis em Africa (Nebel-Kedim, perto de Carthago; vede C. I. L., 
vol. VIU, p. 12o), cidade atlribuida á tribu Arniensis, a Galeria éa de 
Balsa, d'onde elle era incola, habitante, porém não civis, cidadão. Da 
Galeria era effectivamente, como vimos, Tito Rutilio Tuscilliano, do n.'* 6. 

8. Cippo de pedra como mármore, descoberto, do mesmo modo 
que os dois precedentes n.°' G e 7, em 1868, na Quinta da Torre 
d" Ares, junto á egreja da Luz; no Museu do Algarve. Lettras mais ele- 
gantes que as dos dois monumentos precedentes, de altura, na pri- 
meira linha, de C^jOi, e descendo até 0'",02 na ultima. Publicado pe- 
lo sr. Teixeira d"Aragão, relatório, etc, p. 10, e, segundo uma copia 
ministrada por Soromenho, no Corpus, vol. ii, n.° 4990^. Calco ti- 
rado por mim em 1881. 



IVLIAE(J? TlBç^F (ÍjMAR 
CIAE • GEMINAE<i) 
AMICAE • OPTIMAEcJ? 
L-QVINTIVS cJ?PRISCION 
CVM • CALLAEA T- F • SEVERINA 
ET • QVINTIA • AVITA • FIL • D • D 

tio Priscio com Calléa Severina, filha d 
filha, deu e dedicou este monumento 



Iidiae Tib{erii) f{iliae) Mar \ ciae 
Gerniuae, \ amicae optiniae, \ Lucius 
Qiiintius Priscion \ cum Callaea Titi 
J{ilia) Severina \ et Qiiintia Avitaf{i- 
lia) d{edit) d{edicavit). 

A Júlia Mareia Gemina, filha de Ti- 
bério, sua melhor amiga. Lúcio Quin- 
e Tito, (sua mulher), e Quincia Avita, sua 



38 REVISTA ARCHEOLOGICA 

Jiilia Mareia Gemina, íillia d'um Tibério Júlio, que, segundo estes 
nomes, deve ter obtido o direito de cidadão romano pelo imperador 
Tibério, e d'uma Mareia, era cerlamenle lambem duma familia nobre 
de Balsa. O seu amigo L. Quintio Priscion, cujo cognome tem uma 
forma grega (Ilptoxíov, em vez de iV^sc/o), como não junta o nome do 
páe, parece ter sido íillio d"um liberto. O nome da fannlia de sua mu- 
lher, Callaea, ó raro, e, ao que parece, de origem não romana. 

Não repetirei aqui, como já disse, os textos de mais sete inscri- 
pções funerárias encontradas em Balsa ou nos seus immediatos arredo- 
res. Mas vou dar a lista alpliabelica dos nomes das pessoas, que são 
mencionadas nessas inscripçDes. 

Aemilia Chaeris 

Albia Nereis 

Cçiluricus Lupatus 

Caturica Agatemera, sua mulher 

E(lius, em vez de Aelius, ou Flavius) Caturicus 

Domitius Festus 

G. Flavius Relatus 

Q. Flavius Seranus 

Anliochis, Euenus, Ploce, Talianus, Ires dos quaes (excepto Plo- 
ce) se encontram numa iuscripção funerária escripta em grego (Sr. 
Veiga, Povos Balsenses, p. 2G). 

Se a estes nomes se juntarem os que se acham em algumas das 
outras inscripções, principalmente nos números 6 e 8, observar-se-ha, 
embora a estatística seja muito incompleta, uma certa preponderância 
do elemento grego na classe inferior dos habitantes. Esta observação 
é plenamente confirmada pela nomenclatura dos habitantes de Faro 
(Ossonoba), e d'outras cidades de commercio marilimo no resto da pe- 
nínsula. As cidades romanas do interior de Portugal apresentam sob 
este ponto de vista um aspecto muito differente. Gom feições d'este 
género, leves sim, mas bem fundadas nos monumentos, a imagem da 
antiga cidade de Balsa recebe uma certa vida individual, que só os 
factos mencionados nos outros monumentos epigraphicos lhe não da- 
riam. As instituições municipaes, o circo e os seus jogos, o culto dos 
deuses, etc, tinham adíjuirido, na época do mais intenso desinvolvi- 
menlo da civilisação romana das provincias, quer dizer, no segundo e 
no terceiro século, uma certa uniformidade. 

Quando o sr. Veiga nos houver dado a planta da cidade de Balsa 
e dos seus monumentos históricos, as inscripções aqui reunidas mi- 
nistrarão, em certo modo, o material de personagens com que povoar 
esse recinto monumental. 

Berlim, janeiro 1887. 

E. IIÚBNEn. 



E HISTÓRICA 39 



CITANIA 

Tendo sido convidado pelo sr. Martins Sarmento para tomar parte 
na excursão ao Monte da (Vilania, e corres|)ondeiido a um dever de 
cortezia e gratidão, cumpre-me dizer rapidamente as injpressões que 
recebi durante as três horas que gastámos a percorrer aquellas famo- 
sas ruinas e as observaçíjes que me sugeriram os objectos alli encon- 
trados pelo seu illuslrado explorador. 

A historia da invasão dos dillerentes povos antigos nas Ilespanhas 
até aos piimeiros séculos da era christã é bastante confusa, e a no- 
ticia dada por alguns escriptores das cidades que floresceram em taes 
epochas no território portuguez. quando não fabulosa, tem por base a 
tradição, que não resiste a uma critica rudimentar. 

Nos paizes mais illustrados as tiadições são sempre tidas em lo- 
gar mui secundário, procurando íirmar-se a opinião em documentos 
authenticos, sendo considerados dos mais positivos os fornecidos pela nu- 
mismática e pela epigraphia, o que tem tornado importantíssimos es- 
tes dois ramos da archeologia. 

Deixando as epochas mais remotas, os geographos antigos são quasi 
unanimes em dizer que a Hespanha fora habitada por duas raças dis- 
linctas, a dos celtas e a dos iberos, formando diversas Iribus, que se 
ligaram entre si, dando origem aos [)ovos denominados celtibericos. 
Mais tarde fundaram-se no litoral varias colónias e feitorias, sendo 
gregas as das costas do Mediterrâneo e phenicias as do sul e sudoes- 
te. A maior parte das tribos cellibericas e as das colónias gregas e 
phenicias cunharam moeda própria para seu uso, no periodo de quasi 
dois séculos antes da era de saphar, que marca a submissão da Hespa- 
nha aos romanos. 

As legendas das moedas cellibericas são formadas por caracteres 
pouco conhecidos, apesar de muito estudadas por vários sábios, dis- 
liuguindo-se entre elles Fulvius Ursinius, Florez, Velasquez, Hum- 
boldt, Boudard, Saulcy, Ileiss, António Delgado, que ainda nao po- 
deram, apesar das suas engenhosas combinações, dar-lhe a verdadeira 
interpretação. 

Estes interessantes monumentos encontram-se em abundância ao 
nordeste da Península, em pouca quantidade no centro e raríssimas ve- 
zes no território do moderno Portugal. 

Em seguida á destruição de Numancia foi a Hespanha declarada 
província romana. Os conquistadores, desde .lulio César até Calígula, 
concederam a algumas cidades com o titulo de colónia ou mumcípio, 
o privilegio de se regerem por leis especiaes e de cunhar moeda de 
cobre para seu uso; e só depois de prohibido o seu fabrico é que fo- 
ram introduzidos em grande quantidade os bronzes romanos. 

As povoações, hoje incluídas no nosso território, que cunharam 
moedas com legendas latinas, ficam todas ao sul do Tejo. 



40 REVISTA ARCHEOLOGICA 

Nas ruínas da Citania tem-se encontrado as seguintes moedas : 

Em prata: 

Denario que o sr. Martins Sarmento oíTereceu ao sr. Miguel Osório, 
de Coimbra, e que, infelizmente, este cavalheiro perdeu. Em um 
calco que vi coníiece-se o typo das moedas celtibericas — cabeça de 
cabelio encarapinhado; no reverso o cavalleiro de lança enristada e 

por baixo 'T 14 9- Esta legenda está incompleta e a ser exacta a co- 
pia, como devemos suppôr, o começo destoa das que se tem publi- 
cado. 

Estas peças numismáticas são imitação do systema monetário usa- 
do pela republica romana, havendo até algumas forradas como os de- 
narios das famílias consulares, emittidos nos últimos vinte annos do 
século VII de Roma (173 a 153 antes de J. C.) ; e por tal circum- 
stancia não podemos deixar de lhe atlribuir uma data posterior. 

Em cobre appareceram : 

Um grande bronze de Emérita Augusta (Merida): TI- C A E S A R 
AVGVSTVS PONT- MAX- IMP- — Busto laureado de Tibé- 
rio à esquerda, il). avgvsta — emérita escripto em duas 
linhas na porta da cidade, sede do convento cmeritense. 

Metade de um bronze de Calagurris Júlia (Calahorra) vendo-se 
distinctamente parte da cabeça de Augusto e as lettras M/ N (Mu- 
nicipium). 1^. O quarto posterior do boi, e por cima, em duas linhas 
II- V I R - — C • M R - C. . . (// Viris Caio Mário Capitone. . .). 

Metade de outro bronze, de Celsa (Velilla de Ebro), divisando-se 
parte do busto de Augusto e as letras. . v S T V S • i"^. O quarto pos- 
terior do boi e as iniciaes c • v - l - gel- (Colónia Victrix Júlia 
Celsa) AM F E S. . . (Manias Festas). 

Um bronze de Turiaso (Torazona): imp- AVGVSTVS PA- 
TER PATRIAE — Busto laureado do imperador á direita, i^. m- 
GAECIL- SEVERO G- ^AL - AQVILO TVRIASO {Mar- 
co Caecilio Severo, Caio Valério Aquillo); no campo, dentro de uma co- 
roa de loiro, TT v l R • 

Os três últimos bronzes, com 20 a 28 millimetros de diâmetro, per- 
tencem á Tarraconense e ás cidades que formavam parte do convento 
caesaraugustano. 

As duas metades dos bronzes de Calagurris e Celsa, pela regulari- 
dade do corte, parecem ler sido partidas para servirem nas peque- 
nas transações ou trocos. 

Descobriram-se mais quatro medianos bronzes, três completa- 
mente apagados ; no restante percebe-se o busto de Hadriano tendo 
no reverso uma figura de pé, á direita, junto a uma insígnia militar, 
6 na orla as letras ... v G v S . . . 

As moedas que acabo de descrever pertencem a localidades co- 
nhecidas, excepto a celtiberica de prata; e são em pequeno numero re- 
lativamente á superfície explorada. Esta escacez pode explicar-se ou 



E HISTÓRICA 41 



pela raridade do dinheiro no commercio d'aquelle povo, ou em resul- 
tado de guerra, e porque o inimigo, logrando escalar as minaliias, sa- 
queasse e arrazasse a povoação. As casas enlulliHdas cí»m o material 
derribado, e a p.irte iníerior, (pie resta, em perfeita conservação, as 
peças de cerâmica todas feitas em pedaços, e estes muito dispersos; a 
estatua de granito que se encontrou partida e os bocados bastante dis- 
tanciados, a falta de objectos preciosos, são importantes indicios que 
autorisam esta su[)posição. 

A fortaleza do local justifica de sobra o procedimento dos vence- 
dores, que, por prevenção, não quizeram deixar pedra sobre pedra. 

Mas não são só as moedas que nos atlestam uma epoclia já adian- 
tada da civilisação romana. As imiralhas de pedras soltas, (pie alli ob- 
servamos, com três metros de espessura, foram de certo construidas 
para resistir a possantes maipnnas de guerra: e a conuuunicação en- 
tre a parte fortificada e as margens do rio Ave fazia-se por uma via 
urbana ou oppidana toda calçada, que indica pelo menos epocha ro- 
mana. 

As habitações, que estão todas dentro do recinto das muralhas, 
são pela maior parte redondas, de peqneno diâmetro, edificadas com 
pedaços de granito bem faceados e bem dispostos para lhe dar re- 
gularidade e solidez. Algumas têem o pavimento coberto de pequenas 
lages ; noutras apenas uma pedra marca o centro, e muitas destas 
casas estão metlidas num espaço mais ou menos quadrangular for- 
mado também por paredes de granito. Estas paredes (jue restam apre- 
sentam a altura da 1 melro a 1,50 sem signal de porta no maior nu- 
mero, o que faz suppôr ser a commnnicação pela parte superior, ser- 
vindo, talvez, alguma escada portátil. 

As habitações são separadas {)or estreitas vielas, em que duas pes- 
soas a par caminham com (lifficuldade. havendo uma com o dobro 
da largura e que augmenla no meio formando uma espécie de íri- 
vhmí. 

A abundância de granito naquella região explica o seu emprego 
exclusivo nas edificações urbanas, e ainda hoje por aquelles arredores 
se construem casas com idêntico material e systema. 

Determinar a origem da povoação que nos legou aquellas ruinas é 
querer ir muito além, quando a (Jas que existem florescentes, é, na 
maior parte, obscura, precisando os esciipiores da idade u.edia, para 
lhe augmentar a prosápia, arranjar-1'ie um principio mais ou menos 
fabuloso e ás vezes até ridículo. 

Verificado que dois ou ires penedos, que alli se encontram, toma- 
ram a actual posição por accidenles natiiraes, e que não possuem ca- 
racterísticos (ie dolmens, não se tpndo achado instrumento algum de 
pedra lascada ou polida^ ou quaesqiier outros vestígios da epocha pre- 
hislorica, parece ao meu illustrado amigo o sr. Nery Delgado, cuja 
competência é reconhecida e justamente considerada, que não deve- 



42 REVISTA ARCHEOLOGICA 

mos procurar iiaquellas minas uma origem muito remota, opinião com 
que me conformo plenamente. 

Acceitando mesmo á [)(jvoaçrio uma existência anterior ao dominio 
romano, não posso em presença dos signilicalivos vestígios alli en- 
contrados deixar de attribuir o seu máximo desenvolvimento á influen- 
cia civdisadora d'esse grande povo que, caminhando na vanguarda do 
progresso, levava com a vicloria das suas legiões as sciencias, as ar- 
tes e a industria. 

A occupação dos romanos, nas terras que lioje constituem o con- 
tinente do remo porluguez, não foi pacilica ; os povos lutaram contra 
o beneficio civilisador que liies impunha ao mesmo tempo o jugo da 
escravidão. A historia conta as proezas de Viriato e de outros que 
heroicamenie defenderam a pátria, e é de crer que muitos dos usos e 
costumes d'aquelles povos indígenas passassem intactos atravez dos 
diversos domínios extranhos. 

O esclarecido explorador das ruínas mandou reconstruir e comple- 
tar duas das taes casas circulares, que estavam situadas no cume da 
montanha, e ahi archivou os mais interessantes objectos tirados das 
escavações. Siirprehende a aggiomeração d'aquelles confusos vestígios 
de gerações que ha tantos séculos passaram, e para os estudar re- 
quer-se além da competência scientifica detido exame no local das 
próprias ruínas. Futuras descobertas, como o cemitério da povoação, 
que não dev^erá ficar longe, é que podem fornecer mais subsídios para 
confirmar as hy[)otheses estabelecidas. 

Recorrendo á memoria e aos apontamentos que tomei posso dizer: 

A chamada pedra formosa, que está collocada horizontalmente no 
centro de uma das casas reconstruídas, foi encontrada no fim do sé- 
culo XVIII ou principio do xix, e transportada para o poço da 011a, 
onde se conservou até ser levada em 1818 para o adro da egreja de 
Santo Kstevam de Briteiros, d'onde o sr. Martins Sarmento conseguiu 
fazel-a conduzir para o cume da montanha. É de granito amplibolico 
abundante nai|uelles sítios, apresentando a forma de uma mitra com 
o ápice quebrado; mede em altura uns três metros e na sua maior 
largura pouco mais. A face principal é coberta de lavores toscos mas 
regulares, lendo aos lados diias faxas de ornatos, que a alguém pare- 
cei'am letras numeraes, apezar de reproduzidos no lado opposto, como 
aconttíce com os outros desenhos. 

Na parte postei ior da pedra e em cima, á esquerda, está uma espécie 
de inonogramnia que se não ponde ainda decifrar. Julgamos ser esta 
grande pedra um monumento tumular da epocha romano-bysantína, 
tendo a posição vertical, servindo o arco em aberto para a íntroduc- 
ção dos restos mortaes, e os reservatórios e conductos praticados no 
bordo para se deitarem os líquidos das libações. 

Além d'um cíppo que tem em uma das faces os caracteres que se 
vêem na est. viiin." 1, existem mais duas inscripções lapidares romã- 



E HISTÓRICA 43 



nas, uma muito apagada que parece formada por abreviaturas que se 
não tem podido ler, e a outra tem escriplo : 

c O R O ^E R I 
C M.I 
D o M U S • 

A pedra eslá mutilada e tem por baixo e ao lado ornamentaçno. 

nome de Cauiali parece pertencer a alguma faunlia iuiporlante 
da Galicia ; encoutra-se em vários pedaços de cerâmica achados nas 
ruinas. por a seguinte forma c AA.. - C AA.. l, em outros vôem-se as 
letras Ãc ou /RG (argilla?) e. um fragmento tem /RG C AA_> (argilla 
de Camali ?). 

Na supeificie de um penedo e de varias pedras acliam-se grava- 
dos os symbolos e letras que vão reproduzidos na est. vui n.°* 2 — 7. 

No logar de Viulió, pi'oximo á villa de Chaves descobriu-se no sé- 
culo passado uma lapide designando um Camalus, fdlio de Bruno, e 
em Friães, termo de Montalegre, existia um cippo com a iuscripção Ca- 
malus Mihois LiiiuHs. . . ^ Na inscripção, que appareceu em S. Mar- 
tinho de Diime, vem mencionado outro Camalu filho de Melgaeco '^. 

Os fragmentos de pedra lavrada tirados do entulho pareceram-me 
indicar epochas distinctas; assim as duas figuras escuipturadas, a que 
Contador de Argole chamou Salyros, e a estatua de mulher com os 
braços unidos ao corpo, são similhantes na matéria e no trabalho ás 
duas estatuas de granito existentes no jardim dAjuda, encontradas 
próximo a Moiílalegie, ([ue pela rudeza das formas teem feito sus- 
peitar origem celta, mas confrontadas com outra idêntica, que se con- 
serva em casa da sr.^ Cazado em Vianna do Castello, tendo nas co- 
xas uma inscripção fiuieraria latina, levaram o sr. Hiibner, em pre- 
sença de taes caracteres, a marcar-lhe a sua fabrica no primeiro sé- 
culo do chrisliauismo. Na Galliza tem-se encontrado outras similhan- 
tes mas sem inscripção. 

As pedras lavradas revelam cerlo progresso artístico e são da 
maior impuilaiicia para a historia dos povos que alli habitaram. Não 
se podem adinitlir como ornamentos dos edifícios simples e acanhados 
até hoje descobertos, e inculcam pertencer a algum monumento sum- 
ptuoso, talvez templo. 

A inlluencia bysantina nas terras ao norte de Portugal, durante a 
monarchia wisigoda nas llespanhas, é saliente pelo grande numero de 
cidades que alli cunharam moeda, ficando nas terras do sul, como 
excepção, Évora. 

1 Contador de Argole — Mem. do arcebispado de Braga, tom. 1." til. 1.° pag. 
294 e tom. 2." pag. 507. 

2 E. liiibiier — Noticias archeologicas de Portugal, trad. de A. Soromenho, 
pag. 75. 



44 REVISTA ARCHEOLOGICA 

Em cobre e bronze acharam-se varias peças como — fibnlae, gin- 
glymi, açus comatoriae ou crinales, pedaços de torques, armillae, bra- 
cfiiales, iuaures, ele. 

Appareceram alguns instrumentos de ferro, mas muito deteriora- 
dos pela oxydação. 

Encontraram-se também bocados de vidro, e uma porção de con- 
tas de pedra verde clara, furadas e arredondadas irregularmente, que 
parecem ter servido de amuletos. 

Entre a immensidade de objectos do uso domestico e ornamentos, 
torna-se notável uma pequena cabeça, de typo egypcio, com a itifida 
de longas faxas, como se representava a deusa Isis e usavam as ves- 
taes. Os agricultores tinham o costume de suspender nas arvores pe- 
quenas cabeças parecidas com esta, acreditando que o lado do campo, 
para onde o vento as tivesse mais tempo voltadas, seria o mais pro- 
ductivo em fructos. Na cabeça encontrada na Citania falta o furo ou 
argola para se atar o fio- 

Em cerâmica achou-se immensa quantidade de bocados que mos- 
tram ter sido fabricados na roda e cozidos ao fogo. Alguns teem or- 
natos simples e outros são de barro saguntino. A maioria dos frag- 
mentos pertenciam a vasos pequenos e delgados, mas também se en- 
contram pedaços de amphoras e de telhas, tegulae e imbrices, deno- 
tando pela pequena quantidade de cacos d'estas ultimas, que nem to- 
das as casas eram cobertas de telha mas de colmo. 

Dispersas pelas minas encontram-se pequenas mós de mão, lages 
com furo, que parecem servir para rodar o espigão de porta, e uma 
pedra do comprimento de um metro e a forma mais ou menos cylin- 
drica, que se me figurava supporte de mesa ou banco. 

Da etymologia de Citania, se vem de Cinania, de Gitania ou de 
Sisania, nada posso dizer por não me julgar competente. 

No cume da montanha, junto a uma ermida de S. Romão, de con- 
strucção relativamente moderna, encontraram-se varias sepulturas á 
superfície da terra, que por um dinheiro de D. Affonso iii alU achado 
denotam ser posteriores ao reinado d'este monarcha. 

O assumpto é vasto e embaraçado, pessoa mais competente deci- 
frará estes enigmas do passado ; eu só peço : 

1.° que se tire a planta das minas hoje conhecidas por Citania, 
para se continuarem com regularidade as explorações. 

2." que se organise um mappa designando os logares com as rui- 
nas da povoação e marcadas as vias romanas. 

Estes dois trabalhos estabelecerão um systema methodico para a 
exploração e estudo. 

Concluímos prestando sincera homenagem ao sr. Dr. Martins Sar- 
mento pela muita dedicação e superior intelligencia com que tem di- 



E HISTÓRICA 45 



rigido a exploração, e pela explendida maneira como inaugurou em 
Portugal as conferencias archeologicas, adquirindo jús á considera- 
ção puíjlica por Ião relevantes serviços prestados á sciencia e ao paiz. 
9 de abril de 1877. i 

A. C. Teixeira de Aragão. 



OS ESTUDOS ARCHEOLOGICOS EM PORTUGAL 

Nada mais natural, e attraclivo até, para os portuguezes, depois 
de haverem adquirido o dominio pacifico do seu bello e glorioso paiz, 
que o dedicareni-se ao exame de tantos vestígios de antiguidade, que 
alastram o solo d"esse mesmo paiz a que ficaram chamando sen pelo 
direito de conijuisla a injustos, além de bárbaros, invasores. O instin- 
cto da curiosidade innocente devia leval-os a recompor a historia e geo- 
graphia da Lusitânia, de que Portugal ficava sendo representante nato : 
devia estimulal-os fortemente a emprehender esse estudo, porque 
era também honra sua crear uma historia antiga e nobilitante do seu 
torrão, fazendo-a remontar até os Phenicios. . . ; e para isso não po- 
dia jamais omitlir-se a investigação dos monumentos derrocados, es- 
tatuas mutiladas, columnas partidas, capiteis desfeitos, estradas aban- 
donadas ou gastas, moedas soterradas, etc. 

Mas a cultura intellectual dos portuguezes, mais aífeilos então a 
manejar as armas do que a lidar com as letras, estava mui longe de 
prestar o devido apreço aos 3studos archeologicos. Pode-se dizer 
com verdade que antes do eborense xVndré de Rezende ninguém fez 
caso do estudo de nossas antigualhas, salvo com o fim de lhes apro- 
veitar os materiaes para construcções novas. 

Foi com eíTeito no meio do século xvi que em Portugal se encetou 
o estudo da archeologia, percorrendo o mencionado Rezende o nosso 
paiz para resenhar vestigios, tirar copias de inscripções, recolher la- 
pides e moedas, e confrontar depois esses vestígios com as geogra- 
phiaS;, historias e itenerarios romanos: donde resultou a sua obra — 
De antlquitatibus Lusitaniae em quatro livros. 

Fez muito Rezende num paiz, em que nada se linha ainda escri- 
pto sobre a matéria subjeita ; mas a sua obra não podia deixar de ficar 
imperfeita, como obra de ensaio, que não tinha precedentes a dar-lhe 
auxilio. 

Fr. Bernardo de Brito na Mnnarchia Lusitana, o cónego d'Evo- 
ra Gaspar Barreiros na Corographia d' alguns lagares, e poucos mais 
se deixaram então abalar da iniciativa de Rezende; mas eis que adeca- 

1 Foi nesta data escripto o artigo do distincto numismata, mas é pela primeira 
vez hoje publicado. Não era escusada esta advertência, por só se inserirem artigos 
inéditos n« IUvista Archeologica e Histórica — N. da R. 



46 REVISTA ARCHEOLOGICA 

dencia das leiras, que não podia deixar de se derivar do perdimento 
da nossa autonomia politica, paralysa aquelles primeiros impulsos 
dados ao movimento dos espíritos para se estudarem na arclieologia os 
nossos antigos tempos. Só depois de restaurada a monarcliia portu- 
gueza e já bem consolidada no tempo d'el-rei D. João v, resurgiram 
os estudos históricos e arclieologicos, então protegidos pelos poderes 
públicos. Este rei inslitue a Academia Real da Historia Portugueza, 
para ajudar a qual promulga a lei de 28 d'agosto de '17!21, em que 
estatúe o seguinte : 

«Hei por bem que daqui em diante nenhuma pessoa de qualquer 
estado, qualidade e condição que seja, desfaça ou destrua em todo, 
nem em parte, quahpier edifício que mostre sor d'aquelle tempo (dos 
phenicios, gregos. ronuDios, etc.) ainda que em parte esteja arruinado, 
e da mesma sorte as estatuas, mármores e cippos, em (|ue estiveram 
insculpidas figuras, ou tiverem letreiros Phenicios, Gregos, Romanos, 
Gothicos e Arábicos, ou laminas, ou chapas de qualquer metal que 
contiverem os dictos letreiros ou caracteres; como outro sim medalhas 
ou moedas, que mostrarem ser d'aquelles tempos, nem dos inferiores 
até o reinado do Senhor Rei D. Sebastião; nem encubram ou occultem 
alguma das sobredlctas cousas; e encarrego as Gamaras das Cidades 
e Villas d'este Reino tenham, muito particular cuidado em conservar 
e guardar todas as antiguidades sobredictas e de similhante qualidade 
que houver ao presente ou ao deante se descobrirem; e logo que se 
achar ou descobrir alguma de novo, darão conta ao Secretario da dieta 
Academia Real para eíle a communicar ao Director e Censores e mais 
Académicos, etc.)» 

Esta lei (posto que em vigor ainda hoje, segundo creio) não tem 
sido observada pelas Gamaras e pessoas particulares ; se o fora, de 
certo que a historia do nosso paiz nos tempos da civilisação romana 
estaria muito melhorada: é comtudo irrecusável o louvor ao rei que 
a sanccionoU;, porque mostrou os seus bons desejos nesta matéria por 
palavras e por obras. 

Gomquanto porém se finasse muito joven a Academia fícal da His- 
toria Porlugneza. è fora de duvida que ella resurgiu melhorada na 
Academia íieal das Sciencias em tempo da Rainha D. Maiia I, e que 
esta corporação tem feito muito, ainda que muito lhe resta a fazer, na 
matéria em questão. As suas Memorias são um grande repositório de 
estudos archeologios e teem estimulado os extranhos áquelle vene- 
rando grémio scientifico e litterario — a emprehender similhanles es- 
tudos. 

É verdade que muitos olham ainda hoje com desdém para as an- 
tignalhas e para quem faz caso delias ; mas outros, melhor avisados, 
lhes dão o devido apreço, considerando que são — monumentos indis- 



E HISTÓRICA 47 



pensáveis parn se poder escrever coíii segiirançn a historia da nossa 
antiga civilisaçiio. Historia sem inonmnenlos é como contahilidade sem 
documentos. Itegistrem-se pois aquelles; sejam analysados e devi- 
damente apreciados á Inz de uma critica racional; e com isso adean- 
taremos o conhecimento da primeira colonisação do nosso paiz. 

Para esta empreza minto relevava o apparecimento de uma revis- 
ta SNÍ ijenrris, o (]ue somente agoia tem logar: é a fíi'risl(i Arr/icolof/ica 
e Uhiorka. Mais vale tarde do (jne nnnca. Ella, como empreza aces- 
sível a todos os escriptores doutos, facilitará a puhlicação de trabalhos 
novos, como os que em nossos dias publicou o malogrado dr. Augus- 
to Filippe Simões, como tem p(il)licadoo auclor dos Esimlos históricos e 
arclipolofficos de I*ortngal, o sr. Ignacio de Vilhena Barbosa, e outros 
eruditos contemporâneos. 

Os srs. Párochos poderiam, se quizessem. cooperar muito nesta 
obra, resenhendo cada um os monumentos antigos das localidades em 
que vivem, e assim poderia fazer-se uma idéa exacta do (]ue já exis- 
tiu de notável entre nós e ainda existe digno de contemplar-se. 

Saúdo pois com prazer esta publicação, desejando muito que ella 
viva e prospere progressivamente, sendo archivo de quantas antiguidades 
se descubram neste reino, e dando cabimento ás descobertas realisadas 
no estrangeiro, que por ahi costumam jazer confundidas nos jornaes 
diários, que se occupam de mil cousas. 

Bencatel, 23 de janeiro de 1887. 

P." Joaquim J. da R. Espanca. 



EPIGRAPHIA 

Devo á obsequiosidade do sr. Estacio da Veiga o poder inserir aqui 
uma inscripção mutilada sim mas simimamente importante. O distiii- 
cto archeologo levou a sua amabilidade até procurar-me para me dar 
conhecimento delia, mostrando-me um calco que obteve, destinado ao 
nosso communi amigo dr. HiJbner. 

A lapide calcarea, que conttMU a inscripção, existe em Faro, no Lar- 
go da Sé, a uns três metros do chão, servindo de cunhal no angulo 
nordeste ao fundo externo da capella do Santíssimo, onde o sr. Veiga 
a descobriu em 1883. Altura 0,"';}8, largura 0,"'48. As lettras muito 
imperfeitas e pouco profundas parecem da decadência. 

AVGG///// .'////// 

AVR • VRSINVS • VPP.- 

PROVINC LVSITANIf 

Nesta inscripção. provavelmente honorifica, parece ver-se na primeira 



48 REVISTA ARCHEOLOGICA 

linha vesligio dum segundo G, que me traz á ideia a formula pro ma- 
gnifu-enda savculi dd. nu. Aiigg. e similliautes ; pelo calco não pude 
Verificar se o resto da primeira linha loi ou não martellado; mas pare- 
ceu-me ver vestigios duma lellra (a parte inferior dumvou d'umN). 
Na segunda linhali dislinclamente A V R • VRSINVS • v p p • Não 
notei signal de lellra antes de Aiir. ; e, comquanto o calco o não ac- 
ciise com [)erfeição, creio que depois do segundo p estaria um ponto 
ou um <i>, porém não lellra alguma. Na terceira linha perfeitamente se 
lè Pivvinc{iae) Lusilcude. A ullima leltia mais pequena occupa aparte 
superior da linha ; e por baixo delia notei um traço que pode ser ou 
a primeira haste d'um A, ou parte dum ponto triangular. No primei- 
ro caso, estaria a palavra escripta com o diphtongo ae, que o lapi- 
cida dis[)Ozera verlicalmente por falta de espaço; no segundo, teria 
empregado o simples e=ae, o que é frequentissimo. Inclino-me ao 
primeiro caso. 

Curiosa e importante pela menção da província da Lusitânia, é-o 
lambem pelo nome do dedicador. 

O nome de Ursino só se encontra na península (vol. ii do C. 1. L.) 
numa inscripção de Ba reino, Sul. Ursifw (n.° 4587); e p feminino cor- 
respondente numa de Liria, Lie. Ursimi (n.° 3805). É menos raro o 
nomeUrsiano. Em uma inscripção de Itálica appareceum Aurélio Ursiano 
n{iro) eÇgrcgio) (n.° 1 1 15); e em duas de Emérita um C. Júlio Ursiano 
(n.° 54o) e um L. Mar. Ursiano (n.° 578). Pode succeder que o nome 
da inscripção de Faro fosse Ursiono, estando conjunclo o A com o N. 
As leltras v P P que terminam a segunda linha creio deverem ser 
interpretadas formando sentido com as palavras da ultima linha ; vindo 
pois a ser esta a leitura : Aur{dius) Ursitms ou Ursiamis v{ir) ^{erfe- 
clissimus) piraeses) prorinc{iae) LusHmii[a]e. Esta formula assigna á 
inscripção uma epoclia posterior a Constantino Magno (Cf. C. L L. 
vol n, "n.°' 4104 — 4108). Uma inscripção de Emérita (n." 481) do anuo 

de 315 contém a menção G- svLPicivs s- vpppl cJp; 

outra de Tarragona (n.° 4104) do anno de 288 a 289 diz: 

POSTVM-LVPERCVS-V-PERF 
PRAES- PROV • HISP • CIT 
etc. 

Espero opportunamente dizer alguma coisa mais acerca d'este mo- 
numento infelizmente incompleto. 

Borges de Figueuíedo. 



E HISTÓRICA 49 



LA GEOGRAFÍA ÁKABE DE PORTUGAL 

Sin menospreciíir los trabajos de D. José António Conde, que no 
luvo á su alcance mas que la edición dei compendio dei Edrisi, ni 
siquiera la traducción de la obra completa de este geógrafo, lleva- 
da á cabo por el Gaballero Jaubert, es lo cierto que la geografia ára- 
be de nneslra península no se ha podido esludiar de una manera for- 
mal hasta que el inolvidable Dozy publico en 180G su Descripiioíi de 
VAfrique et de VEspagm, con el texto original y la traducción copio- 
samente anotada. No es esta la única obra que se conoce, y aiin que 
se ha impreso, de geografia árabe, pêro es sin disputa la mas com- 
pleta y mcjor redaclada, y debe ser por eso el principio y funda- 
mento de lodo trabajo crítico que dirija a ilustrar en este sentido la 
historia de Espana y de Portugal. Por eso la tomamos como punto 
de partida de los estúdios de geografia árabe, que como ensayo so- 
metemos ai mas ilustrado juicio de los eruditos portugueses. 

Según el sistema geográfico dei Edrisi, el território de la actual 
nación portuguesa queda dividido en dos de los grandes climas geo- 
gráficos, el cuarto y el quinto, separados proximamente por las aguas 
dei Mondego. Solo lo perteneciente ai clima cuarto abraza la publica- 
ción de Dozy, y esa extensión se reparte en três distritos ó climas 
provinciales. 

El mas meridional abraza todo el Algarbe, con la parte Sur dei 
Alentejo, y coincide con el término de Beja dei moro Rasis, dividido 
por Yacut en los dos de Beja y Osonoba. Dozy lee, aunqne con duda, 
el nombre de esta província Alfacr {f^^ ), que significa ;>oíy;Tia, pêro 
Conde y Jaubert enlienden y escriben Alfúgar (y^^ ) 6 sea las Des- 
embocaduras, y cuadra bien con la situación entre las bocas dei Gua- 
diana y la dei Sado en la ria de Setúbal. Edrisi menciona de este cli- 
ma las ciudades de Mértola ( i-^jl-^ ), Silves ( '--Át, ), Cacella ( i-lí=^ ), 
Tavira ( '^j^}. Santa Maria de Algarbe ( vi;*^' hj^ c,-^ ) que es 
Faro, y Sagres ( (J^y^ )• Cita también el Cabo dei Oeste, ó de S. 
Vicente {^j^^ òj^) ^^"^ ^^ famosa Iglesia dei Cuervo ( J^--r^ 
>^'^^^i-^^ ), donde persevero el culto Cristiano durante todo el tiempo de 
la dominación muslimica. 

Rev. Arch. e Hist., I, N." 4 — Abril 1887. 4 



30 EEVISTA ARCHEOLOGICA 

El puerlo que se denomina Garganta dei Bincôn ( '^_J^^ v^aU. ), 
a 20 millas de Silves y 18 de Sagres, es sin diida la ria de Lagos, y 
creo que si se lee Asinesin el território 'que Dozy llama de ach-Chin- 
chin ( ijr^^^ ), donde se haliaba Silves, no cabra duda de que debe 
interprelarse como Tierra de los de Sines (mejor dicho ^^;^--iu;iJ i ), 
descendientes de los antiguos Cynesios. 

Al Norte y por la parle interior corria el clima dei Alcázar, que 
ocupaba gran parle dei Alentejo, y algo de la Beira y la Extremadu- 
ra. En ese clima, que corresponde ai distrito de Badajoz de Yacut y 
à los de Badajoz y Exilania de Uasis, tenia Portugal las cindades de 
Évora ( 2j^L) ó '^jj^, ), Yelves ( ^iX ) y el Alcázar de Abu Déniz 
(^'b ^1 j^ ) que es Alcácer do Sal. Si el autor no se ha equi- 
vocado ai colocar entre Alcântara y Saptarén, sobre el rio Tajo, los 
Puentecillos de Mahmud ( ^j^ ^J^ ), parece que este punto deberia 
corresponder á Abrantes, único donde desde liempo inmemorial se sa- 
be que haya habido puenle. Mas si se considera que la palabra cân- 
tara significa también para nuestro geógrafo (pag. 166 dei texto ára- 
be) murallòn ó arrecife, podrá mas bien imaginarse que se habla dei 
embarcadero de Villa velha de Ródão, en el camino de Niza á Cas- 
tello Branco. 

Vallada, en el Uano de Azambuja, daba nombre á otro clima 
( iljbU! ) que coincidia con los términos de Lisboa y Santarén de Ra- 
sis. Además de Lisboa ( '^j^^ ) y Santarén ( ^ji,/^ ) ya dichas, 
Edrisi menciona en esta comarca á Cintra ( »y^ ) y Almada ( ^j'^=^ 
jj*i! ) é indirectamente à Setúbal ai hablar de su rio (jiJ^ j^ )• 

Los orientalistas portugueses que quieran profundizar la parte 
correspondiente ai quinto clima geográfico pueden consultar el texto 
árabe que en 1865 publique en el Bolelin de la Sociedad Geográfica 
de Madrid (T. 18, p. 229). Alli veràn que el território português cora- 
prendido en este clima se divide en otras três porciones. La primera 
va desde el Mondego ( ^^-^-^ ) ai Vouga, que denomma rio de Botão 
(y^ji ), confundiendo la corriente principal con la de su afluente el 
Sertoma, cosa no poço frecuenle en autores antiguos; y es de notar 
además que Edrisi tiene por sistema titular los rios dei N. de Espana 



E HISTÓRICA 51 



por alguna localidad de su nacimiento. Nombra por aqui la ciudad de 
Coimbra ( ^j^ ) y el caslillo de Montemor o velho (jj^ w>^ ). El 
teri ilorio entro el Vouga y el Duero ( »;Jj-> ) es para el autor propia- 
mente ia lierra de Portugal ( J^'^.-» j^j^ ) y en ella debe caer el des- 
conocido (jLx^ ), que se ha querido ideutificar a Yiseo, alterando sin 
fundamento los puntos diacriticos, y que en mi sentir ha de ser No- 
jões, antes Nojães, aldea de la feligresia de Real, concejo de Castello 
de Paiva, junto ai Duero, donde hay muchos vestígios antiguos. 

Por ultimo viene el espacio entre el Duero y el Mino (y^* ), en 
cuya corriente hay una islã con su castillo, que aunque se escribe 
Í9^^' , creo que por las razones que muy pronto expondré debe 
leerse l'i^j^\ , y es la Boega, todo ello considerado enlonces como 
parte de Gahcia. 

Lo mas oscuro de la geografia árabe portuguesa es el itinerário 
de Coimbra à Santiago de Compostela. Para entenderlo creo preciso 
suponer que Edrisi va desde Coimbra à buscar un camino muy fre- 
cuentado, el cual desde Lisboa se dirigia à Santiago por Viseo y Bra- 
ga, y entonces hallo el primer descanso ( -vM ^n Avo, à 45 quilóme- 
tros ai N. E. de Coimbra. La otra jornada ( »^j ó s^j ) la en- 
cuentro en San Miguel de Outeiro, à 10 quilómetros ai 0. de Viseo, 
en el camino de S. Pedro do Sul. Otra jornada mas se pone hasta 
empezar la tierra propia de Portugal, cuyo âmbito da otro dia de via- 
je, ai cabo dei cual se pasa en barcas el Duero frente à una aldea 
( jli xjjj hjs ) que reduzco à Vdiaboa de Quires, a! E. de Penafiel. 
Después dice el texto que se echan dos jornadas hasta el castillo de 
i^ljjí en el Mino y otras dos desde alli à Tuy. Como esto es ab- 
surdo, creo que hay aqui una equivocación procedente de la erudición 
clásica dei autor. El caslillo de '^^^y^^ es el de Braga, situado efe- 
ctivamente à igual distancia entre Tuy y el Duero; pêro Edrisi vió 
que Tolomeo da Ia misma latilud à Braga que à la boca dei Mino, y 
como sabia la existência de la islã Boega ( ^l^J^ ), facilmente creyó 
tener aqui una errata, y escribiendo j por j hizo una sola cosa de la 
isla y de la ciudad. 

Esto es todo lo que dei famoso geógrafo árabe se puede sacar res- 



52 REVISTA ARCHEOLOGICA 

pecto à lo que hoy comprende Ia nación portuguesa, y ai darlo ai pú- 
blico en este ilustrado periódico me propongo solamente iniciar entre 
los doctos de ese pais una discusión crítica que ilustre tan importante 
asunto. 

Madrid 28 de febrero de 1887. 

Eduardo Saavedra. 

ARA ROMANA DESCOBERTA EM CASTRO DAIRE 

Entre os mais interessantes objectos que possue o Museu do Car- 
mo, de Lisboa, tem um dos primeiros logares uma ara portátil roma- 
na, descoberta em 1877, quando se procedia a escavações para as- 
sentamento dos alicerces d uma ponte sobre o rio Pavia, em Castro 
Daire. 

Esta pequena ara, que mede de altura 0'",30^ de largura O™, 12, e 
de espessura 0"\10, tem apenas duas faces despidas de gravuras: são 
a posterior e inferior. 

Na parte superior tem o focus, ou cavidade onde se queimavam os 
perfumes e se faziam as libações; mas não tem o conducto por onde 
se escoavam os líquidos. Na face esquerda tem gravadas, dispostas 
verticalmente em duas linhas, as lettras 

A 
pR 

ae 

T 

com.o melhor se pôde vêr na estampa ix. Na face direita distingue-se 
uma figura de homem, de lança em punho, fazendo lembrar esses sol- 
dados que se vêem nos pequenos bronzes do baixo império com a 
inscripção GLORIA EXERClTVS;na base da ara. doeste mes- 
mo lado, parece ter havido ornamentação hoje indistincta. Na face prin- 
cipal, apparece a meia altura do monumento, e em grosseiro relevo, 
um quadrúpede cuja forma mal definida deixa incerteza sobre se hou- 
ve intenção de representar os caracteres distinclivos da masculinidade 
ou os da maternidade; parece todavia ter maior grau de probabilida- 
de o primeiro caso. Por cima d'esta figura, em gravura como tudo o 
mais, lè-se v O T v, e por baixo a R o L ; finalmente na base do mo- 
numento e ainda na face anterior ha as lettras a S . 

A forma e proporções da ara são elegantes, sem sairem da vul- 
garidade. Nola-se, porém, no monumento uma grande rudeza, assim 
na esciilptura como no traçado das lettras, que são pouco profundas; 
nota-se além d'isso alguma incúria na symetria. 



E HISTÓRICA 



O quadrúpede não está bem dislincto (e parece nunca ter sido bera 
definido) para que se possa aííirmar sem ponderações a sua espécie ; 
todavia concorrem nelle traços caracteristicos, que mais o approximam 
do poi'CO ou do javali, do que doutro qualquer animal. O conjunclo 
da figura, a configuração da cabeça e cauda, parece-me que excluem 
toda a dúvida. 

Por duas vezes appareceu já em publicações porluguezas o dese- 
nho d'esta ara, acompanhado de interpretações de suas figuras e in- 
scripções: primeiramente no Boletim da Associação dos Arc/iiíeclos Ci- 
vis e Arc/icol.of/os Porlugwzcs (série 2.*, t. iii, n.° 4); em segundo lo- 
gar no periodico.de Vizeu O Liberal (n.° 2;j, de 3 de outubro de 1885). 
Ambos os desenhos estão imperfeitos; porque não conservam ao mo- 
numento as proporções devidas, e dão incorrectamente as figuras e 
as inscripções. 

O auctor do artigo do Boletim reproduz as seguintes leituras de 
dois individuos: 

1.*— VoT(um) U(ovit) Ard... a s(e) apr(o) AT(tacto). — Fez este 
voto Ardil . . . por ter alcançado (morto) um javali. 

2.^ — APR(i) A(nnuo) T(empore) voTu(m) ARD(enti) A(nimo) s(olulem). 
— Voto de um javali no tempo de um anno, cumprido com animo ar- 
dente. 

Estas interpretações que não resistem á critica, comquanto seja 
admissível haver na inscripção lateral allusão ao javali, foram feitas 
na supposição de que na mesma inscripção não havia a leltra e (que, 
apezar de bem visível, ninguém leu antes de mim, que eu saiba), e de 
que a segunda palavra da face principal era ARD... 

O artigo do Liberal reproduz as mesmas incorrecções, ficando as- 
sim prejudicadas as diversas leituras que propõe (quanto á face ante- 
rior: Voto Ardiae Junonis (sic). Voto à cidade de Ardea, etc; e quanto 
à face lateral: A.{ram) p R{opriam) A T{que). . ., etc.) 

Feita a descripção do monumento e apontadas as interpretações 
que tèem dado aos lettreiros — ^ interpretações inacceitaveis perante as 
regras da epigrapliia, — passo a apresentar algumas considerações que 
me suggere o atlento exame da ara. 

O porco era sacrificado pelos povos aryanos, que o consideravam 
como symbolo da fecundidade. Este animal apparece frequentemente 
mencionado entre as victimas consagradas ás divindades, principal- 
mente ás consideradas como tutelares da maternidade, dos animaes e 
da fecundidade d'estes. É bem conhecido o sacrificio romano de pu- 
rificação, designado pelo nome de suovctaurilia, em que eram immo- 
lados um porco, um carneiro e um toiro. Abundam nos escriptores 
gregos e latinos as menções do sacrificio do porco. Na Iliada, d'entre 



54 REVISTA ARCHEOLOGICA 

outras passagens, citarei o sacrifício d'ura javali em honra de Júpiter 
e de Apollo (//. xix. 197): 

KcCTUpOV Tap.SctV Au t" 'Hs)dr>) T£. 

Na Odtjsséa fala-se da immoiação d'nma porca gorda de cinco an- 
nos {0(h/s. XIV, 419): 

Ot õ' vv eii-nyov (xylx 77Íwva Tcevraé-criçov. 

A Maia sacrificava-se uma porca prenhe, como refere Macrobio: 
«Sus praegnans mactabatur Maiae» {Sat. i). Aos Lares menciona Ho- 
rácio um sacrifício, em que apparece o incenso, os fructos e a porca 
{Carm. ni, 24): 

Nascente luna, riistica Philide, 
Si ttmre placaris, et liorna 
Fruge Lares, avidaqae porca . . . 

O mesmo poeta, na ode 23 do mesmo Mvro, allnde ao sacrifício do 
varrasco; e noutra parte aponta o sacrifício do porco feito á Terra, 
com a ideia da fecundidade {Epist. ii, 1): 

Tellurem porco, sylvarem lacte piabant. 

Ovidio, que nos diz muito acerca das victimas consagradas aos 
deuses, nas Metamorphoses (I. xv), fala noutra obra da immoiação da 
porca a Ceres {Fast. i) : 

Prima Ceres gravidae gavisa est sanguine porcae, 
Ulta suas inerita caede nocentis opes. 

Phornuto (Annaeus Cornutus), no commentario de natura deortim, 
é explicito nas razões d'esta ultima consagração (^/í? CcrenO: (^ycuai <5'uç 
èyy.-jlj.cvxz A-/iu.-/,Tcpt, tz/xw ctx.stMç. xò TroÀúycvov /.at éjaú//,-/)rTCV xat TcXsatpspov 
T:cc^iG-y.v-:z;: «Immolam muito convenientemente a Ceres porcas pre- 
nhes, por causa da fertilidade da terra, fácil producção, e complecta 
madureza». 

A porca, no dizer de Varrão e de A. Gellio, era \'\cl\mt\ prapcida- 
nea, isto é, a que se sacrificava primeiro que as outras, ou a (|ue, an- 
tes da colheita dos fructos devia iinmolar quem não tinha prestado to- 
das as honras fúnebres a alguém da sua fainilia; diz Gellio (Noct. Alt., 
ív, 6): «Porca etiam praecidanea appellata, quam piaculi gratia, ante 
fruges novas captas immolari Cereri mos fuil, si qui familiam funes- 
tam aut non purgaverant, aut aliter eam rem, quam oportuerat, pro- 
curaverant». 

Deixando de produzir mais citações litterarias, por não cançar o 



E HISTÓRICA 35 



leitor, passo aos monumentos epigraphicos em qne se faz menção do 
sacníicio do porco, os qnnns ahiiiidain em quasi lodos os volumes do 
Corpus Inscripiionum Lalinanim. Mas, para não alongar este artigo, 
adduzirei aqui unicamente os que se encontram no vol. ii, relativo á 
península, e que são os seguintes: 

Numa inscnpção (C. /. L., ii. n." 3820), é a porca consagrada á 
deusa tutelar da gravidez e do parto: 

DIANA E MÁXIMA E 
VACCAM OVEM ALBAM PORCAM 



Noutra descoberta em Oh)ilcn (Porcnna) é mencionado o sacrifício 
d'um javali e de trinta porcos ao génio do município {C. 1. L., ii, 
n.° 2120): 

c • cornelivs • g • f 
c • n ■ gal • gaeso • aed 
flamen- iivir- mv 
nigipípontifigI 
5 g • gornel- g aes0 

F • SÁGERDOS 

genímvnigipI 
scrofam • gvm 

P O R G í S • T R I G l N 
IO T A • I M P E N S A • P S O 
R V M ci) D • D 
PONTIFEX 



«O nome moderno de Porcnna (pondera judiciosamente o meu 
amigo Adolpho Coelho) parece relacionar-se com um culto em que o 
porco tinha muita importância, ou memorar uma industria local, se 
não se prefere considerai o como uma alteração de Obokona, Bolcona, 
devida a uma falsa analoi-ía». ' 

Note-se mais com respeito particularmente ao javali que elle foi o 
emblema da nacionalidade gaiileza, durante todo o período chamado 
drnídico; collocavam-no no alto das signas militares. O mesmo suc- 
cedia entre os Germanos, os Illyríos e os Celtiberos ^. 

1 Ad. Coelho, Sur les cultes ■péninsulaires antérieurs à la dominaíion romaine 
no Compte-rendu de la 9." sess. dn, Coiigr. intern. d'anthr. et d'arch. préhist. en 
1880. 

2 Vid. Delgado, Monedas autónomas de Espana. 



56 REVISTA ARCHEOLOGICA 

Entre as tradições populares muitas ha relativas ao porco *, as quaes 
demonstram a sua importância cultual em outras épocas de que nos 
restam documentos preciosos; em Sabroso encontraram-se estatuas de 
porcos, como em Segóvia e noutras partes da península. Em Murça, 
no adro duma egreja existe uma estatua de anmial suino, que é bem 
conhecida pelo nome de Porca de Murça. Em Bragança, a base do pe- 
lourinho é também uma estatua de porco, de dois metros de compri- 
mento e sessenta e cinco centímetros de largura ao meio do corpo. 
Ainda ha poucos dias tive occasião de examinar esta ultima, notando- 
Ihe na parte anterior da cabeça uma enorme depressão ou cavidade, 
cuja serventia não sei explicar. Vi também, mas de noite e muito ra- 
pidamente a porca de Murça, não podendo por isso assegurar se tem 
egual cavidade na fronte; parece-me que sim. 

Não admira pois que na ara descoberta em Castro Daire appareça 
a figura do porco, que alli foi gravada em virtude da superstição ou 
crença de propiciar a divindade a quem o monumento foi dedicado. 
O figurar no monumento o javardo não implica necessariamente (co- 
mo se tem julgado) menção de lucta com aquelle animal. 

A leitura da inscripção da face principal, que preoccupou os que 
têem descripto o monumento, é fácil em meu intender. Leio: Votu{m) 
Arol. Aíra) S{alulis). Voto feito a Arol. . . Ara de Salvação. 

Arol... é certamente um nome de divindade peninsular a nós 
desconhecida, como tantas outras mencionadas em inscripções, e 
que se podem vèr no Corpus. A terceira lettra doesta palavra tem 
sido considerada um d; e na verdade é muito pouco curva na parte 
esquerda, parecendo effecti vãmente a haste vertical do D. Apezar do 
detido exame feito no original e em fidelíssimos calcos tirados por mim 
em chumbo e papel, não posso decidir-me abertamente pelo D ou pelo 
O. Todavia, considerando bem quanta a rudeza da escriptura, ponde- 
rando que a lettra seguinte é sem duvida um L fazendo com todas as 
probabilidades parte integrante da palavra, e que por tanto daria (no 
caso de d) a ligação descommunal d l, inadmissível sem similar, es- 
tou convencido, em quanto não apparecer exemplo com que se com- 
pare, de que a palavra é Arol. . . e não Ardi. Os que tiverem relu- 
ctancia em acceitar esta leitura, por causa da incorrecta forma do o, 
6 adduzirem para comparação o redondo o de v O T v, ponham em 
parallelo os dois v v d'esta ultima palavra, os dois A A (um sem tra- 
vessa), e attenlem na configuração geral das lettras, o que tudo lhes 
dirá que, sem termo de comparação, não se pode decidir se o abri- 
dor quiz representar o D ou o o. 

Quanto á inscripção lateral, direi que é para mim um perfeito 
enigma. Na supposição de que a ara fora effectivamente dedicada a 

1 Cf. L. de Vasconcellos, Tradições populares de Portugal, e Ad. Coellio, Re- 
vista de Etimologia. 



E HISTÓRICA o7 



uma divindade em consequência do [)erigo que alguém correra na 
caça ou encontro d'um javali (jue conseguira matar, occorreu-ine que 
a leitura seiúa A P k A !•: • 'lX.s7/y;r/-,s7t'.sj ; mas no estado actual do meu 
estudo também considero de todo o ponto inadmissivel tal interpreta- 
ção. Antes me inclino, por motivo de exemplos, a que algumas d'a(piel- 
las leltras (senão todas) são as iniciacs dos nomes do dedicador da 
ara. Aijuellas seis leltras prestam-se a muitas combinações e irUer- 
pretações, d"entre as quaes raras serão acceitaveis. E caso de repetir: 
«posso dizer o que não é; mas não posso dizer o que é». 

O que torna mais interessante este pequeno momimento, além do 
nome de divindade nelle mencionado, é o ser mais um documento re- 
lativo á importância cultual do porco entre alguns dos antigos babi- 
tanles da peninsúla pyrenaica. 

Março 1887. 

BOUGES DE FlGLi:UUiDO. 



NUMISMÁTICA PORTUGUEZA 
D. Sauclio II 

Não está ainda hoje averiguado nem é muito provável que com 
precisão se possa determinar no futuro, qual foi o systema monetário 
e quaes as vaiiedades de moeda que foram cunhadas no reinado do 
infeliz monarcha D. Sancho II, depois dos incansáveis exforços sem re- 
sultado ellicaz feitos pelo sr. Alexandre Herculano, nas suas cuidado- 
sas investigações para a Historia de Porlugal. e das pesquizas feitas 
anteriormente por Viterbo para o seu Elucidário. 

Ambos referem documentos e leis onde vêem mencionados os no- 
mes de algumas moedas correntes neste reinado, mas todos estes 
subsidies são insuíTicientes para se formar um critério exacto das moe- 
das fabricadas e do systema monetário de Portugal desde [•2.XÍ até 
1248 anuo em que, exilado em Toledo, falleceu D. Sanlio II. 

Sabe-se que D. Aífonso I ou por gratidão ao metropolitano de 
Braga, que lhe prestou auxilio na guerra contra sua mãe D. Thereza 
ou para conquistar as boas graças e favor do clero, que então coroava 
e deslhronava os monarchas, D. Alfonso I concedeu á Sé metropolitana 
de Braga, o privilegio perpetuo, da fabricação de moeda, e dos respe- 
ctivos proventos de senhoriagem, no anuo de 1128. Comtudo, parece 
que D. Aífonso lambem mandou cunhar moedas apezar de ter, segun- 
do Viterbo, abdicado aquelle direito na Sé de Braga. 

Leva-nos a esta supposição a variedade de moedas com o seu nome, 
e que pela fabricação não podem ser de nenhum dos Affonsos seus 
descendentes. 



58 REVISTA ARCHEOLOGICA 



Segundo diz Vilerbo no seu Elucidário tom. 2." pag. 144 em 26 
de dezembro de 1238. chegaram a um accordo em Guimarães, sobre 
a cedência do privilegio anteriormente feito á Sé de Braga, D. San- 
cho 11. o arcebispo e o cabido d"esta Sé. 

Isto quer dizer apenas que não foi revogado o privilegio ou que, 
se o foi, D. Sancho 11 o restabeleceu. O que parece, porém, é que 
D. Sancho reagni contra a abdicação dos seus direitos sobre a fabrica- 
ção de moeda e que foi preciso o accordo de Guimarães para a Sé de 
Braga continuar no usofructo desta prebenda. Se o conservou ou res- 
tabeleceu é claro que a Sé de Braga continuou fabricando moedas. 

Não se distinguem duma maneira irrecusável os cimlios que per- 
tenceram a D. Sancho II e os que pertenceram ao seu avô D. Sancho I. 
Mas este facto ainda tira talvez a sua explicação de ter sido a mesma 
Sé de Braga que fabricou a moeda num e noutro remado, que foram 
próximos um do outro e interrompidos apenas pelos 12 ânuos do rei- 
nado de D. Affonso 11. E embora os cunhos não fossem eguaes, eram 
eguaes as legendas porque o nome do monarcha era o mesmo. 

Viterbo no tom. 1." pag. 38, 174 e 332 diz que Affonso II e D. 
Sancho 11 usaram do seu numero. Em nenhuns sellos nem moedas' 
se encontram as indicações dos números destes monarchas, o que 
ainda até certo ponto nos explica o facto de ser a Sé de Braga que 
fabricava a moeda, e que pela rotina e pela não reflexão sobre a conve- 
niência de distinguir os dois monarchas homonymos, ia apenas fazen- 
do modificações nos cunhos, augmentando o numero dos escudos de 1 
para 4 e 5, mas diminuindo-lhes os tamanhos visto conservar-se apro- 
ximadamente egual o diâmetro das moedas do mesmo nome e valor. 
Em cada novo cunho era copiada fielmente a legenda. 

É talvez por este motivo que o sr. Teixeira de Aragão, na impos- 
sibilidade de assignalar por documentos históricos as moedas que 
pertenceram a D. Sancho I e a D. Sancho 11, dá ao primeiro reinado 
as moedas que tem um só escudo grande, e ao segundo as que tem 
quatro e cinco escudeles. 

É uma maneira racional de fazer a distribuição entre os dois rei- 
nados até que um dia esie ponto, embora seja pouco provável, possa 
ser rectifii'ado por dociiiiieiitos que se encontrem e que ilhminem as 
duvidas com que luctam todos os ruunismatas na classificação de 
moedas com a legenda de D. Sancho. 

O consciencioso numismata Lopes Fernandes conheceu apenas cinco 
typos de moedas de bilhão com o nome de D. Sancho, as quaes se não 
atreveu a classificar. 

Estes cinco typos vêem descriplos pelo sr. Teixeira de Aragão na 
est. 11, tom 1.'' da sua obra (^ Descri pção geral e liisloria das moedas 
cunhadas com o nome dos reis, regerdes e governadores de Portngah, 
com os n.°^ 2 e 3 do reinado de D. Sancho I e com os n.°^ 1, 3 e 4 
do reinado de D. Sancho 11; havendo no 4." uma pequena differença 



E HISTÓRICA 39 



que consiste em ler os cinco escndeles da mnedn indicudn pelo sr. Ara- 
gão iHTia arriieila no centro de cada escndete. É até possível ()iie não 
existisse essa diíTerença e que apenas a moeda de Lopes Fernandes 
estivesse menos clara. 

Este escriptor diz qiie os dois typos que elle prinx^iro mf^nciona, 
6 que são os n."^ 2 de U. Saiiclid 1 e 1 de D. Siiiiciío 11 conldiine a 
referencia que fizemos ao livro do sr. Aragão, llie parece pertence- 
rem a U. Sancho I, por serem os lypos ujais grosseiros. 

Como os leitores poderão ver na obra do sr. Aragão este dislinc- 
to ntniiismala classificou de Sancho II ii.° 1 a moeda (|ue Lopes Fer- 
nandes attiibuia a IJ. Sancho I, e de Sancho 1 como o n." IJ a que Lo- 
pes Fernandes attribuia a Sancho IL 

Os outros Ires ty[)os rpie o sr. Aragão apresenta no reinado de 
Sancho II não foram cotdiecidos por Lopes Fernandes. 

Ucfcrimo-nos já á classificação racional feita pelo sr. Aragão at- 
tribuindo as moedas de bilhão d um escudo a D. Sancho I e as de 4 
e 5 escudetes a I). Sancho II. 

Acceitamos esta classificação, mas vamos mais longe. Para isto 
basta confrontar as moedas dos dois reinados. Estudaíido as, vè-se que 
as primeiras seriam de facto as dum escudo grande, e (|ue de|)ois, 
em modificações successivas as moedas passariam a ter qualio escude- 
tes e finalmente cinco. 

Mas ainda neste ponto não consistiram somente as modificações; 
e isso não refere o sr. Aragão attenla a (U"dein que dá ás moedas de 
D. Sancho II e á mealha que sob o n." 4, inserta no te.\to, atlribue a 
D. Sancho L 

Em seguida ás moedas dos escudos grandes, deviam ter sido fabri- 
cadas as dos (juatro escudetes, a chfio como no n." 2 de U. Suncho II, 
e n." 4 de D. Sancho L descriplo no texio, com a denominação de mea- 
lha: seguindo-se a do n.° I de Sancho II, depois a do n.° :\ do mesmo 
reinado, já com os 4 escudetes (como lhe chamamos) vnsadofi, seguin- 
do-se a do n." O com cinco escudetes vasa(lo< e a cruz floreada e can- 
tonada por dois pontos: depois ainda a do n."o com reverso mais orna- 
mentado, porque a cruz é cantonada por i rosetas em logar de 2 pon- 
tos, como se encontra na do n.° G: e finalmente a do n.° 4 em tjue os 5 
escudetes além de vasados. tem cada um no centro uma airiiella ou 
ponto, o que indica a leniiem-ia para os cinco pontos. í]ue tiveram todos 
os cinco escudetes do reinado seguinte de AíTonso 111, e que continua- 
ram a ser ornamentação das* moedas e sellos nos outros reinados, e 
que D. Fernando, ciicumscreveu mais lanh; por um escudo gramle e 
encimou d urna coroa real, form;mdo o distinclivo ipie [lassúu. com pe- 
quenas alterações de forma, a todos os nossos munarchas como symbolo 
da realeza. 

Portanto entre as moedas de um escudo e as de escudetes ra.sarfos 
mesmo sem os pontos houve indubitavelmente uma transicção re[)re- 



60 REVISTA AUCHEOLOGICA 

sentada pela dos esciidetes a cheio qne progressivamente passaram do 
numero de quatro a cinco. 

Se esta transicção fez parte do fim do reinado de D. Sancho I ou 
principio do de D. Sancho II não o podemos dizer, mas acompanha- 
mos Lopes Fernandes que allribuiu estas moedas pela sua fabricação 
a D. Sancho I. 

Assim, a ordem que dariamos ás moedas descriptas pelo sr. Ara- 
gão, relativas aos dois Sanchos, se nos permiltisse esta liberdade a 
consideração (jue sentimos por este illustre numismata, seria : 

D. Sancho I, n.°* 1, 2, 3, como se acha na est. 11, accrescentados 
com os n.°^ 4 e 5 que seriam os n.° 2 e 1 que se encontram na mesma 
estampa como pertencendo a D. Sancho II; e a este monarcha daria- 
mos os n.°^ 3, O, 5 e 4, que segundo o nosso modo de ver é a ordem 
chronologica da fabricação das moedas neste ultimo reinado. 

Possuimos, porém, uma moeda que pelo seu cunho collocamos en- 
tre os n.°^ 3 e (5 da serie que vimos de referir relativa a D. San- 
cho II. 

Esta moeda é no anverso perfeitamente egual á do n.° 3 de D. San- 
cho II (sr. Arag.. est. II). No reverso é que difere em ter a cruz can- 
tonada por quatro crescentes ou meias luas, com as convexidades vol- 
tadas para o eixo da cruz (est. ix). 

REX SANCll — Quatro escudetes vasados, formando cniz, den- 
tro de um circulo; por fora d"este a legenda, 

í^ PO-RT-VG-AL- — Cruz simples cortando a legenda, e se- 
parando duas leltras em cada quadrante; no meio um circulo e dentro 
d'esle e em cada quadrante um crescente com a convexidade voltada 
para o eixo da cruz. 

Esta moeda se não é um typo completamente novo, é comtudo 
uma variante importante e que vem esclarecer um pouco o reinado de 
D. Sancho II. 

M. Alexandre de Sousa. 



CONSTITUIÇÕES DO ARCEBISPADO DE LISBOA 
Decretadas por D. João Esteves (I'Azambuja (1402-1414) 

[Continuado de pag. 31) 

.0 Item como quer que os santos cânones mandem que os priores 
Reylores e Vigairos perpétuos raçoeyros e outros beneliciiados façam 



E HISTÓRICA 61 



rresidencia persoall em suas egreias e beneficiios assy como deiiem e 
sam tliiu(Jos e nom perteence ao !)eneficiiado aalcm de Ires doinaas au- 
senta rsse do seu hen(!Íicio em pêro muylos Irespassedores da vonta- 
de dos ditos santos cânones e coslitni(;r)es se nam contentam nem 
querem e menos prezam fazísr rresidencia nos ditos seus beneficiios pella 
quall razom o culto e diuino oliciio he migoado e se seguem nniilos pe- 
riigos das almas e grau dapno e perda e deti'imento das egreias, po- 
rem estabellecemose mandamos que todos e cada huos priores e Rey- 
tores e vigairos perpétuos e rraçoeiros e outros beneficiados das 
egreias da dita cidade e arcebispado trabalbem e procurem fazer Re- 
sidência pessoal contbinuadamenle cada liuum em sua egreia e beneficio 
saluo sse per alguma guisa sejam ou forem priuilligiados ou da nossa 
licença sejam ao presente ou forem ao depois \)ov algua Hazam escu- 
sados por alguum tempo da dita rresidencia e se alguns dos ditos be- 
nefiiciados sam absentes dos ditos beneficiios por tall que se tornem a 
fazer e contbinuam aa dita rresidencia damos dons messes despaços 
aquelles que estam no senhorio de purtngall e aaos outros (jue sam 
absentes fora do dito senhorio seis meses o quall espaço lhe asinamos 
por termo perentorio a que uenham fazer rresidencia nos ditos bene- 
fícios e sse ao dito termo ou tempo nom uieerem nos de sentença cu- 
raremos de proueer ou curaremos de fazer que seja proueudo aas di- 
tas egreias rraçõoes e beneficiios daquelles que rrecusarem de viir 
fazer a dita rresidencia a pesoas ydonias que ellas siruam e façam 
rresidencia assy como os direitos querem e mandam. 

IO Item hordenamos que postoque os priores e vigairos tenham 
cura e encarrego das aimas tenham de nos ou de nossos vigários li- 
cença pêra sse absentarem dos seus beneficios que notn enbaigandoa 
dita licença sejam thiudos de fazer residência em ellas na coreesma e 
conpeçarem (sic) na primeira somana e estarem hy atee que todos seus 
freegueses sejam confessados e nom ho fazendo elles asy que a licen- 
ça que teverem seja rrevogada e demais que dem por penna pêra a fa- 
brica da egreia huum marco de prata. 

11. Item porquanto muitos creligos estranhos e nom conhicidos 
doutras cidades e arcebispados e bispados dos quaaes alguuns asy 
como enfames ou criminosos fogem dos próprios luguares donde sam 
naturaaes e chegam ameude a dita cidade e arcebispado e sem seen- 
do examinados ante como denem seer esso medes sem nossa licença 
ante auuda presumem de dizer e cellebrar missas aos quaaes creligos 
estranhos nom devem de lligeyro creer que sam iiordenados e proueu- 
dos aas hordens sacras posto que o afirmem per seu próprio juramen- 
to porem por tirar e auitar muitos periigos que se desto seguem es- 
tabelleçemos que os creligos das cidades e arcebispados e bispados 
alheos nom sejam rreçibidos pêra cellebrar ssem nossas leiras e car- 
tas pubricainente nas egreias da dita cidade e arcebispado pêro que- 
rendo os ditos creligos cellebrar secretamente que lhes dem lugar pe- 



62 BEVISTA AKCIIEOLOGICA 

ra poderem fazer por três dias e mais nora esso meesmo deíTende- 
mos t|iie iienhiiiins creligos da dila rjdjide e arcebispado ou bispado 
a lhes iiom presumam dizer nem cellebrar missa sem nossa licença es- 
piciall em oratórios [trinados ou em casas de leygos que nom ajam li- 
cença do |)adie sanlo ou nossa pêra peta (síc) alleuanlar aliar em que 
se diga missa e os creligos que o conlrayio fezerem sejam presos em 
quanU) for nossa merçee e dos nossos soçesores e de mais o que fo- 
rem das cidades e arcebispados e bispados alheos de hy em diante ja- 
mais nunca sejam rrtçebidos em dila nossa cidade e arcebispado pê- 
ra cellebrar os diuinos oíiciios e esso medes defendemos de todo em 
lodo (pie liuus monges e conigos rreganles {sic) e quaaes outros Rel- 
ligosos {sic) das ditas ci.iades e bispados alheos aos quaaes a clautra 
(m) avia de seer vida prazer e sollar nom sejam rrecebidos aalem de 
três dias pêra cellebiar os diuinos oíiciios na dila nossa cidade e ar- 
çebi>padu e os priores Reitores vigários rraçoeyros que os rrecebe- 
ren aalem do dito lenpo asabendas nas ditas suas egreias contra es- 
ta nossa constilnição sejam presos alee nossa mercee e os thisourey- 
ros que llies derem calez e velimenla percam os sallayros que aviam 
dauer aijuelle anno das egreias e demais sejam punidos assy como 
nos e os arçebis()os que pello tempo forem virem que he aguisado. 

12. liem querendo nos e desejando miiilo de iremover e lirar a 
famihaiidade ou participação doestada e e (sic) auorreçida a qual! al- 
guns nom boos xpaaos e x|)taas nom aborrecem nem ham uergonha 
de fazer com os judeus e com os mouros em doesto da santa ffe ca- 
tollica e grane escandallo dos xpaaos em dapno e dispêndio das suas 
almas slabelleçendo defendemos que os xpaaos nom moriem nem pre- 
sumam de morar com os judeus e mouros em suas casas pêra os 
seruireni conlhinuadamenle nem curem as xpaas os íillios delles em 
as casas delles nem foia delias nem vaao as vodas dos judeus e mou- 
ros nem os conuidem os xpaaos pêra suas casas. 

13. Item como quer que assy seja que os judeus na judaria e os 
mouros na mouraria denam de morar apaslados dos xpaaos pêro 
muitos delles ahigam e alquiam moradas e casas anlre os xpaaos e 
anire ellos moram em ollas e o que pior he muitos xpaaos mouidos 
per cohiiça por (pie lhes dem maiores preços que os xpaaos lhes alu- 
gam suas casas e alguns xpaaos e xpaas moram e presumam de morar 
nas jiidai ias e mourarias das ((/^íff(?i) cousas se geera grande escandallo 
aos outros xpaaos e aos que o fazem se segue grande periigo dijs al- 
mas porem (pierendo nos rremediar e tirar os ditos escandallos e pe- 
riigo> dereiídemos que onde ouner jiidarias e mourarias apartadas que 
os xjiaaos lhes nom aluguem as casas (pie teiierem fora delias pêra 
em ellas morarem nem façam as sobreditas cousas todas e cada bua 
delias e (|uaaesqner xpaaos ou xpaas que o conlrayro das sobreditas 
cousas ou cada bua delias fezerem poemos em elles ou em cada hnum 
delles sentença de excummunhom da quall nom sejam asollulos saluo 



E HISTÓRICA G3 



satisfazendo primeiro do nosso mandado ou no ailifío da morte pêra 
aqiielles que os confessarem e se nos lugares unúc. noni ouuer jiida- 
rias ou niourarias apartadas onde os judeus e mouros viuerem íinlre 
os xpaaos, inand;unos que lhes nom coíiseiilam (jue em praça nos dias 
do domingo e festas que sejam de gardar de títda obra laurem nem 
liusem dos seus mesteres e ollicios nem cozam neui assem nem comam 
carne em pnbrico em na coresma e sestas feyras e em nos oulios que 
os x[)aai s sam lliiudos de jejuar e nom comam cai'ne e se o contra- 
rio fezerem os ditos judeus ou mouros que assy viuerem antre os xpaaos 
nos lugares onde nom teuerem judarias e niourarias aj)artadas man- 
damos aos priores das egreias em cujas freguisias se eslo fezer que 
da parte de deos re(]ueyram as justiças dos lugares que lho nom con- 
sentam e que mandem a seos fregueses sobre pena de excommu- 
nliom (pie nom partici[)em com os que o assy fezerem e os escu- 
munguem de facto sse neçesario llbr e os que sse nom quiserem cas- 
tigar da participaçam dos sobre ditos judeos ou mouros que em os 
dias e fesstas laurarem em praça ou cozerem ou asarem ou come- 
rem carne em os dias que os xpaaos deuem jejuar.» 

14. Item porquanto aquelles que querem citar ou demandar deuem- 
nos citar perante ho juiz de seu oiiciio e esso medes os juizes que 
ham jurdiçam e teem vara e poderio de julgar deuem husar da sua 
jurdiçam iam somente em aquelles quasos que sam da sua jurdiçam 
nas cousas delles, porem estabelleçemos e mandamos que todos assy 
clérigos como leygos que presumirem de citar e demandar e trazer os 
clérigos contra a liberdade da egreia perante os juizes saguaes (57c) 
era os casos de que a nos pertence o conhicimento e de que nos e nossos 
antecessores steuermos em posse de conhecer ou conira outra pessoa 
ecciesiastica ou tomarem os bees dos ditos clérigos assy ecciesiasticos 
como profanos e mundanos oucupar e tomar fezerem per |)0(lerio 
leygall ou per sua autoridade própria por que nos somos prestes fazer 
conprimento de direito e de justiça a cadahuum de taes clérigos e beens 
Anemos e maiidamos que os que o conlrayro fezerem e contra o que 
dito he forem preseuerando alem de três em demandar os ditos creli- 
gos e rrelligiosos depois que allegarem (]ue sam laaes pessoas e o pro- 
uarem por seer notório ou per outra maneira que ipso facio encorram 
em sentença de excummuidiom e ejam excnumouigados ademos 
ainda mais e defendemos que os alquaydes algaziis jí//zes moidomos 
ou oulios quaesquer oíiiciaaes ou seos homens se nan» trenielam nem 
persumam de sse tremeter de castigar nem punir nem corrcger os ex- 
cessos dos creligos rreligios(JS a nos súbditos contra os sanids cânones 
em prejuízo da liberdade ecciesiastica e esso medes defendemos que 
nom penhorem os creligos nem façam penhoras nem os encimtem 
nem tomem nem ocupem nem façam ocupar nem tomar os beens del- 
les nem mandem prensar em as casas dos creligos de hordens sacras 
ou beneíiciiados que de tall encarrego segundo direito sam excusados 



64 REVISTA ARCHEOLOGICA 

saluo se esto se fezer onde elRei for e per seu espiciall mandado e 
quaaesqner qne o contrayro fezerem ipso facto encorram em sentença 
de excommunliom. 

(Continm). 

INSCRIPÇÃO CHRISTÃ DESCOBERTA EM MERTOLA 

O meuillustre amigo o sr. Prof. Iliibner, que já se dignou honrar 
as paginas desta Revista, communicou-me ha pouco uma inscripção 
que um amigo liie enviara de Mertola. Esta inscripção, até hoje iné- 
dita, está esculpida numa lapide de mármore, ait. {""jáO, larg. 0'",48. 

(o texto entre duas pi- 
lastras) 

P SIMPLICIVS SÍ777plichis I pr{es)b{yteru)s fainii \ lus 

p p T) c A "p A M V ^^' vixit I an{i20s) LVIIII \ requievit in \ 

ç^ , „ pace d{omi)ni die \ VIII kal{eijdas) se- 

ATv-rj.xTTTTTT^ ptci}! 1 òfes evã I DLXXV. 

SRKyVliiVliiiN Q presbytero Simplício, servo de Deus, 

rACii UlNivJJ viveu cincoenta e cinco annos. Descançou 

VIII KAL SEPTEM na paz do Senhor a 25 de agosto de 537. 

B R E S * E R A era 575 
dLXXV * p. C. 537 

«Estes textos do século vi — diz o sábio epigraphista — são muito 
curiosos; o presente tem o mérito de dar pela primeira vez, segundo 
parece, a abreviatura p rb S (por prb ou p r s B T), equivalente 
a prrsbfj.terus por preshyler, que é a forma regular. Mas presbj/tenis é 
o antecedente, em baixo latim, de presbytero, que é a forma da pala- 
vra nas linguas românicas.» 

Esta inscrijição é uma das mais antigas que, da época christã, se 
téem encontrado em Portugal. 

Do fac-simile, que se vê na estampa ix, reproduzido duma photo- 
graphia devida á obsequiosidade do sr. João Zink, residente perto de 
Mt^rtola, verá o leitor a forma e disposição dos caracteres da inscri- 
pção, que a composição typographica não poude reproduzir- 

Borges de FicuEmEDO. 



E HISTOKICA 



OS DIAS EGYPCIOS 

Não me proponho Iraclar o assumpto, que daria para um volume, 
da historia da superstição conhecida pehi designarão de dias aziagos, 
dias egypcios, ele: contento-me com dar a lume algumas notas lo- 
madasno curso das minhas leituras á busca de dados para outros es- 
tudos de maior interesse para mim. 



«Ha já bastantes annos achei os restos de uma superstição no Mi- 
nho, de que lenho eml>;d(le buscado hoje descobrir signaes, e que me 
parece seria oiiiinda dessa defe/.a entre os romanos de casarem du- 
rante as festas [)arentaes. Tinha-se por um agoiro lerrivel casar nuns 
certos Ires dias do mez de fevereiro; mas haviam esquecido quaes 
eram esses dias. e por isso as famílias mais precatadas não consen- 
tiam que alguns dos seus casasse dentro do dito mez, com medo de 
que fossem topar com os malfadados dias. Eu já algures fallei d'esta 
superstição, (]ue tem caido no esquecimento.» D. Maria Peregiina de 
Sousa. Nota 30 aos FílHus d Ovídio, traducção de A. Feliciano de Cas- 
tilho, liv. iij, tomo I, p. 377 s. 

É evidente nessa tradição um vestígio da superstição semi-popu- 
lar dos dias aziagos dos mezes e do anno. 



«Pronoslico dos dias críticos de cada hum anno segundo os Astró- 
logos, e tem 31 dias. 

As pessoas que enfermarem em estes laes dias tarde se levanta- 
rão, e se sararem será com mais trabalho, e em os taes dias se ca- 
sarem não viverão mais tempo casadas, nem será leal sua molher, nem 
se quererão bem, e quem comessar caminho de sua caza para outra 
terra negociará mal, e irá com perigo que lhe succedão desastres em 
pessoa, ou fazenda, e nos taes dias lodo o tratto de comprar e ven- 
der succedem muito mal. 

Os dias criticos são os seguintes: 

15—20 



Janeiro 


tem sette dias 


1-2-3-0-11 


Fevereiro 


tem Ires dias 


1 -7-8 


Março 


tem quatro dias 


15—10—17—18 


Abril ' 


tem dous dias 


7—15 


Mayo 


tem Ires dias 


2—7—20 


Junho 


tem hum dia 


6 


Julho 


tem dois dias 


13—15 


Agosto 


tem dous dias 


18-20 



Rev. Arch. e Hist., I, N.o 5 — Maio 1887. 



66 REVISTA ARCHEOLOGICA 

Setembro tem dous dias 13—20 

Outubro tem dons dias G -7 

Novembro tem dous dias 13 — 17 

Dezembro tem dous dias 6 — 7. 

Como estes taes dias ba três muito mais preversos, que são o de 
13 de Outubro, e de 18 de Setembro, e de 18 de Agosto. Também 
ha três segundas feiras muito perigozas para os que tem Iratto com 
molberes a meyas. A primeira segunda feira de Abril, em a qual se 
perderão as cidades de Sodoma e Gomorra e guardesse em tal dia de 
atlos dezonestos com molheres. E a primeira segunda feira de Agos- 
to: porque em tal dia nasceo Caym: a terceira segunda feira he a pri- 
meira de Setembro porque em tal dia nasceu Judas Scarioth, o qual 
commetteu a mayor maldade que se ha visto em o Mundo, pois ven- 
deo a Christo Nosso Senhor.» Obras varias, mss. Bibl. Nac. de Lis- 
boa. E— 3— 29, foi. G7. 

3. 

As obras da edade media offereccm numerosas provas da crença 
nos dias perigosos. Paul Meyer communicou no Jahrbuch fúr roma- 
msche niiá enijUsche Literatur, vii, 49—31, e na Bomania, vi, 4 — 6, 
extractos de calendários medievaes com a indicação dos dias egypdos 
ou aziagos. O sábio romanista envia o leitor para a memoria de M. J. 
Loiseleur, Lcs joiírs cgyptiejis. leurs varialions dans les calendriers dii 
moijen-áge. Mem. de la Soe. des Antiq. de France, t. xxxiii, 1873. 

Eis um dos referidos extractos {Jahrbuch, vii, 49 — 30): 

«Les mestres ky cest arl cumtrouverent et anumbrerent les mau- 
ves jours et les perilous qui sunt en Tan; et ki unkes en nul de ces 
jours en enfermeté cherra, ja ne resourda; et qui veage emprendra 
ja ne retournera, et qui besogne emprendra ja bien ne chevira, et qui 
femme espousera, hastivement departirunt et ensemble en doulour 
vivrunt; c'est à savoir xunj. jour par an, c'est à savoir: 

En .Tenvier sunt vij : le premier, le secund, le quart, le quint, le 
dime, le sesime, le disenouvisme. 

En Fevrier, le tiers, le sesime, le diseutime. 

En Ahirs, le tiers, le quinsime, le sesime, le diseutime. 

En Avril, le secunt, le sime, le unsime. 

En Mai, le quart, le setime, le quinsime, le sesime, le vintime. 

En .luing, le secunt, le quart, le setime. 

En Juil, le secunt, le sesime, le disenouvime. 

En Aoust, le secunt, le disenovime, le vintime. 

En Septembre, le secunt, le sesime, le diseutime. 

En Octembre, le secunt, le quart, le sime. 



E HISTÓRICA 67 



En Novembre, le secunt, le quinsime, le vintime. 

En Decembrc, le tiers, le quart, le sime, le qninsime. 

De ces jours se gard chascun sage hornme, si lera que sage.» 

Um livro francez Ij I)ra;jon rou{/e ^ oíTerece a p. 89 uma Table 
des jours hcureu.r et malheurcnx, em que os últimos divergem bastante 
dos indicados nas passagens transcriptas. 



«Ainda se encontram em uso, mas raramente os calendários per- 
pétuos que indicam, por exemplo, para cada mez os dias infelizes: 
Janeiro I. "1. \\. 4. 6. II. 1:2.; Fevereiro 1. 17. 18.; Marco 14. 16.; 
Abril 10. 17. IT).; Maio 7. S.: Junho 17.; Julho 17. 21.; Agosto 20. 
21.; Septembro 10. 18.; Oulubio 0.; Novembro 6. 10.; Dezembro 6. 
11. 15.» Volksthãmlic/ies aus Sonnenherg in Meiniger Obeiiande von 
August Schleicher. Weimar, 1858, 4.°, p. 140. 

5. 

«Ha no anno 42 dias reprovados. São: 

O 1.2. 6. 17. 18. de Janeiro. 
O 8. 16. 17. de Fevereiro. 

O 3. 12. 1.3. 15. de Março. 
O 1. 3. 15. 17. 18.de Abril. 
O 8. 10. 17. 30. de Maio. 
1.7. de Junho. 

O 1. 5. 6. de Julho. 

O 1. 3. 17. 20. de Agosto. 
O 1. 2. 15. 30. de Septembro. 
O 11. 17. de Novembro- 

O 1. 7. 11. de Dezembro. 

Crê-se com relação a estes três dias: 

1. Toda a creança que nascer num destes dias, ou não viverá 
muito tempo ou será ^perseguido por pobreza e desgraça. 

2. Os que casam num destes dias, ou se separam em breve ou 
vivem em contenda. 

3. Quem se melte a caminho num d'estes dias, padecerá damno 
ou no corpo ou na fazenda. 

4. Não se deve em nenhum d'estes dias começar construcção, atre- 

1 Paris, Chez tous les Libraires, 1838, peq. in-lS." 



68 REVISTA ARCHEOLOGICA 

lar gado novo, que deva ficar para criação, nem semear ou plantar. 
A tudo o que se começar sobrevirá desgraça. 

Entre os mencionados 42 dias lia cinco particularmente infelizes, 
a saber: o 3. de Março, o 17. dAgosto, o 1. 2. e ÍJO de Se[)tembro. 
lia também três dias em que nenhum homem deve sangrar-se, por- 
que se alguém o faz morre necessariamente dentro de oito dias. Es- 
ses dias são: o 1. dAbril, em que nasceu o vermelho Judas; o \. 
d'Agosto, em que o diabo foi lançado no inferno, e o 1. de Dezembro 
em que foram arrasadas Sodoma e Gomorrha.— As creanças que nas- 
cerem num destes dias raro vingarão e morrerão de má morte.» Sit- 
ten, Biàiuiche und Meinungen cies Tirolers Volkes. Gesammelt und he- 
rausgegeben vou Ignaz v. Zingerle. Innsbruck, 1871, S.°, p. 200-201. 

C. 

Nas Observations on the popular Antiquities of Great Britam, de 
John Brand, vol. ii, 44-51 (ed. 1875) ha muitos dados relativos aos 
dias aziagos. 

«No calendário prefixado ao resumo da Chronica de Graflen (1365) 
os dias aziagos são conforme á opinião dos astrólogos: Janeiro, 1, 2, 
4, 5, 10, 15, 47, 29 muito aziagos. Fevereiro 26, 27, 28 aziagos; 8, 
10, 17 muito aziagos. Março 16, 17, 20 muito aziagos. Abril 7, 8, 
10, 20, aziagos; 16, 21 muito aziagos. Maio, 3, 6 aziagos; 7, 15, 20 
muito aziagos. Junho 10, 22, aziagos; 4, 8 muito aziagos. Julho 15, 
21 muito aziagos. Agosto 1, 29, 30 aziagos; 19, 20 muito aziagos. 
Septembro 2, 4, 21, 23 aziagos; 6, 7 muito aziagos. Outubro 4, 16, 
24 aziagos; 6 muito aziago. Novembro 5, 6. 29, 30 aziagos; 15, 20 
muito aziagos. Dezembro 15, 22 aziagos; 6, 7, 9 muito aziagos.» 
Brand, 1. c. p. 48. 

Do mesmo modo que com relação a esses dias aziagos havia di- 
vergência mais ou menos considerável, assim não se chegou a accor- 
do com relação aos três dias mais perigosos do anuo 

Nos Preceitos deixados por Lord Burghley ao seu filho (1636) es- 
ses três dias terríveis são: 1. A primeira segunda feira d'Abril, dia 
em que Cuiui nasceu e seu irmão Abel foi assassinado. 2. A segunda 
feira d'Agosto, dia em que Sodoma e Gomorrha foram destruídas. 3. 
A ultima segunda feira de Dezembro, dia cm que nasceu Judas, que 
foi traidor de Nosso Senhor. Brand., I. c. 



Um livro de circulação popular na Ciiina Meridional, chamado 
hwanfj-li-lHng-slíH, dá um largo catalogo dos dias propícios c perigo- 
sos. Dennys, IVie Folk-lore of China, p. 29-31, onde se acha um ex- 
tracto. 



E HISTOKICA 00 



8. 

A seguinte nota (rum livro muito interessante * para os folkloris- 
tas, mas coniiecido apenas d um ou outro d'enlre elles, dá-nos noticia 
da tradição na Índia : 

«If the 12'!' day of tlie Mon's a.í^e fali on a Sunday, the in'' on a 
Monday, the 5"' on a Tuesday, the ii'"' on a Wednesday, the O"' on a 
Tbursday, lhe 8i'i on a Friday, lhe O^'' on a Saturday, Ihese days are 
accounted uniucky. On the contrary, if the H''' fali on a Simday, lhe 
9^'' on a Monday, lhe O"' on a Tuesday. the 3'"'' on a Wednesday, 
the Qt'» on a Thursday, tlie i:{'i' on a Friday, the 14"' on a Saturday, 
Ihese days are esteemed lucky. In general, the \^^ day of lhe moon's 
age, the 4t'', fit"', lhe SHi, lhe OH», the 11^1», lhe líáf', lhe 14tii and 
lhe 13'!» are esteemed uniucky, uniess Iheir ill luck be corrected by 
the day of lhe week according to the above table. On the contrary 
the 2'i«^i, lhe :'A, the 7t'', the ÍOfi and the i;i"i are esteemed lucky.» 
T/ie Adcenturcs of the Gooroo Par amar Um: A Tale in the TamuI Lan- 
guage; accompanied by a Translation and Vocabulary, logether wilh 
an Analysis of the first Slory. By Benjamin Babington, of the Madras 
Civil Service. London, J. xM. Riciíardson, i3, Coríihill, 18iJ2, 4.°, xii 
243 pp. Nota * a p. 82. 

9. 

Cerca de Ires annos depois de estar escripto o que precede, foi 
publicado na Revista do Minho, t. i, p. 80 (1885) o seguinte, transcri- 
plo (segundo o articulista) dum caderno copiado por um homem do 
povo da Ilha de S. Miguel: 

Memoria dos dias do ãno projndiciaes, para comprar, vender, via- 
jar, cazar, mudar de caza, ele. 

«Três dias ha no ãno horrives e venenosos que são: a primeira 
segunda feira de Abril, porque nella morreu Judas; a primeira se- 
gunda feira de Agosto, porque nella matou Caim a seu irmão Abel; 
a primeira segunda feira de Novembro, porque nella foram arrasadas 
duas cidades — Sedoma e Gamorra.» 

Dias aziagos 

Janeiro é a —2, 4, M, Io, 26, 30. 
Fevereiro é a — 4, M, 15, 20, 16. 

1 Ha nello, por exemplo, uma versão da famosa facécia dos ovos de burro. 
Depois d'isto escripto saiu uma traduccão das referidas Aventuras, feita em alle- 
mão por H. Õsterley e aceompanhada de notas comparativas, no n.° i da Zeit- 
schrift fúr vergleichende Literaturgeschichfe (Out. 1886). 



70 REVISTA AUCHEOLOGICA 

Março é prefeito em todos os dias. 
Abril é a — 7, 11. 
Junho egual a março. 
Agosto é a — 23, i->9, 31. 
Setembro é a — 17, 19. 
Outubro é a — 1, G, 8. 
Novembro é a — G, 7, 11. 
Dezembro é a — 1, G. 

A tradição de que me occupo é das que não se transmittera se- 
não com o auxilio da esci'ipta ; isto explica-nos como se perdeu no 
Minho (n.° 1). A fonte d^eUa 6 erudita como a de tantas outras, que, 
apezar disso, servem a monomaniacospara reconstrucções etluiicas. 

F. Adolpho Coelho. 



AMULETO ROMANO 

Na mina de S. Domingos, próximo de Mertola, encontrou-se, quan- 
do começou o desmonte a céo aberto, um curioso amuleto, de que me 
deu noticia o meu amigo sr. João Zink. 

Este amuleto, evidentemente de fabrica romana, e que, segundo 
parece dever deduzir-se das suas dimensões, era destinado talvez 
para uso de animaes domésticos, como com outros talismans ainda 
hoje se pratica, pela sua forma geral e pelas partes que o constituem 
lorna-se grandemente notável e suggere varias considerações. As par- 
tes de que se compõe são: uma íiga e um phallus, oppostos entre si, 
outro phallus pendendo naturalmente sobre o scroto, e uma argola na 
parte superior. 

Parece á primeira vista um tiiplice amuleto; mas examinando-o 
attentamente e reíleclindo na disposição relativa das suas partes, che- 
ga-se ao convencimento de que muitos talismans quiz alli representar 
o fabricante, por meio da combinação d'a(juelles que ficam indicados. 

São muito diversos os talismans que desde as mais remotas eda- 
des se empregam como meio de defesa contra extranhas influencias. 
Distinguem- se entre elles o sig/w-saimão (signum Salomonis) ; a cniz; 
a argola; o corno de boi e o de carneiro; a nwia-laa, a mão, a follia 
de trevo, a espada (estes se encontram entre os dixes ou crepundia 
dos romanos) ; etc. 

No amuleto, que forma o objecto d'este artigo, predominam os ta- 
lismans buscados no culto phallico, de que tantos vestígios ainda hoje 
abundam por Ioda a parte, e de que tantos restam no nosso paiz, laes 
como os marcos, frades, ou picotas, os pães de S. Gonçalo (claramente 
designados em Guimarães pelo nome vulgar dos orches), as figas. xVlli 



E HISTÓRICA 71 



se vè o phnlliis ou elemento masculino, e do lado opposlo a firja ou 
elemento feminino; o primeii'0 correspondente ao paramanlha (in- 
strumento masculino), o segundo correspondenlií ao arani (instrumen- 
to feminino), cuja ÍVicção reciproca |)roduzia o fogo, meio de produ- 
cção que se comparava como acto da geração e por consequência com 
a vida. A estes dois princii)aes talismans (juiz o fabricante juntar 
ainda outro, o penis, que na parle inferior se vô sobre o scrolo. Não 
será talvez muito arriscado considerar esta parte do amuleto como 
representando o producto rcsullanlc da fecundidade syndjolisada nos 
dois elementos já mencionados. Não admira que ao conjunclo dos 
symbolos da geração se aggregasse uma representação dos órgãos ge- 
nilaes masculinos, significando um novo elemento gerador, tomado 
como emblema da producção. 

Na disposição symetrica da figa e do pliallus facilmente se reco- 
nhece que houve a intenção de representar a nieia-h(a, outro talisman 
muito antigo, que váe prender-se com o culto dos astros ou sabeisnio. 
Convém recordar a existência do culto lunar entre alguns povos da 
península, como aponta Strabão *, e advertir que numerosas supersti- 
ções populares conservam vestígios d^elle -. 

Na argola (jue encima o anmlelo, e que era indispensável para a 
suspender, vejo mais alguma coisa do que esta simples serventia. A 
argola é considerada talisman, por isso se pendura ella, com outros 
amuletos, ao pescoço das creanças. Sem entrar na averiguação e dis- 
cussão do seu symbolismo, pondero que a nimia regulaiidade da for- 
ma contribue para que eu veja naqueila argola um emblema, lendo o 
artista aproveitado alé essa parte indispensável do objecto para for- 
mar oulro symbolo, no intuito de accurauiar o maior numero possível 
de talismans. 

Ainda outra intenção parece revelar-se na configuração geral do 
amuleto. No que vou dizer não lenho o intuito de ridiculisar um ob- 
jecto ou symbolo venerado, nem a a[)proximação quti faço implica ir- 
reverência para com alguma crença. Qual([uer que seja o meu modo 
de pensar, não tenho por empreza o combater quaesquer ideias reli- 
giosas; e, quando a tal fosse obrigado por algumas circumstancias, 
não o faria nesta Revista que jamais será liça de controvérsias dogmá- 
ticas e polemicas rehgiosas, mas sim cam[)o aberto ás discussões scien- 
tiíicas conducentes ao estabelecimento ou determinação de verdades 
históricas. Creio, pois, que as diversas partes que formam este complexo 
amuleto foram dispostas com a intenção de representaiem uma cruz, 
intenção lalvez mesmo inconsciente do i)rincqjio que symbolisava, 
mas sem dúvida filha d'uma crença recebida tradicionalmente. Effe- 
ctivamente entre a configuração do amuleto e a forma da cruz 

1 Geogr. m, 1, 4. 

2 Vej. Leite de Vasconcellos, Tradições populares poríuguezas. 



72 REVISTA ARCIIEOLOGICA 

egypcia ou asada (em hieroglipho, ankh, o vivo), eaiblema da vida, ha 
uma grande correlação. E, sabido como é que a cruz {sioastika) sym- 
bolisa desde uma remotíssima edadeofogo e. por comparação dos in- 
strumentos geradores, a geração, ávida, não repugna de modo algum 
que houvesse ainda o intuito de juntar os elementos geradores de mo- 
do a representarem o principal symbolo da existência. 

São estas considerações que me suggeriu o demorado exame do 
amuleto. É natural que algumas pessoas julguem que me deixei arras- 
tar pela phantasia; mas, para essas, ponho aqui uma reflexão que não 
devem deixar de ponderar; é a seguinte: O homem, quando sob a 
influencia duma crença, tende sempre a reunir a maior somma de 
meios de defesa contra as entidades que o atlerrorisam ou que con- 
sidera simplesmente adversas; do mesmo modo que tende a accu- 
muiar todas as ideias e factos que se lhe deparam, amoldando-as ao 
principio que defende. 

Abril de 1887. 

Borges de Figueiredo. 



NIBÍISMATICA PORTUGUEZA 

D. João I 

O reinado de D. João I foi de todos os da monarchia portugueza 
talvez aquelle em que a moeda teve maior depreciação. 

Não consta, que D. João I, quer nos dezeseis mezes de regedor e 
defensor do reino, desde 5 de dezembro de 1383 dia em que matou o 
conde Andeiro privado de sua cunhada a rainha D. Leonor, até 6 de 
abril de 1385 em que foi eleito rei de Portugal nas cortes reunidas 
em Coimbra, quer desde esta data até ao hm do seu reinado, 14 de 
agosto de 1433, cunhasse moeda de ouro. Na prmieira época do seu 
reinado corriam varias moedas de ouro estrangeiras, principalmente 
a dobra cruzada, a dobra mourisca e o franco d^ouro tendo já quasi 
desapparecido as portuguezas do reinado anterior, de D. Fernando, 
denominadas dobras pé-tarra e dobras gentis por causa das grandes 
despezas feitas com a guerra, 

A moeda de prata e de cobre cunhada n'este reinado foi também 
insignificante. O sr. Teixeira de Aragão cita ^ apenas quatro moedas 
de prata cunhadas por este monarcha, sendo Ires, n.°^ 1, á e 3 do 
I vol. est. VII, cunhadas quando ainda era regente e defensor do reino, 
como accusam as legendas, isto é, entre os annos 1383 e 1383 e todas 
de prata de ÍJ dinheiros com a denominação de real, e a quarta, que é 

^ Discripruo fjn-nl e histórica das moedas cunhadas em nome dos reis, regentes 
e governadores de Portugal. 



E HISTÓRICA 73 



O n.° 4 tia mesma estampa, cunhada já depois de eleito rei, pezando 
aproximadamente o mesmo que as anteriores, tendo a mesma deno- 
minação, ou a de leal, mas, sendo de niellior prata [lorque era de 10 
dinheiros. 

Todas as outras moedas cuiihad.-is n"este reinado sfio de hilhHo ou 
prata muito baixa, p(3la grande poirão de liga que lhe era addicionada. 
De cobre conhecem-se apenas dois ceitis. 

A moeda de prata, como vimos começou por ser de O dinheiros, 
mas nas cunhagens subsequentes pelas grandes reducções na quanti- 
dade de prata (jue o monarcha foi mandiindo fazer (jara atti-nder ás 
extraordinárias despezas da guerra, [)or cansa da successão, contra 
João I de Castella, casado com U. Beatiiz íilha de D. Fernando, de 9 
dinheiros, chegou nas moedas cunhadas de 1409 a 141.J a ser a prata 
de 1 6 de V2 dinheiro. 

Por isto se vè a depreciação que teve a moeda, sendo preciso para 
attender ás reclamações do povo, mandar publicar D. .loão 1, á pro- 
porção que alterava a liga das moedas, que lhes diminuía o peso ou 
lhes dava maior valor, leis que determinavam a forma de paga- 
mento e a relação das novas moedas com as antigas. O povo nos 
seus contractos também arbilrav;! valores á nova moeda com relação 
á antiga. 

As moedas di; prata dos reinados anteriores, que correram n"este, 
foram os diuhciri)^ alfoNsis. barbudas, graves, pilaríes e rmes. 

Embora a historia monetária deste reinado não seja ainda com- 
pletamente clara, pelos elementos dispersos e incomplelos deixados pelo 
chronista do reinado de D. João I, Fernão Lopes, pelos que se encon- 
tram na Ilisforia Gcncalugica, e ainda pelos subsídios fornecidas pela 
CoUccção de Cortes da Academia e pelo Elucidário de Vilerbo pôde fa- 
zer-se uma ideia geral do systema monetário complicado d'este reinado, 
mas não se pôde, porém, descer a minuciosidades, quando faltam as 
noticias de muitas moedas, que as chronicas não trazem, accres- 
cendo ainda que o texto destas nas suas parles mais importantes está 
por tal forma truncado e cheio de erros que não é fácil tarefa decifral-o 
como acontece com o de Fernão Lopes. O livro de D. Duarte também 
não está certo e portanto ha n"estc reinado ainda alguns pontos uuiito 
escuros, e ignorância sobre algumas moedas como as que vamos cilar. 
O sr. Teixeira de Aragão não conheceu as moedas, que vamos des- 
crever, nem Lopes Fernandes também se referiu a ellas. 

Este reinado numariameute fallatido, precisa um estudo mais com- 
pleto do (jue, os até agora feitos, embora o sr. Aragão traga com re- 
lação a elle um trabalho já dt^senvolvido. Este estudo é obra para maior 
fôlego, que nos propomos apresentar mais tarde; por agora, limiíanio- 
nos a descrever as duas moedas novas que possuímos, fazendo sobre 
ellas algumas considerações, porque entendemos que tendo dado duas 
moedas portuguezas do principio da monarchia pertencentes á nossa 



74 EE VISTA ARCHEOLOGICA 

collecção, devíamos seguir uma ordem quaulo possível chronologica, 
que facilitasse a procura a qualquer estudioso ou curioso que nos 
quizesse ler. 

As ;36 moedas descriptas pelo sr. Teixeira de Aragão como per- 
tencentes a D. João I estão agrupadas pela seguinte forma numa ta- 
beliã annexa á descripção do !'einado: 

«Do n." l a 3 rcacs de praia de 10 soldos e de 9 dinheiro cunha- 
dos de 1383 a 1385 quando D. João ainda era regedor e defensor do 
reino com o pezo de 04 grãos.» 

N." 4 — Hcal d(>- praia ou leal cunhada depois de rei, com o peso 
approximado dos anteriores. 

«N.'^ 3 a 7 — Reaes de 10 soldos de 2 dinheiros lavrados em 1386 
com o peso de 61 ^^70. 

«N."* 8 a 11 — Moedas de 10 reaes ou reaes brancos mandados cu- 
nhar em 1415, de bilhão ou prata baixa, de lei de V2 a 3 dinheiros e 
pezo de 64 grãos». Esta depreciação máxima foi motivada pela neces- 
sidade de atlender ás despezas com a conquista de Ceuta, havendo já 
quatro annos que estava feita a paz definitiva com Castella. 

«N.°' 12 a \1 — Reaes de 3 V2 libras de 1398 a 1408, de lei de 
1 V2 dinheiros, pezando 31 '^^jm grãos. 

«N.^^ {^ e \'d—Rmes de 10 soldos lavrados de 1387 a 1391, com 
1 Ya dinheiros, com o pezo dos anteriores. 

«N.^' 20 a 22 — Meios reaes cruzados, lavrados de 1409 a 1415 de 
de lei de 1 dinheiro, com o pezo de 38 *Vi20 grãos. 

«De 23 a 34 —Reaes de 10 soldos de 1392 a 1397, de lei de 2 di- 
nheiros com o pezo de 25 ^^Viso.» 

N.°^ 35 e 36 — Ceilis exclusivamente de cobre. 

Ora na descripção que destas moedas faz no texto, diz o sr. Tei- 
xeira de Aragão que a do n.° 26 peza 16 grãos; a do n." 27, 13; a 
do n.° 28, 16; a do n." 29, 12; a do n.° 30, 14 grãos; etc. 

Como podem portanto estas moedas todas de cunho variado pe- 
zando tão pouco, sem que accusem estarem gastas a ponto de produ- 
zirem estas difíerenças, serem reaes de 10 soldos lavrados entre os 
annos de 1392 a 1397, que deviam ter o pezo de 23 *^Vi8o. grãos? 

Ha forçosamente engano e algumas d"estas moedas não podem ter 
a denominação de reaes, mas sim a de fracções de reaes com ou sem 
outra denomiiiaçrio especial; ou houve ainda outra cunhagem com pezo 
inferior e outra lei (jue lhe disse respeito e que os chronistas e docu- 
mentos existentes não citam. 

E mal se comprehende que tendo sido lavradas estas moedas en- 
tre os annos de 1392 a 1397, e havendo depois d'este periodo de fa- 
bricação, mais três, de moedas divei-sas, como reaes de 3 */2 libras 
de 1398 a 1408, vieios reaes cruzados de 1409 e 1415 e reaes bran- 
cos, em 1415, a depreciação da moeda fosse n"a(iuella época tão grande, 
melhorando de condicções nas subsequentes cunhagens, quando as 



E HISTÓRICA 75 



necessidades da guerra com Hespanha e o enorme dispêndio da con- 
quista de Ceula que agravavam muito as condições económicas do paiz 
deviam levar o monarclia a aggravar lambem cada vez mais as coiidic- 
ções da liga, e do [leso. sahcudo-se como s.e sabe, que foi a cuiibagem 
da moeda a sua pruicipal receita. 

Lopes Fernandes * cliama ás moedas que o sr. Aragão traz na sua 
obra com os n.°^ 23, á8 e 129 fracções de reaes, e traz além d estas uma 
outra moeda que o sr. Aiagão não cita no seu livro. — As outras d"este 
grupo, que o sr. Aragão descreve, L. Fernandes não conheceu. 

As nossas moedas |)ertencem a este grupo que chamaremos como 
Lopes Fernandes fracções de reaes. 

Dissemos que a moeda do sr. Aragão que mais se aproximava das 
duas que vamos descrever era a do n." 'ili que se acha ali descripta 
como segue : 

« >i< 1 II N S X D E I X G R A X R E X X P O R T • Dentro de um 
circulo loi-mado por quatro arcos, as quinas. 

íí). >i< A D I V T O R I M— N O S T R V N . No centro I H N s ; por 
cima entre dois pontos a coroa real; em baixo lambem no meio de 
dois pontos, L. Em três exemplares escolhidos veriíicámos o peso 
de -O a 30 grãos. Meio real cruzado. B. — C.» 

Este indo real cruzado é engano typographico e deve ser real de 
10 soldos segundo vemos na synopse a que já nos referimos. 

A nossa 1.^ moeda é: 

►I< I H N S * DEI # G R A C I A # — No centro dum circulo pon- 
tuado I H N S, tendo um ponto ao meio e superiormente; [lor cima en- 
tre duas cruzes a coroa real; em baixo, l também no meio de duas 
cruzes. 

ít) >i< I H N S # D E I # G R A C I A * R . — Dentro de um circulo 
pontuado oito arcos, em grupos de dois a dois, ligados por um ílo- 
rão, e dentro destes as quinas portuguezas. Vide est. xi, n.** l. 

A segunda moeda é: 

>í<lHNSo DEI» GRA» REX» — No centro de um circulo 
pontuado i HN S lendo um ponto ao meio e superiormente; por cima 
a coi'òa real^ em baixo l entre dois pontos. 

í<)^PORTVGALlEi ET % A. — Dentro de um circulo 
pontuado, quatro arcos ligados por quatro arruelas e dentro destes 
arcos as quinas portuguezas. Vide est. xi, ii.° 2. 

Comparando o primeiro d'estes dois typos novos com o real de 10 
soldos acima descripto, vé-se que a ornamentação do cunho é egual, 
dilteiindo apenas em o typo novo ter aos lados da coroa e do L cru- 
zes em logar de pontos. Na legenda é ({ue a dilTerença é importautis- 
sima. 



Memoria das moedas correntes em Portugal. 



76 REVISTA ARCHEOLOGICA 

No novo, é substituído o a D l v T O R i M N o S T R v N ou cor- 
rectamente A D I V T O R I V AI N O S T R V M , coiuo tem todas as 
moedas d'este reinado, á excepção dos n.°* 20, 'ál e i22 meios reaes 
cruzados, e 29, 30 e 31 suppostos reaes de 10 soldos, por IHNS 

DEIGRACIAR. 

N'estes números ([ue nao tem o adivtorivm o cunho é 
completamente outro. 

O segundo typo (pie apresentamos tem então variantes mais impor- 
tantes.— A legenda adivtorivm é substituída pela continua- 
ção da legenda do anverso portvgalie ET A,eas quinas 
em logar de estarem dentro de oito arcos ligados dois a dois, estão 
denti'o de (piatro. 

A [)rim('iia das moedas peza 21 grãos e a segunda 14. Estas duas 
moedas além de serem diversas das descriptas pelo sr. Aragão, diííe- 
rem também essencialmente entre si, no tamanho, legenda e cunho. 

Podíamos ter citado vários outros exemplares, pertencentes a este 
reinado em (pie as legendas, sendo as mesmas na essência, differem com- 
tudo em estarem umas mais completas do ipie outras. Isso não importa 
um typo novo, mas apenas variantes insignificantes na fabríca(;ão irregu- 
lar da mesma moeda e por isso não accusamos estas dífíerenças como 
também não indicamos a variedade de signaes occultos que se encon- 
tram na moeda do mesmo cunho. 

Das moedas que tem a nossa collecção pertencentes a este reina- 
do, stó estes dois typos novos e por serem novos, prenderam a nossa 
attenção e hão-de interessar certamente os colleccíonadores. 

M. Alexandre de Sousa. 



TIJOLO DO SÉCULO XVI 

O tijolo que se \ò representado na estampa xi existe no Museu do 
Carmo. Segundo informações alli colhidas foi elle encontrado em 
Alemquer ou circumvisinhanças (Pesla villa. 1^^ curioso [)ela inscripção 
que tem, e que se reconhece ter sido feita com um ponteiro de qual- 
quer natureza, antes de secco o barro. A inscripção é a seguinte: 

esle ligollio Jir 
de fernãdalua 
res 

Este Fernando Alvares ou Fernão Alvares foi o fabricante que 
marcou a sua obra. ou o destinatário que nella quiz o seu no^ne? Ou 
será tal insctipção apenas o resultado diim breve entretenimento? 

Em (jualquer dos casos, pela forma da leltra, o tijolo d dos prin- 
cípios do século XVI. 



E IIISTOKICA 77 



CONSTITUIÇÕES DO ARCEBISPADO DE LISBOA 

Decrcladas por D. João Esteves (I'Azaml)iija (1402-14 li) 

{Coulinnadu de piKj. 64} 

15 liem poniu;inlo nas cousas espiriluaes num (Joue seer feia 
preylisia nem aiieença desonesta pêro se depois (jue forem feias e 
cellebradas as ditas cousas ('S|)irituaaes aliíiinia roíisa for dada aaquel 
que as cellebr.ir pêra ajuda de seu uiaiiliuuenlo liçilameiíle e com 
rrazam lio pode tomar e celebrar porem defendemos aos sacerdotes 
e a todos os outros creligos que nom façam aueenças nem preytisias 
por dinlieiros nem por alguma outra cousa lemporall por dizerem 
missas e prezentes ou por outros oficiios diuinos e sse aipielles (jue 
as missas ou outros olicios diuinos mandarem fazer e cellebrar nom 
satisfezerem com alguma cousa e tall demanda for presente os nos- 
sos uigairos e oliciiaaes mandamollies que elles aluidrem aquillo que 
os ditos creligos aguisadamente podem merecer e for acustumado de 
liie darem que logo sem dellonga e figura de juizo lho façam pagar 
quando diserem taaes missas ou ofícios. 

10 Item porfjuanlo as cousas santas nom deuem ser apenhoradas a 
algum leygo saluo em grande necessidade porem estabelleçemos e sob 
pena de excommunliom mandamos que os Reytores uigairos e outros 
creligos do nosso arcebispado nom vendam nem apenhoremnem alheem 
as cousas hordenadas e deputadas ao ocullto (.s/f) e diuino oficiio asy 
como liuros calleçes vestimentas e outros ornamentos quaaesquer nem 
llias compre alguém nem rrecebam em penhor nem precurem de 
seerem alheadas doutra guisa poemos sentença de excommunhom e 
aquelles que o penhor rreçeberem. declaramos ajnda e determinamos 
taaes vendições e apenhoramentos e emaiheamentos seerem nenhuns 
e de nenhum vallor e os que assy emalhearem mandamos que sejam 
denunciados por cxcumungados aataa {sic) que as ditas cousas em- 
alheadas vendidas apenhadas {sic) sejam entregues aas egreias e assy 
merçeram auer beneficiio de al)soIhiçam resaruando a nos o poderio 
de despensar sobre as ditas cousas quando rrazam e aguisado for e 
moormente con aquelles que seruem a nos e aa nossa egreia cathe- 
drall e aos nossos coonigios {sic} e os outros creligos. 

17 Item por quanto os priores Reytores e vigairos que teem as cu- 
ras das almas arrendam aas vezes pei' sua autoridade própria os pees 
dos altares das suas egreias e beneficiios a leygos e por que taaes 
rrendeyros fazem e demandam aos fregueses cousas per as quaaes 
os fregueses e beneficuados e capellaães das egreias sam escandalli- 
zados e maltrautados porém defendemos aos ditos priores Reytores e 
vigairos que os nom arrendem per sua própria autoridade e sse per 
alguum delles o contrayro for feto mandamos que perca aquillo por 



78 REVISTA ARCHEOLOGICA 

que o arrendarem e que aja as Rendas daquell anno a obra da sse 
ficando a terça parte pêra fabrica daquella egreia em que assy forem 
arrendados. 

18 Item por darmos aazo que os Reytores das egreias acrecentew 
e conseruem de milhor vontade as cousas delias stabelleçemos que 
cada buum prior Reytor e viiiairo possa despoer e ordenar asy como 
lhe apronuer ao (empo da sua morte dametade dos beens moneys 
que teuer e ouuer das Rendas da egreia de que lie prior Reytor vi- 
gairo pagadas as diuadas em que for obrigado e o que for thiudo de 
pagar per os bens da egreia ou vigairya que teuer e sse perventura 
a egreia teuer uinlias herdades que o prior vigairo adubar laurar ou 
aproueytar per ssy aa sua custa e ao tempo da sua morle as vinhas 
herdades forem a[)roueitada (sic) lauradas semeadas em tal guissa que 
os fructos se possam apanhar sem mais adobiio que laaes fructos 
posto que a[)anhados nom sejam ao tempo da morte do prior ou ui- 
gairo ajam amelade e que possam delles despoer os fezerem e apro- 
ueytarem ante que morressem como dito he que se faça dos que thi- 
nham em poder e a outra meetade aja ho soçessor. 

19 Item stabelleçemos que os priores Reitores ou vigairos das 
egreias da dita cidade e arcebispado nom façam preytisia ou empra- 
zamento emphitiotico ou qualquer outro contrauto dos beens da rraiz 
das ditas egreias nem hobriguem nem apenhem (sic) alguma cousa 
dos ditos beens nem façam permudaçam nem feryza das possissõoes 
delias sem nossa licença e mandado espiciall e doutra gujsa fazendo 
elles ou cada huum delles o contrayro mandamos que as preytisias 
emprazamentos contrautos obrigações apenhoramentos ennhalheamen- 
tos permudações feyras ou trautos sejam nenhuns e irritos pêra es- 
se feto. e nom seja per elles feto algum dapno as ditas egreias e 
aquelles que taaes apenhoramentos e obrigações emlhamentos (sic) 
permudações canybos (sic) fezerem ssem nosso mandado espiciall se- 
jam os ditos contrautos nenhuns e ssejam constrangidos de pagar e 
entregar per seus beens todollos dapnos e perdas que sse aas ditas 
egreias seguirem de taaes contrautos. 

20 Item como assy seja que alguuns nossos antecessores de boa 
memoria stabellecessem e mandassem sob pena de excommunhora 
que os Reytores priores vigairos e outros creligos nom recebessem 
nem leuassem dizimas das terras nom limitadas a seus beneficiios ou 
que nom fossem lauradas per seus fregueses e essomedes aquelles 
que trouuessem as ditas terras nom pagnassem dizimas delias aal- 
guuns sem seu espiciall mandado e nom embargando esto muylos fe- 
zerom e fazem o contrayro Receberom e leuaram as ditas dizimas em 
escandallo de muitos e periigo das suas almas, porém estabelleçemos 
e mandamos a todollos priores Reytores e vigairos e a todollos ra- 
çoeyros e creligos arendadores e teentes suas vezes que gardem 
a dita constiluiçam feia per os ditos nossos antecessores e nora vaao 



!•: iiisroniCA 79 



conlra ella vm nenlmina guissa e nom prosumam flaqui em diante 
rroçiiher nem demandar per ssy nem per outrem dizimas das terras 
nom limitadas aas suas egreias ou sse nom forem lauradas per seos 
fregiiesscs ou (h; heens (juo perleençam aas capellas e alhcrgarias fjue 
sejam liedylicidas em suas egieias ou frei^uisias ssem nossa licença 
e esi)içiall mnndado e quaaes quer que desslo fezerem o contrayro 
que tornem aquillo que asy receberem con outro tanto e que esto aja- 
mos nos 011 (jiiallquer ouiro a quem perteenrer per direiío. 

21 Item [)()r(|M(; muytas vezes por mingoa t; niiiligcncia do pastor o 
lobo come a ouelha e os pecados dos ,sul)(Jitos por culijas e negligen- 
cia dos prellados lhes liam de seer demandados das suas maaos no dia 
do juizo, porém querendo nos nos gardar de tanto e laam grande pe- 
riigo stabellecemos que todallas pesoas conigos e outros beneficiados 
em nossa egreia cathedi^all de lixboa e os reytores priores vigairos 
das egreias da dila cidade e arcebispado que teuerem cura dalmas al- 
de menos liiima vez no anuo se confessem a nos (? aos arcebispos de 
lixboa que per os lenpos forem ou a outrem do nosso ou do seu espi- 
ciall mandado e os raçoeyros e fregueses se confessem a seos reyto- 
res e vigairos, ssaluo em aquelles casos em que de direito a nos de- 
uem sser remitidos e emviados per os ditos reitores e vigairos e em- 
quanto vagar a egreia di; lixboa e em todallas sobre ditas pessoas vaão 
per suas conilissõoes ao vigaii'o ou vigairos que forem postos na see 
vagante. 

22 Item mandamos e defendemos a todollos priores reytores e vigai- 
ros das egreias da nossa cidade e arcebispado que cura dalmas que 
lhes per nos ou per nossos anleçessoi'es he comitida (jue a nom come- 
tam nem presumam aalem de liuum mez de comeler a alguum outro 
sem nossa licença e mandado espiciall e se presumirem de facto fazer 
o contrai]'o desto mandamos que assy os que tomarem as ditas curas 
como aquelles que as receberem contra esta nossa presente constitui- 
çam paguem senhos meos marcos de prata pêra a obra da ssee e se- 
jam punidos segundo aluidro do arcebispo e nom embargando esto rre- 
uogamos taaes encomendas ou comissões fectas aliem do dito lenpo 
de huum mez pêra as ditas pesoas e auemollas por nenhumas porque 
taaes costituições e sob estaliilicidas nom podem de direito legai- nem 
absoluer os fregueses das ditas egreias [lera as ditas comisõoes obsor- 
ragações e assy almas dos ditos freguezes sam per elles enganadas por 
o que por as ditas comissõoes nom ouueram nenhum poderio. 



{Continua). 



80 REVISTA ARCHEOLOGICA 

BIBLIOGRAPHIA 

Estudos eborenses (Historia, Arte, Archeologia), por Gabriel Pe- 
reira. 1'iiblicação mensal — 8.*^ Evoi'a, edil. Pereira Abranches. 

Docr.MHNTos iiisToiticos DA CIDADE DE EvoíiA, pelo niesoio. Publi- 
cação por assignatura, 4.°— Évora, 1/'' parte, (í) fascículos) 1883-86. 

Poucas povoações portuguezas são tão ricas em antiguidades e no- 
ticias como Évora, e poucas, como ella, tem sido objecto de estudos 
conscienciosos de pessoas competentes. 

O sr. Gabriel do Monte Pereira, a quem já se devia uma interes- 
sante série de opúsculos, onde reuniu grande parte das informações 
que nos deixaram os auctores da antiguidade acerca da peninsula ibé- 
rica, e ainda outros trabalhos históricos e litterarios, emprehendeu a 
publicação dos Estudos Eborenses, repositório de memorias de todas, 
as ed.ides relativas á importante cidade. Estão já publicados nove 
opúsculos que são (pela oi"(lem do seu apparecimento): \.° O mostei- 
ro de Nossa Senhora do Espinheiro; 2.° Évora romana, 1.^ parte: O 
templo romano. As inscripções lapidares; 3.° A Casa pia. O ediíicio 
do collegio do Espirito Santo da Comi)anhia de Jesus, fundado pelo 
cardeal rei em l.jol. A egreja. A instituição da Casa pia em '1836 ; 
4.° Lóios; 3.° Bibliotheca publica; C.° Conventos, l.'"^ parte: Paraiso, 
Santa Clara e S. Bento; 7.° Delias artes; 8.° e 9.° As Vésperas da 
Restauração. — Em todos estes estudos se notam as grandes aptidões 
do auclor e a sua constante applicação; e alli se encontram colligidas 
preciosas noticias. 

Os Documentos históricos da cidade de Évora contêm: documentos 
dos séculos xii a xiv; extractos referentes a 1350-1450; posturas mu- 
nicipaes do século xiv ; regimento da cidade em tempo de D. João i. 

Esta publicação é d'aquellas cuja importância ninguém pode des- 
conhecer ; e não hesitamos, do mesmo modo que á antecedente, em 
consideraí-a como um relevante serviço prestado pelo sr. Pereira á 
historia pátria. 

Permitta-se-nos, porém, que façamos duas ol)servações acerca dos 
Documentos: a primeira é que muito augmentariam o interesse da pu- 
blicação algumas notas topographicas, históricas, ethnographicas, ar- 
cheologicas c económicas, a exemplo do que fez o sr. Ayres de Cam- 
pos nos seus óptimos índices dos documentos da Camará Municipal de 
Coimbra; a segunda é que muito facilitará a consulta d'este livro um 
Índice analytico das matérias ou, ao menos, um Índice alphabetico dos 
documentos. Quanto a esta ultima observação, é [)ossivel que o auctor 
tencione dar o Índice analytico no íim da 2.* parte, que os estudiosos 
anceiam por vèr publicada. 



E HISTÓRICA 81 



CTPPO FUNERÁRIO ROMANO 
(lescolicrlo em Vizcu 

Km princípios de março ullimo, ao proceder-se á demolição d'uma 
parede interior duma casa na rua de S. Luis, antigamenli; chamada 
da Regueira, em Vizeii, casa em (|ue liabila o sr. dr. José Barbosa de 
Carvalho, descobriu-se um cip|)o funerário romano, de gi"anilo, do 
qual obsequiosamente me deu noticia e me enviou [)hotogra[)hia o meu 
amigo sr. Conde de l^rime, a quem reitero aqui os meus agradeci- 
mentos cordialissimos. 

A estampa \m, que reproduz com toda a exactidão a photographia, 
dispensa a descripção minuciosa do moiinmenlo. (jue consta duma 
íigura de mulher vestida de túnica íianjíida, infclizmtnite mutilada na 
parte superior, e duma inscripção. No jornal O Commercio de Vizeu, 
11." 80, de abril, foi já pelo sr. Toro dada representação do monu- 
mento em gravura de madeira e a inscripção lida no geral. Mas a gra- 
vura não era exacta quanto ás proporções do monumenlo, nem quanto 
á reproducção das lellras. O cip[)o mede 0"',í)0 de alt.. 0"\4() de larg., 
0"\30 de expes. média. 

A inscripção diz: 

Jigiim 

de mulher lCa\esae Viriati s[ervae), [^j)i\norwn XXX, -uncimis 

^SAE • VIRIATI S Rcb(urrits) malri f(adiindinn) c{wavit). 

.t;J|NORVM • XXX Monumcntu elevado a Cacsa, serva de Viriato, falleci- 

-.ONCINVS • RLB jj^ ,-,3 ^dade de trinta annos. Longinus (?) Reburrus man- 

MATRI • P • C jQy fazei- o em honra de sua mãe. 



O nome Caesae encontra-se em uma inscripção da Itália (C. /. L., 
IX, n.° * !28:}0). dado todavia como de leitura incerta; porém noutras 
inscripçôes da Itália (C. /. I., i, n.** I08j da Gallia Cisalpina, \C. I. 
L., \, n.°' í.jO e 018) e de Palma (C. /. L., 11, n.'' 3088) enconlra-se 
o diminutivo Caesida cujo positivo é sem duvida Cacsa, Cacsiis en- 
contra-se numa inscripção de Obidco (C. I, L., 11, n.° 2126; Rev. Ardi., 
p. oú). Proponho pois esta leitura do primeiro nome. 

ViiiatHs é nome vulgar na península: e vista a importância que 
tal nome tem para nós, por assim se chamar o capitão que symbolisa 
a resistência dos lusitanos ao poder de Roma, aqui reuno os diver- 
sos monumentos epigraphicos peninsulares que conheço, onde esse 
nome se lè. 

Rev. Arch. e Hist., I, N.» 6 — Junho 1887. 6 



82 KEVISTA ARCHEOLOGICA 



l. — Em Santo Cruz de la Sierra (Tiii'galium) descobriu-se nni 
cippo com este leltreiro {(L 1. L., u, ii." 084): 

\' I R I A T V s 

T A N C I N 1 • F 
H • S • K 

i.— Em Coiia lia-se em nua piedra de canteria no tnuy grande 
ilbid.. n." 791): 

\' I K 1 A T V S 

:í. — Em GasliiiN (Valle de Eaiia, próximo de Estellam) se desco- 
briu mais a segiiiiile dbid., u.'^ láUTO): 

protome feminae 

mundus inuliebris 

D • M •■ AI • BVTVRRA • BIRIATI Fl 

LIA A/ • X X X • H . S 

taitrus procwreus 

4.-- No sitio de Avellor (perto de Braga) descobiiii-se ainda a se- 
giiiiile iniporlaiite inscripção ilbid., n.*^ 2435) : 

astriDU 
A R Q V I V S 
V I R I A T / 
3 • AgRWpAe 
H • S • çjj E S T 
3 M E L G A E 
CVS • PELISTI 
MONIME n t v m 
CO 



Gonfronlem-se ainda as seguintes inscripções, todas descobertas 
na península (C. I. L., m: VIRIACIVS (n." 001), VIR IO 
i n."** 425;) e 42r)()). v 1 R I A (n." 425()). VIRIA A C T E (n.°' Mr\ 

3774;; e vej;un-se lambem os números lUUO, 2OU0, 392't. e ainda 
333, além d outros. 

O nome da terceira linba — o N c l N v s (e não Onceivs, como o 
sr. Toro leu, julgando ver na lapide ires III) não me paiece comple- 



E IIISTOKICA 83 



clu. Talvez se devesse ler [L]i)n[(j]inus. O cognome lirhurrns, muito 
vulgar, apparece iiuulia Hiscri[)(;ãu de Vizeu {C. L L., n, ri.'* 411;: 

V A L E k I O 
i< !•: B V R 

RO ■ AN • XVII 
R A T líR- E T 
5 M A l" 1-: R 
F • C 

A descoboita, em Vizeu, duma iuscripção com o nome de Viriato 
deve [)ara mintas pessoas ser mna conliiinaçâo de antigas lendas. 
Quem assiíu o acreditai-, advirta •lue houve muitos Virialos ; e (jue 
ainda não está em didjnitivo assente (pie o antigo llarminio corres- 
ponda á monlaniia cliamada Serra da Estrella. 

BouGES DE Figueiredo. 



NUMIS.AIATICA PORTUGUEZA 
D. João I 

Bem diziamos nós no o.*^ numero da [\i'i isln Arc/iroloi/ica, quando, 
fazendo algumas considerações sobre a nuuiaiia do reinado de D. 
João 1, e procurando juslilicar com razões obvias a dL'nomma(;ão de 
fracções de rcaes que dêmos a duas moedas novas, não as encoipo- 
raiido num grupo conliecido talvez injustiíicadamenle com outra de- 
nominação, aHiiuiavaindS (pie a historia monelai ia desie reinado iiTio 
era ainda C(»iii[)letamente clara e conhecida poripie íallavam as noti- 
cias de muitas moedas que as chiouicas e mais documentos existentes 
não citavam. 

Duas moedas novas vem corroborar a nossa asserção respectiva- 
mente á falia de noticias deste leinado. 

Estas duas moedas |)reciosas e únicos exemplares que conhecemos, 
em bom estado de conservação, pertencentes á collecção do dislinclo 
numismata e nosso amigo o sr. Júdice dos Santos, cavalheiro que lam- 
bem concorreu para augmenlar d'uma maneira considerável os impor- 
tantes trabalhos e a noticia desenvolvida que <j sr. Aragão dá sobre 
moeiias porluguezas, facultou ao nosso estudo as suas moedas para 
d'ellas darmos uma descri()ção. 

Uma delias pertence ao grupo dos reaea de 3 Va libras e é uma va- 



84 REVISTA ARCHEOLOGICA 

riedade iniporlaiilo do real que sob o n." 13, est. viii, tom. I, o sr. 
Aragão descreve na sua obra. ' 

A outra, pelo cunho, não deveria pertencer a nenhum dos grupos 
citados no nosso anterioi" artigo sobre este reinado. 

O seu reverso assimelhase um pouco no anverso do real de lu soldos 
desciipto pelo sr. Aragão* sob on." 2 deste reinado, dilíerindo apenas 
na legenda que é de rei e não de regente e em ler um P em logar dum 
L: o anverso dá uma ideia do anverso do real de 3 Va libras, com n.° 
16, mas com a legenda que tem o reverso desta moeda e também só 
iruma linha. A coiòa é essencialmente diíTerente. Em resumo, esta 
moeda, é um lypo completamente novo e querendo agrnpala, talvez 
que á falia de melhores elementos e de melhor opinião se podesse 
por emquanto classificar de real de 10 soldos. 

O real de 3 */2 libras do n.° 43 com que comparamos a primeira 
moeda, é descripto pelo sr. Aragão, pag. 201, tom. I, como segue: 

« >í< J o H N s * DEI * G R A Cl A * RE X.— No centro, den- 
tro dum circulo foimado por oito arcos IHNS; por cima a coroa 
real e por baixo E, lendo immediatamente por baixo da coroa um 
ponto, com uma cruzeta de cada lado. 

1^. A D JUTOR lUM ° N O s T R u M = Q u i — Quinas cantona 
das por quatio castellos. Real de H */-2 libras, B. — II^OOO réis.» Vide 
est. XH. 

A nova moeda é: 

>Í<J0HNS*DEI*GRACIA*REX*P. — Dentro d'um cir- 
culo pontuado, e no centro de dezeseis arcos, em grupos de dois a 
dois, ou oito arcos duplos ligados por oito arruelas, i n N S tendo por 
cima a coroa real e pnr baixo L entre duas rosetas ou florões. 

R. ^ I H N S * D E I * G R A G 1 A * R E X * A L ;.— UentrO dum 

circulo pontuado os cinco escudos das quinas collocados em cruz e 

esta canlonada por quatro castellos. Peza r)6 grãos. 

Comparando estas duas moedas vè-se que a nova tem: 

Na legenda do anverso a inicial da palavra Portugal que a outra 

não apresenta, e o e entre dois florões. 

No reverso a legenda é completamente diversa porque em logar 

de AD J UT O R I U M ° N o S TRIIM tem 1HNS#DEI#GRA- 

C i A * R E X * A E . 

Parece- nos que esta moeda merecia bem ser descripta pela legen- 
da do reverso que é totalmente diversa da similar de cunho descri- 
pta pelo sr. Aragão. 

A segunda moeda é: 

>íi A I) J u T O R I II M * N O s T R E N # Q u I . — Deutro dum 
escudo pontuado e no centro de seis arcos duplos, ihns com um 

' Descripção geral e histórica das moedas cunhadas em nome dos reis, regentes 
e governadores de Portugal. 



K HISTÓRICA 



85 



[loiílo ii;i parle superior, tendo por r/ima a corôn real: por hnixf» a 
lei Ira i» . 

\\.yíi IIINS I) K I (] \< A R K X POR 11 (i AI. Al..— Deil- 

Iro fruiu circulo poiUiiarJo e no meio de (|ualro duplos arcos ogivaes 
eslão as cinco quinas em cruz e no lado inferior e esquerdo um i>. 

O reverso que dá uma ideia geral dos rcacs ilr 10 soldos e rcars 
hraHCOs, não é comtudo egual a nenhum delles na legenda, e nenhum 
dos cunhos do Porlo tem só um i> ao lado es(juerdo do escudo infe- 
rior. Tem as lellras i» o aos lados d"esse escudo. 

Só o real de regente com o ii.° á da est. 7, tom. I." da olua 
do sr. Aragão, que é cunho de Lisboa, tem um L no lado esquerdo 
inferior da moeda em vez de i.i? como tem lodos os outros rmes de 
lo soldos fabricados em I/isboa. 

O anverso dillere com[)letamenle dos nuics de KJ soldos e rcoes 
brancos. A legenda é incompleta e só- numa linha. IHNS não está 
immedialamente no cenlro do circulo pontuado como nos reaes de lo 
soldos, mas no centro de seis duplos arcos de circulo. 

Este numero de seis duplos arcos é completa novidade, porque 
em todos os rrars de lo soldos, rmes brancos ou reaes de S * 2 libras. 
o numero de arcos duplos é de oito ou de quatro e nunca de seis. 

A coroa é também especial e diíTerente da de todas as moedas 
descriptas pelo sr. Aragão. Parece mostrar a Iransicçáo entre as duas 
coroas, de regente e de rei. que como se observa nas respectivas 
moedas são differentes. 

Esta moeda está á llor do cunho e pesa 00 grãos. 

Esperamos que hão-de ir apparecendo mais elementos para o es- 
tudo completo d'este remado, e se por emquanto não podemos fazer 
acerca d'elle, como ninguém pôde, allirmações em absoluto com re- 
lação ao seu systema monetário, lemos ao menos o cuidado de ir col- 
ligindo escrupulosamente todas as notas illucidalivas que podemos ob- 
ter para darmos mais tarde um estudo quanto possível completo, 
como prometlemos no nosso artigo anterior. 

M. Alexandre de Sousa. 



O SUPPOSTO BEIGANTIUM 

em Castro de AvelJãs 

Ao passo que nos demais paizes da Europa muito se tem traba- 
lhado e continuamente se trabalha para o exacto conhecimento da sua 
geogr.iphia antiga, em Portugal tem sido completamente descurado 
tão importante objecto. Não ignoro que, desde Rezende, alguns au- 
clores lêem dissertado mais ou menos extensamente sobre a geogra- 
phia antiga do território hoje portuguez, e que muitos d'elles preten- 



8C EEYISTA AECHEOLOGICA 

deram fazer identificações de antigas povoações com outras modernas; 
mas, se por vezos nalpumas dessas idenlificações foram felizes, quasi 
sempre claiidicaiam. Diogo Mendes de Vascoiicellos nos seus scltnlia 
a l^ezeiíde foi duma notável infelicidade; de Biito, provado como 
está sei" falsaiio, nada direi; Faiia e Sousa conlinuoti aniigos erros 
do mesmo modo (]iie mais tarde outros o fizeram, como J. Baptista 
de Castro e Luiz (lardozo; e quanto ao pequeno livro do padre Nas- 
cimento. J\íapi)a breve (In Litsilania cuiliga, não é elie mais do que 
uma '•ongloliação de tudo o que os antigos escriplores porliiguezes 
disseram, sem qu(3 fosse discutido coiivenienlemenle. A par destes 
auctores que citei e d'outros semelhantes, apparecem todavia escri- 
ptoies verdadeiramente notáveis, que, com quanto por causas inlie- 
rentes ás epoclias. em que viveram, nem sempre poderam com toda 
a verdade tratar alguns pontos da nossa geogiai)liia antiga, todavia 
meiecem a nossa consideração por seu sabei' e pelo seu espirito crí- 
tico. São elles principalmente Gaspar Barreiros, na sua C/iorogra- 
p/ua (Vaíguiis lagares, e Gaspar Estaco, nas suas Varias antiguidades 
de Portugal. Depois d"esses vem o académico Manuel de Faria e o 
Padre Viterbo: e mais perto de nós J. da C. Neves e Carvalho Por- 
tugal e o dr. A. F. Simões. 

É principalmente aos estrangeiros que nós devemos os melhores 
estudos acerca da geographia anliga e medieval do nosso paiz. Depois 
dos largos e importanies trabalhos do célebre agostinho ÍIenri(]ue 
Florez, bem conhecido de todos que se entregam a estudos archeolo- 
gico-historicos, outros trabalhos existem Ja, quer inéditos quer [)ubli- 
cados. Em Ilispariha. os meus respeitabilissimos amigos, D. Anielia- 
no Fernandez Guerra y Orbe e D. Eduardo Saavedra, da Acadeutia 
Espahola e da Real Academia de la Historia, téem já tratado da {^eo- 
giaphia antiga da Península: o primeiro d"estes sábios, bd)liolhecaiio 
da primeira d'a(]uel!as ac.idemias e .anlitpiaiio da segunda, eslá empe- 
nhado ha mais de 53 annos (desde '1833), em esludos profundíssimos 
sobre a geographia e hislor ia de ílispanha antiga : o segundo, distin- 
ctissimo escriplor e archeologo, e crnsumado arabista, também em 
muitos trabalhos de alia valia se tem occupado da geogia|iliia j)enin- 
snlar, tanto lomana como árabe. con)0 os leitores da lieristu tive- 
ram já occasião de apreciar. Na vMk manha o sábio di'. Emilio 
Iliibner, meu respeitadíssimo amigo, íamliem. não só em escriplos 
especiaes, mas no segundo volume do Corpus hiscriptionum. Latiiia- 
runi tiala com a proíiciencia que o mundo scienlifico lhe recoidiece 
de muitos pontos da nossa geographia anliga. 

Não citarei outros escriptores, e limitar-me-iiei a observar que 
sendo por um lado extremamente honroso para nós que homens illus- 
Ires como os snpra-cilados se occupem de nossas coisas, por outro 
lado é lastimável que nós os portuguezes tão pouco trabalhemos, sem 
preconceitos, no que é nosso. 



E IIISTOKICA 



87 



É devida ao íjiiasi nada (Iik; possuimos feilo por nós acerca de 
nossas antiguidades, e ao geral desconliecinientn do (pie exlranhos lêem 
prodnzido sobre ellas. a' ignorância de innilos pontos da nossa geo- 
grapliia antiga, e a não resohirão de vários problemas (pie concerntím 
a ella e á historia. I^or isso muitos e mnilos dislates por abi coirem. 
pondu-se elles princii)almente ein evidencia quando o acaso faz com 
que se abram os archivos da terra, patenteando nos antigos monu- 
mentos. , 

lia poucos mezes, em noticias espalhadas por muitos jornaes do 
paiz. divulgou-^e a descoberta dumas rumas im|)orlanlissimas peito 
de Castro ('le .\vellãs, e que pela visinhança da cidade de liragança 
foram logo indicadas como os restos do antigo tírigcmlium. Começan- 
do a ser exploiadas as ruinas pelo professor de francez do lyceu de 
Bragança, o sr. José Henriques l'inheii-o, por conta da sociedade Mar- 
tins Sarmimtn, de Guimarães, e como era possível que houvesse utili- 
dade em que a exploração fosse feita por conta do governo, visto exi- 
mo os docuuKMitos importantes que a antiguidade nos legou não de- 
vem em boa razão ir augraenlar collecções particulares tanto de na- 
cionaes como de estrangeiros, mas ficarem pertencendo ao Kstado, para 
se formarem museus aonde esses moinimentos se conservem conve- 
nienlemenlo, servindo aos estudiosos para suas investigações e aos de- 
mais para seu ensinamento, iionrou-me o illuslre Presidente do Conselho 
de Ministros e Ministro do reino com a missão de ir fazer o reconlie- 
cimento das alludidas ruinas. Dei cumprimento á incumbência e apre- 
sentei em tempo competente o meu relatório, (jue creio vae ser pu- 
blicado. 

O local das ruinas é numa pequena collina que fica, p_ara o poen- 
te, a cavalleiro da pobríssima pov()a(:rio de Castro de Avellas. 

Os principaes vestígios de edilicação que alli lia, (piasi na extremi- 
dade oriental do oiteiro, são quatro plintos do granito que abunda 
naquellas regiões, os quaes se acham alinhados na direcção NS, e 
apenas á profundidade de um metro approximadamenle. Junto do 
ultimo plinto da parte do sul enoonlram-se restos de antiga parede 
seguindo para o poente, formando angulo recto com o alinhamento 
dos plintos; e no lado opposlo. ao noite e também junto do ullimo 
plinto, pareceu-me notar vestígios de parede parallela á outra. Segun- 
do consta, foram encoiitiados\illi um capitel e uma base de columna, 
da ordem toscana. Nem nos plintos. nem nos alludidos restos de co- 
lumna ha coisa que decida a considerar a(]uellas reli(piias como pura- 
mente romanas; pois que tanto podem ter pertencido a um edificio 
elevado pelo grande povo, como a uma construcção medieval, o que 
não pode ser em absoluto prejudicado pelo appaiecunento naquelle 
sitio de muitos fragmentos de tijolo e de telha de rebordo. O que e 
indubitável é (jue S(')bre aquelles (pialro plintos assentavam outras tan- 
tas columuas. Se a construcção é romana, pode crer-se que o edificio 



88 REVISTA ARCHEOLOGICA 



foi um prosíf/Ios, a cujo pronaos pertenceram os quatro plintos; se a 
i-onstrucç.ão é medieval, foi necessariamente um pequeno templo ou 
capella, de cujo alpendre íizeriim parle os restos encontrados. O edi- 
ticio linha como com dilliciildade pude observar, a sua fronlaria vol- 
tada ao oriente, o que podeiia militar a favor da orig(.'m romana 
daquelles restos; pois, se o templo fosse cluislão, seria orientado de 
levante a poente, conforme a lei seguida na edade média ; mas isto é 
iiíSulViciente para uma altirmativa. 

Varias ossadas descobertas a alguns melros do distancia d'aquel- 
las ruinas, a cerca de meio metro de profundidade estavam incomple- 
tas 6 nenhuma importância tinham. Nas sepulturas não se encontrou 
objecto algum que podesse ministrar subsidios á etlmographia; nal- 
gumas, alguns pedaços de schislo cobriam as caveiras, mas nas res- 
tantes (excepto uma), encontraram-se os ossos sem resguardo de qual- 
quer natureza. Na sepultura que exceptuei, appareceram duas lapi- 
des romanas ladeando parte d'um esqueleto, dois cippos funerários, 
sem duvida aproveitados pelo enterrador ou pela familia do defuncto, 
com o piedoso fim de resguardar os restos morlaes alli depositados. 
Os cippos não estavam na sua posição natural, ao alto, mas colloca- 
dos no sentido do comprimento, indicando bem claramente o fim 
para que alli os haviam posto. Num desses cippos, que tem d'alto 
0"',70 e de largo 0"\33 pude ler : 

B L O E N Bloenae oae {filiae ?) anniontm) LX. 

M ///li O 

.E A N N Monumento elevado a Bloena, tilha de . . . .oa, 

l, X fallecida na edade de sessenta annos. 

Teremos nesta inscripção exemplo do facto, pouco commum, de 
ser a filiação somente indicada pelo nome da mãe? 

No outro cippo apenas se pode distinguir a edade da pessoa fal- 
lecida e vestígios d'algumas letras do seu nome : 

//////////// I M O 

/////^///I ////// 

/////XXV 

O mencionado sr. Pinheiro liga grande importância ao achado d'es- 
sas ossadas, e está couvencido de que houve alli um extenso cemité- 
rio, d'onde concluo a existência. na(|uelle sitio, duma grande povoa- 
ção. Está complectamente illudido. As sepulturas não remontam á 
epocha romana; demonstram-n'o as lapides romanas alli encontradas, 
por isso que é um contrasenso suppôr que pessoas d'então fossem 
expoliar brutalmente dos monumentos as sepulturas dos seus conci- 



E HISTÓRICA 89 



(ladãos pura com olles grosseiramente ladear o cadáver d'onlro. Por 
oulio lado, o achado das ossadas de modo algum dtve causar admi- 
ração, sabendo-se da existência na(|nelle sitio de uma antiga egreja 
ou ca|)-3lla de S. Sebastião. Ainda hoje em muitas parles de Portu- 
gal os ciiterramcnlos se fazem, como é saljido, nos adros das egre- 
jas; e lá mesmo em (^aslro de Avellãs tèem (illes logar no limitado 
espaço de terreno (|ne existe por detraz da egreja, recinto separado 
dum lameiro por um pequeno muro. Ora é naturalíssimo e, com re- 
speito ao tempo, perfeitamente regular que o adro ou circumvisinhan- 
ças da egreja de S. Sebastião hajam sido logai- de enterramentos, e 
(jue os christãos tenham lançado mão de monurnenlos de passadas 
gerações para os utilisarem nas suas sepulturas. Na constrncção da 
alludida egreja empregaram se como maleriaes cippos e outras pe- 
dras de trabalho romano. Não se pôde pôr isso em duvida em vista 
(la informação que nos deixou Sampaio'; e não causa extranheza por- 
que em [)lena ednde média ao procedcr-so a qualquer edificação — 
habitação, templo, muralha, torre — a[)roveitavam-se sempre as lapi- 
des romanas que em abundância se encoidiavam por toda a parte: 
porque, estando essas pedras já apparelhadas, só havia o simples 
trabalho do seu assentamento. Frequentemente essas cantarias eiam 
coUocadas de maneira que seus relevos ou inscripções ficassem occul- 
tos. quasi sempre com o fim de apresentar á vista uma superficie 
lisa, mas algumas vezes (principalmente em construcções religiosas) 
no intuito de fazer desapparecer iodo o vestígio do paganismo. Quan- 
to a considerar-se aquelle conjuncto de sepulturas como um extenso 
cemitério c vèr as cousas com vidro de augmenlo; e, ainda que assim 
fosse, suppôr que existiu naquelle local uma grande povoação, por 
aquelle motivo sô, é mera plumtasia. Os romanos tinham suas sepul- 
turas fora das povoações^ á beira das estradas. 

Appareceram nas insignificantes minas que se suppõe serem as 
dos alicerces da antiga egreja algumas lapides romanas, umas parti- 
das, outras com as inscripções apagadas, e três túmulos. Dois d"esles 
(que não vi porque o dono da propriedade os fez transportar para 
sua casa, d'alli distante, apenas achados) não tinham, segundo me as- 
segurou o sr. Pinheiro, inscripção nem relevo algum. Quanto ao outro, 
que este sr. recolheu num pateo de sua casa, tem epigraphe, mas 
tão deteriorada, que não me foi dado lel-a apezar dos grandes esfor- 
ços que para esse ílm empreguei; concorreu também para o mau re- 
sultado das minhas tentativas a péssima posição em que estava o mo- 
numento quasi encostado a um muro, sem eu conseguir que elle fosse 
posto em posição conveniente. Tem esse monumento dois metros de 
comprido e cincoenta e seis centímetros de diâmetro; foi primitiva- 

' Francisco SaiTipaio. Memoria sobre as nditas do Mosteiro de Castro de Avel- 
'lis. . . in Memorias de í.itfcratnra Portugiieza, vol. v, pagg. 258-26;]. 



90 UEVISTA ARCIIEOLOGICA 



mente, creio eu, iiiii mnrco miliaiio circular que escavaram para ser- 
vir dl.' sepuichro ou sarco{)hago. As letras tèem oito cenlimelros de 
altuia; pude ai)euas lèi' com segurança: 

• . • P O S [divi Hadrijui ne]pos ?.. . 

... 1) I \' I T R A divi Tra\jani proncpos ?| • • • 

Além dalgumas lapides inteiramente illegiveis, descobriu-se nas 
recenlíís escavações um cippo mutilado, de O'", 35 de alt. e 0"',^9 de 
larg., tendo a roseta symbolica na parte superior e esta inscripção: 

M A E C I o 
CORNELIO 



Os fragmentos de cerâmica encontrados naquelle oiteiro são in- 
teiramente insignificantes. De cobre, appareceram uns inaures e insi- 
gnincantes IVagmenlos impossiveis de determinar. Não tem appareci- 
do moedas alli, senão muito rai'amente; e não sei se romanas. 

Os jornaes noticiaram o a()parecimento de objectos preliisloricos 
naquelle sitio. O citado sr. I'inlieiro mostrou-me elTectivamente um 
pedaço de pedra calcaiea avermelhada, rolado e paitido numa das 
extremidades, que o mesmo sr. julga ser um machado de pedra da 
epocha neolilhica. .. 

No relatório que apresentei a S. Ex.-' o Ministro, disse eu o se- 
guinte: 

«Que no oiteiro de Castro de Avollãs assentasse o Brigantium Fla- 
vium ou mesmo o Brif/ai'ciiim de que falam FMinio e Piolomeu é de 
todo o ponto insustentável perante as iidbrmações que a antiguidade 
nos legou. Que, porém, tenha havido por aquellas proximidades um 
oppidum Uvigantium ou Briganfia não é hypothese (]ue deva repellir- 
se. attendendo ao actual nome de Bragança e ix enorme quantidade de 
homouymos geograpliicos na penmsula [lyrenaica. Mas, quando dada es- 
ta hypothese, esse oppiílain ou ciriías não assentou no oiteiío de Cas- 
tro. Alli, e estendeiKlo-se talvez para os lados de Gostei (o que futu- 
ras explorações poderão resolver), demorou uma população romana 
ou roinanÍ3ada que é conhecida na hi.stoiia pelo nome de Zoelas. Na 
egreja de C.astro de Avellãs existiu até ha bem poucos ânuos uma la- 
pide com a seguinte inscripção summamenle importante: 



D E O 
A E R N O 

O R D O 
ZOELAR 
5 EX VOTO 



E HISTÓRICA 91 



«Esta iiisciiprno. o iiiiico inomimeiílõ lapidar em que. juntamente 
com o nume de uma divindade peninsular, era m('nfi()n;i(la a ordem dos 
Zoelas, essa pedra (jue os secuios respeitaram, foi destrnida lirutal- 
mente ha alguns annos por um individuo de nome Assis rpie a lians- 
formou num vaso destinado a adornar llie a sepultura, fazendo des- 
ap()ai'tn'.er inlíiii-anHUiti! lodo o vcsligio da impoi tantissima insci ijirno. 

«Deixar de loiMJisar no oileiro a oiíIo Znrlcniin, romo um monu- 
mento- inlelizmenle perdiíln. hoje o coidirma. paia ver naquelle le- 
gar um lirií/nnnioii ainda desconliecwlo, é querer liictar contra a razão 
e a eritica. No Oiip/is Iiiscripliiiii/nii Lutiiuiridii, vol. ii, n."* lidOS e 
!2()01), vêem in-crlas duas inscripç^-ões (]ue se perdei"am e ainda a se- 
guinte (n." i2íil)7), (|ue foi transportada duma [)arede vellia do antigo 
mosteiro de (lastro de Avellãs [)ara a parede de uma casa: 

palma palma 

Dr:o A ER 

N O M 

«Este monumento (nlt. 0"\:ií ; larg. O-". 275; lellras alt. 0'",0G) foi 
tirado pelo cilado sr. Pinheiro da parede em que se achava, com destino 
á Sociedade Martins Saiimuito.» 

No recinto em que se fazem os enterramentos, existe ainda uma 
lapide marmórea peifeitanjeide conservada (altura l™,45;larg. O"", 41; 
lettras ali. 0"',05), com a seguinte inscripção: 

palma 
palma pali>ia 

D M Diiis) M^anilyiis). Proculcio Gracili (filio), an- 

P R O C V L !•: I O norum LV. S{ii) l(ibi) t(erra) l(evis). 

GRACILI Aos deuses dos mortos. Monumento elevado a 

A\/ N O R V M L V l^roculeio, tillio de Gracilo, fallecido na edade de 

3 S T T 1. cincoenta e cinco annos. Seja-te a terra leve. 

Temos nesta epigraphe exemplo da omissão da palavra filitis. 

Creioque lodos esses monumentos epigraphicos. encontrados naquel- 
la localidade, são restos da antiga povoação (licKs, pagus ou ciriíns, 
mas talvez não appidum) da onhi Zofhniiiii. Esta opinião já expendida 
pelo citado Sampaio, pelo auctorisado Viterbo *, e pelo meu amigo sr. 
Emilio llubner, é a única acceitavel. 

' Elucid., s. V. Bemquerenra. 



Dá REVISTA ARCHEOLOGICA 



No caso em que o moderno nome de Bragança, como indiquei 
acima, nos conserve memoria d"nma antiga povoação romana, de no- 
me Hriíiantium oii antes Brif/antia, ella de certo não era situada no 
silio de (lastro de Avellãs. Na falta de outros dados, não deve des- 
[irezar-se a tradicção. embora esta seja muito íallivel. Ora é constan- 
te a indicação Iradiccional de que antigamente a cidade era perto 
do Sabor, ao NE da actual povoação. Já Viterbo * mencionava ves- 
tígios de i-uinas nas margens daquelle rio e eu creio ter reconhecido 
alguns indícios. 

Toda a região transmontana está por explorar ainda no que re- 
speita á archeologia, com grande prejuízo da historia e da geographia 
antiga. A duas léguas de Bragança, para o NE, existe uma pequena 
e pobre povoação, Sacoias. e próximo d'ella uma collina onde tem 
appparecido grande (luantidado d(^ inscripçues lapidares e muitos 
outros objectos interessantes, lia alli muitos vestígios de povoação 
romana. Eis duas das inscripções alli descobertas, que existem hoje 
em Sacoias: 

1. Cippo funerário (alt. !'",(); larg. 0"',4) com a roseta symbolica 
na parte superior : 

1) <t> M Diiiò!) M{anibiis). Flau Festi /(ilio) annioruni) 

F L A O A'XA'. S{it) t{ibi) t{erra) l{evi.s). 

F E S T I F Aos deuses dos mortos. Monumento elevado a 

AAA/XXX Flao, filho de Festo, íallecido na edadede trinta 

3 STTI annos. Seja-te a terra leve. 

O nome Fcsln é bem conhecido; e o de Flao (cf. Flavo e Flávio) 
tem-se encontrado em inscripções da península (C. I. L., u, n.°' 202?) 
e 2774). 

2. Lapide (alt. V'','M: larg. O'". 3) com a seguinte epigraphe; sem 
vestígios alguns d'outras lettras ou signaes: 
A li R O Arro Cloii[thts ?) 

C I. O V a(iumo) l(ibens)? 
A L 

O nome Arro encontra-se numa inscripção de Segóvia (C. J. L., 
I!, n.'' 27.'i5) : D • M • s ■ A R R O N I S , etc. 

Uo pouco que se tem encontrado no oiteiro de Castro de Avellãs, 
sem documentos epigra[)hicos e sem informações que nos deixassem 
os escriplores da antiguidade, é verdadeiramente por mera pbantasia 
que se pode ter dito (jue alli assentara o antigo Brigantium. A povoa- 

' Lor. cil. 



E HISTÓRICA 



93 



ção d'esle nome que IHolomeii cila ^ O/acJtcv Bpiyávncv, era situada 
junto d"uníi grande golplio ou porto de mar h tw ^j.£yá//.) hu.vA, a (|ual 
lambem é mencionada por l)i(jn. Não pode pois este o/y/;/V///m estar si- 
tuado no meditei raiieo. Ouanlo a uma antiga Brujantia já fica apon- 
tado o seu logar piovavel. 

São ainda hoje desconhecidas as situações de muitas e muitas ou- 
tras povoações antigas, cujos nomes nos revelam os auctoies gregos 
e lalinos, e que existiram em todo o leniloiio hoje portnguez. Quem 
sabe onde eram situadas Klcoboris, Talabiig.i. Iníeranmium, ."\h'dobri- 
ga, Cehobiiga e tantas outras? Só lun estudo ciilico ujuito piofundo, 
auxihado pela descoberta de novos documentos epigraphicos poderá 
resolver varias d'essas questões cuja impoilancia seria ocioso de- 
monsli'ar. Mas os poderes públicos podem auxiliar nniilo a sciencia 
promovendo ou ao menos coadjuvando exploiações em vaiios pontos 
do nosso paiz. Por toda a parle, mesmo nas regiões aonde já foram 
executadas explorações, muilo ha que fazer. Mas princi|)?lnienle as 
provindas do Alinho, Traz-os-Monles e as duas Heiías contèem ainda 
milhares de preciosidades, que trabalhos melhodicos fariam conhecer. 



Bo[<r.[<:s dií Fhjueíhldo. 



EPIGRAPHJA 

iVej. pcifl. 41— 4H) 

Monsenhor Pereira Holto, de Faro. obsequiou-me com algumas ob- 
servações acerca da iulerprelação que dei da inscripção de A \' \< ■ 
V R S I \ \ s • Quanto á primeira linha, diz que na lapide ao G se se- 
gue um J., inteiprelando {Auyinsli l[ib('rtus). Num calco em chumbo, 
que me enviou, vejo eíTectivamente alguns vestigios de ieltras, mas 
tão pouco explícitos que não posso decidir-me sobre ellas. Pelo* que 
respeita á segunda linha, dizia-me Monsenhor Bolto na sua primeiía 
carta que «Depois do íá." p da 2.'' linha o baixo relevo que o calco 
deve acusar não é ponto de escripta, mas orifício da mesma pedra: 
advertindo ainda, que ao 2." p evidentemente se segue um i » ; e 
neste supposlo, lia : NUvem) P^iibiicei Pio??/) Mussil). Posteriormente 
enviou-me tarnbem dessa parte da inscripção um calco em chumbo, 
de cujo exame resultou o (içar eu peifeiiamejite illucidado acerca do 
que alli está escripto. O que eu tomara no calco em papel por nm 
ponto triangular ou um i> é uma lettra, um R, de que se não vê 
toda a curva superior por estrago da pedra, mas em que se distingue 
perfeitamente o angulo formado pelas duas hastes convergentes Uga- 

' Geogr., u, G, 4. 



94 liEVISTA ARCHEOLOGICA 

do á hasle vertical, deste modo R. Assim, deve ler-se: \{ir) V{erfe- 
clissimus) PU(tíí'.st'ò^), etc. 

Eis novamente a inscripção rectificada : 

^VGG/ I / I / I I l I I / I 

AVR • VRSINVS • VPPR 

P R O VI N C L V S I T A N I f 

IJoilGES DE FlGUIClUEDO. 



CONSTITUIÇÕES DO AKCEBISPADO DE LISBOA 

Dccreladas por D. João Esteves (l'Azambuja (1402-1414) 

{Contlmiado de pag. 70'\ 

23 Item por quanto per rr.ilnçam de mnytos aprendemos e seja- 
mos ceilelicado (jne niiiylos piiores i"eytoies e vigairos e ptiostes 
da egfeias da dita cidade e aiçidjispado tiom querem liir conunuiigar 
os enfermos fora das villas e casleHos Ini estam as egreias em luga- 
res alloiigados e ri'emolos a (pie sse estende {sic) as fieguisias das di- 
tas egreias que sam grandes e delíiisas dizendo que noin podem aalla 
liyr sem grande trabalho e peiiigo de leuar o corpo do saluador com 
lume e cum aijuella liourra (pie deue sseer Irautadu e leuado, porém 
nos consirando que o corpo do saluador e i'remidor Jlm x° em 
que está a saluaçam e saúde dos xpaãos deve sseer leuado com gran- 
de hoiirra e rreuerençia porem de (sic) e por que os que quei"em a 
cumunhom nom morrerem ssem ella e a rreceberein como com|)re aa 
saúde das suas almas siabellecemos que quando algimm rreylor ou 
outro a que perleençer líor. rrequerido pura liir comungar lora das 
villas 6 lugares lionde as egreias cujas ÍÍVegiiisias sam os que reque- 
rem a cumunhom que os sobreditos priores ou oiilros a (]iie peiteen- 
cei" possam em este caso na casa do que ouuer.de rrecebei' a dita co- 
munhom ou em outra daipielle lugar sse íor mais honesto leuantar 
altar e cellebrar em elle e consagrar a ostia pêra comunhom e dalla 
ao enlíermo segundo a irurma e maneira acuslumada. 

(jiie nom façom sorlcs nem encjnlaiiwnlos. 

24 Item iioso antecessor dom joiíam da boa memoiia a que deus 
perdoee arcebis[)o (pie foy da dita cidade fez e ordenou estas consti- 
tuições que sse segiKun [)rimeiiainei!le (]ue nenhun; nom liuse de sor- 
tes nem dagoyros nem de encantamentos nem de escunjurrim (sic) nem 
chamar espirilus mallinos nem de trazer escripturas nem nominas em 
(pie ssejain escriplas pallanras maas e desonoslas com tigiiras nem 
canrantaras ou com nomes e pallauras que nom possam sseer enlen- 



E HISTÓRICA 95 



(lidas nem arliadas nas sanlas escr iplinas. IUmti per clle (Toy e per os 
nossos antecessores stabelliriílo ipic jcjuaassein anballas lesslas de 
sain vicenle. 

que 7unn façam cercos peia c/iaiitar os ilemonios. 

2õ liem (jue nenhum nom fezesse circo pêra chamar os demónios 
011 pêra ssaher as consas escoiuhdas ou pêra fazer íiiij^imenlos ernpee- 
ciinees [)er (pie sse (K^monslrain e sayham as consas (pie ain de vyr 
e IToy per elle posta senlen(^^'i de excomnnhoni em lotJos os (jue fezes- 
sem eslas e hnzassem delias. 20' liem líoy per elle posta senteriíja de 
excomunhom em as barregãas manlindas dos liomens casados e dos 
creligos de ordens sacras ou IjenefuMados e dos i relligiosos e por fpie 
os (pie as (lilás cousas fazem e liusam delias [tecain graiiemente e 
sse segue dos dilos maaos pecados gr.uides (l.ipnos e perdas assy das 
almas como dos corpos e heens (pn; os liomeMS liam, porem nos 
(juanlo aos dilos casos das conslilinções feitas pei' o dito nosso an- 
teíjessor poemos senlença de excomunhom em os (|U(> as ditas cou- 
sas ITezeiem segundo sse conlem em as ditas conslitui(;ões. 

que 110111 ponhoin iiiaão as crianças 

27 liem se conthinha em as ditas constilui(;ões que nenhuma pessoa 
nom posse (sic) maão em oulrem em maneiía de veedt-yia (;U henze- 
deyra ou emcanladeyra nem husasse de ydollalria fazendo ou di- 
zendo algumas cousas que perteencem mais a parle do inmigo da li- 
nhagem huiiian;ill qiie a deus e aos seus santos e era outro ssy def- 
fesso que nenhuum nom íosse a taaes veedeyros. 

(jiie nom lancem sortes nem augoas, nem ponham call as porias. 

28 Item se conthynha em ellas que nom cantassem mais nem to- 
massem agoas nem lan(;assem hy sortes nem dessem janeyras nem lan- 
çassem call aas portas em lenç-am que por as darem ou rrecebessem 
(sic) emlendessem de avermilhor annoou mez e nom as dando ou rre- 
cebendo pyor e que nom gardassem os dias azinhagos nem a terça 
ííeira creendo que hunm dia he milhor e de millior viloiia (jue outro. 

que nom vsem dakovelaria nem (ezes^in ao domiiiijo nenhum ser- 
viço. 

20 liem era conlliiudo nas dilas visitações (ju constituições que ne- 
nhuum nom husasse de alcouveylaria emí^luzendo molher viuua ou ca- 
sada ou moça virgem pêra corruçam e desonestidade. 30 Item que 
nenhuum nom i)raadasse nem sse carpisse pellos morlos. 

81 liem ijue nenhuuui nomseriiisse nem lizesse oulra obra de ser- 
uidom em os dias dos domingos e festas slabilliçidas por rreuerencia 
de deus e da sua madre e dos oulros santos os quaaes a egreia man- 
da gardar de toda a obra. 32 Item que nom cantassem nem danças- 
sem nem balhassem nem Irebelhassem nos mosteiros e egreias can- 
tos danças e trebelhos desonestos nem em a festa de sam vicenle. 

que nom façam feiras aos dias santos nem joguem dados. 

33 liem que nas festas de jhu x"^ e de sanla maria e dos appos- 



96 REVISTA AUCHEOLOGICA 

tollos e de sam joham se iiam fezesse feyra em caso que as festas 
acontecessem no dito dia da feyra e que fezesse no dia seguinte. 
34 Item era conlhiudo em ellas que jejuassem as fesstas de santo 
anlonliinho e de sam jorge. 5õ liem que nom jugassem os dados des- 
de véspera de nalall ataa oyto dias andados de janeiro. 86 liem que 
nom tomassem meezinlia de judeu nem de homem outro fora da ley 
nem comessem suas viandas nem os chamassem aas suas doores. 

{Conlimm). 



i^IBLlOGRAPHlA 

Anneis. Estudo por A. C. Teixeira de Aragão. Lisboa, 1887 — 
8.°, est. 

Ninguém ha, mais ou menos dado aos estudos archeologicos e es- 
peciahnenle á numismática poi-lugueza, que desconheça o nome do 
sr. Teixeira de Aragão, cirurgião-mihtar, professor de hygiene na Es- 
cola do Exercito, e por isso wmVa mais diremos por agora, senão que o 
distincto numismala acaba de pubhcar um curioso opúsculo acerca do 
anml. Neste opúsculo, encontram-se em 23 paginas muitas conside- 
rações sobre este adorno antiquíssimo, e noticias de vários anneis 
mais ou menos notáveis existentes em Portugal, sobresaindo entre el- 
les*dois; um, pertencente ao sr. Eslacio da Veiga, composto d'uma 
cornalina engastada em oiro, na qual se vè gravada uma breve in- 
scripção árabe; outro, pertencente ao auctor do opúsculo, de prata 
doirada, lambem com cornalina engastada. Nesta vò se uma figura de 
homem em meio corpo, com coiôa real, tendo na mão esquerda uma 
palma e na direita uma cruz radiada; na orla do engasie leu o sr. 
Aragão y_o — A — O; no aro, dos dois lados do sinete vê-se um Y 
coroado, como se encontra nas moedas de D. João h, a quem é attri- 
buido o annel. 

Este trabalho do sr. Aragão é muito interessante; é pena, porém, 
que o auctor haja dado tão pouco desenvolvimento a um assum|)to (|ue 
lhe proporcionaria ensejo de patentear os seus conhecimentos. Porque 
na verdade muitas oulras e importanlissimas noticias nos poderia dar 
acerca desta espécie de adorno, que como o torquex ascende a uma 
remotíssima antiguidade. 



E HISTOHICA 



97 



TRÊS ]\Í0NUMENT0S EPIGRAPITICOS 
D'ELVAS, E DO SEU TERMU 

meu amigo o sr. F. R. da Paz Fiirlado, grande amador de an- 
tiguidades, des('ol)riu ha tempos em Klvas as três inscripções roma- 
nas, de que vou dar noticia, e que serão novidade, segundo julgo, 
para a maior parle dos leitores da lierisfa, por não haverem eílas^si- 
do ainda publicadas em l*oilugal. 

1 — encontrada num quintal da lUia de S. Vicente, junto a um 
poço; hoje na liihliolheca da Camará Municipal. 

G • I V L I O G A L 1^ O G\r/o Jiilio Gallo, emerite{n)si vete- 

EMERITeSI VeTeR>JO rano L{e)g{ionis) SepWnae Gemime 

LG-VII-G-F-sTlPENDIS Felicis, stipendi{i)s emeritis, annornm 

E M E R I T I S • A /W • L X X septuaginta. H(ic) s{itus) e{st). S{it) 

5 H • S • E S • TtL • IVLIA • PRIMA ^"*') ^i<^f>'^) Uevis). Júlia Prima, li- 

LIB • ET • CONIVX ■ PATRONO */^''^'^) ^^ '^''""''*'' P^i^ono benemeri{tó) 
BENEMERI • D • P • S • F • 



d(e) p{ecunia) s{ua) f(ecit). 
Monumento elevado a Gaio Júlio 
Gallo, emeritense, veterano da Legião Septima Gemina Feliz, que complectou 
legitimamente o serviço militar, fallecido na edade de setenta annos. Aqui está 
sepultado. Seja-te a terra leve. Júlia Prima, liberta e cônjuge, mandou fazer á 
sua custa este monumento em honra do seu patrono benemérito. 

Temos nesta inscripção exemplo d'um militar que complectou legi- 
timamente o serviço, e obteve portanto a honeslam missmtem slipimdiis 
emerilis. É a primeira inscripção encontrada em território portuguez 
em que esta fórmula se encontra. 

2 — Encontrada no estabulo da herdade das Terras da Aldeia, po- 
voação de Santa Kulalia, concelho de Elvas. 



D f M »• S 

M CLODIVS IV LI 

N V S A N N XXi 

H »- S r E r S »• T í- T r L »-| 

giíttus 5TITVS CLODlYSpaícra 
MODESTVS ET 
BLESIDIENAMAR 
CELLA P r ET M FILIO 
PIÍSSIMO r F '■ C 



Diiis) (Manibiis) S(acnon). Mar- 
cus Clodius Juli\_a\nus, ann{oruin) 
A'A'/[/], li{ic) s{itus) e{st). S{it) 
t[ibi t(erra) Uevis). Titus Clodius 
Modestus et Blesidiena Marcella 
p{ater) et m{ater) filio piissimo 
/[aciendum) c{uraverunt). 

Monumento consagrado aos deu- 
ses dos mortos. Marco Clodio Julia- 



no, fallecido na edade de vinte e 
dois annos, aqui está sepultado. Seja-te a terra leve. Tito Clodio Modesto e Ble- 
sidiena Marcella, pae e mãe do fallecido, cuidaram em levantar este monumento 
á memoria de seu piedosissimo filho. 

Rev. Arch. e Hist., I, N.° 7 — Julho 1887. 7 



98 REVISTA ARCIIEOLOGICA 

Os symbolos gravados nas faces lateraes do montimenlo indicam 
pertencer o fallecido á classe sacerdotal. Na terceira linha havia talvez 
mais uma unidade além daquella de que restam vestígios; numero 
maior não poderia conter-se no espaço partido, segundo observou o 
sr. Furtado. 

3 — Descoberta, ao sul da cidade, no casal da herdade do Fal- 
cato, junto do caminho de Évora para Badajoz. 

COMINIAr M rFrAVITA Cominia Marci f{ilia) Avita, an- 
A N N O R ave * ave V 1 1 1 1 nor{um) VIIII, h{ic) s{ita) e{sí). T{e) 
HrS»-E»-T'-R»'PrDr SrT'- T >■ L r{ogo) p{raeteriens) d{icas) s{it) t{i- 
M '• C O M I N I V S »- G L E M E N S bi) í{erra) l{evis). Marcus Cominius 
5 V I B I A '^ M r F »• AVITA Clemens Vibia Marci f{ilia) Avita 
FILIAE '• FACIENDVM '- CVRAR filiae faciendum curar{unt). 

Cominia Avita, filha de Marco, 
fallecida na edade de nove annos, aqui está sepultada. Rogo-te, viandante, que 
digas : Seja-te a terra leve. Marco Cominio Clemente e Vibia Avita, filha de 
Marco Vibio, cuidaram em mandar fazer este monumento em honra de sua 
filha. 

Na segunda linha a folha de hera que separa as palavras é ladea- 
da de duas pombas. A formula Te rogo, praeteriens, dicas: sit libi 
terra levis é muito vulgar na península, seguindo-se as mais das vezes 
immediatamente ao h • s • E • Encontra-se ora expressa unicamente 
pelas iniciaes, como na inscripção presente, ora escripta por exten- 
so. Esta fórmula apparece modificada de muito variadas maneiras, 
subsistindo todavia sempre a ideia inicial de rogativa, feita ao trans- 
eunte, de proferir o sacramental ST-T-L- Eis as variantes que 
se lém encontrado na peniusula : 

Numa inscripção de Gadix lê-se (C. /. L., u, n.^ 1728): te- 

rogo-praeteriens-cvm|legis-vt-dJcas- 
SIT-TIBI-T-L<i); uoutra da mesma localidade, esta leve vaiian- 
le (Ibid., n." 1853) :te- rogo-praeteriens-cvm| 

LEGAS-ET-DIGAS-S-T-T-L- 

Numa inscripção de Linares (Castulo) apparece (Ibid., n.° 3296): 

ie PRECOR • PRAETERIENS • D 
I CITO • T • L • 

8 noutra de Trigueros (Ibid., n.° 952): 
siovis • IIS • 

PRAIITIIRIIIS • LIIGII 
SITTIBITIIRALIIVIS 

onde ha exemplo do e representado por dois ii. 



E HISTÓRICA 99 



Noutras e[)igra|)lies o prupleriens ê subsliltiido, quer por trans- 
grcdiens, como muna de Sevilha (IhiiL, u." lá^í);: TK • ROGO • 
TRANSg^rEJlENSjDlCAS S-T-T-L; quer por discedens, 
como se vè num lellreiro de Cadix, que o leitor curioso não desgos- 
tará de vêr ai]ui transcripto integralmenle {lOid., n." I82lj: 

AVE 
HERENNIA • CROCINE 
CARA • SVEIS ■ INCLVSA • HOC • TVMVLO 
CROCINE • CARA • SVEIS • vjxl • EGO 
ET • ANTE • ALIAE • vIXERE • PVELLAE 
IAM • SATIS • EST • LECTOR • DISCEDENS 
DICAT • CROCINE • SIT • TIBI ■ TERRA 
LEVIS • VALETE • SVPERI 

Encontra-se o praetcriens também subslituido pela phrase qui trans- 
is; como numa iiiscripção de Conimbriga (Ihid., i\.° 'ÒG9): DIC -RO- 
GO | Q v l • T R A N S I S I S I T • T I B I • T E R R A I L E V I S ; ap- 
parecendo mais desmvoivida noutra de Valera de Arriba, Valeria {Md., 
n." 3181): 

. . . STTL 

FREQVENS VIATOR 

S^PE QVI TRrJSIS LEGE 

NATVS PRO TE SVM 



Esta rogativa apparece ainda mais periphrastica numa inscripção 
em verso descoberta em Merida {Ibid., n." 538): 



TV QVI CARPIS ITER GRESSV 
PROPERANTE VIATOR SÍSTE 
GRADV QVAESO QVOD PETO PARVA 
MORA EST ORO VT PRAETERIENS 
DICAS STTL 

Outra periphrase num monumento infelizmente mutilado de Vil- 
ches, cuja lettra é do primeiro século {Ibid., u.° 3256): 



tW ' ME- PRAETEREENS- N.... 

. .MNIS • E • NUMERIS- 

iam, q\l\ - LEGISTI - DIC • Sit ■ tibi ■ terra ■ levis 



100 REVISTA ARCHEOLOGICA 

Algumas vezes também a formula foi simplificada reduziíido-se a 
DIGITE QVI LEGETISSTTL, como SC vê em inime- 
rosas inscripções (Ibid., ii."' o0ri8, 1034, 1512. 1487, M2G. ele); e 
esta, por seu turno an)pliíicada, do (]ue dou os seguintes exemplos. 
Um epitaphio de Ilispalis tem {Ibid., n." 1235): 



QVISQ I EGIS TITVLVM SENTIS QVAM VIXERIM PARVOM 
HOC PETO NVNC DICAS SIT TIBI TERRA LEVIS 

outro de Salpensa (Facialcazar?), da sepultura d'um Pfjlades (.Ibid., 
n.° 1293): 



DIGITE • QVI • LEGITIS • SOLITO • DE • MORE • SEPVLTO 
PRO • MERITIS • PYLADES • SIT • TIBI • TERRA • LEVIS 

Se não fosse meu propósito o apresentar somente as variantes pe- 
ninsulares da formula, muitas outras poderia produzir, visto abunda- 
rem ellas nas demais regiões que fizeram parte do império romano, 

Borges de Figueiredo. 



MAIS UM MONUMENTO EPIGRAPHICO 
DE BENCATEL 

Temos felizmente uma Revista especial em que registrar o appare- 
cimento de mais um cippo, para se não perder a memoria d'elle. De- 
pois, ou desappareça ou não a lapide, não se perde já o documento, 
que assim fica bem archivado para os séculos vindouros. 

Historiemos a descoberta. No principio de março fazia-se o alquei- 
ve d'um ferragial da Herdade do Freire, situado entre o monte (casa 
da berdade) e o poço de que alli bebem. Um dos arados revolveu 
uma lágea de mármore branco talbado, que o conductor da parelha 
de muares desenterrou para a examinar, pondo-a em seguida de par- 
te. Lembrando-se depois de que poderia a dieta lapide servir para so- 
bre ella se moerem tintas, deu noticia do seu descobiimeiílo ao car- 
pinteiro do convento de Montes Claros, cuja é a lavoura do Freire; e 
sendo levada para alli num carro a 21 de maio, casualmente soube 
disso o administrador d'aquella casa e lavoura, o sr. António Joa- 
quim Coelho, que, vendo palavias latinas escriplas nella e conhecen- 
do ser um monumento de aiiligiudades romanas, mandou recolher a 
pedra para me ser mostrada no dia seguinte, em que havia de ter lo- 



E HISTÓRICA lUl 



gar lia egreja do convento a íesla annual de Nossa Senhora da Luz, 
sendo eu o orador da festividade. Apenas a vi, logo a interpretei; e 
pedi ao sr. Coelho que ma cedesse e enviasse para minha casa era 
Bencatel; o que elíeituou prompta e obsequiosamente no domingo se- 
guinte. É [)ois minha a lápide e pode ser analysada por quem o pre- 
tender. Eis as suas dimensões: alt. 0'".4:j; larg. O"', 52; espes. mé- 
dia (r,7. 

Diz o leltreiro, era caracteres de quatro centímetros nas primeiras 
quatro linhas e de dois centímetros nas lestantes: 

L • AVRELIVS • L • F Luciíis Aurelius Lucii fiilius) Flaus, ann{orum) 
FLAVS • ANN • XXX^ XXXV, h{ic) s(iíus) e(st). S[ií) t(ibi) i{crra) l{e- 
H-S-E-S-T-T-L vis). Pater d{e) s[iio) p{onendinn) c{uravit). — Pu- 
PATER - D • S • P • G bliiis Aurelius Aiger, ann{oruvi) X..., h{ic) siitus) 
5 p-AVRELivs-NiGER e{st). S{it) t[ibi) t(erra) l{evis). 

ann--^//h -s-e-s-t-t-l Aqui jaz Lúcio Aurélio Flao, fallecido com trin- 
ta e cinco annos de edade. A terra lhe seja leve. 
Seu páe lhe mandou pôr este monumento a sua custa. — Aqui jaz Publio Auré- 
lio Niger, fallecido na edade de . . . annos. A terra lhe seja leve. 

Algum tempo depois de enterrado Lúcio Aurélio, houve-se por 
bem accomodar outro cadáver na mesma sepultura ; e, porque ainda 
sobejava espaço dentro da moldura do cippo, accrescentaram ao epi- 
taphio primitivo o de P. Aurélio. * 

A pedra é branca, de calcáreo, porém mais grosseiro que o de 
Montes Claros ; o que mostra ser cortado para aquellas bandas do 
Freire, que é visinlio da serra d'Ossa, onde começa a haver granito 
somente, assim como dahi para baixo. 

U3matarei este artigo com duas observações. — Piimeira: Deve 
cônsul lar-se o diccionario Portugal antigo e moderno de Pinho Leal, 
coutiiuiado pelo meu prezadíssimo amigo o dr. Pedro Augusto Fer- 
reira, abbade de Miiagaya, no aitigo de Villa Viçosa, a que pertence 
Bencatel, e o d'este mesmo titulo, dt^nde constam os monumentos ro- 
manos conhecidos ao tempo da publicação. Enconlram-se alii as co- 
pias do cippo de Júlia Avita, da ara de Fonlanu e Fontana, e da 
campa chrislã de Domicia, etc. A Herdade do Freire está situada a 5 
kilometros da aldeia de Bencatel, para a parte do sul, juncto á mar- 
gem esquerda do Luciféce, onde em tempo dos romanos só haveria 
herdades {villae) como hoje ha. A povoação central era onde agora 

* Publio Aurélio Niger era uni irmão mais novo de Lúcio Aurélio Flao, como o 
indica o gentilicio; Lúcio, como primngcnito, recebeu o prcnome do pae, o que 
geralmente acontecia. Publio Nii^er fallcceu lalvez muito moço e ainda quando se 
estava a gravar o cpitapliio do irmão, ficando o moíuimento commum aos dois 
falltícidos, que o páe reuniu na mesma sepultura. — B. de F, 



102 REVISTA ARCHEOLOGICA 

assenta esta mesma aldeia de Bencatel, abrangendo porém aqiiella 
uma área muito mais extensa. * 

Segunda: Se eu não fora dedicado aos estudos archeologico>, per- 
der-se-hia o cippo agora descoberto, como em diversos tempos se 
perderam muitissimos, de que tradicionabuente ouço fazer menção. 
Conviria pois que se promulgasse uma lei que obrigasse os municipios 
a remunerar com qiiaesquer quantias as pessoas que lhe apresentas- 
sem monumentos antigos. Nesse caso, com a mira no interesse mone- 
tário, visto que só assim podemos approveitar alguma cousa que ap- 
pareça, aquelles que descobrissem qualquer antigualha a levariam lo- 
go à auctoridade. 

Bencatel, 2 de junho de 1887. 

P." Joaquim J. da R. Espanca. 



NOTAS SOBRE A TOPONYMIA PORTUOUEZA 

I 

É obvio que ao homem se impoz muito cedo a necessidade de dis- 
tinguir os diversos logares, que conhecia, por meio de nomes, do 
mesmo modo que a de individualisar os seus similhanles e todos os 
objectos que o cercavam. Os monosyllabos, que constituíram os pri- 
meiros vocal)uios, segundo se observa, exprimiam apenas ideias con- 
cretas; mas em bi'eve, começando o homem a applical-os a muitos 
objectos em consequência da sua faculdade de i^eneralisação, esses 
termos passaram a representar a principal qualidade commum a es- 
ses mesmos objectos. Conservando os termos uma significação geral, 
e portanto sem particularisarem ou especialisarem um objecto, expri- 
miam ideias invariavelmente relativas ás coisas physicas. Tornando-se, 
porém, gradualmente mais complexo o pensamento, mais complicada 
se tornou a linguagem, e as palavias, sem perderem a sua primitiva 
significação, principiaram a ser empregados em sentido abstracto, não 
naturalmente mas por metaphoras. 

Forçado pois pela necessidade de individualisação e em virtude da 
sua faculdade generalisadora, começou o homem a applicar aos diffe- 
rentes logares da terra os nomes, que formavam o seu vocabulário, 
e que designavam outros objectos. Entrado neste caminho, a derivação e 
a metaphora, a associação das ideias e a phantasia produziram o resto. 

Originariamente significativos, lêem pois os nomes de logares uma 
origem variadíssima: procedem dos diversos accidentes do terreno, 
da sua natureza e eslado; da posição da localidade, das suas con- 

* A(|uel!as paragens eratn provavelmente oceupadas por uma civitas cujo no- 
me por emquanto é desconhecido. — R. dk V. 



E HISTÓRICA 103 



dições climatéricas, da sua fauna, flora e mineraes; das curiosida- 
des naliiraes; das habitações e conslrucções de lodo o género; de 
toda a espécie de produclos arlislicos e industriaes, como de objectos 
do uso domestico e agricola ; de nomes de pessoas e de suas d(;ibrml- 
dades, como de sua posição social ; dos nomes de povos que habita- 
ram estável- ou temporariamente uma localidade ; dos factos históri- 
cos; das tradições religiosas; de antigos sanctnarios ; etc, etc. 

Torna-se hoje impossivel descobrir a etymologia de muitos nomes 
locativos, pelas modiíicações extraordinárias por que elles tèem passa- 
do, e ainda [)ela ignorância em que se está de innumeraveis particula- 
ridades linguisticas dos povos que os estabeleceram. Todavia, de mui- 
tas outras designações de logares se conhecem as origens; e algu- 
mas delias são da mais alta importância, seja qual for o ponto de 
vista sob que forem consideradas. 

Algumas etymologias topon} micas são extremamente interessantes. 
Em varias obras, entre as quaes, apezar de muitas imperfeições, tem 
logar distincto o trabalho de Salverte ^ se podem ver as etymologias 
de muitíssimos nomes geographicos. Aqui limitar-me-hei a apontar, 
como exemplo, alguns cuja origem é sobremodo curiosa. 

O nome Dakcliiuas, por que os brahmanes designam os paizes si- 
tuados ao sul da península gangetica, quer dizer juiizes situados a di- 
reita 2, proveniente de que elles se orientavam com relação ao levante; 
e o nome athapaska Achichillacnchoen quer dizer lorjar onde os homens 
choram porque a agua é vermelha. ^ 

E(j!/pto deriva da phrase lla-Ka-Phtah: (a cidade de Phtah'), pela 
qual os egypcios designavam a grande ]Memphis*;os gregos transfor- 
maram aquella phrase no nome de Atyvr:Tcç, que passou a todas as 
línguas eiu'opeas. A ilha de Cos, pátria de Hippocrates e de Apelles, 
é chamada pelos turcos Sta?Ko, nome que provém de os gregos di- 
zerem ir a Cos £i; zr,v Ku, o que os marinheiros extrangeiros enten- 
deram por Stenco ou Sianco. Se este fado não tivesse similares, po- 
deriam levantar-se algumas objecções; mas ha mais os seguintes 
exemplos todos de antigas localidades gregas: 

Lemnos: ú; zw AÃfj.vo) (ir a Lemnosj, Stalimene; 

Dia: £ii Ty,v Ata (ir a Dia), Standia; 

Uyzancio: siç Tr,v tzóIvj (ir á cidade) Slambul. 

O ultimo exemplo friza bem a importância da capital do império 
do Oriente que era para aquellas regiões a cidade por excellencía, 



1 Exsai historique et philosophique sur les noms dliommes, de petiples et de 
lieux, consideres priucipalement dans leurs rappovts avec la civilisation, par E. 
Salverte. Paris, 18-24. 

2 Maurv, Im lerre et 1'homme, p. 545. 

3 1(1.. ibid., p. 569, not. 1. 

* Maspero, Histoire ancienne des peuples de VOrient, 1. I, c. 2. 



104 



REVISTA AECHEOLOGICA 



correspondendo portanto a alludida expressão á nossa moderna ir á 
capital, ir á cidade. 

II 

Seria não só curiosa, mas summamente interessante a disposição 
methodica de todas as designações locativas portuguezas dorigem co- 
nhecida e ainda daqiiellas cuja significação se presume. A historia, 
como a ethnographia, a archeoiogia como a linguistica, se enriquece- 
riam com o estudo de todos esses elementos convenientemente con- 
densados; dispersos, como estão, não podem ser utilisados devidamente. 

Unicajnente como subsídios para esse trabalho vou apresentar por 
grupos alguns termos locativos mais notáveis, cuja significação é co- 
nhecida ou probabilissima. Creio, porém, dever precedel-os da lista, 
muito breve e muito incomplecta, dalguns exemplos da procedência 
das variadas designações de legares ; é a seguinte ^: 



Natureza do terreno: Areeiro, Bar- 
rosa, Gandara, Insua, Várzea... 

Accidentes do terreno: Algar, Co- 
vão, Lomba, Valle, Portella, 
Fraga... 

Estado do terreno: Alqueive. . . 

Posição da localidade: Foz-Côa, 
Ribamar, Porto, Entre-Aguas, 
Traz-os-Montes. . . ^ 

Fauna: Cegonheira, Coelheira, Lei- 
tões, Colmeal, Andorinha. . . 

Flora: Ameeiro, Ameal, Nogueira, 
Alçaria, Lirios. . . 

Florestas : Bouça, Souto, Carva- 
lhal, Castanheira. . . 

Curiosidades naturaes: Fei'venças, 
Fonte-quenle. . . 

Habitações e outros edifícios: Ca- 
sal, Castello, Torres, Paço, Mos- 
teiro, Egreja, Grijó. . . 



Conslrucções d,'utdidade publica : 
Ponte, Fonte-Arcada. . . 

Estabelecimentos: Azenha, Adega, 
Venda, Fornos, Pisão... 

Santos: Sangalhos [San Gallius], 
Sanjumil [San GemW], et passim. 

Nomes de pessoas: Moncorvo [Mem 
Corvo], Viegas [Ibn-Egas],eípas- 
sim . 

Posição social: Cavalleiros, Car- 
voeiro, Mestras, Promotor, Bes- 
teiros. Sargento-mór. . . 

Deformidade ou defeito pessoal : Bei- 
çudo, Orelhudo, Gigante, Ga- 
gos... 

Povos habitadores : Moura, Mouris- 
co, *Lordemão^. . . 

Factos históricos : Batalha, Conten- 
da. Campolide, Matança, *Povo- 
lide... 



1 i\as listas que vão seguir-se, c, quer dizor «casal»; h-, «herdade»; /„ «lo- 
gar»; m., «monte»; </., «quinta»; s., «sitio». A lettra duplicada indica haver mui- 
tos loçtares d'esse nome. () * denota ser duvidosa a procedência. 

2' Cf. Yamuto (Yamaato) «atraz dos montes», nome da província japoneza 
onde se estabeleceu o mikado em 710 a. C. (Maiiry, op. cií., p. i)'M). 

5 Parece-me que esta desi<;naçào locativa conserva memoria dos homnis do 
norte, os Normandos, que nos antigos documentos sào chamados Norinanos, Lo- 
thornanos, Lormanos, Laudomanes, 'Leodomanes. Sobre as invasões normandas na 



E HISTÓRICA 



105 



Objectos (lo uso domestico: Cântaro, 
*Malga... 

Objectos vários: Cruzes, Hebolo, 
Signo-Saiinão. . . 

Gestos: Alça-penia, Alça-pé, Mira- 
olhos. . . 

Vias de commiinicação : Estradas, 
Carreiros. . . 

Demarcações e monumentos : Mar- 
co, Padrão. . . 



líf/drof/raphia: Uibeira, Fonte, La- 
goa". . . 

Geoloíjia: Lage, Pedras ásperas, 
Barro branco. . . 

Mineralogia: Ouro, *Prala, *Go- 
bre . . . 

Astronomia : Serra da Estrella, Es- 
Irella, Estella. . . 

Etc, etc. 



{) Toponyinia pleonastica (designações locativas cumpostas, que 
apresentam redundância, ou em que o segundo termo reforça mais ou 
menos o sentido do primeiro) : 



Agro-Chão, 6 l. 

Agua- Levada, 2 l. 

Aramenha [*Er-mino] (Hermi- 

nio), //. 
Bicalto, s. 
Cabeço-Alto, /. 
Campo-Chão, /. 
Campo-Liso, /. 
Campo-Raso, 2 l. 
Chão Terreiro, /. 
Corgo d'Agna, /. 
Coval-Chão, s. 
Lage-Pedrinha, /. 
Monte Alminho [*Er-mino], m. 
Monte Arminio ['^Er-mino], m. 



*Monte-Allo, passim 
*Montes Altos, 2 /. 
Monte do Outeiro *, 
Monte Erguido, /. 
MontOulinlio, c. 
Monte-Serro, /. 
Monteserros, /. 
Outeiro-Montinho, /. 
Onteiros-Altos, 2 l. 
Pedras-Lages, 2 l. 
Pico-Allo, /. 
Uiba-Rio, 2 l 
Ribeiro d'Agua, /. 
Serro-Alto, ^3 l. 



passim. 



2) Toponyniia antithética (denominações locativas compostas, cujos 
termos apresentam antinomia) : 



Agro-Villa, 2 /. 
*Leiras-Covas, /. 
Lomba-Chã, c. 



Monte Campeno, s. 
Monte Chão, /. 
Vai Serrão, 2 l. 



península, vej. Mooyer, Die Einfnllen des Normannen in die pyrenaische Halbin- 
sel. Miinster, 1881. (Ha uma versão port. de G. Pereira); Viterlto, Elucidário, 3. 
vv. Lnudniwines e Keiniso: tMorez, Esp. Sagr., t. xl, f. 40:{; Cliron. Goth. apud 
Port. Mon. Hist., Srript., vol. i, p. 9 ; S. Rosendi vila et miracula, ibiil., p, 3o e 36; 
Port. Mon. Hist.. Dipl. et Cliart., vol. i, p. 61. 

1 Deve advertir-se que |)rin('ipalniente no sul do reino a palavra monte designa 
frequentemente «casa de lierdado». 



406 



REVISTA ARCHEOLOGICA 



3) Toponymia monumental (nomes de logares derivados de monu- 
mentos megalitliicos e congéneres): 



Antas 

Anta, passim. 
Antas, passim. 
Anleiras, .<. 
Antella, 2 l. 
Antellas, /. 
Antinlia, q. 
Pedra d" Anta, l. 
*Pedra do Altar, /. 

Menhirs 

Parafita [Perafita], 3 l. 
Pedra Alçada, c. e s. 
*Pedra Alta, 3 l. 
Pedra Empinada, s. 
*Pedra Firme, 2 l. 
Pedra Fita, /. 
*Pedra Longa, /. 
*Pedra Vedra, /. 
*Pera Longa, c. 
*Pera Picota, q. 
Perafisa, /. 
Peraíisos, /. 
Perafita, 2 l 

Alinhamentos 

Pedras Alçadas, /. 
*Pedras Altas, c e s. 
*Pedras Bastas, /. 



*Pedras Juntas, s. 
*Penedos Altos , 2 L 

Marcos 

Marco, passim. 
Marco Alto, h. 
Marco Branco, s. e h. 
Marco Giande, 2 l. 

Mamoas 
Fieis, 5 /. 
Fieis de Deus, 5 l. 
Madorra, passim. 
Mamoa, passim. 
Moronço, alg. l. 

Pias 
Pias, passim. 
Chão das Pias, s. 

Pedras vacillantes 

Falperra [Falsa-pedra], 9 l. 
Pedra Cavalleira, /. 
Pedra Encavallada, c. 
*Pedra da Paciência, s. 
*Perramedo [Pedra-medo], s. 
Peravanas, 2 l. 
* Penedo da Mó, l. 
*Penedo que falia, /. 



4) Toponymia religiosa (nomes locativos que toem ^a origem em 
antigos sanctuarios): 



Agua Santa, /. 
Aguas Santas, 5 /. 
Altar do Trivim, s. 



Altares, /. 

Alto da Santinha, serro. 

*Bussaco *, m. 



' Ad. Coellio, Rev. d'Ethnologia, p. 147 not. 



E HISTÓRICA 



107 



*Hiissacos, .s\ 

Cabeça Santa, /. 

Chã das Santas, /. 

Clião dos Santos, /. 

Fão [1<';miiis], /. 

Fonttí Santa, pa^^sini. 

Fontes Santas, /. 

Logo de Dens, 2 l. 

*Moch3rro [Mons Sacrus], .s\ 

Moinho Santo, /. 

Moita Santa, /. 

*Monchiqne *, m. e /. 

Monjove [Mons Jovis], m. 

Monsanto, 4 s. 

Mo n são, 5 s. 

*iVloiisari'os [Mons Sacrus,] /. 

Monte da Santa, /. 

Monte dos Santinhos, /. 

Monte dos Santos, /. 

Monte Santo, 2 l. 

Monte São, /. 

*Sandomil, /. 

Santa, 5 l. 

Santães, /. 

Santagões, /. 

■*Sanlalha, /. 

Santão, 2 l. 

*Santar, S l. 



*Santarinho, /. 

Santas, 2 l. 

Santinha, 4 l. 

Santinho, 4 I. 

Santissirni), /. 

Santo, 17 l. 

Santomil, /. 

Sanfin *[San FeiixJ, /. 

Sanfins [San Félix], //. 

Sanflppo [San Fihppe], /. 

Sangalhos, S l. 

Sangens, /. 

Sangemil, /. 

Sanhoane [San Johanne], S L 

Sanjumil. /. 

Sanjurge, /. 

Sanoane, /. 

Santo Sidro [Santo Isidro], l. 

Santoro, [Sanctorum], /. 

Santornm 2 /. 

Santos, 8 /. 

Santosinhos, /. 

Sanlidhão, /. 

S. Noane, /. 

S. Noanne, /. 

Vai Santo, /. e s. 

Vai do Santo, /. 



Gomo se vô, são muito incompletas as listas que precedem; mas 
advirta-se que foi meu único intuito apresental-as apenas como uma 
modesta contribuição para o estudo da lopouymiM portugueza, estudo 
cuja importância é de lodo o ponto evidente. 



Lisboa, 26 de maio de 1887. 



Borges de Figueiredo. 



Id., ibid. 



108 REVISTA ARCHEOLOGICA 

CONSTITUIÇÕES DO ARCEBISPADO DE LISBOA 
Decreladas por D. João Esteves d' Azambuja (1402-1414) 

[Coutinuado de pag. 96\ 

que sse tiom casem sse nom em face da egreia e que nom vendam 
carnes nem viandas ao domiiígo 

37 Item era delesso que iienhiiimi nom casasse sse iiam em face 
de egreia e passadas as amoslações per três domyngos pêra sse sa- 
ber se ha liy alguiim embargo a sse nom fazer o casamento. 

38 Item era delfesso que nom uendessem carnes nem outras uian- 
das ao domingo atee que sayssem das missas e pregaçam. 

dos barregueiros 

30 E por quanto em a mayore parle das suas constituições eram 
posstas sentenças de excomunliom em aquelles que o contrayro fezes- 
sem e porque as suas ditas sentenças de excomurdiom nom soomente 
empeeçem e legam aquelles que as encorrem e que sam postas, mas 
ainda empeeçem e legam (sic) aquelles que con elles participam, porém 
querendo nos a esto proiier por saúde das almas dos nossos subiey- 
tos rreuogamos as sentenças de exconumbom postas e contliiudas nas 
dilas constituições e cometemos nossas uezes a lodos os priores e 
curas do nosso arcebispado que possam absoluer quaesquer dos seus 
freguezes que atee ora em ellas encorreram e nom endjargando que 
sy ora rreuogamos as ditas sentenças de excomunbom pêro ponjuan- 
to as ditas constituições sam boas e honestas e fetas segundo direito 
porém de consenlimenlo e consselho do nosso cabiido as aprouamos 
e rretificamos a lodallas cousas em ellas conlhiudas tirando as dilas 
senlenças de excomunbom as quaaes queremos que nom aiam daqui 
em diante liigar affora nos ditos ti'es casc.s. s. feyticeyros adiuinha- 
deyros aguireyros sorteyros feeticeyros et cetera das barregaas 
manthiudas pubricamenle per os casados e creligos beneficiados ou 
dordens sacras e rrelligiosos sse as leuerem notoriamente comssigo 
nas casas em que morarem e uiuerem e em esto caso soomente he 
nossa tençam que elles encorram em sentença de excomunliom e no 
ieiuum das uesperas danballas festas de sam uicente por(|ue nestes 
cassos nom he nossa lençam rreuogar as ditas sentenças de excomu- 
nhom mas de as aprobar e rreteficar. 

que guardem santa eiriia 

40 Item queremos e estabelleçemos que os da villa e arcediagado 
de Santarém gardem as festas de Santa Eirea de toda a obra e façam 
festa doblez. 

que gardem os corregedores esfas constituições 

41 Outrossy queremos e rrogamos ao corregedor e justiças e rre- 
gedores desta cidade e dos outros lugares deste arçel)ispa(lo tpie fa- 
çam comprir e gardar as ordenações e statutos que sobre algniuis dos 
ditos casos per elios forem fetos punindo os que contra elles fezerem 



E HISTÓRICA 109 



seçrundo sse em ellas contém em tall giiissa que os estatutos e proui- 
mciitos per elles fetos e confirmados per nosso senhor elHey sejam 
conipridamente cardados e postos em execnçam assy como cnmpre a 
seruiiu) de dens e proll das suas almas. 

que os crdií/os rua sscijiiros o simulo 

42 Item seguramos todollos crcdigos que vierem ao nosso sinado 
quando e em quallfjuer tempo que lio fezermos que uenham seguros 
e nom seiam presíjs nem rrclliiudos per nos i'em per nosso niandado 
nem per nossos vigairos e oCíicinaes nem [)er seu mandados isici por 
algumas (luerellas de inalleílcios e excessos que delles aiam ados (sic) 
esso medes que nom seiam demandados nem citados por nenhumas 
diua das nem contrautos nem outras cousas ataa que tornem a suas 
casas e beneíicios. 

(jue uiíuuhnn cspreuer estas constituições 

48 Item (juerenios e mandamos em virtude de obediência c sob 
pena de excomunliom que todollos priores e vigairos perpétuos e ra- 
çoyros da dita cidade e arcebispado cada lium em sua egreia façam 
e mandem esprever estas nossas constituições em seus linros atee seis 
messes por nom podei^em alegar e pretender algumas excusaçonees 
e pêra sse em ellas enformarem assy que cada huma egreia as tenha 
escriptas e os priores e vigairos que o nom quizerem fazer mandamos 
que pague cada huma egreia huum marco de prata pêra a obra da see. 



{Falta o resto) 



EPITAPHIO DO SÉCULO XII 

No Museu do Carmo conserva-se uma pequena lapide (alt. O™, 18; 
larg. O"',!'), acerca de cuja proveniência não ponde colher informa- 
ções exactas, tendo a seguinte inscripção, com muitas abreviaturas e 
leltras conjunctas, e de que se pode ver o fac-sinille na est. xm. 



V ; I D U S ; I N li I í : o B 1 1 T ; V" Jdits l{a)n{ua)rii obiit 

D I D A G V S •: MONIZ: Didacus Mom:f cui{u)sa{n)i- 

CVS : A I A ; REQES; {m)a req(ii)iesmeret.E{r)a 

MERET ; E ; iM ;■ CG : XX ] IX ; Eral22g MCC XXIX.Aspice q{ii)ia 

5 ASPIGE:qa;QD: "ÍL S \ p.C.iigi q{tio)d su^l7l)eris.Me}ne{u)- 
F Y l [ Sí -QD ■ S V \ E R l S [ to m(e)i; or[a]te pro me. 
M E M ET O •: M r ; O R • T E •: A o de janeiro falleceu 
PR O \ ME \ Diogo Moniz,cuja alma me- 
rece descanço. Era de 1229. 

Medita : pois o que tu és, já eu o fui ; e o que eu sou, tu o serás. Lembrai-vos 

de mim ; orae por minha alma. 



•110 KE VISTA ARCHEOLOGICA 

Esta reflexão ijiiod es fui et quod sum eris encontra-se frequente- 
mente, com mais ou menos variantes, em epitaphios e outras epigra- 
phes medievaes e ainda posteriores. Anteriormente aos vandalismos 
que ha uns vinte ânuos quasi sem iulerrupção tèem sido praticados na 
malta do Bussaco, via-se por cima da porta interior da Portai ia de 
Coimbra uma caveira sobre dois ossos cruzados, representando o X 
inicial grega de Christo. Por baixo lia-se numa pequena lapide: 

Ó TU^ MORTAL, QUE ME VÊS 
REPLETE RIÍM COMO líSTOU : 
KU JA FUI O QVE TU ÉS, 
E TU SIÍRÁS O QUE EU SOU. 

Os dois últimos versos são uma fidelissima traducção da formula 
latina da inscripção sepulcliral de Diogo Moniz. 

Borges de Figueiredo. 



QUESTIONÁRIO ARCHEOLOGICO 

A redacção da Revista Arclieologica e Histórica, desejando por lodos 
os modos fomentar o desinvolvimento dos estudos archeologico-histo- 
ricos em Portugal, e sendo um dos primeiros passos a dar, para at- 
tingir esse fim, o tornar bem conhecidos os monumentos de todas as 
epochas que ainda restam, muitos dos quaes são ainda ignorados, e ou- 
tros se acham imperfeitamente descriptos, roga aos assignautes d'esta 
publicação, e a todas as deuiais pessoas que tiverem d'ella conheci- 
mento, que tomem na devida consideração o seguinte 

QUESTIONÁRIO 

I 

Monumentos megalithicos: — Anta ou dolmen (larga e grande pedra sus- 
tentada, em geral, horizontalmente por outras verticaes); Antella e 
lambem talvez anlinha (sepultura quadrilonga formada por varias 
pedras lateraes, tapada com outras pedras, coberta ou não de ma- 
môa); Mamòa ou màmoa (montículo artificial de terra, encimado ás 
vezes por um menhir): Meuhir (grande pedra collocada vertical- 
mente, como obelisco); Alinhamento (men/iirs ou simples pedras for- 
mando uma ou mais linhas); (7ro//i/(^67i (circulo formado por íí/fy^/^/r^ 
ou pedras levantadas); Pedra haloiçante (pedra collocada sobre ou- 
tra ou outras, equilibrada de modo que mais ou menos facilmente 
se faz oscillar); Pias (sepulturas abertas em rocha). 

Nome da povoação, freguezia e concelho? 



E HISTÓRICA m 

NonH! (lo lo(*;il onde exisle o momimento? 
Delcrmiiiiirrio ('x;i('t;t iressu local? 
Nome parliciilar por (juc é conliecido o monumento? 
Proprietário? * 

Coiulicções ou estado em que se acha? 

Orientarão: para (|uo lado (norte, snl, oriente, poente) estão vol- 
tadas as suas faces principaes, ou em que sentido se extende? 

Dimensões: diâmetro, comprimento, altura, laigura (em metros)? 

Que inscripções tem? 

Que gravuras ou esculptui'as tem? 

Que noticias, tradições, lendas ou superstições se lhe referem? 

11 

Templos antigos, egrejas, capellas ; mosteiros, conventos; castellos, tor- 
res; casas antigas, aniphithealros, tiwatros; banhos antigos; necro- 
poles. 

Nome da povoação, freguezia e concelho? 

Nome do local onde existe o edifício? 

Determinação exacta do local? 

Nome particular do edifício ? 

Proprietário? 

Amtjito do edifício (em metros)? 

Altura absoluta (em metros)? 

Que jnscripções tem? 

Que escuiptnras ou gravuras tem? 

Que noticias, tradicções, lendas ou superstições se lhe referem? 

111 

Aqueductos, arcos; coltimnas, estatuas; túmulos; cruzeiros, pad rões, pe- 
lourinhos; fontes, cisternas; pontes, vias romanas; minas, caminhos 
subterrâneos. 

Nome da povoação, freguezia e concelho? 
Nome do local onde existe a construcção ou monumento? 
Determinação exacta do local? 
Nome particular da construcção ou monumento? 
Proprietário? 

Dimensões da edificação ou monumento, extensão, altura, largura, 
diâmetro, circumferencia, profundidade (em metros)? 
Que inscripções tem? 

* Se pertence ao eslado,ao concelho, a um est abelecimento publico ou particular? 



112 REVISTA AECHEOLOGICA 

Que esciiIplLiras ou gravuras tem? 

Que noticias, tradições, lendas ou superstições se lhe referem? 

IV 

Epigraphia: inscripções em edifícios, monumentos, túmulos, roche- 
dos, cippos, ele,. 

Nome da povoação, fregnezia e concelho? 
Nome do local, edifício ou monumento onde existe a inscripção? 
Determinação exacta do local ? 
Nome particular do monumento? 
Proprietário ? 

Dimensões do monumento : altura, largura, diâmetro, circumferen- 
cia, espessura (em metros)? 

Que noticias, tradições, lendas ou superstições se lhe referem? 



Moedas mitigas {romainus, celtibericas, wisigothicas, hispano-arabes,por- 
tuguezas, etc); armas, alfaias: amalelos; moveis; objeclos de uso do- 
mestico e outros (que se tornem notáveis por sua antiguidade, ou 
por sua forma). 

(Calco, desenho, ou photographia, acompanhado (quando seja pos- 
sível) da indicação da proveniência e do nome do proprietário. 



MODO DE TIRAR CALCOS DE INSCRIPÇÕES 

Inscripções lapidares (Vej. pag. 16). 

Inscripções ou gravuras em objeclos melallicos, em marfim, em ma- 
deira, em pedras tinas, etc. 

Servir-se-ha de papel levemente collado e fino, mas resistente, de 
cera-de-cartucheira, e de cora branca, molle, ou obreia. 

Fixará o pape! sobre o objecto por meio da cera molle ou obreia; 
e esfregará todo esse papel com a cèra-de-carluclieira até que as par- 
tes planas fiquem ennegrecidas; a gravura apparecerá em branco, des- 
tacando-se perfeitamente. 

Pode empregar-se, em vez da cera-de-carlucheira, plombagina em 
pó, applicada com uma boneca do modo que fica indicado. 

Para copiar sinetes ou gravuras em pedras finas, o melhor pro- 
cesso é reproduzil-os em lacre. 



E HISTÓRICA 113 



INSCRIPÇÃO DE MONTEMOR-0-NOVO 

A inscripr^o fiincriíria úe MonUMiiúr. <|ue eu |)iihli(|iiei sugiiiido os 
textos eulão conhecidos, sobreliido o de Varei la, no Corpus Jnscr. Lat., 
vol. II, ii/' 1^2, a[)reseiila unia lingiiaiíem Ião sini(ular, e conlèin uma 
(juanlidade de coisas Ião [loiico inlelJiiiiveis, (jU(! havia todo o funda- 
inenlo para duvidar da aulhenlicidadí! das copias feitas sobre ella por 
pessoas conscienciosas, mas que não eram e|)igra|)hislas. Em 1871), o 
sr. Gabriel Pereira, o consciencioso e patriótico aiiti(iuario d"Evora, en- 
viou-me um desenlio do moniunenlo, i\\u' eu próprio não tinha podido 
vêr. Esse desenho, feito com muila exaclidão, contêm todavia alguns 
erros de leitura que augmentavam as minhas duvidas. Eu estava já 
disposto a acreditar que toda a inscripção havia sido retocada por uma 
mão inexperiente. D'estas duvidas me tirou a extrema obsequiosidade 
do meu excellente amigo, um dos editores d'esta Revista, o qual se 
torna, cada vez mais o verdadeiro preservador da epigraphia romana 
em Portugal. Elle me enviou excellenles calcos da inscri[)ção, de que 
trato, «(ue me collocain em estado de íixar-lhe o texto com toda a de- 
sejável segiu-ança. Não pode haver a menor duvida sobre a authenti- 
cidade úo monumento; ninguém em Poi-tugal. nem o próprio Resende, 
teria sido ca[)az de coni[)ol-a. Mas, o (jiie é singular, o texto assim fi- 
xado otíerece, todavia, á interpretação dilTiculdades qiiasi insuperá- 
veis. É por esta razão que eu o apresento aos leitores d esta liecisla, 
afim de que, se for possível, nós consigamos chegar á solução dessas 
diíTiculdades, aviribas nniíis» 

A lai)ide calcarea, que desde muitos annos ainda hoje está na pa- 
rede exterior do adro da ifjrcja matriz de Nossa Senlwra do Bispo, fron- 
teira d Camará Manicipal, em Montemòr-o-novo, tem de largura r",20, 
e daltura 0"\30. Está dividida por frisos elevados em três compar- 
timentos, sendo o do centro, que é três vezes mais largo que os ou- 
tros, aquelle que conlèni a inscripção. Os dois comparlimenlos late- 
raes eram, originariamente, ornados ajienas de algumas reiíresentações 
d"utensilios em baixo-relevo, mas não continham lettras. Tèein-nas 
presentemente, é certo, ambos os dois; mas estas lettras são d um ca- 
racter evidentemente de todo o ponto differente do da inscripção do 
meio. É o caracter, muito bem conhecido, das numerosas inscripçoes 
christãs de Portugal e dllispanha. do v° ao vi° século. Para não 
termos ao deanle de nos occupar desses textos, alheios ao objecto 
principal d'esta noticia, aqui os insiro, ajuntando que o da parte late- 
ral á esquerda do espectador, perdeu, ao seu lado esquerdo, um pe- 
queno pedaço, que pode ter contido três ou quatro lettras o máximo. 
Estes textos não tèem sido observados (mas talvez desprezados inten- 
cionalmente) pelos anteriores editores da inscripção; só o sr. Pereira 

Rev. Arch. e Hist., I, N.o 8 — Agosto 1887. 8 



e no da direita 



114 KEVISTA ARCHKOLOGICA 

OS copiou. Todavia o (jiie elle leu não concorda inteiramente com a 
licção dos calcos. Esíes dão, no compartimento da esquerda 

II ■■ M I ■£ dTTi c> 

fa W L I TH 
SEHX IDVS 

Ti S • A B I L If 
E I E R V (T 

Comprehendo apenas algumas palavras da parte da esquerda: [m] 
nomine ã(omi)m \ [fa]miíli X[rist)i.... seiía idns. As lellras da parte 
inferior,. . .sctia, parecem ser o final d'um nome, o áo famuim Cliristi, 
sepultado alli nos Idos de certo mez, cujo nome, assim como as in- 
dicações da era, foi omitlido pelo gravador da inscripção, sem que 
d'isso saibamos as razões. Não comprehendo nada do texto, que se 
encontra no compartimento da direita, tes a bille et (ou ei) enint. Ob- 
servo que as lettras bille (segundo parece) téem uma forma dif- 
ferente das outras d"este compartimento e do da esquerda. Mas não 
poderia dar lhe qualquer interpretação provável; esperemos o Édipo 
que nos ha de resolver este enigma. 

Os ornatos em baixo-relevo, que occupam o meio dos dois com- 
partimentos lateraes, em que se acham as inscripções christãs, de que 
acabamos de tratar, são: 

á esquerda: a esquadria com o prumo, a libclla cum perpendículo, 

á direita : dois instrumentos de forma singular, que não posso pre- 
cisar bem. Creio que é um malhete e um escopro. Estes, com a esqua- 
dria, compõem a mais usual ferramenta do canteiro. Já falei das suas 
representações muito fre(]uentes nos monumentos fúnebres romanos, 
nos meus Exempla scríplurae epigraphicae lathtae, (Berlin, 1885, in 
foi., supplemento do Corpus Inscr. Lat.), p. xxx e segg. O sentido 
geral destes ornatos é o mssmo que o da ascia, tão frequente nas 
inscripções da Gallia. Isto é, elles mostram ao espectador que o mo- 
numento foi expi'essamente erigido para os defuuctos alii indicados, e 
que não foi euipregado por ouli'as pessoas: numa palavra, que elle 
é um monumento novo. 

Passemos agora á inscripção da parte central. A formula sepul- 
chral, que constitiie a primeira linha do texto, encontra se, em lettras 
mais pequenas, na oiia siipriioi' da la[)i(le. As lettras das cinco linhas 
restantes, da altura de 4 centimetros (exceptuadas as da ultima, que 
só téem 35 millimetros), são bem traçadas o muito dislinctas. Apre- 
sentam as formas, muito elegantes, do fim do segundo século da nossa 



E HISTÓRICA 



H5 



era, ou do principio do terceiro, epoclia dos imperadores Cominodo ou 
Seiltiinio Severo. Os poiílos são l)em formados, IriariKular.^s, e não 
faltam em neiílinm dos locares em (|iie se espera eiicoiilral-os. Podem 
coiiiiiarar-se, para o eslylo [jaleographico das lellras, os specimeiís de 
differeiíles textos, todos' proveiiieiíles da [)eiiinsiila ibérica, dados nos 
meus Exempla sob os números 4i:{ a 448, 658 e 659. Eis fuialmente o 
texto : 



D 



iVlEMORlAEG-F- CALGHISIAE- FLAM 
PROV • LVSIT • IT • FIl. • PIISSIM • P:T • MAR • L • F 
SIDONIAENEPTDVLGETAPONLV 
5 PIANO • MAR • MEREIT- FABRIC • QVA • MISER • MA 
TER • IVN • LEONICA • K ARIS • SVIS • ET • SIBI 

a que eu propoiíiio a seguinte leitura: 

D(is) M{anibiis) S(acrum). \ Memorize [ ] G(ciii) fiiliae) Calchisiae, 

flamUnicae) \ provi inciae) Lusit{amae), [it{em)?] fiUiae) piissim(ae), 

et ALir{iae) L{ucii) f\iliae) \ Sidoni.ic, mpt(i) diilc(i)s{svnae), 

et Apon{io) Lu \ piano, mar{ito)^ 
merent[ibiis) fabnc{am)^ quaim) iniscr(a) ma j ter Jiin(ia) Leonica karis suis et 
sibi [/ffJí]. 

A maior parte dos nomes de família dos personagens nomeados 
neste texto, embora haja entre elles alguns raros, corresponde ás leis 
da nomenclatura romana da boa epoclia, tão bem conhecidas em ge- 
ral. Aponio Luinano, o marido da muliíer nomeada em primeiro jogar, 
sua filha Maria Sidónia, a mãe Jfiiiia Leonica. todos tèem todavia so- 
brenomes muito raros ou ainda únicos. A mulher nomeada em pri- 
meiro logar, a flaminica da província (sacerdócio bem conhecido, afi- 
nal), não" tem íiomeii genliliciHm, mas tem um sobrenome não menos 
raro do que os dos outros membros da sua família; nao me recordo 
de haver lido noutra paite um nome como Calcliisia. Eu tinha outr"ora 
julgado que a palavra wnnoriae havia sido mal lida,_e que, em seu 
logar, haveria um nomen gentile. Mas esti palavra é tao clara e certa 
como todas as outras nesta singular inscrípção. As lettras G • F (nao 
C • F) da segunda linha são o mais claras possível; não podem signi- 
ficar senão Gaii filia. Resta pois, como único meio de interpretação, 
suppôr que o nome de família desta Calcitisia, filha dum Gaio, foi 
omiltído pelo lapicida. 

Que o gravador provinciano não comprehendeu bem o texto, que 
lhe havia sido dado para sculpir, prova-se com outro erro na linha 
terceira: L v s I T • I T . Poisque me parece quasi certo que o i T não 
é uma abreviatiu-a, demais muito i)ouco commum, de item (o que da- 



116 REVISTA ARCHEOLOGICA 



ria um sentido granimalical, mas que é apenas uma addiçao supér- 
flua), mas sim iim erro de repetição, causado pelo l v S l T prece- 
dente. 

É verdade lambem que o systema das abreviaturas d'este texto 
Dão é o que já se conhece de tantos outi"os exemplos da boa epoclia. 
Âdmitte-se o f L A M • P R O v • L v S l T , onde se espera antes 
F L A M I N 1 c A , para distinguir do Jlcmmi a mulher deste. A abre- 
viatura L V S I T deu origem a um erro, a repetição da syllaba i t ; 
como já fica observado. Todas as outras abreviaturas (excepto D • M • 
S , G • F , L • F , F I L ) não são as conmiuns, que toda a gente com- 
prehende. MAR significa na terceira linha Maria, na quinta nunilus. 
As abreviaturas mais singulares e mais obscuras são as das palavras 
FABRlC-QVA na quinta linha. O sr. Mommsen, no segundo vo- 
lume do Corpus, tinha suspeitado que o Q V A poderia ser a abrevia- 
tura, conhecida pelas inscri|)Çues sepulchraes doutras regiões, de (/(iii) 
v{ij:it) a(/mos). Mas, além de faltar o numero dos annos, esta fornuila 
está aqui deslocada. Só tenho uma explicação a propor. As palavras 
de que se trata não podem conter um cargo ou uma designação qual- 
quer relativa a Apo})io Lvpiano o Jlamcn da província (porque sua mu- 
lher era, como se viu, a /lauiiiuca), princii)a!mente porque as palavras 
manito) merenHi) as separam de seus nom^'s. Resta pois unicamente 
suppòr que fabrica é a designação do niunnmento sepulchral. que a 
pobre mãe lunia Leonica tinha erigido aos defuntos da sua famiiia. 
Fabrica, na baixa latinidade, significa já, como nas línguas românicas, 
um edifício quahpier. Trebellio Pollion, o historiador dos Augustos, na 
vida dos dois Gallienos (5, ti) fala dum tremor de terra, que teve lo- 
gar em 20i2 de Cli., quo mola mullm fabricae devoratae sunt cuni ha- 
bitatoribus. Palladio, o auctor do de re rústica, emprega o termo no 
mesmo sentido (i 7, 4 e 9, i2). Ambos estes sao, é certo, auctores do 
quarto século ; mas nada obsta a crer que elle fosse já usado na lin- 
guagem do povo, no segundo século, e ainda antes. Entre os nomes 
numerosos e variados, que se encontram applicados, nas inscripçoes 
funerárias, nos túmulos, como domus, aedijicium e similhantes, tere- 
mos a contar, daqui em deante, também a palavra fabrica. O sr. Ad. 
Coelho, do fundo dos seus vastos conhecimentos das linguas români- 
cas, poder-nos-ha ministrar, provavelmente, exenqilos do uso da pala- 
vra fabrica no sentido geral de edifício ou de monumento. 

O redactor pi-ovinciano do texto que nos occupa, ou o próprio can- 
teiro, a (juem estava confiado o trabalho de o sculpir, deixou de dar à 
oração relativa. (]ue começa por Q v A , o seu verbo; fecit, ou facieri' 
dum curavit. È uma omissão pouco grave, comparativamente ás outras 
faltas, que o mesmo texto nos apresenta. Q v A por ova M é uma 
forma da escriptuia rústica nuiilo cominum. Sabe-se que o m final do 
accusativo foi frequentemente omiltido em latim, já nos antigos tem- 
pos da republica romana. 



E HISTÓRICA 117 



Eis pois como eu penso que deve ler-se e explicar-se o singular 
texto da iiiscriprão de Monleniór-o-novo. Ella nos ensina que lá mes- 
mo, no campo, entre os praodia rmtica dos Romanos de boa posirão, 
houve |)i)r Ioda a parle nioinnnenlos Tiincrarios duma ctTla im|)orlan- 
cia, como era sem duvida o de Apnuio LiipUuin e de, (Uikhisia, o //«- 
men e a flaminica da província, no liiii do segimdo século, e da sua 
família. 

IkTlin, Jiillio 1887. 

E. HiJBNER. 



NUMISMÁTICA PORTUGUEZA 
D. Diiarlfi 

No infeliz e curto reinado do sábio e virtuoso príncipe D. Duarte, 
foi dimímila a cunhagem de moeda, quer nos reíiramos aos cinco ly- 
pos geraes conhecidos, quer á quantidade de moeda fabricada de cada 
typo. 

O primeiro typo é o escudo de ouro. bonita moeda, de que se co- 
nhece hoje só um exemplar e que o nosso proverbial e criminoso des- 
leixo consente que continue fazendo parte duma collecção em Cope- 
nhague. 

Querendo estudar a historia natria em qualquer ramo, e sob qual- 
quer aspecto, é triste dizelo. precisamos ir mendigar ao estrangeiro 
o favor de nos mostrar o que é nosso! Que os particulares eudjora 
favorecidos da foituiia deixem os nossos monumentos e relíquias his- 
tóricas nas mãos dos estrangeiros, não os adquirindo convenientemente 
ou até vendendo-lh'os. não nos admira, visto o ignorante indifferentís- 
mo, com que alguns membros da família portugiieza, tão degenerada, 
olham para estes pergaminhos legados por nossos maiores, porque 
não são de enfunadas e equívocas nobíliarchías, porque não dão di- 
reito a um brazão darmas, mas porque dão a todos o direito, sem 
dístíncção de nomes, de se chamarem filhos desses heroes de faça- 
nhas (piasí mythologicas, d"esse punhado de homens que aquinhoaram 
para si, o que ha de mais brilhante na historia europea, o que ha de 
mais venerando na civilisação d "um povo que nasce dos sen.^ próprios 
esforços, que se emancipa, que se impõe ao mundo como o primeiro 
sob todos os aspectos e que junca a sua estrada luminosa de constan- 
tes tríumphos, de padrões de gloria e de louros immarcessiveis. Que 
fatal desgraça peza sobre Portugal, que occupa hoje de|)ois de vu sé- 
culos o nadir dessesol brilhante dos tempos áureos da monarchia por- 
tugueza. E os pygmeusde hoje, íillios d'esses gigantes de outr'ora. no 
fim do século dezeuove, esmagados talvez pelo pezo das glorias, ador- 
meceram, na estrada do progresso, emquanlo que o estrangeiro, ávido 



H8 REVISTA ARCHEOLOGICA 

d'estas riquezas, deslumbrado por estes inapreciáveis lliesoiiros, es- 
preita o depositário delles, e quando este se volta do somno da im- 
becilidade para o da indilíerença, o estrangeiro diziamos, passa por 
elle carregado de preciosidades, e com o riso sarcástico do despiezo 
atira-llie algum ouro, para pagar-lhe a criminosa indolência. 

Mas se os particulares commettem esta falta, os governos commet- 
tem um crime porque tem a mesma respons.djilidade individual, e 
tem a collectiva e moral, como administradores de bens que não são 
seus ou exclusivamente seus. 

Os nossos governos lazem lembrar os antigos administradores dos 
morgados, que (juando estes eram néscios, os outros por via de re- 
gra, eram delapidadores ou perdulários. 

É ao governo a quem compete a iniciativa de impedir a todo o 
custo que saiam do paiz os nossos monumentos de (jualquer ordem, 
fira este acto os interesses menos legítimos de quem ferir, e adquirir 
por quali]uer preço os (jue se acbam dispersos nos vários museus pú- 
blicos e particulares da Europa. É mostrando ao povo os nossos ve- 
lhos padrões sempre virentes de gloria, esses documentos irrecusá- 
veis do que foi a nossa grandeza, do que foi a nossa actividade, que 
poderemos educar a nação e tornal-a apta, senão para trilhara estra- 
da luminosa do passado, ao menos para lhe dar inn exemplo salutar, 
e bom conselho, obstando a que ella renegue os seus princípios ou es- 
queça o que deve a si mesma. 

Feitas estas considerações sobre o primeiro typo, passamos a fallar 
do segundo typo (jue é o Leal, de prata, moeda também muito rara e 
que o sr. Teixeira de Aragão descreve como pertencente á collecção 
do sr. Abílio Augusto xMartins, residente em Coimbra. 

O terceiro typo geral è o Real Branco, de bilhão, cunhos de Lis- 
boa e Porto, moedas também raras, e das quaes vamos apresentar 
duas variantes, que pelo menos indicam differentes cnnliagens, devi- 
das á incansável amabilidade do nosso amigo e grande colleccionador 
o sr. Júdice dos Santos. 

O quarto typo é o Ceitil, de cobre, também cunhos de Lisboa e 
Porto, moeda ainda hoje não muito rara. 

O quinto typo é o lieal Preto, de que por emíjuanlo não conhece- 
mos senão o cunho de Lisboa, e de (jue ap[)arece grande quantidade 
relativamente ás outras. 

Os dois exemplares de Reaes Brancos, citados pelo sr. Aragão são: 
o de Lisboa, est. xiv, íig. 1. 

«►!<. . . V A R 1) S§ . . . — Quinas n'um circulo ogive. 

RJ... D I V T O... I VN I NOS T... — C I | F E C I T C E L V * 
— Escripto em dois círculos; no cam[)0 G coroado; á esijuerda l (Lis- 
boa), com um signal occullo por cima. l*eza 80 grãos. lieal Branco. 
B.— 10.000 réis. D 



K HISTÓRICA 119 



O do Porlo. csl. XIV, fig. ^. 

«O mesiiio anverso do ;Hilt!iiof. 

1^. ^ A D .1 V T O R I V M N O S T R V N g Q V — F E C I T § 
CKVM i E § T RA. — No cainpo G coroaiJo, a direita p (Forlo). 
Peza 80 grãos, lieal Branco. B.— 10:000 réis.» 

As variaiiles que apresentamos são: 

A priin(3ira esl. xiv, íig. 'A, (jiie é de Lisboa, temos es(!iidos muito 
mais peípieiios, embora a moeda conserve no lodo o mesmo lamanlio. 
As únicas duas leltras que estão claras no anverso são D O . Kste o 
é um erro de fabricação, mas está legível, e siibstitue o primeiro v da 
palavra E D V A R D V S i]iie tem todas as moedas deste reinado. 

No reverso as dilíereiu-as mais importaiiles que tem da similhar 
desciipla pelo sr. Arai;ão. consistem em ler o L á direita e não á es- 
querda, e ser o lypo de letlra mais miúdo e mais bordado. 

O estado da moeda não nos permilte mais minuciosa analyse. 

A segunda variante é cunho do Porlo. est. xiv, ílg. 4. nãoesláem 
perfeito estado de conservação, mas vè se que, como a moeda anterior, 
tem o lypo de lellra mais miudo e o p do reverso indi''alivo da fabri- 
ca á esquerda do G em logar de estar á direita como no exemplar 
descripto pelo sr. Aragão. 

Além desles exemplares, lemos outros lambem em nosso poder 
que apenas divergem dos indicados [)elo sr. Aragão, em lerem diver- 
sos signaes occullos e diversamente collocados. e serem as legendas 
mais ou menos completas do (jue as destas moedas a que nos refe- 
rimos. 

Estas variantes, consideramoi as insignificantes e por isso não da- 
mos os seus desenhos. 

M. Ali:xa.nduI': di-: Sousa. 



VISITAÇÃO Á EGREJA DE S. JOÃO DO MOCRARRO 

D'OBIDOS 

por D. Jonjc da Cosia, era 14 de fevereiro de li67 



^D VE IÍ>T li: ]VC I A 

Eiilre os tloeuinpiitos que formavnm o codiee iiilitiilailo Livro ihis Visilnrões da 
Egreja de S. João do Mocliarro d' Óbidos, a que uie referi já a pag. 11 (i'esta Revista, 
tornava-se uotavol o que váe publicar-se. a>sim por shi" umi dos mais anliir'is speci- 
mens d'esta espécie ^\^' docuuifntds. como pt*la assignalura que o fecha. Ellectiva- 
mente o nome di' D. Jorge da (>osla. geraluieule mais couliecido p^-lo tituii» de "Car- 
deal de Alpedrinha», é um dos mais cdebres na historia pátria. Este grande amigo de 



120 REVISTA ARCIIEOLOGICA 

D. AfTonso v assumiu as funcções de arcebispo de Lisboa em 1460; e pelos annos de 
1470 a 1477 liigiu para Roma, receoso do desagrado de D. João ii. Em Garcia de 
Resende se pode ler a anecdota das pedrirdias de que o prudente e fino arcebispo 
receou a pancada. 

Esta visitação (que occupa dezoito e meia folbas de papel de formato in-4.°) é 
muito importante [)or nos dar a conliecer o estado e costumes do clero naquella epo- 
cha (passrm); pela penitencia imposta aos que se casavam secretamente {t. 9); pelas 
ordenanças relativas ás romarias e danças nas egrejas {t. 10); pelas determinações 
relativas aos leiticeiros (í. 17) e aos judeus (í. 29) ; etc. 

Falia infelizmente no íim o sello de cera vermelha, de que ha vestigios, junto 
do qual leviam estar consignadas as verbas do pagamento da visitação, que também 
desappareceram pnr ter sido rasgado o papel. 

Ao mesmo códice pf^rtenceu outra visitação do archiepiscopadu de D. Jorge, e em 
seu nome feita em 2 de junho de 1473. por D. João, Bispo de Çalim, em cujos títulos 
se acham, no gerai repetidas^ e frequentemente pelas mesmas palavras, as ordenações 
contidas na visitação pessoalmente etfectuada pelo arcebispo. Os titules da do bispo 
de Çafim, que não se encontratu na de D. Jorge, e algumas variantes de importância, 
formarão como que um appendice ao documento que hoje começa a publicar-se. 

B. de F. 

índice dos títulos 

1 — Intróito 

2 — Admoestações geraes sobre a cura d'almas 

3 — que hatitisem ssrus filhos a oiito dias. 

4 — que se confessem, des a dominga primeira dephifania atees a guareesma- 

5 — que tragam escriptura piibrica como ssom confessados 

6 — que os creJigos sse confesem 

7 — como sse deuem de confesar os raçociros e capeUaaes de missa em todas (?) 
três festas 

8 — como nom deuem de fazer casamento ssem serem primeiramente apregoados 

9 — a pena que am os leigos que sse casam 
10 — como liam de sseer hungidos 

11 — como deuem de ensinar o pater noster e ave maria e os preceitos 
1'^—como sse am de dizer as misas dos anniversarios 

13 — como sse am de rre partir os anniversarios cu benesse aquelles que pressente 
está (sic) ante três dias 

14— cowío liam de fazer huum linro de tombo de tndoUos beens da egreia 

lo — como ham de fazer duas cliaues darca das esoipturas 

i6—como nom am de cantar na egreia 

17 — dos feiticeiros e deuinhadeiros 

18 — como liam de fazer prioste benefiriiaclo e nom leigo 

19 — como sani comitidos os casos pontificaees a prior e vigairo 

20 — que sayam sobre or, finados 

21 — que nom arrendem seus benefiçUos 

'^'i — que nom façam rontraufos infilioticos 

23 — que nom arrendem quintaaes 

24 — que nom acudam aos ausentes com seus boneficiios 

2o — que cantem as oras apontadamente 

26 — que nom vauo aos domingos fora 

27 — como o benefiçiiado nom dixer misa page cincoenta réis 

28 — que non firam snymentos ao domingo nem festa 

29 — que nom tomem nenliuum pulcu em sua casa pêra seer xpaãos (sic) ataa tem- 
po certo 

30 — como fiirnn dinis no roro druein de rrezar 

31 — ccnno os priudrgiados am de leiíar seus beneficias 

32 — titidu dos creligus que sse nom faliam 



E HISTÓRICA 121 



33— titulo das misas das capellas 

34— f/os barregneiros 

35 — dos que som casados caUaáamente 

36 — como o prioste nom deue de entregar os fructos aos heneftdiados 

37 — titulo da esmolla de sam virente 

38 — os que nom ieiuarem a véspera de sam. virente 

39 — que nom seia ironimo ssenom creligo de misa 

40 — que nom sirua hum creligo ssoomente dons hencfiçiios 

íi — como sse deue de soterrar o creligo na egreia 

42— f/os dias do estatuto e dos qtie nom seruem seus henefiçiios 

43 — que sse confesem os creligos 

44 — que venham os fregueses aos domingos e festas a egreia 

45 — que repartam os reçoeiros as idas (sic) e trintairos 

46 — que nom digam misas nas hermidas 

47 — que ponham as constituições sinodaes 

48 — das penas do meirinho 

49 — que nom empenhem nenhuuns hornamentos 

50— Indicação do pessoal da egreja 

51— /í/?//o da prata 

b'^— titulo das vestimentas 

53 — titulo dos liuros 

54— Sobre varias obras a fazer na egreja (preambulo ao tilulo seguinte) 

55 — Sobre varias obras a fazer na egreja 

56 — Sobre reparos a fazer na egreja de S. Silvestre dos Francos 

57 — Sobre reparos a fazer na egreja de Bombarral 

58 — Sobre o pagamento da presente visitação. 

VISITAÇÃO 
su.in ioam dobiclos 

/ Doiíi Jurge pei^ merçee de deus e da santa igreia de romã arce- 
bispo de lixboa A todosllos beneficiados ecciesiaslicos persoas e assy a 
todo oiili-o poboo da dieta cidade e arçel)ispado saúde em Iliíl x" nos- 
so remidor e saluador que de todos lie verdadeyra saúde e saluaçam 
porque segundo a sagrada escriplura nosso senhor deus fundou esta 
sua millilante igieia 'aa semelhança daquella igreia triumphante da 
quall postoque elle sem outro meo seia pastor e gouernador assy pa- 
ro a mantém em sua bordem e gouernança que os anios e esprituos 
bemauenturados de mais diuindade ahimiam e teem huum modo de 
reger os de meeo e os de mennos e os das mais bayxas ierachias dou- 
trinandoos e emsinnandoos daqitelles mistérios e diiiinaaes sagredos 
que am do senhor deus a quem sam mais cheguados e assy receben- 
do mais hime dos outros todos e iuntamente louuam ho senhor deus 
do que he sua gloria, a saber, bemauenlurança em pêra a qual nos 
outros os homeens fomos criados bonde por assy seer em esta milli- 
lante igreia que ho aiuulamenlo dos liees xpaãos aa maneiía daquella 
em que ha toda perfeyçam deus hordenou ho santo padre assy como 
vigayro geeraal representante sua persoa pêra reger e gouernar de si 
pos em ella |)relados per (jue a outra crelizia e todos os fiees xpaãos 
aiam de seer rregidos e gouernados em maweyra que lodos uiuentes 



I2á REVISTA ARCHEOLOGICA 

em carne que elle comprou per seu priçioso sangue lenham leix per 
que saybam o que lhe conuem kzcr por sua sahiaçam das quaaes leix 
e guaida delias os dictos prellados sani encarreguados aos (piíiees lie 
diclo per xpõ (pie dem de |)acer aas suas ouelhas porem desejando 
nos que lodos nossos siibdilos e de (pie carrego teemos seiam per 
nossa regra cerlos do que pêra assy seruirem o senhor deus liam de 
fazer Iraballiamos de visitar persoallmenle ho nosso diclo arcebispa- 
do de que nos deus deu carrego enupiaulo sua uontade ílbr e viindo 
nos as cousas geeraaes achamos que se denem ao menos de guardar 
estas que sse sseguem porque das espi(;iaaees na iliin de a visita(;am 
sse liara mençam as quaees mandamos conprir a igieia de sam ioliam 
que i)esoalmente visitamos presente pêro aiines vigairo e os beneficia- 
dos cuios nomes abaxam (sic) seram declarados. 

2 Item Primeyramente vos mandanmos e obssecramos per viçera 
mininie dey noslri cpie consirees ho grande ciiyihulo (pie per deus 
e vosso prellado uos he dado e comitido acerqua da cura ^Jas almas 
dos nossos líreguezes em como sooees thiudo de dardes conto delias 
a deus em no estreyto iuizo que seiaaes mny diligente e solliçito em 
proiieerdes vosso holigio (pie uos lie emcomendado per deus como di- 
clo he e minstreres a vossos Itregueses os sacramentos da santa igreia 
em esliluidos (sic) e feclos em ella por rremedio e saluaçam das almas 
dos xpaãos eseendo uos achado nigligenle e rremisso acerqua da dieta 
cura aalem da dieta penna que ante deus mereçees per vossa nigli- 
gençia e sseerem demandadas as almas dos sobretlictos de vossas 
maãos que per vossa culpa perecerem vos será dada em preste lall 
penna lenporall (jue bem senlirees e seia emxemplo a uos e escarmen- 
to aos outros. 

que bautisem sem filhos a of/lo dias 

S Item porquanto ho santo bpatismo {sic) he priii(;ipio efítindainen- 
lo dos outros sacramentos da santa igreia nos conuem vos darmos 
rregra como oaiaaes (ie fazer e a maneira que nelle aiaaes de teenr {sic) 
porem vos mandamos que daqui em diante constrangaaes vossos fre- 
gueses e lhes mandees que do dia que lhes nascerem seus filhos alee 
oyto dias os Iraguam a bajitizar a (bta nossa igreia e uom lhes con- 
siiitaaes que os em outros lugares baptizem saluo em caso de ueçesi- 
dade nom podendo hir a dieta igreia e uom lhes tomarees mais com- 
padres daquelles que som maiuiados nas constiluyíjões antigas sob as 
pennas em ellas conthiudas e se algunns ho nom (piiserem fazer 
constrangedeos per ('ensura ecciesiaslica (pie o façam e (puírendo durar 
em sua conluma(;ia lazedeo saber a nosso uigaiio no espiíitiiall e tem- 
porall [)era remidiar a ello com direclo to-.iiando ao mo(;o dons lio- 
meens e hiima molhei" e a moça duas molhcres e hiiiini liomen. 

fjue se confessem des a dominga primeira da phifania alees a qua- 
reesma 

4 Item vos mandamos que na primeira dominga depois daphifa- 



E HISTÓRICA 123 



nia ainouesleus nossos fregueses e seus filhos e filhas mancebos e 
mariCL-has de sele aiiiios [)t!i"a cirna (jiie alee coieesina scyumle sse 
venliaiii coiiíessai' a nos on a onlrem que os absoluer possa com nos- 
sa licença e nos mostrem como sani confessados conslrangedeos pêra 
ello per çensnra ecciesiaslica e assy uos Iraballiaae qne ante do dicto 
lenpo sseiatn conífessados porípie em pnreza e fora de pecado [)Ossam 
no tempo santo da coreesma fazer pendenças frnctnosas pêra snas al- 
mas e sse alee lio dicto tein|)() flbi-em alginms renees a sse nom con- 
fessarem mandade lio rooll delles ao dicto vigayro pêra ello esto re- 
medear e constranger que sse confessem per lall maneira que quinta 
ITeira de cea e ao domingo da páscoa possam comungar lio corpo de iliu 
x° assy como de directo som thmdos e uos mandamos que assy como 
os conslrangees peia confinsam os coiistianguaees pêra i receberem a 
cominnliom porque a todo sam (hiiidos em cada liuum annosaluosse 
lhe per uos for niandadoquepor estou çe (s/c) nom recebam a dita co- 
mnnhom e sse algunm de vossos fregueses com coraçam emdurado 
quiser estar em sua perlia e nom receber os dictos sacramentos sse 
a morte tomar na dieta perfia nom lio irecebadas em vossa igreia nem 
çimiterio delia nem lhe façaaees algiium lioligo de xpaão pois qne a 
santa igreia quer que taaees como estes careçam da ecciesiastica sse- 
pnllura e viuendo em sua perfia nom os reçebaes em vossa igreia e 
posto qiH) seiam confessados nom sendo comungados e morrendo co- 
mo (lido he nom nos reçebaes a dicla sepultura comodi(to he e viuen- 
do nom os reçebaaes em a dicla igreia poiquanto de necessário som 
Ihiudos de recebíír em cada hunm anuo estes dons sacramentos de ne- 
cessário e fazee em cada hinnii anno caderno em que escrepuaaes os 
ditos fi'egueses pêra sal)erdes caaes sam a(juelles (|ue sse confessam 
e (pniaes nom. O re(;tor que neslo for nigligente que pague nnll reaes 
e sse for seu logo teente pague quinhentos pêra nossa chancelaria e 
aalem do que neste capitulo he conthiudo mandamos que sse gnarde 
em lodo ha forma da nossa caila que acerqua do rreçeber destes sa- 
cramentos he passada cnio irellado mandamos que se ponnha na ffim 
de cada hiima visilaçam. 

(jiie tragam cscripfiira propica (sic) como ssom confessados 
õ Item por (piaiito per verdadeyra enformaçam achamos que al- 
guuns que se nom querem confessar a seus priores e curas tingindo 
que- se confessam a algnuns religiosos on a outros sacerdotes e mos- 
tram aluaraaes qne parecem seer fectos ou assynados per taaes con- 
fessoi'es nom ho seendo e assy passam e andam contra mandamento 
da santa igreia emdurenlados em seus pecados muitos annos em gran- 
de daniio e condepnaçam de snas consciências ao que a nos connem 
proveer, porem querendo nos a ello dar aquelle remédio a nos posi- 
uell mandamos a todos os priores vigairos e curas do nosso arcebis- 
pado (jue nom recebam nem aiam por confessados algnuns de seus 
fregueses saluo aquelles que a elles se confessarem ou lhes mosti-a- 



124 REVISTA ARCIIEOLOGICA 

rem propicas (sic) scriptiiras como ho sam oii uiiia voz que lhe sseia 
(licto per aipielles confessores que os confessarem e doutra guisa nom 
de He aliiaraaes algutins que llies moslrem puslo que pareçam seer 
fecins pellos coiillessores nelles coiiUiindos como diclo lie anle ssem 
embargo delles proceda contra os dictos sens fregtiesses segundo lhe 
per nos lie mandado nesta nossa visitaçam sob penna per nos posta. 
a saber, de paguarem mil! reaes os que em esto nigligenles ííurem. 

qfii', os.crellgos se confessem 

O liem achamos (|uod dollentes rreferimus que alguuns creligos 
de missa da dieta cidade e arcebispado nom temendo deus nem con- 
siraiido a qiiam alto inistimabelle mistério som chamados e em quanta 
pureza e linpeza deueuem (sic) de receber e tractar ho santo sacra- 
mento do copo (sic) e sangue de nosso senhor Ihu x° andam por 
miiytos dias e anos que sse nom confessam e o pior que he aalguuns 
nom sam achados confessores e segundo aigmimas presuncõees nun- 
ca foiam confessados e sem uergonha de deus e temor da sua iustiça 
rrecebcm cada dia com pouca reuerença o corpo de deus em grande 
dapno e perigoo de suas conçiençias, e querendo nos a esto rreme- 
diar por o seruiço de deus e bem de suas almas mandamos aos so- 
bredictos que olhem em suas conçiençias sse em ellas teuerem alguum 
escurpollo que os embarguegue (sic) a o nom receberem e por que 
mall peccado entendemos (jue alguuns sem embargo de nosso manda- 
do (]uiserem hiisar do que dantes husauam mandamos a uos ou a 
quem vosso carrego teuer que coslraiiguaes vossos beneficiados e ca- 
pellãaees (]ue em vossa igreia seruiiem seendo de missa que cada 
huum mes nos façam certo como sam confessados e nom ho fazendo 
assy nom os consintaaes que mais celebrem em uossa igreia e fazee 
per tal maneira que hiso medes .facaaes em cada huum mes e^ que 
dees booin recado quando per ello uos for dedemandado (sic) e seen- 
do uos nigligente aceripia do que dilo he queremos que por uossa ni- 
gligençia paguees [lor cada hiima vez que esto nom conprirdes duzen- 
tos reaes brancos. 

como sse deitem de confesar os raçoeiros e capeilãaes de missa em 
todos (?) Ires festas 

7 Item sse em a dila nossa igreia teuerdes beneficiados e capel- 
liíaes (pie nom sseiam de missa ou outros alguuns seriiidores delia 
mamlamosuos sob a dieta [)enna que os constranguaees que per na- 
tall páscoa pititicosle façam certos como sam confessados e comunga- 
dos e nom ho fazendo elles assy os beneficiados nom recebam de seus 
benefii'ios alguuma cousa atee (pie se confessem e coinungiKím e os 
capídlftees nom consintaaees em nossa igreia assy como dicto he e por 
as dietas Ires ffestas Ifaçam assy certo todos aos vigaii-os das comar- 
cas como compriram ho (pie aqui mandamos e os dictos vigairos cer- 
liliijuem dello nossos uisiladores quando uierem sob penna de paga- 
rem de sua casa. 



E HISTÓRICA 125 



comn tioin th-iwm th' fazer cdsamenlo sscm serem primeiramente 
ap)-c(/0(i(l()s 

ò' Ileiíi |)on|iie al«,Mniiii;is vezes aquece que alguuns reyrutes e ou- 
tros crerigos fazem alguuus casamentos iiom fazendo primeiramente 
as soleni(i;i(los (|ue os derectos (]uerem e ao depois sse acham laaes 
eml)argf)S peiíiue sse laaes casameulos desfazem e queieiido nos a 
eslo neinediar e conlraiiar a laaes perigos mandamosuos que daipii 
em diante nom façaaes nem consintaaes em vossa igreia e freguisia 
seerem fectos taaes casamentos atees que ante per três domingos 
sseiam ao pobno deniuiçiados e declarados denunciando as persoas 
que am de casar e mandando aao [)oIjoo sol) penna de excomunliam 
que (piem algutim embargo souber antre as diclas persoas per que 
casados noui possam seei' que uenlia a nos dizer ou aa(juelle que nos- 
so lugar leuer e quando os ouuerdes de receber seiam rrecibiiJos aa 
p(;rta da igreia nossa asy como he costume. 

a pena ijue am os leigos que sse casam 

U liem achamos (]ue alguuns leygos da (bela cidade e arcebispado 
nou) esguardand em como os sanlos sacramentos da igreia deuem 
seer dados e nnnistrados aos íiees xpãos pellos sacercerdotes {sic) 
que som ministros e regedores delia aos quaaes per deus e pella di- 
eta igreia he conlhiuda {sic) a ministra(^-am, delles sse mouiam con te- 
meraiia au(la(;ia de fazerem casamentos em lugares priuados em suas 
casas, indo em lall fazer conlia os sanlos cânones e delerminaçam da 
santa igreia pella quail cousa sseguem muytas vezes que os maaos 
maridos e taaes molheres neguam os dictos casamentos em grande 
dapno de suas almas e conçiençias e porém querendo nos a esto pro- 
iieer e remediar com oportuno rremedio per esta presente amoesta- 
mos e mandamos aos diclos leygos de qualquer estadí» e condiçam 
que seiam que do dia que lhes esta visitaçam for publicada por três 
canónicas amoeslaçõees e termo preciso ou que delia noticia ouuerem 
alee Ires dias os quaes lhe nos damos por as diclas Ires canónicas 
dessislam sua temerária piesunçam e nom façam mais os diclos ca- 
samentos, e fazendo elles ho conlrairo passado ho diclo leinio quere- 
mos que ipso facto emcorram em sentença de excomunliam assy os 
noyuos como as outras persoas que presente forem a quall nos em 
elles poemos nestes escriplos da qnall excomunliam nom possam seer 
absolutos saluo per nos ou per cada luium de nossos vigairos gee- 
raees de lixboa e santarem segundo ho arcediago em que íoiem ou 
pellos vigairos pedanneos das uigarias e comarcas e averam sua ab- 
solluçam neesta maneira e em oulra nom e damos pêra ello poder, a 
saber, que os noyvos e os que os receberem eslem ante de seer ab- 
solutos três domingos aa porta da igreia de fora em quanto diserem 
as missas da terça, a saber, toda a missa descalços com senhas siluas 
ao collo grossas descubertas em lall guisa que pareçam ao pooboo to- 
do e as três (?) cada huma seu domingo pello dito modo e doutra 



i26 REVISTA ARCHEOLOGrCA 

guisa nom e se pervenlura os sobreditos vigairos forem reqiiiridos 
que lhes mudem estas pendenças em outras e llies parecer que o de- 
uem fazer ()or alguuma causa que os a ello mnua dammollies poder 
e autoridade que lhes ()0ssam mudar a dieta peuua em esta. a saber, 
que os uoyuos e aquelles que os receberem paguem cada huum cin- 
coenta rreaes peras obras meretoí/as que per nos forem hordeuadas 
e as testemuidias vinte cada hunm e satisfecto a esto per callqucr dos 
sobre(Uctos modos os possam absoluer e doutra guisa nom e ffazendo 
quallquer ho coiitravro dos dictos vigairos poemos no que ho con- 
trayio fezer sentença de escomunhom em estes escriptos da quall 
nom possa seer absolluto senam per nos e a higreia em que ba des- 
lar com as dietas siluas será aquella em cuia ffreguisia os dictos noi- 
uos uiuerem e aquelle que teuer aura [síc) da dieta igreia lhes lance 
as dietas siluas ao quall mandamos sob penna de exc.omimhom em a 
quall ipso facto encorra que uerdadeiramenle per seu escripto cerle- 
fique dello ho vigairo que os assy ha dabsoluer e sse for creligo o 
que lall casamento fezer pague quitdientos reaes do nosso aliube. 
conin /iam de sseer luingicJos 

10 Item porque todo ffiell xpãao des que nem aos annos da dis- 
cripçam be thiudo de receber os sacramentos da igreia necessários 
pêra sua saluaçam anlre os quaees ho postomeiro delles he a ultima 
unçam porém uos mandamos que amoestee nossos fregueses que quan- 
do os deus deste mundo quiser leuar rrecebam ho dicto sacramento 
6 vos seede bem dilligente a lho dar seendo uos requirido dando-lhes 
a entender em vossos sermõoes e preegações ha uirlude do dicto sa- 
cramento e quanta graça deus ffaz aaquelles que bo recebem e assy 
os animarees a o auerem de receber e porque a este sacramento he 
neçesario olio dos enfermos sem ho quall nom pode seer fedo vos 
mandandamos (,s/í") que do dia de páscoa atee quinze dias a mais tar- 
dar vaades pellos olleos e crixma aquelles lugares donde os soees 
auer e trageeos a vossa igreia sob penna de duzenios reaes brancos. 

como dcuem de ensinar o palcr j/oster e ave maria e os preceitos 

11 liem porque achamos que muitos xpãaos nom sabem lio pater 
nosier e a>ie maria e o credo in deum que som oiaçõees de neçesi- 
dade e as deuem saber pêra com ellas adorarem a deus e a virgem 
maria sua madre e creerem as cousas conlhiudas nos artigos da san- 
cta ífe calollica vos mandamos que em todollos domingos do anuo aa 
missa do dia depois da oferta digaaes nniy pasamente (sic) per ma- 
neira que os fregueses uos possam bem entender as dietas oraçõees 
aos sobre dictos e no auento e na coreesma depois da dieta olferta 
Ihts dizees mais os dez preceitos da ley com suas conlrariadades del- 
les declarandollios uos ho millior e mais comjjridamente que uos deus 
ministrar e as hobras da misericórdia por que as saybam e as com- 
[)ram e os sete pecados morlaaes per o (pie os conheçam e sse guar- 
dem delles e os sele sacramentos da igreia fectos e emestituidos (sk) 



E HISTÓRICA 1 27 



em cil.i [M)r o salii.iram dos xpãnos e os dooes do cspirilii snnio e as 
uirliidcs lli('ol(i}:aaes e as cardcaaes assy como nos per nos forem 
mostradas e mandamos aos diclus íregiieses sob pemia de excomu- 
nliom que nem lazendo iios o que dicto lie que noilo escrepuam e fa- 
çam saber pcra nos tornarmos a ello com directo e nos darmos aquel- 
la iirande pcinia (pie j)ell(»s nom saberdes nem emsiiiardes merecees. 

conin ssc ani de dizer as uiissas dos mivirersairos 

12 Item acbamos que alyuuns leigos mouidos de piedade e por 
bem de suas almas leixam seus beens aas igreias por llie seerem fe- 
ctos mnylos dias seus aniuersarios assy como llies foy liordenado e 
os bencliçiados sam mnit(j diligentes pêra leceberem as lendas d()s 
dictos jieens e os aniuersarios nom sse fazem assy como lie mandado 
da ipiall cousa sse segue maao emxempllo ao poboo e pequena uon- 
tade de bem fazer aas igreias e o pior que lie detrimento aas almas 
dos sobre dictos que es[)eram no purgatório pellas aiiidas dos sacrifí- 
cios e esmollas dos uiuos. e querendo nos a esto rremediar manda- 
mos uos que façaaes vos c vossos beneficiados os aniuersarios que 
uos foram leixados pois levaaes as rendas delles em aqiielies dias em 
que se am de fazer sse nam forem embarguados por domingos ou 
festas e quando forem embargados ante ou depois no dia seguinte 
per lall maneyra cpie nom fiquem por dizor e dizee vos ou quem di- 
ser a missa ao domingo ao poboo os nauersarios {sic) que forem 
naqiiella somaiia emcomendarees ao dicto poboo que roguem a deus 
pella alma desse que leixou a igreia a lall possisom por seu aniuer- 
sario e sse hi esleuer alguum de seu linliaie que uenlia em tal dia 
uer como sse íTaz o dicto nauersario se quiser, e a maneira que anees 
de teer em fazer os aniuersarios ssera esta direes aa ves[i('ra do dia 
em que lia de seer, véspera e matinas dos mortos e no dia depois 
das matinas do dia direes as laudes dos finados e a missa aa ora da 
primeira de reíjuiem e sse souberdes a ssepultura daquelle ou da- 
quella cuio ho nauersario ffor, e hirees sobre ella com cruz e agoa 
benta dizendo responsso sobre a coua ou sepultura e os dictos nauer- 
sarios sse ganharam per esta guisa, a saber. Iiiinm terço a véspera e 
as matinas, outro terço as matinas do dia do nauersario e laudes dos 
mortos, e oulro terço a missa com saimento, e nom fazendo uos os 
dictos nauersarios como aqui lie liordenado, defendemos e mandamos 
ao prioste da dieta igreia que uos nom de delles cousa alguma sob 
penna de iazer liuiiin mes em nosso alinbe e defendemos a vos que 
ho nom recebaaes e o dicto prioste noIlo faça saber pêra nos des- 
poermos dos dictos nauersarios aqnello que emiendermos pêra ser- 
uiço de deus e bem das almas daquelles que os leixaram. 



{Continua). 



128 REVISTA ARCHEOLOGICA 

BIBLIOGRAPHIA 

BuLLETTLNO Dl AuciiEOLuciiA CiusTiANA dei (^ommeiídatore Giovan- 
ni BaíUsta de Rossi. Série Quarta. Anuo Quarto. N."' 1, "2,, 3, 4. Ro- 
ma, 188G: fig. 

Esle exfolleute boletim, cuja troca com a Revista no mais subido 
apreço leni e recoiiliecida agradece a redacção d'esla, é um dos me- 
lhores repositórios archeologicos que se publicam. O nome do seu il- 
luslre Redactor, respeitadíssimo por todos quantos o conhecem por 
seus innumeros e im[)ortantissimos trabalhos e por suas allissimas 
(jiialidades pessoaes. l)cisla para dar a esta publicação um interesse 
enorme, uma auctoridade incontestável. De modo que, quem quizer 
com passo seguro estudar não só a archeologia christã, mas ainda 
muitas outras espécies da vasta e diílicilima sciencia da antiguidade, 
deve consultar as sabias memorias devidas á penna do sr. Com.'^°'' de 
Rossi. muitas das quaes sairam á hiz no Bollettino de Archeologia 
Cristiana. 

O volume correspondente ao anno de 1886 consta dos seguintes 
artigos: 

Conferenze di archeologia Cristiana (actas), pelo sr. Orazio Maruc- 
chi, secretario: 

II maiísoko degli Urami cristiani a s. Sebastiano sidrAppia. 

L epigrafia primitiva priscilliana, ossia le iscrizioni incise sul mar- 
mo e dipinte siille tegole delia regione primordiale dei cimitero di Pris- 
cilla, com Appendice. 

Os dois últimos estudos, em que continuam a evidenciar-se o fino 
espirito e a luminosa observação epigraphica do sr. Com. '•'''■ de Rossi, 
bem como o seu saber vastíssimo, são d'aquelles que bastariam para 
lhe firmar a reputação, se com muitos e maiores monumentos não 
houvesse já enriíjuecido a Itália e a sciencia. 

A assignatura pode fazer-se, pelo preço annual de liras 11,50, 
sendo dirigidos os pedidos ao sr. Giuseppe Gatli, Perla Direzione dei 
Bultettino di Archeologia Cristiana, Piazza d'Aracoeli, 17, in Roma. 



E mSTORICA 129 



INSCRIPÇÃO DE MONTEMOR-O-NOVO 

(Nota) 

Examinando .linda uma vez os desenhos da inscripção de Monte- 
mór-o-Novo, qne devo á obzeijuiosidade do sr. Gal)riel 1'ereira, pare- 
ce-mo tjiie o texto das duas inscripeões chrislãs, que a ladèam, deve 
ser ap[)roxima(lamente o seguinte (p. 114 da lievi.sta): 

[/«] nomine d(onn)ni 
[fa] tniili Chr{ is li) 
[Si]scua[}i]dus 

[et] lesabille 
[/]e[c]«-í' nt 

lesabille seria ísabdla. 
Herlin. l'i setembro 1887. 



E. IliJBNER. 



ANTIGUIDADES DE MONTEMOR-O-NOVO 

A propósito do artigo do sr. dr. Eniilio Iliibner sobre a inscripção 
de Calcliisia que se acha em Montemór-o-Novo, artigo pubhcado no 
anterior niunero d"esta Ik'visla, e para satisfazer ao convite da digna 
redacção, venho resumir algumas noticias arclieologicas d aquelia villa 
alemtejana, onde ha poucos mezes estive em commissão de serviço 
pubhco. 

Antes de mais agradeço mui reconheeido as palavras amáveis com 
que o erudito professor_da Universidade de Berlim, a quem nós os 
estudiosos portuguezes tanto devemos em licção e exemplo, honra o 
meu nome obscuro. 

Achando-me em Monlemór-o-Novo em commissão assaz demorada, 
que me deixava por dia algumas horas vagas, empreguei-as no meu 
antigo habito de indagação archeologica ou liistorica. O caslello, o an- 
tigo recinto fortificado, a villa, o seu termo, teem que vèr; o archeo- 
logo occupa bem uns três dias percorrendo aquelles campos acciden- 
lados, vestidos, no aro da povoação, por extensos olivaes, cercados 
por bastos montados d'azinho e sobro de grande importância. 

O castello encima um alteroso monte de forte declive. É um re- 
cinto fortiíicado, triangular, tendo uns 800'" no lado maior que olha o 
norte. Dentro estava a antiga povoação, hoje umas terras maninhas, 
formadas de entulhos e caliças; resta o edificio que foi mosteiro de 
freiras, agora asylo de meninas; duas egrejas em abandono, doutra 
apenas as paredes; para o lado da villa, que se alastra alvejante na 

Rev. Arch. e Hist., I, N." 9 — Setembro 1887. 9 



130 REVISTA ARCHEOLOGICA 

baixa ao norte do cerro, ergiie-se a torre do relógio; e no vértice do 
recinto triangular para o Imlo do sul, exactamente onde a escarpa é 
mais Íngreme e o accesso mui dillicil, está o palácio, uma ruina admi- 
rável, com suas alias muralhas em quadrado, fortalecidos os ângulos 
por fortes cubellos. Conservam-se a leste e oeste do castello duas tor- 
res formidáveis, chamadas, na historia e na tradição popular, do Anjo, 
e da Md hora. 

Examinei detidamente o castello e julgo poder aventar algumas 
novidades. Não é medieval, não tem uma ogiva nem um arco mouris- 
co; as janellas das torres e do palácio são rectangulares, ou de volta 
redonda; as portas de grossa silharia bem faciada. e de volta redon- 
da também: a entrada principal, ainda perfeitamente conservada, é ro- 
mana em todas as linhas; a barbacan do norte parecc-me árabe, pela 
disposição e construcção. A alvenaria é tal que alguns pannos da nui- 
ralha e cubellos tombaram inteiros. O (jue todavia merece mais atten- 
ção é o palácio, assim designado na tradição e ainda no actual fallar 
do povo; não é o paço nem a alcáçova, nem a menagem ; é ainda na 
integra a palavra latina. O ediíicio internamente soíTreu modificações, 
no exterior tem puro aspecto romano. 

Visitei em outubro de 1886 um edifício isolado e ignorado que me 
forneceu algumas bases de compai-ação; é o castello de Vallongo, an- 
tigamente castello real, como apparece designado em documentos dos 
séculos XV e xvi. Pica próximo da villa de Montoito, ^ kilometros a 
poente. 

Imagine-se um quadrado de ()0'" de lado, formado por espessas 
muralhas; nos cantos fortes cubellos; um d"esles mais amplo, com 
suas divisões, é a habitação principal. A porta voltada a nascente. 
Dentro do recinto, encostadas ás muralhas, algumas casas, um forno. 
Um dos torreões ampliado com uma construcção de silharia que pa- 
rece prisão. Como está miiiio isolado, ninguém tem ido ali buscar ma- 
terial ; acha-se admiravelmente conservado. É um exemplar curioso, 
digno de estudo. A porta principal, a construcção fundamental, o as- 
pecto, são romanos. O torreão foi reconstruído, e outro accrescentado 
com um pequeno edifício ogival. Mais tarde encostaram barracas ou 
casas baixas que teem portas mouriscas. Como as chuvas descarna- 
ram as paredes, vè-se claramente a successão da construcção. 

E juntando esta lição a outros elementos convenci-nie de que o pa- 
lácio, as grandes torres, a entrada principal do castello de Montemór-o- 
Novo são de origem romana. A inscripção de (^alcliisia estava no adro 
da egreja Matriz; e chegando esta a ruina con)i)leta foi removida para 
a parede fronteira á Camará Municipal. 

Registemos outro facto; na egreja próxima áo palácio ha inscrip- 
ções pouco notáveis; mas n'uma casa aiuiexa o pavimento é formado 
por antigas cabeceiras de sepulturas, pedras que na idade médii col- 
locavam em volta dos templos marcando as covas; uma parte adelga- 



E HISTÓRICA 131 



cada ou espigão entrava no solo, «^"itra parle circular, lavrada com a 
cruz, sobresaliia; na cgreja da Atalaya, lernno de Pombal, ainda ha 
pouco vi duas d eslas [)edras cn plave. Algumas teem oaljiha e o ome- 
fja, a maior parle apenas a cruz. 

Sahiudo da villa pela eslrada nova para Évora, a uns 4 kilomelros, 
vè-se á esfjuerda a (jiiinla da Amoreira da Torre, um edifício grande 
com sua torre mui saliente: e olhando á direita, a 200 metros (Ja es- 
trada, n um cabeço, entre matto curto, bem visivel, está um dolmen; 
é a anta da courella dos Touraes. Tem seis esteios erguidos, a meza 
ou pedra superior no seu logar; mais de 2'" daltura e 4 de diâmetro; 
vesligios da galeria, como de costume, voltada a nascente. 

Uma carreteira passa pioxima da anta e vai descendo o declive, 
corta a ribeira e segue para a casa da Amoreira da Torre. Eu ia visi- 
tar esta casa porque me haviam contado o seguinte. Esta propriedade 
pertenceu á casa d" Aveiro. Um certo conde de S. Cruz, commendador 
mór de Mertola, era amador de arte e antiguidades, e trouxe com 
grande despeza de Aleitola para a sua quinta de Montemor, a Amo- 
reira, onde residia habitualmente, estatuas romanas, lapides, etc. O 
povo de Montemor por occasião do atlentado contra el-rei D. José, 
correu à quinta dos Aveiros, quebrou, destruiu brazões, moveis, etc. 
6 decapitou o marqucz e a marqueza. Na lenda actual lia confusão en- 
tre o caso dos Aveiros, e um mais antigo, muito ligado á historia da 
villa, do tempo de João 2.° É lacto ter o povo assaltado a quinta ; 
apeou, não partiu, os brazões da casa d"Aveiro, que eu lá os vi a um 
canto de certa oííicina, depois de afastados uns molhos de vides sec- 
cas. O meu problema era o seguinte: o povo destruiria tudo? não 
restaria fragmento de estatua ou de lapide? 

Talvez queira vèr as figuras do marqnez e da marqueza, disse-me 
o caseiro éepois de termos percorrido inutilmente o palacete, o jar- 
dim, as oíTicHias; e levou-me a uma casa aonde fiquei por alguns mo- 
mentos enlevado. Os marq/irzes decapitados são duas estatuas roma- 
nas, as mais perfeitas, mais elegantes, de mais nobre arte que temos 
em Portugal, duas estatuas collossaes, de mármore, sem cabeças, nem 
mãos, mais de 2'" daltura, homem e mulher, as roupagens finas, lin- 
damente lançadas, de óptima execução. É possivel que viessem de Mer- 
tola assim mutiladas, porque André de Rezende falia de um achado im- 
portante do seu tempo, natjuclia villa, de formosas estatuas infeliz- 
mente truncadas. 

Em terras da herdade das Commendas, do sr. Oliveira e Silva, por 
occasião de certo trabalho agrícola, appareceram algumas antiguida- 
des; o dono mandou excavar e abrir valias naquelle sitio para reco- 
nhecer o terreno, e descobriu então restos de paredes, de aqueductos, 
e bastantes cerâmicas, utensílios, ferramentas : alguns objectos de 
bronze, fibulas, argolas; muitas de ferro: provavelmenie restos de 
uma exploração agrícola, e também talvez metallurgica. São vulgares 



J32 REVISTA ARCHEOLOGICA 

OS restos de exploraçees mineiras no Alemtejo, onde abundam os jazi- 
gos de cobre, de feiTO, de maiiganez. Nas minas aclnaes reconhecidas 
mi exploradas enconlrain-se sempre vestígios de trabalho mui remoto, 
pre-romanoe romano. Km pontos, existem verdadeiros montes de esco- 
rias, em outros indícios claros, para o olhar ethicado, de terias enor- 
memente revolvidas, sem apparecer todavia vestígio algum romano. 
Onde apparecem grandes tanques, aqueductos, moendas (não sendo 
em margem de ribeira) e Tornos, [)õde alíirmar-se terem existido ex- 
plorações metaliurgicas. 

A3kilometros ao norte de Montemor, á esquerda e cerca da estrada 
que segue para iMòra, eleva-se um cerro com sua ermida no alto, dedi- 
cada a Santo André. 

Dizem-me ser templo dos mais antigos d\iquelles sítios. No Alem- 
tejo são raros os templos anteriores á monarchia, tão frequentes nas 
Beiras, no Minho e em Traz-os-Montes. São conhecidas inscripções S2- 
pulcraes chiislans de alta antiguidade, mas bem raros os templos onde 
OS fieis oravam nos tempos gothicos e no domínio árabe. Eram pro- 
vavelmente pobres, humildes conslrucções, que desappareceram pela 
ruina ou soítreram reconslrucção tal que lhes apagou lodos os caracte- 
res primitivos. 

Com grande curiosidade entrei no pequeno cerrado povoado de oli- 
veiras que antecede a ermida. Um templo, antigo sem duvida ao pri- 
meiro olhar, agora concertado, rebocado; denotando porém nas linhas 
exteriores uma reconstrucção e ampliação bem remota. A porta é ogi- 
val ; dentro, o [)rimeiro arco também ogival ; era o espaço do primitivo 
alpendre que incorpoiaram no templo para o fazer mais comprido. O 
segundo arco de volta redonda, de rude silharia, assentando em co- 
lumnas baixas, grossas, de capiteis cúbicos mui toscos, com ornamen- 
tação vegetal rudimentar ; os arcos que seguem são eguaes ; a capella 
mór reconstruída no estylo golhico. Tem razão a tradição; é um ro- 
mano modificado pelo gothico. 

Teve esta ermida sua confraria e albergaria com a invocação de 
Santo André ; albergaria para romeus e peregrinos, e depois para láza- 
ros ou gafos. 

Existe a copia do primitivo estatuto ou compromisso no lombo do 
Hospital, no archivo da Santa Casa da Misericórdia. É mna copia não 
muito lie! lavrada no século xvi. Foi publicada com alguns erros con- 
sideráveis nos «Estudos do município de Montemór-o-Novo». E a 
reproducção do antigo compromisso dos homens bons d'Evora que 
foram a .lerusalem (Documentos históricos da cidade dEvora, pag. .38). 
Como Évora conmiunicou ás povoações alemlejanas o seu foral, e os 
seus juízos e costumes, assim lambem lhes deii a norma das suas ins- 
tituições pias. O compromisso da antiga confraria dos Ovalheiros. ere- 
cta na albergaria de N. Senhora da Graça, de Vianna dapar dAlvito 
(Vianna do Alemlejo), é lambem fundado no estatuto eborense. 



K IIISTOUICA 133 



Esta Misericórdia do Monleinôr lein uni arcliivo opulento ; e é muito 
notável a sua salla das sessões, o seu as|)t,'clo aiitij^^o. sem Cíjusa íjuc 
disparate, a m Mza e cadeirado pegado, sobre a cadeira do provedor o 
oratório de armário, um grande triptico. os viUlos ou bandeiras, de tela 
pintada a óleo, sus[)ensas nas paredes ; o cofre na sua caixa de már- 
more branco com umas grossas trancas de ferro cruzatlas, com cadea- 
dos ; o tecto de abobada pintada a fresco ; e formosas cadeiras de 
espalíJar, de couro lavrado, ao longo das paredes. É opulento lambem 
o aicbivo municipal otide vi nrailos documentes do século xv. 

G. Pkheiha. 



NUMlSxAíATICA POUTUGUEZA 

I). AíToiíso V 

Não tencionamos entrar, senão por incidente, na bistoria pouco bri- 
lhante do reinado deste aventureiro e leviano monarcba. A nossa mis- 
são é restricta e visa apenas auxiliarmos, quanto couber nas nossas 
forças, alguns novos e inexperientes colleccionadores de moedas anti- 
gas, em Portugal. !•] Ímprobo o nosso trabalho, reconhecemol-o, de- 
pois do dislincto numismata, o sr. dr. Teixeira de Aragão, cuja com- 
petência não nos peza reconhecer, ter desenvolvidamente tractado 
das moedas portuguezas na sua Descripção geral e histórica das moe- 
das cunhadas em nome dos rcij, regentes e governadores de Portugal. 
Mas se é Ímprobo o nosso trabalho e ingrata a nossa tarefa, mais fá- 
cil é a concessão da indulgência que pedunos para qualquer deficiência 
ou erro de apreciação que possamos commetter. 

É importante o trabalho do sr. Teixeira de Aragão, agora mais 
do que nunca o reconhecemos. Mas a numismática ou a diplomática 
numária é uma sciencia, e como tal nã(> está dieta a ultima palavra, 
É uma sciencia positiva, mas precisa de interpretações de moedas, de 
textos e de leis, de apreciações de factos e de documentos de toda a 
espécie, de raciocínios ás vezes tão pouco seguros que ninguém pôde 
ter a preteução de ter dicto a ultima palavra, de ter feito o ultimo 
trabalho. Quem algum trabalho fizer no intrincado labyiintho da nu- 
mária porliigue/.a. que tão abandonada tem jazido entre nós. presta 
indubitavelmente um serviço ao paiz, e este serviço será tanto maior 
quanto mais desinteressado fur. 

D'este reinado vieram-nos paiar ás mãos, quer como propriedade 
nossa, quer como obsequio do nosso bom amigo o sr. Júdice dos San- 
tos, exemplares de moedas que divergem dos citados pelo sr. Teixei- 
ra de Aragão, podendo d'entre estes, considerar-se alguns como ty- 
pos completamente novos e outros como importantes variedades. 



134 REVISTA ARCHEOLOGICA 

Para a descripção d'elles seguiremos como até aqui a ordem chro- 
nologica ou de importância numária, dada pelo sr. Aragão no seu tra- 
tado, sempre que o nosso modo de apreciar ou a maior facilidade da 
descripção nos não obrigue a divergência. 

Vamos descrever dois rcaes grossos com as coroas de Portugal e 
de Castella, ires meios reaes ou chinifrans, três espadins e algims 
ceitis. Um dos meios que adoptámos para facilitar a comparação das 
variantes com os typos citados pelo sr. Aragão, foi o de desenhar as 
duas moedas, fazendo-as acompanhar das respectivas descripçues. 

O sr. Aragão dá sob os n.°' 7 e 8 do reinado de D. AÍIonso v, 
vol. I, est. X, dois reaes grossos, com as armas de Portugal e Castella, 
dinheiro que serviu para commemorar a infausta e leviana aventura da 
reunião dos sceptros de Castella e Leão ao de Portugal, e o conlracla- 
do casamento de AlTonso v com sua sobrinha D. Joanna, a eirellente 
senhora, por morte de Henrique iv de Castella. 

As moedas descriptas pelo sr. Aras^ão são: a primeira, — est. xv, 
fig- 1. 

«>í< ALFONSVS° DEI! GRACIE! REX= GASTE.— 

Escudo com as quinas sobre a cruz de Aviz, orladas por dez castel- 
los, em volta ires anneis». 

«r!. >í< A L F O N S V S : DEI: G R A C l A ! R E A' ^ C A S T E.— 
Armas de Castella e Leão. Pesa 68 grãos. Real grosso. A\ de 11 di- 
nheiros e 4 grãos — 10:000 réis». 

Uma das moedas do sr. Júdice dos Santos é uma variante deste 
typo, vide est. xv, fig. 2. 

>i< ALFONSVS": DEI; GRACIA; REX; CAS.— EsCudo 

com as quinas sobre a cruz de Aviz, cii'cundadas por dez castellos e 
por fora destes, três arruellas, uma de cada lado e outra por cima. 

Tl. ^ A L F O N S V S ; D E I : GRACIA; R E G I S ; C A S T . — 

Escudo com as armas de Castella e Leão, e por cima c (Castella). 

Peza 09 grãos, Real grosso. 

A diflerença d'estas duas moedas consiste principalmente no texto 
das legendas e na lettra d'ellas, e em ter no reverso sobre o escudo 
de castello, um c. 

O segundo real grosso mencionado pelo sr. Aragão, est. xv, íig. 3, é : 

«>í<ALFONQ HIINTIS ^REIS ^CASTELE ^E LEONEES. 

— O mesmo escudo com a cruz de Aviz, mas tendo por cima um p 
(Portugal) entre dois armeis. 

\\. >í<alfonqvintis:reis:castele:e lionees. 

— Escudo com as armas de Castella e Leão; por cima entre dois au- 
neis c (Castella). Peza 07 grãos. Real grosso. A\ de 11 dinheiros e 4 
grãos - 10:000 réis». 

A segunda moeda que também pertence ao sr. Júdice tem: — 
est. XV, íig. 4. 

^alfonsvs; qintvs: reis; castele .— Escu- 



E IIISTOUKA 



135 



do com as quinas sobre a cruz de Aviz, circundadas por dez caslel- 
los e aos lados uma arruela ; por cima um p (1'orlugal) no meio de 
oulras duas arruelas. 

k. ^ A L F o N S V S : ()\N T V s ; H K I s : C A S T !•: I. K : L K .— 
Escudo das aiinas de (>asl('lla e Leão, com o mesmo mmiero de ar- 
ruelas e na mesma disposição, lendo por cima do escudo C (Caslella). 
Peza 06 grãos. lieal (jvosso. 

Estas duas moedas ultimas são também difTerentes nas legendas, 
como póile ser facilmente observado. 

No meio irai (jrosso ou liiinifrcnn as dillerenças são muito maiores. 

O descripto pelo sr. Aragão, vol. i, est. x, e que nós re[)ioduzi- 
mos, est. XV, fig. 5, é: 

«^AI. FONSVS; QVINTI: REGIS;POIi. — Quinas. 

Ri. ^ ADJVTORIVM ^NOSTRVMMN : N O M I N —No Cen- 
tro A entre dois anneis, por cima uma grande coroa e por baixo L 
(Lisboa). Peza ^9 grãos. Meio real ou chimfram, Á\ de 11 dinlieiros. 
— 1:000 réis.» 

A este meio real podemos apresentar três variantes importantes 
da mesma fabrica de Lisboa. Fazemos esta observação da fabrica de 
Lisboa, poripie na obra do sr. Aragão vem também descripto um 
meio real com armas de Castella parecendo ler ali sido fabricado. 

Se, como é nosso dever, considerarmos o anverso da moeda o lado 
que tem o nome do monarcha, ou o mais importante^ só uma das Ires 
variedades (jue vamos a|)resentar pôde ler, como no sr. Aragão, por 
anverso a face da moeda que tem os cinco escudos. E esta moeda 
pôde ler o mesmo anverso, porque tem o nome do monarcba nas 
duas legendas. 

A primeira das nossas moedas é: — est. xv, fig. 6. 

>í< A L F O N s V s : QVINTI : R E G I s : p . — No cenlro a entre 
dois anneis; por cima uma grande coroa, e por baixo L (Lisboa). 

Ri. >í< ADJVTORIVM ; N O S T R V M ; I N . — As cinco quinas 
porluguezas em cruz. Peza '28 grãos. Meio real grosso ou chimfram. 

Além de peípienas diíTerenças nas legendas, comparando este exem- 
plar com o da tig. 5, vè-se que houve troca completa d"ellas, por- 
que a legenda que estava do lado da coroa passou para o das quinas. 

O segundo meio real de que vamos fallar é realmente exquisilo. 
Nenhuma das duas legendas principia ao alto da moeda, logar que 
n'esla devia ser indicado pela posição da coroa ou das quinas. A le- 
genda do reverso varia mniio, e está imperfeita, notando-se que o a 
de ADJVTORIVM está voltado, como se vê na est. xv, fig. 7. 

»í<alfonq:uintvs : reis-, p. — a coroa, o a e o l 
com a disposição do n.° anterior. 

l"^. V D J \' T o R I V M : D N Q : Q V I F E C I T : C E L . — As 

quinas porluguezas. Peza 20 grãos. — Meio real ou chimfram. 

O terceiro exemplar c um lypo completamente novo, tem o nome 



136 REVISTA ARCIIEOLOGICA 

do monarcha nas duas legendas, e por isso dissemos que podia ler o 
mesmo anverso do meio real desciipto pelo sr. Aragão. 

Está peiltíita a impressão do cunho, est. xv, fig, 8. 

^ALFONSVS; QViNTi: REGlSiPOR. — As qui- 
nas porluguezas. 

^. >í< A L F O N s V s : Q V I N T I : REIS ; p O R T . — Gran- 
de coroa por cima dum a, que lem um annel de cada lado, e por 
baixo um l indicativo da fabrica (Lisboa i. Peza ^6 grãos. Meio real ou 
chimfvam. 

O lacto do nome do monarcha estar repetido nas duas legendas e 
estas não serem eguaes, porque uma tem regis por ea outra 
REIS P o R T , auctorisa-nos a a[)resentar a moeda como um novo 
cunho, e, segundo julgamos, até aqui desconhecido. 

(Conlinua). M. Alexandre de Sousa. 



TRÊS MONUMENTOS EPIGRAFICOS 
D^ELVAS, E DO SEU TERMO 

(Resposta a um artigo auoiijmo) 

Em n." 677 do periódico O Elvense, de 28 de julho ultimo, foi 
publicado um artigo, para que chamaram ha poucos dias a minha at- 
tenção. 

Nesse artigo, referindo-se o auctor anonymo aos monumentos d'El- 
vas que descrevi a pag. 97 da Revista, aCíirma que o sr. Francisco 
Raphael da Paz Furtado não foi o descobridor das três lapides^ como 
eu notei, e que ellas não eram inéditas em Portugal. 

A estas asserções, respondo com as seguintes palavras da carta 
que aquelle meu amigo me dirigiu em 5 de julho de I88G, envian- 
do-me as copias das inscripções: — «Permitta-me V. que eu lhe offe- 
reça a copia de três lapidas inéditas |)oi' mim descobertas em Elvas 
quando alli residi, e das quaes dei conhecimento a Mr. liubner.» — A 
estas palavras accrescentarei as seguintes: 

Asseverando o sr. Paz Furtado ter descoberto as lapides, e não 
tendo o artigo do Elvense assignatura alguma que o abone, continuo a 
considerar o sr. Paz Furtado como descobridor delias, emquanto se 
não demonstrar o contrario. 

Quanto a considerar as lai)ides meditas em Portugal, foi isso de- 
vido á indicação dada (como se acaba de ver) pelo sr. Paz Furtado, 
que decerto ignorava, como eu, que ellas haviam apparccido no perió- 
dico O Elvense de 25 de dezembi"o de 1880 e no de 23 de janeiro de 
1881, segundo se diz no artigo. O auctor anonyino devia rellcctir em 
que eu não tinha obrigação de conhecer O Elvense, nem os seus artigos. 



E HISTÓRICA 137 



No qiití respeila ;i dizer so iio arliiío (|ii(): — «Manda a verdade en- 
Irelaiilo (iiir se di-ça, (jiie Ibi o sr. l'a/- Furtado (|iiimii ohltive do sr. 
Iliibiier, dislincLoarcheologo priissiaiio, a coiii[)lecla dccilVarão (raijuel- 
las iiiscriprões»,— lenho a responder que a inlerprela(;âo das Ires lapi- 
des de que se Irada é Ião fácil, que não precisei de auxilio alheio para 
iiitendel-as e explical-as. Só (piem ignora os mais simples elementos 
de epigra[)liia, como parece ignorai os o auclor do artigo, é que po- 
deria deixar de ler a(piellas inscii|)cões. 

Tenho ainda a lemhrar ao articulista (jue o signatário d"eslas li- 
nhas não é o único |)roprietario e redactor da presente Revista, mas 
que tem por collega o distincto numismata sr. M. Alexandre de Sousa, 
o que lhe esíjueccMi mencionar apezar de ser tão amante da verdade. 
E por ultimo observo-llie (lue os artigos anonymos não se admittem 
em questões scientiíicas, nem teem fé para a reivindicação de qual- 
quer direito ou i)rioridade. 

Borges de Figueiredo. 

VISITAÇÃO Á EGUEJA DE 8. JOÃO DO MOCHARRO 

D'OBIDOS 

por D. Jonje da Cosia, em 14 de fevereiro de li67 

(Continuado de pag. 121) 

como ssc am de rreparlir os anniiicrsairos ou benesse drjuetles que pre- 
sente esta (sic) aníe três dias 

13 Item achamos (jue alguuns beneíiciados das dietas igreias da 
dieta cidade e arcebispado nom embargando que moradores seiam nos 
lugares onde teem seus benefícios sam tanto nigligentes no seruiço de 
deus que poucas vezes vaam as dietas igreias onde assy som benefi- 
(jiados e ipierem leuar os fructos de seus benefícios assy como sse 
conthiiiiiadamente seruissem e o pior i\w lie que som bem dilligentes 
aas dietas igreias nos dias em que hy ha benesses ou aniuersarios e 
leuam suas paites em detrimento daíjuelles que comtiniiadamente bem 
seruem e porque nom conuem a razam e dereyto (jue aquelles que 
mall seruem alam de seer higuaaes na repartiçam de premio de seu 
seruiço maao aipielles que bem seruem, mandamos a nos que façaaes 
guardar a constitiiiçam do cardeall (pie sse começa causatur e quanto 
he aos nauersarios e benesses mandamos ao prioste da dieta igreia 
que os nom de {sic) saluo aa(]uelles que per três dias ante do nauersario 
ou benesse e per três dias depois vieerem as dietas igreias e a outras 
oras ca/íonicas e o que esstes perderem aiam aquelles que forem pre- 
sentes aos dictos nauersarios e benesses e esto meesmo se guarde nos 
consales {sic) que ho aiam os que presentes esteuerem e fazendo o 
prioste ho contrairo queremos que iaça dous messes em nosso aliube 



138 REVISTA ARCHEOLOGICA 

fazendo pendença de sua pouca obediência e o beneficiado que algu- 
ma cousa leuar do que diclo he lornaiiho ha em tresdobro. 

('()///() ham ih' fazer liuum liiiro de tombo de todollos beens da egreia. 

14 liem achamos (jue por nigligençia e maao aazo dos reylores e 
beneficiados das higreias as possissoonos e beens delias s.se danificam 
e vaam cada dia ai)erder por nom seerem por elles requiridos da 
(juall cousa ssegne ditrimento do culto diuino que destruído ho ten- 
porall mall sse repairara e podeia manleer ho espirituall, porem uos 
mandamos tjue do dia desta visitaçam atee huum atmo façaaes fazer 
huum liuro de prugaminho e escrepuer em eile todallas possisooes e 
erdamentos de (jnallquer maneira que seiam que a dieta vossa igreia 
pertenceerem desinando os lugares onde cstam e as confi'ontaçõees 
com quem partem e aquelias perssoas que os trazem e por quantos 
preços e fazee bem guardar ho dicto liuro pêra uos per elle regerdes 
em uossas vidas e os que despos vos vierem acharam rrecadaçam per 
onde possam saber as possissões e eredamentos da dieta igreia e 
ahinda que bem sseia fazersse o dicto liuro como dicto he per os di- 
ctos beens e erdamentos seerem aproueytados e nom sse danificarem 
por negligencia, mandamos uos que uos e huum beneficiado per seu 
anuo visitees as dietas possisotjes e erdamentos e os façaaes correger 
e rrepayrar per tall guisa que seiam melhorados e nom peiorados, e 
mandamos ao beneficiado que uos rrequirirdes que vaa comuosco e 
nom se scusse sob pena de duzentos reaes brancos e vaa cada huum 
seu anuo como diclo he por todos saberem as dietas possisooes e er- 
damentos e seendo uos gcerqua dello nigligentes queremos que por 
cada vez que nom fezerdes a ssuso dieta visitaçam pagues mill reaes 
brancos e esso mesmo uos mandamos que façaaes escrepuer todollos 
beens e eherdamentos (s/c) das capellas edificadas em vossa igreia de- 
sinando os lugares e confrontações como suso diclo he posto que na 
ministraçam delias nom pertença a uos e seinm postos os dictos beens 
e erdamentos no dicto liuro pêra sse nom aelhearem o que fazee sob 
a dieta pena a quall uos nom será quite ffazendo uos o contrayro. 

como ham de fazer duas chaues darra das escriptnras 

lõ Item achamos que em muitas igreias da dieta cidade e arce- 
bispado nom ha arca commua em que suas escriptnras possam ser 
gardadas e assy cada huum beneficiado leua pêra sua casa as dietas 
escritui"as como lhes apraz e nunca as mais traz nem torna e per- 
denssem (sic) e i)or tall aazo as diclas igreias perdem seus direitos e 
querendo nos a esto rremediar, mandamos a uos e a vossos beneficia- 
dos que doie atee huum anuo ponhaaes em a dieta igreia huma boa 
arca bem rrija e forte com duas fechaduras e teende uos huma chaue 
e o mais antigo beneficiado outra per tall maneira que uos nom abraaes 
sscm elle nem elle ssem uos a dieta arca e metede nella todallas 
escriptnras que pertencerem aa dieta igreia e di si {sic) nom seiam ti- 
radas sse nam quando íTor necesario e acabado lio huso pêra que fo- 



K HISTÓRICA 



131» 



rein tiradas mandamos nos que logo ateo x dias selam tornadas a di- 
eta arca onde estauam e nom as tornando atee os dictos x dias que 
lios damos por Ires amostaçõoes e teimo preciso em estes escriptos 
poemos em nos sentenra de excommnnliom na qiiall rpieremos que 
cmcorraaes [)assado lio (lido tempo sse lio contrayro íezerdes e nom 
poendo a dieta arca como per nos he mandado (|ii(3remos qn<í por pe- 
na pagues mill ireaes brancos o quanto lie as igreias de Tora posto 
que o [irior ou rreytor as tenha em sua casa em arqiia sobre ssy que 
doutra consa nom se na (sic). 

como tioui (ini df niiiUiv na cgrem 

Kl Item achamos per enformaçam de muitos rreytores e benefi- 
ciados que allguims xpãaos muytas vezes prometem romarias e vigil- 
lias a algumas igreias e lugares religiosos por seerem ante deus ou- 
uidos por algumas peticõees que fazem pellos rogos dos santos em 
cuias igi-eias e lugares fazem as dietas romarias e vigillias e nom es- 
guardando elles em como as igreias e lugares religiosos som fetos 
pcra em elles ouuir orar e pidirmos em elles deuotamente ao senhor 
deus que ouça nossas peticõees e nos outorgue ho que lhe pidimos 
que seia seu seriiiço e saliiacam das nossas almas e em taaees roma- 
rias e vigílias cantam dentro nas dietas igreias cantigas mundanaaes 
e de muytas vaydades aas qiiaes nom conuem pêra taaes lugares e 
saltam e balliam e fazem iogos desonestos os quaes pouco vee a pre- 
posílo per que as dietas vigilias e romarias prometeram e por que 
taaes romarias e vigilias sam liofensas de deus e ditrimento da rreli- 
giam xpãa, mandamos e defendemos aos nossos fregnezes sob pena 
de excomunliom que eesem de fazer em as dietas igreias e lugares 
taaes romarias festas e vigillias e nom cantem nem balhem nem fa- 
çam iogos desonestos como dieto he e fazendo ho contrayro manda- 
mos aas (sic) curas que lhe publiquem este capitulo evitem por es- 
commungados e sse algiiuns quizerem fazer vigilias e rromarias nos 
dictos lugares nom lho defendemos fazendoas assy como deus quer 
com humildade e sillençio e denota oracani e conçiençia linpa e assy 
empetraram de deus ho que lhe dereytamente demandarem e sse al- 
guum for nigligente a pubricar e os avitar {sio pague por cada vez 
çem rreaes pêra a nossa chancelaria. 

dos fetiçeirns c deuinhadeiros 

17 Item por quanto achamos ([ue os feytiçeyros e diuinhadeiros 
escantadores beenzedeyros egoyreyros e sorteyros sam escumungados 
pella constiíuiçam sinodall mandamosuos sob pena de excumunhom 
que denuncies e |)rouiquees por escomungados aquelles e aqiiellas que 
notoriamente em vossa IVeguisia de taaes artes husarem per tantas 
vezes atee que conheçam seu pecado e ssciam dignos de beneficio de 
absoluçom e de seerem restituydos a partic/paçam dos fiíees. 

como ham de fazer priostc bcne/içiado >' nom leigo 

18 Item mandamos gecralmente em todo nosso arcebispado que 



140 REVISTA ARCHEOLOGICA 

façam priosles beneficiados em suas igreias ou Iiiçonimo {sicj ssc ho 
elles euleger quizei-em sob pena de mill rreaes pêra nossa chancelaria 
e que este priosle lenha carrego de re(]uerer todollos íi'uclos e de- 
mandallos da dieta ígreia que andarem presente ho vigairo e que a 
custa de todos se contentem os escripuãaes e procuradores e que 
este meesmo tenha carrego de reíjue/Trem todallas cousas da dieta 
igreia e cousas (pie sentir por honrra e proueyto delia sob pena de 
pagar em dobro (jualipier cousa (pie sse aa sua mingoa perder e sob 
a (Jicta pena mandamos que ffaçam thesoureiro crehgo ao menos de 
hordeens memores. 

como sam com ií idos os casos pontificaces a prior e vigairo 

19 Item cometemos os casos pontificaaes aos i)riores vigairos ra- 
çoeyros e capellãaes de cura sahio sete acostumados nas cartas de 
cura. a saber. Iiomiçidio voluntário fora de guerra comitido, e auer 
alheo sobnegado que passe de çem rreaes, inceudiio, sacrilegiio, per- 
cussam de creligo em que nom aia norme eleisom {sic), e dizimas 
iiom paguadas onde deuer e excumunhom maior os quaes resaruamos 
pêra nos ou pêra quem nosso lugar teuer. 

qm sayam sobre os finados 

W Item mandamos que todallas segundas fieiras ou domingos 
saiam sobre os finados darredor da igreia com cruz e augoa benta se- 
gundo custume antiigo sob pena de xx reaes pêra o meyrinho e sse 
aa segunda fieira for ffesta sayam outro dia da somana em guisa que 
nom falleçam. 

que nom. arrendem seus benefimos 

21 Item porquanto achamos que muytos beneficiados do dicto nos- 
so arcebispado arrendaiiam seus benefícios e sse hiam onde lhes apra- 
zia deixando suas igreias e freguisias soos o que nom auemos por 
bem fecto, porém mandamos que nenhuum dos sobredictos nom a ren- 
dem sseu beneficiio sem nossa licença ou de quem nosso lugar teuer 
e sse for prior ou vigairo ho que ho contrairo fezer por cada vez pa- 
gue mil ireaes pêra nossa chancelaria e o ra(;oeiro iii' reaes. 

({ue nom façam contraulos infiiioticos 

22 Item geerallmente mandamos em todo nosso arcebispado que 
os beneficiados das igreias delle nom façam contrautos iníitioticos dos 
beens e erdades delias sem primeiro andarem em pregam pellas pra- 
ças e lugares pubricos per esi)aço de xx dias os quaaes acabados aiam 
licença e autoridade nossa ou de quem nosso lugar teuer e esta li- 
cença preceda e seia primeiro fecta que os estromentos (|ue sse aj^o- 
ra acustumain a fazer pellos beens e ffazendo o contrairo pague cada 
huum beneficiado mill rreaes e que lall contrauto nom sseia nenhuum. 

qui' nom arrendem qiiinlaacs 

2H Item sob a dieta pena mandamos aos sobre dictos que nom ar- 
rendem (juintaaes, herdades nem possisõoees da dieta igreia de dous 
annos pêra cima sem primeiramente andarem em pregam pellas pra- 



E HISTÓRICA 14i 



ças e lugares piibricos per espaço de xh dias os qnaes acabados os 
arrendem a (iiieiii lhes por elles mais (l(;r. 

qufí nom acnihnii aos (insciitcs ann se/is hcitv/iciios 

24 Item mandamos gíseralmenle em lodo nosso arcebispado que 
nom acudam aos abzenles sob pena de excnmnnhom com os fruclos 
de seus beneíiçios poslo (|ue digam (jne sam priuilegiados e que per 
bem de seus pri^í/legios os denem ain.T, amenos de nos nom nermos 
seus pri?<degi()s e anerem caria de nos oii alguum mandado pêra ello. 

que canlfiu as oras aponladanwale 

20 Item mandamos (jiie cantem as oras apontadamente e ssem 
arrnído e que tenham a ellas sobri[)illizas sob pena de paguarem de 
cada huma vez (jue na [sic) nom teuerem xx rreaes pêra o meyrinho. 

fjue fioiíi vaão aos tloniii/f/os fora 

20 Item pon|uaiito achamos que os sobre dictos leixauam suas 
igreias aoos domingos e Ifestas e hiam dizer missas fora onde lhes 
aprazia mandamos a quall quer beneíiçiado que nos dictos for dizer 
missa fora e leixar sua igreia soo por cada huma vez pague P rreaes 
pêra nossa chancelaria salno hindo alguma capella da dieta igreia que 
seia obrigado. 

como o benefiçiiado nom dixer misa page cincoenla réis 

27 Item achamos que no dicto arcebispado avia algumas igreias 
em que sse nom diziam as missas aos domingos e dias das somanas 
segundo costume e que sse auiam de dizer, mandamos que qualquer 
creligo ou beneficiado qne domairo (sic) Ifor e ei^rar de dizer missa no 
domingo que pague I'* reaes e por cada dia da somana xxx pêra as 
obras piedosas. 

que nom façam, saymenlos ao domingo nem festa 

28 Item geerallmente mandamos em todo nosso arcebispado que 
nom façam saimentos aos domingos e festas pellas manhaas nas igreias 
delles por quanto (jue por os saimentos sse assy fazerem nos dictos 
dias se estornavam os diuinos oíliçios em suas igreias e sse nom fa- 
ziam como diuiam e fazendo ho contrairo por cada vez paguem i' 
reaes pêra as obras piadosas e esto sse nom emlenda nas igreias de 
fora onde nom ha ssenam hunm soo capellam. 

que nom tomem nenhuum judeu em sua casa pêra seer xpãaos (sic) 
ataa tempo certo 

29 Item porquanto alguuns xpãaos cuydando qne ÍTazem alguum 
grande seruíço do deus tomam em suas casas alguniis indeus e mou- 
ros assy homens como molheres e logo como dizem que (|uerem sseer 
xpãaos sem mais sserem catezizados nem sem outra licença nem dili- 
beraçam de tempo os fazem bautizar ou os baptizam {sic) e depois per 
tenpos ia sse muitas vezes aconteçeeo que foram a castella e a outros 
reynos e sse íornanam aa ley de qne dantes eram em que he pouco 
seruiço de deus e vitupério da santa Ife calollica e menospreço do 
santo sacramento do baptismo e grande prazer a todos os daqueila 



442 REVISTA ARCUEOLOGICA 

ley que dello sam sabedores, porém querendo nos ouuiar e tornar re- 
médio n tanto malleemfamia mandamos aos priores das igreias de todo 
nosso arcebispado vigairos perpétuos capellãaes e beneficiados delle 
em virtude de obediência e sob pena de excumunhom que daqui em 
diante nom baptizem nem consintam bautizar a alguuns dos dictos in- 
íiees a menos de ssee rem cerlos que esteuei"am dias com alguum 
xpãao que os ensinasse os artigos da nossa santa íTe calollica e as 
asperezas delia, e quando persistir em sua boa temçam e todavia dí- 
ser que quer sseer xpãao com maior honra e solemnidaí/í" que seer 
possa sem outra conidigam ou caulclla sseia fecto xpãao por que a 
houelha que era perdida toirnousse ao currall. 

como forem dous no coro deuem de rrezar 

30 Item mandamos aos priores e beneficiados de todallas igreias 
que tanto que dous delles forem iuntos no coro pêra as matinas logo 
anbos comecem a.s oras de santa maiia e os outras que depois vie- 
rem conlliinuem com elles sem mais tomar outras atee que as dietas 
horas de santa maria sseiam de todo acabadas e as matinas do dia e 
assy as vésperas e que rezem todos iuntos e nom cada huum per ssy 
apartado e bem apontado ssem nenluium delles pairrar nem fazer 
ieyto nem esguar que ffaça aos outros toruaçam nem passear per o 
coro emquanlo as oras durarem e esto lhes mandamos que cumpram 
assy sob pena descumunhora. 

como os priuilcgiados am de leuar seus benefícios 

Hl Item achamos que alguuns beneficiados presentes de alguumas 
igreias sse agrauauam dizendo que os absentes priuilcgiados levauam 
ho frntlo dogrosso de sseus benefícios e nom lhe paguauam os cus- 
tos de que ho prioste rreçebe grande perda, porem querendo nos a 
ello proueer mandamos que qualquer prioste de cada huma igreia da 
dieta cidade e arcebispado que assy como teuer os fruttos e rrendas 
da dieta igreia pêra partir anlre os beneficiados assy lho rrequeyra 
antee biii° dias os custos que aa dieta riepartiçam peitencer e quall 
quer delles que paguar nom quiser, mandamos que tome tantos dos 
fructos da dieta rrepartiçam e os venda logo per que possa seer en- 
ti'egue dos custos que nella fezer e mais nom e assy nas outras re- 
partições atee que todo sseja entregue do (pie por cada huum uender. 

titulo dos creiigos que sse nom faliam. 

32 Item porquanto achamos que cm algumas igreias alguuns be- 
neficiados (loordens sacras e ainda sacerdotes de missa que sse nom 
fallauam huuns com os outros e çelebrauam missas coin grande can- 
rrego de suas conçiençias e querendo nos a ello proueer como somos 
th?'udo por saluaçam de suas almas mandamos ao prior e Ihesourciro 
daquella igreia e de quall (|uer igr(!ia da dieta cidade e arcebispado 
que aos sacerdotes (jue sse nom fallarem nom dein vestimenta i)era 
dizerem missas na dieta igreia atee que nom seiain reconciliados e sse 
lha ho prior der pague 1' rreaes pêro {sic) ho cepo de sam vicente e 



E HISTÓRICA 143 



O thesonreiro 1" peia o dito cv\ío e innis seia preso no alinhe e lio (jue 
iiom íínr de missa assy Ijciieliçiado como liicoiiimo mandamos ao [)rios- 
le que lhe nom acuda com os IViiclos tio suu heneliçio oii hicouimia 
aatee que primeiramente nom seia rreconciliado. 

liliiln das missas ih is cnjirllas 

.'i-l liem niaudamos ao piior e priosle da dicla igreia sob i)ena de 
excommiliom (pit; se as missas das ca[)ellas nom Inrem cantadas em 
cada liuum anno per aijuelles que thiudos sam atee dia de sam ioham 
hpatista (sic) que aíjueilas missas que a cada huum ficarem por dizer 
(jue as dem a cantar aos que as suas acahadas teuerem e sse as es- 
tes nom poderem cantai- antes do dicto dia de sam ioham que emtam 
l)us(|ne outros ci-eligos de fora que as cantem em tal guisa que atee 
ho dicto dia de sam ioham h[tatisla seiam acahadas de cantar. 

dos harregiieiros 

H4 Item mandamos ao prior e capellam de cura da dieta igreia 
que evitem tbi-a delia todollos harregueyros puhricos casados sse sse 
do dicto pecado tirar nom quiserem e hisso meesmo os solteyros que 
esteiierem com as solteyras sse as nom uieerem reçeher aa porta da 
igreia de presente segundo ITorma de seus mandamentos. 

dos que som casados callaihmente 

S5 Item lhe mandamos que se alguuns seus fregueses teuerem al- 
guuns casamentos clandestinos de que elle.s' saiham parte sse sse nom 
quis(!rem a porta da igreia rreceber de presente segundo forma que 
os euitem pello modo sobredicto. 

como o priosle nom deue de entregaar os fructos aos bencfiçiiados. 

HG Item porquanto achamos per as visitações antiigas que muytas 
vezes mandanam aos priostes que nom emtreguassem certos fructos e 
dinheiros ao prior e beneficiados das igreias atee seerem compridas 
algumas cousas que os diclos visitadores mandauam fazer em ellas e 
por os priores nom saberem parte nem noticia de taaes defessas e 
mandados, entreguauam lodo aos dictos beneficiados e assy se não com- 
priam as cousas das dietas visitaçooees, porem geerallmente manda- 
mos a todollos priores e vigairos e beneficiados do dicto nosso arce- 
bispado que tanto que fezerem seus priostes de hy a oyto dias lhe 
leam esta nossa uisitaçam pêra saberem e seerem certos do que lhes 
per nos he mandado ou per nossos visitadores e esso meesmo lhes 
mandamos (jue cada dia leam ante ssy huum capitulo antre a primei- 
ra e a terça e esto sob pena de duzentos rreaes pêra a nossa chan- 
celaria e a oferta aos leygos huum capitulo cada dommgo começando 
do primeiro atee as visitaçoões seer acai)adas. 

titulo da esmolla de sam vicente 

H7 Item consirando nos em como em todallas igreias deste arce- 
bispado sam postos mem[)Osteiros pêra i)idirem esmollas pêra aal- 
guuns horagos recebendoas daípiellas persoas que per sua deuaçam 
lhas (juerem dar sem alguum constrangimento e veendo como ho cor- 



144 REVISTA ARCHEOLOGICA 

po e rreliquias do glorisimo (sic) mártir sam vicente sam na ígreia 
melropolilana da inuy nobre e senpre liall cidade de lixboa com tanta 
sollemuidade neuerencia e denaçam (|iie outros sse nom acham seme- 
llianles nas espanlias por lio/n'a e lonnor de dens prinçipallmente por 
seriiiço e aiuda e pellas obras mny grandes qne se cada dia rrecre- 
çem na capella do dicto mártir, mandamos a todollos priores vigairos 
e beneficiados e persoas ecclesiasticas a (pie esto pertencer qne cada 
Imnm em sua igreia líaça humn muon[)oslero que peça aos íiees xpaãos 
peras dietas obras e aleem do que elles merecerem ante deus por 
taaes esmollas fazerem nos lhe outorgamos dos thesoui"os que nos on- 
torga a ssanta madre igreia coreenta dias de perdam por cada ves 
que taaes esmollas fezerdes aas quacs esmollas recebera linnm dos 
abonados e boons homeens que ouuer na dieta íreguisia das maaos 
dos dictos mauposteros e escrepnera todo o qne i-render o prior ou 
capeIJam qne seu carrego teuer e sseram leuados os dictos dinheiros 
destas esmollas aos recebedores que hora poeemos nas villas dos di- 
nheiros das obras piadosas e esciepuello am e emtreguemno presente 
ho escripuam. 

os qne nom ieiuarem a véspera de sam vicente 

S8 Item porque achamos que alguuns por nam ieiuarem as vés- 
peras a sam vicente andauam muyto tempo escumungados por nom 
podeiem bir nos buscar asoluiçam e proueendo nos a ello cometemos 
aos priores e curas das igreias do nosso aiçe bispado que possam ab- 
soluer os que nom ieiuai-em as dietas festas dandollies por ello as 
pendençns acustumadas que sam de cada huma dous reaes pêra o di- 
cto cepo as qnaes lhe mandamos em virtude de obediência e sob pe- 
na de excumunhom que rrecadem e mandem aos rrecadadores que 
possermos nas vigairias os qnaes teenram escripuães do que recebe- 
rem pêra as cousas piadosas pêra seerem leuadas ao dicto cepo. 

que nom seia iconimo ssenom. creligo de missa 

39 Item geeralmente mandamos em todo nosse arcebispado que 
nom seia hicouimo alguimi em igreia delle senam creligo de missa 
per nossa carta espiçiall por alguuns embargos que achamos (jue sse 
fazem simonias e conluyos em ellas. 

que nom serua huum rreligo ssoomente dous benefiçiios 

40 Item mandamos a quail(]uer qne for beneficiado em duas igreias 
que em huma somana serna em huma conthinur/damente a todallas 
horas e delia aia os beneses e aniuersarios e (la(|nella que nom ser- 
uir os nom Iene e assy Iene a oulra (juando seruir o (jual queremos 
que se entenda geerallmente em todo nosso aiçebispado. 

(Continm.) 



E HISTÓRICA 143 



o PlíJ.MKIKO A\l('UVrVA'TO DE ODIVELLAS 

Diz fr. Fr;mci,sco niniidrio. íiihiiido (l,'i (mIíIícíiçHo do mosteiro de 
S. Dinis ou dl' Santa Mana de Odicdlas ((jue de atnbas as maneiras 
se etiionlra nomeado em escriplores e dociimenlos) que, a folhas 11 
do Livro seLfiitido de leslamoiilos c capellas, no cartório da Sé de Lis- 
boa, acliáia "iioiiieado poi- leslcmiiiilia da escritiiia ónie o Cabido lez 
de biima capella a IJarhtlaiiicii Aiines, (jdadar> (b; Lisboa) Afonso Mar- 
tins, mestre da obia de udiveHas» '. O documento tinha a data de 
i324. 

Na Lisla dnhjnns nrlisfas... feita pelo cardeal Saraiva (l\itriar- 
clia D. Francisco de S. I^uis) vem mencionado Ailonso Martins como 
archileclo de Odivellas. na íe da tianscripla passagem de Brandão; e 
no seu Diclioniiaiir artisiiqtw da 1'oinajaL o conde A. de liaczynski 
acompanha o cardeal o por consequência Brandão. O cardeal Palriar- 
cba seguiu o consciencioso chronista: nem podia deixar de fazei -o, 
visto não se encontrar em outro escriplor outra noticia. È natural (pie 
buscasse ver o (i(jcumento a (jiie Brandão se refere; mas, não o encon- 
trando, acctitou a informaçãct d elle. Baczynski, que tantos esclareci- 
mentos colheu, e que tantos auxilios obteve de itivestigadores abali- 
sados, como Alexandre Herculano e o Visconde de Juiomenha, nada 
mais adeaniou. Elícctivamente. a mais antiga allusão ao ar.^hitecto de 
Odivellas, e:n esciiptor [)oituguez, é a de IV. Francisco Brandão, í]ue 
íica citada. Delia deiivam todas as luengões que se fazem de Allonso 
Martins. 

Uma recente descoberta vem levantar, poiém, algumas dúvidas so- 
bre o verdadeiro nome do architecto da primitiva fabrica do celebrado 
mosteiro. 

Ultimamente encontrei eu alli um curioso capitel de colimina he- 
xagonal, apeado e certamente muito afastado do seu primitivo assen- 
to. É pena que o capitel houvesse sido deslocado. Foi-o de certo por 
occasião do terremoto do primeiro de novembro de 1755, que tantos 
prejnizos causou no mosteiro, como se vè do documento que passo a 
transcrever do— Livuodo oiuro da 1 s ueligiozas. j 1709 — , a fl. 3á v. 
Ahi se lè assento seguinte: 

«A í?deNovenbro (.s/c) em a Era de Christo bem e S.*"" Nosso de 1755 
descancou (sic) dos trabalhos desta vida a M/' loaima de S. Fran.""*, 
era Uelligioza de vida m.'" ajustada, e nesta mesma era e sempre me- 
morável dia p.""" deste mes, em o qual celebra a Igreja catholica a fes- 
ta de todos os S.*°% se exprimenlou (sic) aíj.'*" fromidavel isic) e quasi 
vniversal lerremotto, em q. acabarão in.''"" milhares de vidas, nas rui- 

1 Mon. Lnsit. V. V, L. xvu, c. 2:5, lom. v. pag. 224. 

Rev. Arch. e IIísT., I, N.° IO — Outubro 1887. IO 



d 46 REVISTA ARCHEOLOGICA 

nas dos ediíicios. sendo o mayor extrago [sic) o q padeceu, a cid.'' de 
Lisboa, essa celebrada corte, e centro de deleytaveis devertim.*°^ foy 
tornada em lui objecto de dezenganos, e domicilio de borrores; e este 
Mostr.**, cuja fabrica era toda grandezas, ficou toda a abatim'*'''; e do 
Tj naõ deyxou caindo íicou taõ arruinado, (] as llelligiozas, fugirão hu- 
mas p' o largo campo do mesmo Moslr", e outras p.-"* fora delle, naõ 
liaveudo clauzura pois o temor a linha feylo nos coraçoens; em o cam- 
po do mesmo l\lostr.°, fes a sua Jornada commua esta Relligioza, e 
nos claustros e Igreja do mesmo por cauza dos tremores, e^lavaõ ca- 
biiido as abobadas, e assim parecia temerid." darlhe sepultuia claus- 
tral, por isso foy conduzido seu defunto cadáver, p.^ iiuã Igreja pe- 
quena q liça defronte da poisaria do mesmo Mosli''', e alii esperaõ 
seus ossos a resurreyciíõ {sic) geral. 

(assígnada) «a cantora mor» 

Apezar da emphase, da ortographia, e do defunto cadáver, é pre- 
cioso este assento, por nos conservai' noticia do desastre terrível sof- 
frido pelo famoso mosteiro. 

KíTectivamente, o que resta, conhecido, da fabrica primitiva é pou- 
(piissimo: a capella-inór e as duas laieraes ; outra capella (talvez), que 
subsiste junto ao port;d da egreja, e esse mesmo portal: alguns frag- 
menlos de pedras com ornatneutação variada e iuiporlante (gregas, 
swastikas, etc); e o capitel a que me tenho referido. Podem junlar-se 
a eslas relíquias, o que existe ainda da antiga casa leal que D. Dinis 
deu ás freiras eque constituiu a primeira habitação delias, emquanto o 
convento propriamente dicto se construía. Dessa casa ou paço restam 
duas janellas e um escudo das ai'mas leaes na parede que olha o 
claustro velho. ICste, cujas columnas são também da primitiva, foi res- 
taurado com alguma grandeza em melados do século xvni. sendo ab- 
badessa D. Luiza Maria de Moira, pelo que as freiras o designavam 
pelo nome de ciaustro da Moira. Também restam ainda dos piimitivos 
tempos vastos casarões térreos, piimitivameute cavallariças pertencen- 
tes ao paço, e depois destinadas a celleiros e casas de arrecadação. 

Mas voltemos ao capitel. Apezar de deslocado, comprehende-se, 
pelas suas dimensões e caracter, que só podia pertencer á egreja. 
Talhado num enorme canto, é elle polygonal, tendo a parle superior 
do ábaco uma superíicie do (r.Oi poi' O'", 74 (Ivst. xvi, n.^ I). Sob o 
capitel vè se um f)edaço do fuste hexagonal, talhado na mesma pedra, 
a qual (em de altura O'". 57. Basta ver o ca|)ilel, para se reconhecer 
ser uma das pouquíssimas relíquias que subsistem da fabrica primi- 
tiva. A sua forma caractcrislica não deixa dúvida alguma acerca da 
epocha em que foi talhado: a [)orção do hisle, as ligações, as escul- 
pturas dos ângulos, o trabalho da pedra, tudo. O ábaco é cortado nos 
ângulos, estabelecendo transição entre a sua forma rectangular e a 
forma polygonal do capitel; dos ângulos, um é ornado com um cacho 



E HISTÓRICA 147 



(riivas, oiilro por iiin;i siii;4('l;i rolliri do parrn, os dois restantes cada 
uni poi" lima caberá. Oiiaiido. [loróiii. tudo isso não bastasse para 
lhe determinar a edade, oulra circiimslancia a estabeleceria inconles- 
tavelinente. 

Vau duas das laces do ábaco, em caracte!"es onciaes de grande or- 
namcntaijão, Irem-se as seguintes palavias, constiluiiidd um nome 
nionrio: 



ANTAM MTINZ 



Depois do primeiro nome notase um sigiial gravado, similliante à 
cifra mais geralmente empregada na escriptnra cbaiiiada golliica para 
signilicar cl e ele. Na liy[)olliese de se dever dar a esse signal uma si- 
gnilicação cpigiapliica, iieuliimia diilia se llie poderia alliibiiir senão 
a de i't, do que re^ullarla a Icdura Aidam cO Marliiiz, isto é, duas pes- 
soas. Se podesse admiltir diivida a leitura do segundo nome, e por 
conseguinte se se podesse interpretar Martini, em vez do palronimico 
C()rre.s|)nudenle, o signal intermediário leria ligoiosamenle signilicação 
copulaliva. (! acliar-nos-hianios naturaliueule em presença de dois no- 
mes pro[)iios. .Mas. .-endo incontestável (|ue o segundo nome é Mar- 
tinz, o signal alliidido nao pôde ser epigrapbico; não só pelo absurdo 
de ficar ligado pelacopulativa (C- o nome propiio ao patronímico, a se- 
rem ambos da mesma pessoa, mas também pelo não menor absurdo 
de, no caso de serem nomes de duas pessoas, uma eslar indicada pelo 
nome prop;io e outra pelo patronímico. Demais, como é sabido, 
naíjiiella ep :)cha e ainda muito posteriormente, só se designavam as 
pessoas pelo nome baptismal, seguido immedialamenle em geral pelo 
patronímico e algumas vezes pelo appellido; mas nunca se designa- 
vam pelo palronimico, o «lual, isoladamente, nada significava. 

Por conse(]ueii -ia. o signal mencionado não tem, em meu intender 
significação e[)igra[tliica; mas foi alli gravado unicamente com o íim 
de preencher um espaço que a primeira palavra deixara devoluto, e 
como que a estabelecer conlmuidade entre essa e a seguinte, depois 
da qual nada se gravou end)ora para isso houvesse espaço. 

Acliaiud-nos, pois, em presença dum nome d"homem, Antam Mar- 
tinz, homem que decerto represeiilou algum papel ua construcção do 
mosteiro. I}em sei que a[)parecem por vezes no interior de algumas 
egrejas, ca[)ellas, e outros edificios, inscripções mais ou menos exten- 
sas gravadas seguidamente nas vaiias pedras do friso; inscripções jii 
compostas de versículos da Hiblia, já ex|iressamente redigidas com 
alhisão no edilicio, ao seu destino, ou a quem ordenou a sua fabrica. 
No caso subjeilo, porém, só se pode considerar aquelle nome isolado 
como uma assignalura, e de maneira alguma como fragmento de in- 



148 REVISTA ARCHEOLOGICA 

scripçíío. E favorecida esta asserção por uma consideração justa e por 
um argumento, que, embora negativo, não deixa de ter algum peso. 

A consideração é a seguinte: se a inscripção Ibsse de IViso, aquelle 
capitel não seria de columna, mas sim de pilastra encostada á pare- 
de; e a inscripção conlimiaria, não no friso propriamente dicto, mas 
em um pseudo friso colíocado á altura do ábaco do capitel. Mas este 
é de colinnna, como evitlentemente o provam o seu faceado regular, 
e as escMl[)tiiras dos seus (piatro ângulos. Passemos agora ao argu- 
mento negativo. Porque conservaram as IV('ii"as de Odivellas aquelle ca- 
pil(>l (la cgrcja. ipieo terremoto do dia de Todos os Santos despenhou 
do alto da colinnna que encimava? Naturalmente porijue, vendo nelle 
gravados alginis car.icteres ((jue talvez até não soubessem ler), intende- 
ram dever gnardal-o como memoi'ia da antiga egreja. Ora, não é crivei 
(jue os demais capiteis e todo o friso da egreja se despedaçassem na 
derrocada; e, portanto, quem guardou a(|neile capitel, ponpie tinha 
gravadas umas leltras, conservaria mais alginn capitel ou porção de 
biso, se mais algum tivesse epigra|)he. Além disso, embora os nossos 
escriptores nos não deixassem nenhuma de.^cripção miiiiu'iosa da egre- 
ja, deceito que não deixariam de fazer menção de tão inq)ortante in- 
scripção como seria, por commemorativa, a que occupasse o biso do 
templo. 

Parece me pois dever abandonar-se a hypothese d'uma inscripção 
de friso; e considerar aipielle nome como a assignatura deixada alli 
[)elo archilecto, j)elo mestre da obra. Considero desnecessário de- 
monstrar a(pii, com exemplos, quão vulgar era o facto de os archite- 
ctos firmarem as suas obras com o seu nome ou com o seu retrato. 

Se fr. Francisco Brandão não dissesse cliamar-se Affonso Mai tins o 
architecto de Odivellas, ninguém hesitaria, á vista da inscripção do 
ra[)itel, em afíirmar que elle foi'a Antam Marlinz. Estamos, pois, em 
[)resença de duas affirmntivas, ambas de grande peso, mas que mu- 
tuamente se contradizem. Estudemos a questão, e vejamos se havemos 
de necessariamente reputar falsa umj d^ellas, ou se as podemos con- 
siderar ambas verdadeiras. 

No primeiro caso, isto é, dada a circumslancia de uma das aíTu*- 
malivas ser falsa, não é licilo [)i'eferir a menção da Moiiarcliia Lusitana 
ao testemunho inconcusso da uíscripção. Esta foi gravada pelo próprio 
Antam Maitins, ou pelo menos (mas com pouca pr()bal)ilidade) por al- 
gum dos seus ofliciaes, á sua ordem e sob a sua direcção; e neste caso 
seiia absurda a snpposicão de que o gravador errasse o nome. Por 
consequência, nesta hypothese, errou Brandão. Este erro, que em nada 
pode desautorisal-o, com(|uanlo seja certo (como já Alex. Herculano o 
notou alguresj que IJrandão não era um paleogra[)ho consumujado, 
seria um siin[)les eipiivoco. Toilos aipielles ipie se (Ião a trabalhos de 
investigação sabiam com (juant.i facilidade [)ode deslisar-se na escri[)tura 
um equivoco de nome pro|)tio, mormente (piando ha a mencionar 



!•; iiisTOiíiCA 149 



muitos. Para evitar esses la|)sos, convém, quanto possível, conferir sem- 
pre o esciipto com os originacs, de preferencia a fazel-o com as co- 
pias p(»r mais conliaiiça que se tenha nellas. 

Mas p()(iei'se-lia (lar o segundo caso? Será tão exacta a asserção 
do célel)i'(i cliiouista. como é verdadeiro o testemuuiio do capitel? 

A obra de Odivellas começou no anuo de 129."). depois d(3 tá7 de 
fevereii'o, pois(|ue nesta data se lavraram as constituições e carta de 
dotação do convento, declarando se alii (pic o rei eslava paia lançar a 
primeira |)edia do edilicio. Ora. existindo já alli naípiella dala. nas 
casas doadas pelo rei. algumas freiras, tendo por abadessa D. Elvira 
Fernandes, e flizendo uma memoiia aníiga do livro das calendas do 
mosteiro cpie, no primeiro de março de l^Oli, começou o serviço di- 
vino das monjas *, é natural (|ue a obi'a tivesse já um ceito adeanta- 
mento a esse tempo. 

Huy de Pina, falando das obras que D. Dinis mandou executai-, 
diz: «e fez ha rua nova de Lisboa, e assi ho IMoesteyro de Sam IJiniz 
Dodivellas em que jaas, ho ()uaal logo ha pouquos annos, que Ueynou 
mandou começar, e em sua vida s(! acabou em dès annos '^». Temos 
pois (jue pelos annos de KiOri estava concluída a obra; o que, se não 
quer dizer precisamente que a fabrica estava feita em todas as suas 
parles, pelo menos deve referir-se ao principal, quero dizer, aos dor- 
mitórios, e mais aposentos, ás indispensáveis oíTicinas, e sobretudo ao 
templo que não podia ser preterido por nutras construcções. 

Por outro lado o docunienlo, a (jue alliide Brandão, era do anuo de 
1324. Hoje não restam vesligios delle. Procurei-o no Archivo Nacio- 
nal ; e foram baldados os esloiços feitos |)eIo meu excellenle amigo 
o sr. José Basto, para enconlial-o. e para descobrir qualquer outra 
indicação acerca do mestre da obra de Odivellas. Procurei o no archivo 
de S. Vicente de Fora, onde Monsenhor Daniel Ferreiía de Mattos me 
assegurou não existu-em nenhuns documentos antigos da Sé. Procurei-o 
no próprio cartório da Sé de Lisboa, aonde o dignissimo cónego, sr. 
D. João de Nápoles, que superintende na fabrica da cathedral, empre- 
gou toda a sua actividade e l)oa vontade, sem obter resultado. A es- 
tes três cavalheiros dirijo aqui sinceros agradecimentos. Pode pois con- 
siderar-se perdido o Livro 2.'^ de testamenlos e capellas, do cartório da 
Sé de Lisboa. 

Ora entre 1296 e 1324 decorre um peiiodo de vinte e oito annos. 
Quem sabe se nesse lapso de tempo, falleceu Antam Martins e, por 
não estar terminada a ediíicação d"alguma pertença do mosteiro de 
Odivellas, lhe succedeu no cargo de mestre da obra um individuo de 
nome AlTonso Martins? O facto de ser mencionado, na escrii)tura cita- 
da por Brandão, Affonso Martins como mestre da obra de Odivellas, 

» Mon. Lmit., ibiJ., pag. 223. 

2 Pina, Clir. dei Kcy D. Diniz, e. 32. 



150 KE VISTA ARCIIIÍOLOGICA 

merece muita consideração. Pode poiíderar-se (|ne, sendo a obra mais 
iiiiportaiile daíiuelle >íilio o mosteiro, a essa allmlia aquclla qualilica- 
ção; mas o certo é que aquellas palavras não delinem piecisamenle 
qual a obra em que Aflbnso Martins superintendia; tanto pode haver 
referencia ao mosteiro como a ontra (pialquer obra. Creio, [)oréin, (|ue 
â(pielle se releria. Vimos ipie a egreja, os dormitórios e as |)i'iiicipaes 
oliicinas do mosteiro, ficaram conclnidas pelos annos de l)H)5 ou {300. 
Daqui se concilie: ou qne Affonso Martins, tendo sido mestre da obra 
desde o começo, se declarava, ou o diziam tal; ou que, dirigindo al- 
guma consti'Ncrão, a (]in' no mosteiro se procedia, nalnralmente indi- 
cava a sna actual occu[)açno. Esla é, a meu ver, a mais sensata inter- 
pretação; por isso que não é plansivel que S(í consignasse como em- 
prego da testemunha um cargo em cujo exei'CÍcio já não estava. Quando 
se quizesse, por qualíjuer motivo extravagante, indicar o contrario, o 
escrevente ou tabellião teria i^osto mcsire que foi etc. Mas no caso 
subjeito não ha dúvida em que Affonso Martins exercia em 13á4 o 
cargo, que na escriptura era apontado; por isso que Brandão a pro- 
duz para demonstrar que naquelle aimo ainda havia obras em Odivel- 
las. O erudito monge de Alcobaça não apresentaria, sem reservas, 
aquella indicação como prova, se ella podesse soffrer interpretação di- 
versa da que lhe dá. 

Eu acceito a noticia que dá Brandão integralmente, e por conse- 
quência não contesto de modo algum que Affonso Martins haja sido 
mestre da obra de Odivellas. Apenas deixo de considerar esse indivi- 
duo como o mestre da obra ou (por outras palavi'as) o verdadeiro ar- 
chitecto do mosteiro, atpielle (]ue concebeu, delineou e começou a exe- 
cutar a fabrica. Pois, poi'(jue o inglez Ouguet foi mestre da obra da 
Batalha, pode porventura negar se que Affonso Domingues foi o mes- 
tre dessa maravilhosa edificação? Neste caso seria exacta a citação de 
fr. Francisco Brandão, apezar do testemunho da inscripção do capitel. 

Im[)ressiona verdadeiramente a notável coincidência de terem o 
mesmo patronímico Antam e Affonso, mestres ambos da obra de Odi- 
vellas, e cuja contemporaneidade é probabilissima. Note-se que a data 
de 1206, é a mais antiga a que se pode attribuir a execução do capi- 
tel de Antam; e que em 1324 nos apparece AíTonso. Entre estas duas 
datas decorreu um periodo de vinte e oilo annos. Era necessário que 
Antam houvesse fallecido logo em 129{) e (pie Affonso tivesse apenas 
28 annos em 132i, para que elles deixassem de ser coetâneos. 

Affonso Martins |)ode ter sido irmão (mais novo com toda a proba- 
bilidade) de Antam Martins. Co.nquanto o palronimico não possa ser- 
vir de confirmação, não se pode desprezar esta hypothcse, visto não 
ser invalidada por fado algum. 

Entre as setenta e quatro cifras ou marcas de canteiro por mim 
calcadas e copiadas nos restos da primitiva labi'ica de Odivellas, ha 
uma, que descobri no abside central ou capella-mór, pela parte inte- 



E IIISTOUICA 151 



rior. a (|iial se compnu (rum A oiicial encimado (riiin o miiiiisciilo, 
ahievialura do Alfonsu {\ÍA. xvi. ii." "2). Não i-epiigiia. aiil(3s é lacil de 
adinillii" (jiic o ineslre Aiilaiii Mailiiis livusse por olíicial ou por eon- 
Iraiiuíslre um seu irmão uiais novo, AlTonso Martins, (jne lhe suc- 
ced(Mi no jogar de mestre da obra do mosteiro, (jnaiilo a AlTonso Mar- 
tins a[)[)arecer como caiileiri), isso não invalida a liypnlliese. vislo (|ne, 
como sahem ainda os menos lidos em coisas aiclieologicas, os an- 
tigos mestres de obras, ou arcliilectos, não se desprezavam de lalliai' 
um canto ou facear un) sócco, lalvez porque não tinham litulos e ve- 
neras. 

Na ahsolnla íalta em (jiie me vejo de nolas biographicas dos dois 
.Martins, apezar de todos os esloiços em[)regados [)or mim para des- 
cobiir mais noticias a elles i'espeitanles, parece-me não sei* íòra de 
razão apontar aqui mna liypotliese que não e absolu amente extrava- 
gante 

Como se sabe. Odivellas dista apenas uns Ires kilometi'os do Ln- 
miai'. Uelativamenle á egreja desla ultima localid;ide. diz o citado 
Brandão: «O sitio em q a Igreja do l^nmiar está edilicada. era delílel 
D. AíTonso Terceiro, q neste lugar tinha bua (|uinta, a qual por esta 
causa chamão o Paço. d- despois pola possuir Afõso Sanches chamarão 
o Paço de Aloso Sanches, d- este nome de Paço retém ainda oje. Oc 
em escritura do anno de mil trezentos iV doze, no qual Sancha Nunes 
Alítíirãa. Heligit)sa do Mosleiío de Santos deu ao seu Mosteiío hmnas 
casas em Lisboa na l*e(lreira, onde chamão o canal, d- tinhaõ sido de 
loão Fogaça. Foraõ teslenninhas loão Longo de Odivellas d- Martim Lon- 
go de Paço de Afonso Sanches» *. 

Seriam Anlam Marlins e seu supposto irmão Affonso íillios de Mar- 
tim Longo? A [)ro.\imidade do i)aço dAlfonso Sanches e o valimento 
d"este para com seu páe^ não podem auctorisar a hypothese de serem 
os filhos de Martim Longo, um o mestre outro olíicial da obra de Odi- 
vellas? Esta suspeita só poderia transforma r-se em certeza, no caso 
da descoberla inapreciável dalgum documento, ou em informação fide- 
digna d'algum escriptor anligo que eu desconheço. 

(]ue, porém, creio não poder admittir dúvida é que o primeiro 
architecto de Odivellas se chamou A.ntam Maiuinz. 

Lisboa, 14 lie outubro de 1887. 

Borges de Figui.ihedo. 

1 Mo». Lusit., ibiil., pag. 224 v. e 22o. 



152 REVISTA ARCHEOLOGICA 



VISITAÇÃO A EGREJA DE S. JOÃO DO MOCHARRO 

D'OBIDOS 

pni I). Joryc da Cosia, cm li de le\ereiio de liG7 

(Concluído de pag. 144) 

como sse acue de soterrar o cniigo na egreia 

41 Item geerallmeiito niandainos e damos licença aos diclos be- 
neficiados fjue sse morrerem fora de pecado morlall notório e priuico 
{sic) e rreçeberem os sacramentos da santa igreia em ílim de seus 
dias como deuem que os enterrem na dieta igreia ssem mais pêra ello 
avendo nosso consinlimento alenantandollie se as hy lia as sentenças 
de excumunliom postas per estatutos. 

dos dias do eslatulo c dos que nom seniem sms benefiçUos 

42 Item por quanto achamos per certa enformaçam que alguuns 
creligos do nosso arcebispado sam assy rremissos e nigligentes acer- 
qua de rrezarem suas oras que adiir acabam de as rezar perfeita- 
mente como sam obrigados e sse as rezam nam as vaam rezar as 
suas igreias segundo deuem aqiielles que sam beneficiados e se re- 
zam em suas igreias nom rrezam com outros aas horas diuidas, po- 
rém querendo nos por descarrego de nossa conçiençia e saúde de 
suas almas dar a ello remédio segundo somos hobrigado mandamos 
que todos creligos beneficiados que seniem inter esenles seus benefi- 
cies e hiconimos rrezem todos iunlamente em seus coros e quallíjuer 
que nom vier aas matinas ao menos atee a primeira gloria patri das 
horas caniiiicas (sic) e per consiguinte as outras, a saber, primeira 
iii* bi'^ seiallie descontado huuni rreal e se nom vieer a vespei'a ao 
menos atee pi'imeira gloria patri hunm rreal e esta pena a poemos 
assy determinada por o que a constituiçam está sobre ella mny con- 
fusa mandamos aos sobi'edictos que façam em cada huum anno per 
sam ioliam huum apontador per iuramento que bem e uerdadeira- 
mente aponte a cada huum as faulas e sse ia teuer em ssy o groso e 
lhe*as destribuiçijes nom abastarem que tomem do que ia em ssy le- 
uer pro rrata o que asy fautar e pêra elo aha (sic) remédio no ca- 
pitulo em que mandamos por este azoo (jue lodos dem ffianças em 
outra maneira lhes nom acudam os prinsles com seus ffrutos segun- 
do no dicto capitulo mais compridametile che (sic) conliudo e por que 
auemos per enformaçam que os l)en('firia(los antre sy por se releua- 
rem huuns aos outros tornam a parle das faulas aqueles que as ffa- 
zera como sse as nom fezesem mandamos que daqui em diante o nom 
façam e fazendoo o apontador e prioste o contrairo e ele o con * * 

' Passagem que parece cscripla com diversa lotlra, mas do mesmo tempo. 



E IIISTOKICA lo3 



siiitiii(li) queremos que percam por cada vez aqiielle anuo as ren- 
das (los (lidos bciicCicios as (jiiaacs apricamos as fabricas dessas 
igreias. a sal)er. ainceladc (.s/n e a niilra tnclade pcra o niciriíilio e 
queremos que os beneliçiados aiam diíslalulo por anuo r" {10} dias p(!ra 
sua rrefeyçam e nom sse emleudam domingos nen» (Testas prinçipaaes 
por dia deslaluto eos allernatiuos aiam em cada igreia xx dias e cando 
bnum dos beneficiados tomar o (ha ou dias outro nom possa tomar 
estatuto alee aipiclh; uom acabar por a igreia seer seruida e cada huum 
seia Ihiudo de o dizer ao poiílador {sk) ou rreytor cada vez que al- 
guum dia tomar por nom cominçidirem nos dias e a igreia nom pa- 
decera detiimento e sse mais iuntamenie pidirem dias o rector os d(j 
ao piimeiro ou aaquelles que senlir (pie teem mais neçesidade e sse 
hl nom ITor rejMor ho poiítadoí'. 
qiw sse coiijcsom os creliijos 

4S item geerahnente mandamos e damos hçença e priuilegio aos 
beneficiados secerdoles que sse possam confessar lunins aos outros 
em toilollos casos poiítihcaaes absohiendo delles em nas dietas confis- 
sooces sahio se Ifnr seuleu(;a de exconuirdiom nou frangualur uermis(6/f) 
ecciesiastiíje (h(;ipniiie {sio em ho ipiall qiiaso sse acorram a quem ho 
poder leiíer ou aaquelle que pos a dieta sentença satisfazendo em for- 
ma de directo. 

que ueiihaiii os fregueses aos domingos e festas a igreia 
41 liem mandamos aos [)riores que amocstem lodollos fregueses 
que ueuham aas festas (hi Ihu x° e de santa maria e dos apostollos e 
horagoos da freguezia quando forem de guardar e todollos domingos 
aa missa da terça e aquelles que ho ÍTazer nom quizercm proceda a 
sentença descumuuhom e primeiro que a missa comece diga ho prior 
ou aipielle í|ue a missa diser que sse hy eslam algumis fregueses dou- 
tra fre.-;uesia em a igreia que la vaão ouuir missa soi) pena descumu- 
nhom nom estein hy aquella missa e depois que os diclos fregueses 
onuirem a dita missa emlam vaão ouuir outra missa ou pregaram on- 
de quiserem e mandamos aos dictos ("fregueses sob a dicia penna 
que emquanto lhe diserem a dieta missa nom seiam (Tora da dieta 
igreia. 

que repartam os raçoeiros as idas (sic) e trintairos 
4õ Item mandamos a todollos capellaaes que assy onuerem de 
cantar na dieta igreia paguad(js os aministradores delias do que ham 
dauer por fazer aproueytar seus benesses que ho ali f|ue nemeneçer 
que sse parla por todollos creligos de missa benefiçiaílos e capellaaes 
que couthiuuaí^lamenle seruem na dieta igreia aneendo cada huum hi- 
gallmeute sseu (juinham e esso meesmo das missas dos testamentos e 
dos triutayros que perleençerem dos (fregueses da dieta igieia outrosy 
que os beneficiados e capellaaes da dieta igreia dignam as missas dos 
abusentes [sic] e outros nom e esso meesmo que irepartam todollos 
reçoeeyros ho dizimo das vinhas antre ssy que cada huum beneficiado 



lo4 REVISTA ARCHEOLOGICA 

Iroiixer aaquelles que presentes íTorem assy em dinheiros como em 
íTiiiclos segundo anlre ssy hordenaiem. 
que nom digam missas nas hennidas 

46 Item deleiulemos e uiandaiuos a todollos sacerdotes do nosso 
arcebispado (jue num dignam missas em ermidas nem baptizem nem 
façam by outros bdfiçiios nem leygos laçam oratórios nem birmidas 
nem leuanlem altar nouamenle ainda que sseia em igreia sob penna de 
exLomunbom a qiiall poeemos em elles passados seis dias bo contrai- 
ro fazendo ssem nossa carta de licença ou de (juem nosso lugar teuer. 

que ponham as conslit/drões sinodaes. 

47 item geeralmente mandamos em todo nosso arcebispado que 
ponham em cada liuuma igreia as conslituiçoões sinodaaes escritas pello 
arcebispo dom loham nosso predeçedor {sic) alee que outra vez a di- 
eta Igreia seia visitada sob pena de ir reaes. 

das penas do meirinho 

48 Item outrossy porque em vaão sseria fazermos as dietas visi- 
taçoões sse com efecto nom ouuessem de seer compridas e dadas a 
exxecuçani (sic) por hisso hordenamos em muitas delias seer posta 
pena de dinheiro eontra os seus transguesores {sic) porem encarrega- 
mos ao nosso meyiinho (|ue saiba parle daquelles que emcorrem nas 
dietas penas por assy nom comprirem estas nossas visilaçoõees e as 
constituições geraaes segundo em tilas be contbiudo e de caaeesquer 
que primeiramente per elle forem acusados queremos que ameetade 
das ditas peniias {sic) seiam pêra elle dicto meyrinho e a outra meta- 
de pêra quem em as dietas visitaçoneos {sic) be expresso. 

cine nom empenhem nenhuuns hornamenlos ^ 

49 Item porque achamos (pie muitas vezes sse apenbam os orna- 
mentos e coussas das igreias em seu detrimento assy ralleçes vesti- 
mentas liuros e prata e outras cousas mouees bo que nom diuiam de 
fazer por seerein cousas ao bofiçiio dininall pertencentes pello que sse 
albeaiiam e perdiam mandanmos [sic] nos que iieiihinnn seia tam ou- 
sado de callqiier condiçam que sse antremet;i a apenhar ou a uender 
as dietas cousas ou cada buma delias nem as receber nem auer em 
ssy per semelhante titulo nos quaaes ou em cada biiiim delles see bo 
contrayro fezer ipso facto em estes escriplos poemos sentença de 
escumunhom e (piereinos que o contracto que assy acerqua dello ibr 
feto seia neiíhiium e a igreia possa tomar e auer onde quer que adia- 
do íTor sem alguma contradicta que lhe a ello seia posta nem seendo 
tliiuda a pagar o por que assy for vendido ou apenhado. 

60 Item achamos por vigairo perpeluum {sic) pedre annes da di- 
eta egreia e beneíiciados aluaro fernandez, mestre fernando. prior de 
sam pedro. loham de frandes. presentes loham afonso absente. tem 

1 As epigraplies em itálico dos títulos 3-49, são de lettra dilTerente da do tex- 
to, e de epoctia posterior. 



E HISTÓRICA 



lon 



ycolinio (.s/V) Acliimdo iii'll;i olfs orií.inioiitns c cousas qiie sse sse- 

gllClll 

Tiliilo (l;i |ii;it;i * 

r,l lii>iii liiiiii:) ciiiz í! (Idiis ciílczus. e liimia custodia com sua cruz 
I' liuuin liiiiulli) i.s/n (' liuni:i iiaucla. 

Titulo (las veslimenlas 

õ-j Ilcm Imuia ilc lial(l()i]uim (6?c) de passarinhas verde com suas 
alinaíicas e outra de pano de sirgo (]ue tem rrodas azures. e duas 
vollias. e duas alinalicas velhas e Ires capas velhas. 

Titulo d(js liui'Os 

;Vy Item dous douiiiiííaes o Imum saulal e dous ofiçiaees e luium 
pistoleiro {sk) e huuiii liuro de vicloria. dos xpaãos e dous salleiros e 
liuiuu haulisteiro. e huum liuro de missas priuadas. e huum missal 
mislico e hiiuui enaiigeliorum e huuui liuro de tombo. 

õ4 Item achamos na dicla egreia muitas cousas por fazer as quaes 
por seruiço de deus e honrra delia diuiamos mandar fazer emmendar 
e coii-eger nella e poi-que paieceria cousa graue e áspera mandandoas 
compi'iir e fazer todas em ho anuo presente [)oiém mandamos que 
até sam ioham este que vem ao cabiido que mande fazer estas que 
sse sseguem. 

õ5 Item achamos que ascada (sic) do coro da dicla igreia está 
mal repayrada mandamos ao dicto cabiido que até o dicto tempo ha 
mande corregi-r per guisa que este bem forte sob pena de cem rreaes 
pêra nossa chancellaria. 

ô(j Item porquanto a egreia de sam silueslre dos francos (stá mal 
repayrada asy.acerqua dos ornamentos da dicla egreia como acerqua 
das portas delía e outras cousas porém mandamos que até o dicto 
tempo ponham humas portas nouas aa porta |)rincipal e outras aa 
porta traueessa e huma porta ao sino da dieta igreia sob pena de ii° 
rreaes pêra dieta chancellaria. 

57 liem porque achamos a egreia de bombarrall star mal repay- 
rada de muitas cousas mandamos que até o dicto tempo ponham huum 
bolareo aa parede da ousia que está contra o leuaute ponjue está pêra 
caiir sob pena de çem rreaes perrt nossa chancellaria. 

58 Item em vertude de obediência e sob pena de excomunhom 
lhe mandamos (]ue atee a páscoa esta que vem nos paguem ou man- 
dem pagar esta nossa visitaçam a ioham gonçalves nosso recebedor. 

^ Esta epigraplie, como as duas seguintes, são da leltra do escrevente da vi- 
sitação. 



156 REVISTA ARCHEOLOGICA 

morador ii;i dicla cidade que per as receber ordenamos e porque açer- 
(pia do que vos asy per nos lie mandado nom podessees alegar igno- 
i'aiiçia pêra vos sseer noliíicado de todo mandamos confazer esta nossa 
carta dada em a nilla dobidos sob nosso sinal e sseello a xiiii dias do 
mes de lenerciío nieem rodiiguez [)or fei-naiide annes scripuam da 
camará do dicto senhor a fez da era de mil iiii' Ixbii annos. 

(assignado) G. An9. Vlisiponys. 



MONUMENTOS HISTÓRICOS 
I 

Em 1838, a mais bem definida individualidade que neste século 
tem apparecido em Portugal. Alexandre Herculano, erguia a sua voz 
anctorisada e ardente em defeza da conservação dos monumentos na- 
cionaes. Esculemol-o: 

«É contra a Índole destruidora dos homens de hoje que a razão 
6 a consciência nos forçam a erguer a voz e a chamar, como o antigo 
eremita, todos os ânimos capazes de nobre esforço para nova cru- 
zada. Ergueremos um brado a favor dos monumentos da historia, da 
arle. da gloria nacional, que todos os dias vemos desabai' em 1'iiinas. 
Esses que chamam prog!'esso apagar ou transfigurar os vestígios ve- 
nerandos da antiguidade que sorriam das nossas crenças supersticio- 
sas; nós sorriremos lambem, mas de lastima, e as gerações mais il- 
lustradas que hão de vir decidirão qual d'esles sorrisos significava a 
ignorant'ia e a barbaridade, e se não existe uma superstição do pre- 
sente como ha a superstição do passado. 

«A mais recente quadra de destruição |)ara os monumentos, tanto 
artísticos como históricos de Portugal, pode dividir-se em duas epo- 
chas bem distinctas. Acabou uma: a outra é aquella em que vive- 
mos. . . 

«A decadência, porém, na epocha em (pie vivemos é outra, e mais 
profunda. Já não ha a corrupção do gosto, o inapplicavel das theorias, 
o erro do entendimento. Agora é o instincto bárbaro, a nialevolencia 
selvagem, a philosophia da brutalidade. Dura ha poucos annos; mas 
esses poucos ânuos darão maior numero de paginas negras á historia 
da arte do que lhe deu século e meio. O picão e o camartello só ha 
bem pouco tempo que podem dizer — «triíimphámos». Até então es- 
caliçavam-se as paredes, roçavam-se esculpluras, faziam-se embrécha- 
dos, mas agora derribam-se curuchéus, partem-se columnas, derro- 
cam-se muralhas, quebram-se lousas de sepultura, e vão-se apagando 



E IIISTOmCA if)l 



Iodas as provas da historia. Faz-se o palimpseslo do passado. Corre 
despelado o vandalismo de um a outro exlrenio do reii)o. díísharalaiido 

(! assolando tudo Alleiito ao menor nnirmurio dos tempos que 

foram, indignado pela mais iMi^iliva lembrança das líeiMrões exlinctas, 
iriMta se com Indo ipie possa significar uma recordação. Assim exci- 
tado, argumenta, ora, esbraveja, esfalfa-se. O erclliismo dos nervos 
só pode afi-oiixar-liro. como as barinonias melancliolicas da harpa eó- 
lia, o rnidd d(; alginn moninncnto (pie desabe 

«Mas iníclizmeiílc para elle, o velho l*ortngal eslava coberto de 
recordações do passado. Cada fado hisloiico tinha unia ogix'j.i. uma 
casa, um mosteiro, um castello, uma muralha, um sepulchro, rjue eram 
os documentos peieimes d'esse fado e da existência dos individuos 
(pie nelie haviam intervindo. iMiconlrando tantas injuiias mudas á de- 
cadência presente, o vandalismo iriiton-se. ergin-ii se e falou em feu- 
dos, em dízimos, em corrupções h^adescas, em maninliíuh-gos, (!m ser- 
vos de gleba, em direitos de osas, em superstições; catou, em siim- 
ma, todas as vergonhas e deshonras do passado que poude e soube, 
ontresachando-as com tentenças e Jogares communs do catechismo 
[tolitico de liamon Salas e. por uma lógica incomprehensivel, por uma 
lógica sua, chamou os homens do alvião e da picareta e começou a 
(h-rribar victoriado pelo povo. Só elle, immovel no meio da mobilidade 
(h) nosso tempo, no meio das opiniões encontradas, das Inctas das 
commoções, tem apontado constante ao seu alvo, a demolição indeni- 
minada do passado.» * 

Dizia isto e muito mais o grande historiador, e ainda trinta e sele 
armos depois subsistiam os mesmos motivos de indignação e censnra. 

Em IS7o, um dos mais formosos talentos artisticos dos nossos 
tempos, o marquez de Sousa Holstein, clamava contra a incúria dos 
poderes públicos que não fundavam museus, (pie não pensavam se- 
(juer ao menos na conservação dos nossos monumentos nacionaes, 

«Eslão estes (dizia o maliogrado inspector da Academia de Bellas 
Artes) inteiramente descurados entre nós, com excepção da Batalha e 
do tem[)lo romano eiii Evoi'a. O sudário das nossas misérias a este 
respeito é tal, que nos envergonha mesmo estendel-o aqui á puridade 
e diante só de olhos portuguezes. A maior parte daquellas veneran- 
das relíquias do passado ou desappareceiam para sempre ou estão 
ameaçando imminente riiina. Umas foram voluntariamente destruídas, 
depois de voluntariamente concedidas, para darem logar a constru- 
cções modernas: outras foram successivamente minadas pela implacá- 
vel mão do tempo; outras estão barbaramente deturpadas pela mão 

1 A. Ifeicuíano, Mímwupntos Pátrios (Opúsculos, t. ir, pag. 8-9. 21, i'2, 23-2't). 



158 EEVISTA ARCHEOLOGICA 

dos homens, que sob o pretexto de lestauial-ns, lhes tiraram toda a 
feição que as caraclerisava.» * 

Por esse tempo, nomeada (por decreto de U) de novembro de 
1875) lima comniissão para traclar da reforma do ensino ailistico e 
organisação do serviço dos musens, monumentos liistoiicos e archeo- 
logia, apresentou eila o seu relatoiio e os seus [)rojeclos com toda a 
brevidade e sollicilude. 

Passados doze annos. que tantos decorreram desde 187G até ao 
presente, a reforma proposta pela commissão não se executou; o en- 
sino atlistiro [)ouco pi'(igrediu; não se organisaram museus: os mo- 
numentos históricos são (hvsli uidos em vez de serem conservados ou 
convenientemente reparados; a aiclieologia em geral é olhada com o 
máximo indiífeienlismo. 

É que em Portuga! não lia o gOí-to, o amor pela arte; não ha a 
comi)i'ehensão da utilidade de museus artísticos e ai'clieol()gicos; não 
ha o respeito pelos mdnumentos pátrios que são documentos da nossa 
hisloiia; não se considera a arclicologia senão como uma simples cu- 
riosidade lilteraria. 

Mas para que piTcisamos de reformar o ensino artístico? Ide ao 
Museu eh' Uellas Aries, e não veieis alli um só aitisla estudioso tiran- 
do coi)ia d algum quadro de Scijueira para se exercitar. Mas vereis 
dois ou Ires basbaípies em idiota pasmaceira diante d'algum painel 
que o guarda lhe disse ser tim, (supposlo) Ilapheiel ou mii Durer. 

Percorrei o paiz. e vereis ainda muitos monumentos que chama- 
rão a vossa atleiição. Mas atleniáe nelles e recuareis indignados. En- 
tre cem, um só encontrareis illeso de espantosas mutilações, de tor- 
pes remendos, de hediondos repaios. Ide á Sé de Lisboa, e lá ve- 
reis. . . O meu illustre amigo Visconde de Castilho vol o diz: 

«Os estuques então não teem nome. ('obrem o granito antigo 
d"aquelles pilares velhos com uma capa de [irosa amassada a colhe- 
rim, e na presença do que é pedra teem a louca presiimiição de que- 
rer arremedar pedra. 

«Além disso, colnmnas coiiiithias despi oporcionadas! capiteis de 
estuípie muito peralvilhos a de>dizerem do módulo do histe! uma 
confusão sem graça, sem ingenuid.ide, ao men')s, (h) bysantino ! 

(( . . .Uas altas colunmas aggregadas do templo velho, íizeram umas 
coisas que nada são.»^ 

BOUGKS DK FlGUElhEDO. 



* Marquoz de Sousa Ilolslciíi. (Jhsrrríirõrs soliri' o (iclnal eslddu du riisiiio das ar- 
tes em Porlwial . . . p;ig. 41. 

2 Jiilio lio Castiltio, Lisboa Antiga. V. ii, l. iii, pug. 1D2 c VX\. 



E HISTÓRICA 



159 



15IHLI0aRAl'IIlA 

Ri:visTA Lusitana, Arcliivo (h; estudos pliilologicos e (UliFiologicos re- 
inlivos a Porliiiínl. diiiiiido por ,/. b-iin df Vascona-Uos. — 1." Aiiiio. 
— N.°' I, i2.— Porlo, 1887. 

A Revista Liisilatin, dirigida por um dos nossos mais consciencio- 
sos es('i'iplores e ahalisado lulklorisla. eslá destinada a occupar um 
logar distmi"lo enire as publicaijões scientiíicas e lilteraiias do nos- 
so paiz e do eslrangeiío. Notamos com prazer a coincidência de le- 
rem enceta o no mesmo amio a [)ulj|icação a licvisin Lnsiiana e a [ie- 
cista Arclmilngiia e Histórica: uma occupando-se prolicienlemente das 
(pieslõcs pliildlogicas e etimológicas: outra procmaiido i'euuir e estu- 
(iar outra classe de materiacs (]ue nos i'estam (h)S passados tempos. 

Nos dois números |)ublicados, correspondentes aos primeiros tri- 
mestres do corrente atmo, encoiitra-se grande copia e variedade de 
artigos firmados por pessoas competentissimas nos assumptos a que 
a licvista Lusitana é destinada. Por longos, não apreseidamos aipii os 
respectivos smnmarios; mas, com a devida vénia, re|)ioduzu'emos 
(por pertencerem ao objecto da liecisla An-lwoUujim) cinco inscripções 
romanas, encontradas pelo sr. Leile de Vasconcellos na povoação de 
Duas-Egrejas (concelho de Miranda-do Dom'o): 



C • ANNIO • 
S 1 1. V A N O • 

A N L. • A N N' 

VS • RVFINVS 

PATRI 

SII.VIO • SII.VANO 

ANN • XXV 

Sn.VIVS • CAI.VVS 

FRATRI 



■ Caio Annio Rufino elevou este monumento á me- 
memoria de seu pae Gaio Annio Silvano, fallecido de 
cincoenta annos.» 



"Silvio Calvo elevou este monumento já me- 
moria de seu irmão Silvio Silvano, fallecido de 
vinte e cinco annos.» 



SII.VANO 
APILICI • F 



«Á memoria de Silvano filho de Apilico.. .» 



SIL VI AE C A L V I 
N A E • A/ • X X V I I I 
ET • G • SILVIO A/N I 
SILVIVS GALVINVS 
F I L I .E ET i\E P O T I 



"Silvio Galvino elevou este monumento á 
memoria de sua hlha, fallecida de vinte e oito 
.annos, e de seu neto Gaio Silvio, de um 
anno.'> 



160 REVISTA ARCHEOLOGICA 

5 ....RIO? 
....ONI? 
anu. 'XXV 



É curiosa a circumslancia da allileração nos nomes das quatro in- 
scripções. As que estão sob os n.*^* ^ e 4 pertencem a pessoas da 
mesma gcns. A inscripção n.° 3 está evidentemente mutilada. Da do 
n.° f) só ponde ler o sr. Leite de Vasconcellos o que vae em letlras 
maiúsculas: a divisão das luilias é miulia. 

Saudamos cordealmente o nosso estimável collega; e auguramos- 
llie nma brilhante caireira. 

A assignalura da Rcrista Lusitana pôde fazer-se dirigindo a cor- 
respondência aos srs. Lopes tí- C/\ Rua do Almada. 119, Poito. O 
preço, poi' anno, é de ^?>000 lòis na Peiíinsiila; de 1^ francos no resto 
da Europa; e de Gií>000 léis fortes no Brazil. 



.louNAL DO DoMiNc.o, Lilleraliira, Sciencia, Artes, Thealro. — 2.* 
Série.— Anno I. 

Merece elogios a empreza d"este jornal pelos esforços que empre- 
ga para infundir no publico o gosto da litteralura e das artes, pro- 
porcionando-lhe semanalmente uma agradável leitura acompanhada de 
formosas gravuras. Pena é que, talvez por motivos muito poderosos, 
esta publicação, reproduzindo largamente monumentos e panoramas 
d'oulros paizes. tão raras vezos dè gravuras i'epresentando os monu- 
mentos nacionaes c as [laizageiís do nosso paiz. 

Assigna-se na Rua da Vinha, 37. 1.°, Lisboa. Preço, por anno, 
!2?5500 réis; avulso 00 réis. 



E HISTÓRICA 161 



D. MECIA LOPES DE HARO 

Vou dizer d'uma mulher que se tornou famosa, assim por sua ex- 
tremada formosura, como pelo seu ruim e aventureiro caracter; mu- 
lher em quem se dava um perfeito contraste entre o physico e o mo- 
ral : um rosto adorável pela belleza, um coração abominando pela per- 
fídia. 

Não é decerto um phenomeno extraordinário este notável ajunta- 
mento ou concurso de dotes physicos com os defeitos moraes ; do mes- 
mo modo que o contrário se dá também em egual numero: um espi- 
rito gentil, a intelligencia, a virtude, num corpo débil, imperfeito, en- 
fezado. Parece que é normalmente invencivel para as forças da natu- 
reza o produzir um ente absolutamente perfeito ; parecendo por con- 
seguinte necessária essa opposição de predicados, essa compensação, 
esse equilíbrio, para a existência. 

Sendo pois frequentes estes contrastes, observar-se-ha que melhor 
compete á physiologia o estudar esses seres como indivíduos de es- 
pécie humana, do que á historia o consideral-os como membros so- 
ciaes. E assim é em geral. Mas, quando uma d'essas singulares indi- 
vidualidades tem occupado sua alta posição na escala social, quando 
ella pela concorrência das circumstancias tem desempenhado um pa- 
pel importante, influindo poderosamente nas modificações politicas 
d"uma nação, neste caso é á historia que principalmente pertence o 
exaniinal-a, apiesdiíiciiníu-.i cm toda a iiadez da verdade. 

Uma d'essas individualidndes é D. Mecia Lopes de Ilaro. 

A formosura desta mulher captivou quantos a conheceram e fez 
a desgraça de alguns; a sua ambição do poder fez com que praticasse 
uma traição vilissima, com que se tornasse culpada da mais abominá- 
vel ingratidão. 

E esta mulher que apenas conheceu no amor a sensualidade, e na 
nobreza o orgulho; esta mulher para quem o dever era somente a 
obtenção, para quem o reconhecimento era incomprehensivel, esta 
mulher, embora descesse dum throno, foi viver abastada e respeitada 
na sua pátria, sem nunca ter dado uma lagryraa àquelle que ella ar- 
rojara para terra extranha. 

I 

D. Mecia foi filha do senhor de Biscaya, D. Lopo Dias de Haro, co- 
gnominado o Cabeça Brava, e de sua mulher D. Urraca Affonso. Por 
seu pae descendia da mais illustre nobreza vascongada ; por sua mãe 
vinha de Affonso IX de Leão por bastardia. Houve já (e mais d'um es- 
criptor) quem julgasse que D. Mecia fora filha illegitima de D. Lopo. 
Essa opinião baseava-se na seguinte phrase do Chronicon Alcobacense 
que diz ad eram 1224: «... Sanchium capelum qui... duxit enim 

Rev. Arch. e Hist., I, N.° II — Novembro 1887. ii 



162 REVISTA ARCIIEOLOGICA 

quandara uxorem de uiliore genere» ; e ainda se fundava em que o 
seu nome não apparece entre os filhos do senhor de Biscaya, no titu- 
lo que a este respeita no Livro das Liiihcujeus chamado do conde D. 
Pedro. Mas, não só noutra passagem do mesmo livro D. Mecia é men- 
cionada como íilha de D. Lopo e da mulher d'este, senão que um do- 
cumento publicado por Gudiel tira todas as duvidas a tal respeito. É 
esse documento um recibo, passado pela viuva do Cabeça Brava, á 
Ordem de Sanl'I;igo, do pagamento de certa quantia que seu marido 
emprestara ; alii figuram os filhos da nobre dama, entre os quaes se 
encontra o nome de D. Mecia e o do marido d'esta D. Álvaro Perez 
de Castro. Se D. Mecia fosse filha illegitima, certamente não seria ella 
incluida pela mulher de seu pac entre os seus próprios filhos. Era pois 
a formosa biscaynha parente em quarto grau de Sancho II de Portu- 
gal, sendo terceira neta de Affonso Henriques. 

Dos primeiros annos de D. Mecia nada se sabe. Deve porém, conje- 
cturar-se que recebeu uma educação adequada á nobreza da sua famí- 
lia, uma das mais notáveis da Ilispanha. Se ella passou a infância na 
Biscaya, se na corte do rei de Leão, não se sabe ; mas talvez não se- 
ja muito arriscado suppòr que D. Mecia assistiu, durante a infância, 
mais tempo na corte do que na Biscaya. 

As mais antigas noticias, que se encontram acerca da formosa filha 
do Cabeça Brava, referem-se ao seu primeiro consorcio^, deixando-nos 
todavia entrever que teve uma mocidade muito agitada. 

Conservou-nos o Livro das Linhagens como que os preliminares do 
seu enlace com Álvaro Perez. Se todas as peripécias alli narradas são 
inteiramente exactas, coisa é que não ha meio de ser averiguada; em- 
bora, porém, a tradição revestisse com mais ou menos atavios o facto, 
não é razoável negar de todo o credito ao antigo genealogista. 

D. Álvaro Perez de Castro, filho de D. Pedro Fernandez de Castro, 
de sobrenome o Castellão, e casado com Aurembiax, condessa de Ur- 
gel, havendo tido desavenças com o rei de Castella, passou ao campo 
dos moiros, facto este que tem muitos similares e ben: conhecidos na 
historia da península medieval, para que me detenha a falar d'elle. D. 
Álvaro Perez estava na villa de Paredes de Nava, de que era senhor, 
como das de Cigales, Mucientes e outras, quando tropas do rei caste- 
lhano o foram cercar, commandadas pelo Caberá Brava. O senhor de 
Paredes era homem corajoso e destemido, e conforme diz o Livro das 
Linhagens «tam grande e tam gordo que nom pôde teer em aquella 
lide (de Enxarez de Sadornini) senom luiuma falifa delgada e huuma 
vara na mão». Fazendo pouco ou nenhum caso das companhas inimi- 
gas, por irrisão poz em torno das muralhas barreiras de seda, dizen- 
do : «que nunca outro muro meteria amtre ssy e aquelles que a elle 
quizessem viir» ; «e isto foy (prosegue o Livro) porque era namorado 
da rainha dona Meçia Lo[)ez. . . com que depois casou». 

D. Lopo de llaro levara para o campo sua (Ilha D. Mecia, a quem 



E HISTÓRICA i63 



lambem andava cortejando D. Marfim Sanches, o famoso filho de San- 
clio I e de I). Maria Ayres de Furnellos. Não se compreliende muilo 
Ijem que I). Lopo andasse acompanhado da íillia duianle os combales 
que linlia a ferir ; mas o que é certo é que, por muitos outros factos, 
que tornam este probabilissimo, se sabe tei' U. Mecia um caracter 
essencialmente aventureiro, como algumas outras damas dessas epo- 
chas guerreiras, as (juaes eram dominadas pelo espiíilo do (empo e 
que estão symbolisadas no romance popular — a donzdla (jue vae jiara 
a guerra. Auctorisa ainda esta apreciação do caracter de U. Mecia um 
facto que a tradição aponta como succedido alguns annos mais tarde, 
e de que será feita menção em seu logar. Ha mais, porém, a conside- 
rar que, achando-se D. Álvaro de Castro enamorado da biscaynha, 
talvez esta lhe correspondesse (como o seguimento parece mostrar), e 
portanto empregasse os meios ao seu alcance para delle se approxi- 
mar. 

O senhor de Paredes havia com toda a probabilidade tomado co- 
nhecimento com D. Mecia na corte de Aífonso ix, onde é natural que 
ella gostasse mais de viver do que no isolamento do senhorio de liis- 
caya. Ainda quando não houvesse muitos outros e óbvios motivos para 
a residência de U. Mecia na corte, bastava o seu parentesco com o rei 
para a justificar plenamente. 

Entre os sitiantes de Paredes achava-se, como fica dicto, D. Martira 
Sanches, que tão célebre se tornou, assim pelos grandes haveres e in- 
fluencia que possuiu, tOmo pelos seus feitos d armas. Os Livros de 
Linagens consagram a este cavaileiro, que «era hoom e moilo honra- 
do» largos encómios e uma longa narrativa de suas acções. 

Sabe-se quaes os resultados que tiveram as generosas doações 
feitas por Sancho i a seus filhos assim legítimos como bastardos, e 
ás mães destes últimos. O egoista e cioso Aflonso ii recusou entre- 
gar-lhes os legados paternos ; houve longas e renhidas luctas e mui- 
tos dos filhos de Sancho i tiveram de expatriar-se; só terminaram as 
discórdias com a intervenção do papa Innocencio ni, que fulminou cen- 
suras e comminações sobre o rei leproso, conseguindo a final uma 
composição entre as partes litigantes, que fizeram mutuas concessões. 
Digamos alguma coisa do filho de D. Maria Ayres, que, como se verá, 
não é extranho ao objecto d'este estudo. 

Martim Sanches, a quem o pae legara oito mil morabitinos em di- 
nheiro de contado, como a seus outros bastardos, afora as suas partes 
respectivas nas deixas em bens immoveis, Martim Sanches leve de ir 
procurar forluna fora da pátria. Escolheu o reino de Leão, onde rei- 
nava naquella epocha Affonso ix, que era seu cunhado, por isso que 
havia casado em 111)0 com D. Theresa, filha de Sancho i, a qual tão 
pouca fortuna teve, visto ser obrigada a separar-se do marido por in- 
timação de Clemente ui, que declarou nullo o consorcio por impedi- 
mento de consanguinidade. A ex-raiuha professou em Lorvão, faUe- 



-164 REVISTA ARCHEOLOGICA 

cendo cheia de annos em 17 de junho de 1250 ; e foi beatificada por 
Clemente xi em 170o. 

Martim Sanches passara pois ao reino leonez, constituindo-se vassa- 
lo do cunhado, que o nomeou adeantado em terra de Leão. AíTonso ii 
de Portuga), sempre egoista e avai-o, aili mesmo mandou á Galliza al- 
gumas companhas a fazer-lhe penhora na terra de Lima. Passou-se isto 
em occasião em que JNlartim Sanches estava ausente. Á sua volta, sa- 
bedor do acontecido, fez reclamar por duas vezes de seu irmão a pe- 
nhora sem razão feita; mas, não obtendo nem da primeira nem da 
outra vez resultado algum satisfatório, juntou quanta gente poude das 
terras de Lima, Torítnho e de Valle de Baroncelhe, e entrou em Por- 
tugal até Ponte do Lima. Alfonso ii, avisado dos intenções do irmão, 
estava-o já alli esperando, com Iodas as forças d'Entre-Douro-e-]Minho, 
e ainda d'aquem Douro. Antes de passar o rio, Martim Sanches man- 
dou-lhe dizer que se retirasse, que elle combatei'ia toda a sua gente 
«ou se nom que se tirase afora mais d"huma legoa que nom parecese 
o seu pendom», e que elle lidaria com todos que ahi tinha. Aconselhado 
Atibnso a retirar-se para Gaya, assim o fez, retrocendo primeiro até 
Santo Thyrso, donde os seus barões voltaram a esperar as tropas de 
Martim Sanches, indo acampar junto do mosteiro da Várzea de Riba 
de Cadavo, a distancia duma légua de liarcellos. Chegado Martim San- 
ches a esta villa, e faltando-lhe o vinho, mandou por elle a Várzea, 
d'onde lh'o não quizeram enviar, recebendo apenas um desafio da 
parte d'alguns homens das forças reaes, que eram, entre outros Mem 
Gonçalves de Sousa, João Peres da Maya, e Gil Vasques de Soverosa 
já áquelle tempo casado com D. Maria Ayres e por conseguinte pa- 
drasto de Martim Sanches. Este poz logo em movimento as suas com- 
panhas, indo encontrar-se com as do rei num campo apar da Várzea. 
A lucta foi renhida, mas curta. Apezar dos esforços das tropas reaes, 
foram ellas postas em fuga. Indo-lhe no encalço, caminho de Braga, 
o vencedor alcançou Gil Vasques, que de «espada en maão» ia cami- 
nhando vagarosamente; e travando-lhe do braço e arrancando-lhe a 
espada, disse-lhe: «já, padre, já, ca asaz lidastes», deixando-o em se- 
guida continuar seu caminho. Emprazado novamente pelos realistas 
para combater entre Braga e Várzea, perto das Congostas de Braga, 
segunda vez os venceu, recuando ainda elles até chegarem á porta 
Occidental da Sé d'aquella cidade. «E aali sô aquel portal que hy está 
se derom moitas e boas feridas, e foy asi que os ouve dom Martim 
Sanchez a levar e pasarpela portela do espinho contra Guimaraães mal 
a seu grado». Terceira vez ainda os combateu e venceu em Guima- 
rães, encerrando os na cidade. Demorando-se alli um dia, á espera de 
novo ataque dos inimigos, viu que elles se davam por satisfeitos com 
as perdas já soffridas; e então regressou á Galliza levando grande 
presa, e muitos prisioneiros, a quem generosamente deu liberdade. 
Martim Sanches, que assistiu á celebre lide de Telhada, teve de 



E HISTÓRICA 165 



AÍToiíso IX (jualro condados, um d'elles o de Traslamara em lença vi- 
lalicia, 6, como disse, o cargo de adeanlado da ílalliza em quanto vi- 
veu. Foi enterrado em «('ofinos», numa villa da ordem do Hospital em 
terra de Campos. 

A presença de Martim Saiiclics no cerco de I>aredes foi motivada 
pela de D. Mecia, a tjuem cortejava e seguia incessantemente, ao que 
parece. D. Mecia não corriíspondia decerto aos requestos do portu- 
guez; pelo contrário, deprehende-se da narrativa do Livro das Linha- 
gens que ella lhe preferia D. Álvaro de Castro, o que os acontecimen- 
tos confirmaram. Mas, ou porque na sua garridice folgava com rece- 
ber as adorações ardentes de D. Maitim, ou poríjue se queria servir 
d'elle para melhor accender a paixão do outro (como julgo mais pro- 
vável) ia aceitando ostensivamente os incensos do íilho de Sancho i. 

D. Mecia, que demorava como facilmente se comprehende fora do 
cerco, eslava um dia na sua tenda, jogando o xadrez com o seu adora- 
dor D. Martim Sanches. Mandara erguer o panno da tenda do lado da 
villa, tomando como pretexto a calma ou o regosijo da vista; mas na 
verdade isto era pura estratégia. O xadrez era o pretexto; o verda- 
deiro jogo era a fralda da tenda levantada. Correspondendo á paixão 
do senhor de Paredes, desejosa de conseguir quanto antes o seu fim, 
talvez mesmo já farta ou aborrecida dos requestos e perseguições do 
ardente D. Martim, tractava de despertar os zelos no coração de D. 
Álvaro. Se tal foi, como [)arece, a sua intenção, o estratagema surtiu 
o pretendido effeito. O senhor de Paredes, acceso em amor e ciúmes, 
ao ver de longe aquella, cuja belleza o captivàra, conversando tão ale- 
gre e intimamente com um rival, armou-se num momento, montou no 
seu corsel, e dum galope chegou á tenda, disposto a um recontro 
com Martim Sanches." Este, que "estava apenas vestido de saio e manto, 
vendo repentinamente approximar-se o castelhano, ergueu-se rápido 
e, sem tempo de armar-se, lançou mão d'uma lança e dum escudo, 
que estavam encostados a um dos esteios da tenda ; e arremettendo logo 
contra D. Álvaro, deu-lhe tão forte lançada, que o ferro atravessou- 
Ihe o escudo, o porponto e a loriga, chegando ainda a feril-o. A van- 
tagem era todavia toda da parte do Castro, assim porque estava arma- 
do, como porque estava a cavallo. 1). Álvaro, porém, soube conter-se, 
ou por não querer abusar da sua posição vantajosa, ou porque lhe re- 
primiu o Ímpeto um olhar da bisca} nha. Talvez mesmo que, reconhe- 
cendo o perigo que podia correr no campo inimigo, demorando-se alli, 
desistisse de levar por deante naquella occasião o seu intento. Como 
quer que fosse, respondeu á aggressão, batendo fortemente com o 
conto da lança no escudo do portuguez, e, dando costas, regressou à 
villa. 

A rivalidade entre os dois ricos-homens não teve seguimento. D. 
Álvaro casou com D- Mecia, e D. Martim tomou por mulher D. Elo 
ou Olalha (Eulália), irmã do primeiro. 



166 REVISTA ARCHEOLOGICA 

O caso do cerco de Paredes combinado com esta phrase d'uma an- 
tiga cliroiiica : «... la reyna dona meneia, que dizian de paredes...», 
da a intender que a íilha de D. Lopo de llaro se tornou muito céle- 
bre por aquelle successo, conduzindo tudo á snpposição de que o seu 
procedimento não foi inteiramente irreprehensivel, o que factos pos- 
teriores parecem coníirmar. Como quer que fosse, D. Mecia casou 
pouco depois do cerco, ainda em 1Í227, com D. Álvaro Peres, que 
repudiou a sua primeira mullier a condessa de Urgel. Ignora se se o 
senhor de Paredes eslava já ou não enamorado da biscaynlia, ao tempo 
do repudio ; mas é provável que fosse a nova paixão a causa deter- 
minante d'elle. A condessa d'Urgel casou no anno seguinte com o fa- 
moso D. Pedro, filho de D. Sancho i, que chegou a ser rei das Ba- 
leares sob a suzerania de Jayme i de Aragão (1230-1244). 

BOUGES DE FlGUI£II\EDO. 



NUMISMÁTICA PORTUGUEZA 
D. Aflonso V 

(Continuado do n." 9 — pag. 1S5) 

No principio do nosso artigo publicado no n.° O da Revista, pro- 
mettemos fallar de três espadins, mas depois de escripta aquella parte 
do artigo, obtivemos outro de que vâmos íulla." também. 

Dos quatro espadins, um é de Lisboa e três são do Porto. 

A moeda espadim, foi, segundo Eannes de Azurara, chronista de 
D. Aflonso V, cunhada para substituir o real branco, sendo comtudo 
inferior a esta moeda. O espadim é ainda uma moeda commemorativa 
da instituição da ordem da Torre e espada, creada por D. Aflonso v, 
para honrar os conquistadores de Fez. É d 'aqui que provavelmente 
tira origem o seu nome, a despeito da lenda do astrólogo dos mouros, 
que com a sua instituição liga Severim de Faria. 

Não fallando no pequeno espadim, que com o n.° 16 da est. xi, 
apresentou o sr. Aragão, que mais parece pela simplicidade do cunho 
e pela reducção do pezo meio espadim, ha três espadins citados por 
este distincto numismata, com os quaes vamos comparar os quatro que 
DOS vieram parar ás mãos. 

O primeiro que o sr. Aragão descreve sob o n.° 13 da est. xi, 
tom. I da sua obra, é, est. xvi, fig. 1 : 

«í< D o I A L F o N S V S i:) E I ° R A C I E = R E • — No ceutro 

de quatro arcos, cantonados por quatro pontos, uma espada, com a 
mão segnrando-a pela folha ; no campo, á esquerda entre ires pontos, 
um A (Alfonsusj. 



E HISTÓRICA 167 



í^. ^ V I V T O K 1 V A : N O N : 1) I F K C 1 T " — NoS mesiDOS 

arcos como tem o anverso, o escudo com a cniz de Aviz, qualro cas- 
lellos e as quinas. Pesa :i9 grãos. Espadini, li.— I,>0(J() réis.» 

O espadim que vamos descrever e que nos pertence, tem o mesmo 
ornato d'esle, mas dilíere nuiilo na legenda, est. xvi, íig. 2: 

>.I< ALFONSVS : Di:i : GRACIK R E G I s • — No centro de 
qualro arcos duplos ligados iiileriornieiile por (piatro aiuieis, e lendo 
outros quatro por fora das ligações, uma mão segurando uma espada 
verticalmente pela folha, logo abaixo dos copos; á esquerda no campo 
um A (Alfoíisus) entre três pontos. 

^. ^ ADJVTORIVM : NOSTRVM : I N ; N — Nocentro 
dos mesmos (juatro arcos du[)los, mas sem os ainicis interiores, o es- 
cudo com a cruz de Aviz, quatro ca^lellos e interiormente as quinas. 
Pesa 4^ grãos. Espadim, li. 

São essenciaes as dilTerenças nas legendas, para conhecer as quaes 
basta a simples leitura Estas moedas, embora não tenham a letlra in- 
dicativa da fabrica, podem considerar-se de Lisboa, onde havia o maior 
fabrico, deixando-se, muitas vezes, como se vè n'outros exemplares, 
de fazer a indicação do iogar do fabrico. 

A segunda moeda do sr. Aragão, n.° 14 da est. xi, tora. i, que 
também reproduzimos é, est. xvi, fig. 3: 

«•ALFO: REIS l^ORTVGAl; F- — No centro de qua- 
tro arcos cantonados por quatro anneis, a mão segurando a espada 
pela lamina, de ponta para baixo; no campo á esquerda entre Ires 
pontos a; em baixo p (Porto). 

íi. A I V T o : R E s = N O s : c V I F E c I • — No ceutro o mes- 
mo da anterior, que está sob o n.° "2. Pesa 38 Va grãos. Espadim, B. 
— 1:>500 réis.» 

Podemos comparar com este espadim do Porto, duas moedas per- 
tencentes ao sr. Júdice dos Santos, que nas mesmas condições das figg. 
n."* 1 e i, tem variantes nas legendas. 

D'estas duas, a primeira é, est. xvi, fig. 4: 

>h A L F o N S V 5 : DEI ; G R A Cl A : RE— Como a figura n.° 
2, tendo a mais na parte inferior do campo, á direita da espada a let- 
tra p (Porto), indicativo da fabrica. 

Ê. ^ ADJVTORIVM [NOSTRVM I ; D O — Como na figu- 
ra n.° 2. Peza 36 grãos. Espadim. B. 

A segunda, est. xvi, fig. 5 : 

^AFONSUS GRACIA RE:: — Como na fig. n." 2, mas 
com um p á direita da espada e na parte inferior do campo. 

íí. ^ A D J V • O R ••• R : IN : I N o S T — Gomo O reverso da fi- 
gura n.° 2. Pesa 2() grãos. Espadim. B. 

O terceiro espadim descripto pelo sr. Aragão é o que na legenda 
tem a palavra d U Cl A S, e que vem na est. xi, tom. i da sua obra, 
sob o n." 15, que nós reproduzimos na est. xvi, fig. 6: 



168 REVISTA ARCHEOLOGICA 

«ALFON; RES^PROTUG^DUCIAS— No Cenlro O 
mesmo da fig. n.° 3. 

í^. O mesmo. Pesa 40 grãos. Espadim, B. — II^^OOO réis.» 

O nosso quarto espadim é, est. xvi, fig. n.° 7, o seguinte: 

alfon: res; protug; d u cias— O mesmo que 
as figuras n."*' 4 e 5, 

í^. A D j V T o R 1 V N ; N o s T R V N : Q V I ; F • — Reverso 
lambem como as figuras n.°^ 4 e 5. Pesa 32 grãos. Espadim. 

Estas duas moedas são eguaes no anverso e só no reverso é que 
variam um pouco na legen la. 

Os cciíis de que promettemos também descrever alguns exempla- 
res, são moedas, de pequeno valor, e começadas a cunhar na dynastia 
de Aviz. 

D. João I foi o monarcha, que primeiramente a mandou cunhar, 
segundo parece, depois da tomada de Ceuta, d'onde querem originar 
o nome d'esta moeda, destinada a ter alli o seu curso. 

Sobre este ponto quem nos podia dizer alguma cousa era Fernão 
Lopes, mas nada nos diz de positivo. 

O sr. Aragão descreve onze variedades de ceitis. 

Não é esta uma moeda, cuja raridade torne importante conhecer- 
se e estudar-se cuidadosamente qualquer pequena modificação de le- 
genda ou de typo, porque é grando a varirdailo de leuendíis no mes- 
mo typo, e variam também os typos com a mesma legenda. Mas, foi 
uma moeda corrente, pertence como qualquer outra á numária portu- 
gueza, e a obrigação do numismata é descrever e estudar a nioeda, 
por mais abundante que seja, por menos valor intrínseco ou desesti- 
mação que tenha. 

As proporções d'esta publicação é que nos não permitte apresen- 
tar um detalhado estudo sobre as variedades que lemos. Ainda assim 
fallaremos de Ires exemplares mais interessantes. 

Variam muito os ceitis d'este reinado na disposição e forma dos 
castellos, substituição feita ás letras do nome do monarcha como ti- 
nham os dos dois reinados anteriores. 

Os que tem a inicial do fabrico L, p ou c, mostram que estes fo- 
ram cunhados em Ires logares, Lisboa, Porto e (talvez) Ceuta. 

O primeiro que vamos descrever, est. xvi, fig. 8, tem os castel- 
los semelhantes ao ceitil que o sr. Aragão descreve com o n.° 29 da 
est. xn do tom. i, mas tem o que não vimos em mais nenhum, as 
duas legendas começadas por ajvtorivm. 

>í4ADJVT0RIVm: no; qvi; feg-— Escudo com as 
quinas contornadas por quatro castellos sobre a cruz d'Aviz. 

í^. ^ A D J V T O R I V M feg— Tres toi-res 

n'um recinto defendido por uma muralha que é batida pelo mar. Pe- 
sa 28 grãos. JE, Ceitil. 

Outro, est. xvi, fig. 9: 



E HISTÓRICA i69 



>i< A I. F O • p O R T u G A 1. 1 1-: R E X — O escodo das quinas 
conlornado por quatro caslellos sobre a cruz de Aviz. 

i"^. ^ A I. F • ►í^ D F P O R r • 1) o M I N \' s — Tres torres es- 
guias, dentro dum recinto cercado por muralhas Itanhadas pelo mar. 
Pesa 4<S grãos. .¥.. deitil. 

O ultimo, est. xvi, lig. 10: 

til A F F : R F X — Como na fig, H. 

n). >i< A J V T o R I V M - Como o anverso da 

fig. 8. Pesa 'M) grãos. .]■]. Ceitil. 

Algumas dilícrenças que existom ainda no fabrico (Us moedas que 
comparámos, são de menos importância, e deixámol as á apreciação 
do leitor em presença dos desenhos. 

M. ALEXANnilK DR SorsA. 



VISITAÇÃO A EGREJA DK S. JOÃO DO M( )CHARRO 

D'OBIDOS 

por D. JOiífl, bispo de Çulim, em nome do arcebispo de Lisboa, 
aos 2 de jiiiibo de 1473 



Toniiiiiaila a visitação do carileai (rAipcilrinha, e em comprimento da promessa 
feita na adverteiifia que a prereileu ípaj,'. t-íO). vão sejriiir-se os tiliilos d"ouh-a visi- 
tação, feita por I). João. i)is|)o de Çaliiii. lmii iioiiie do arceliispo de Lisboa, tituios 
que se não encontram na do rardeal, ou em que ha taes variantes (|ui' podem ser 
considerados como inteiramente dilVerenles. .Ajimtei a numeração dos tituios, para 
facilitar a consulta e as citações, mas não correspondem aos da visitação do car- 
deal. 



B. de F. 



Sam loliam doobidos 



que ensinem o pater tioster e o credo in deiim e os precepíos e os ar- 
tiigos da fe e os bii'^ pecados mnrtaaes * 

7 

e amoestareesos dictos freegueses que tomem os sacramentos que sam 
de neçesidade, a saber, baulismo pendença comunbam crisma e estre- 
ma vnçam e mandamos aos dictos freegueses sob penna de escomunham 
que nom fazendo uos o que diclo lie que noilo façam saber ou a nos- 
sos visitadores quando as dietas igreias forem visitar pêra nos tornar- 
mos a ello com direito e vos darmos aquella penna que por ello me- 
recerdes e esto se entenda nos dias em (]ue nom ouuer preegaçam 
em a dieta igreia ou alguum outro iusto impedimento per que se bem 
nom possa fazer. 

* Todas as epigraplies, ate ao titulo 'tti inclusive, são de lettra dilferente da do 
texto, mas do mesmo tempo. 



170 REVISTA ARCIIEOLOGICA 



como am de pontar os iconimos e os bcnc/içiados 

38 liem porquanto achamos que as igreias eram mall seruidas por 
causa dos beneficiados e iconimos se acuparem (sic) em outras cousas 
e nom em as ser iiir mandamos geeralmente em todo o dicto nosso ar- 
cebispado (pie [)ellos reetores e beneficiados de cada huma igreia seia 
enlejido hnnm que aponte aquelles que nom ueerem aas oras e misas 
(sic) o quaal .-ipontará os que nom sernirem e as missas e oras que 
errarem o quaal apontador asomará (sic) todo o que remderem os be- 
nefiçios da dieta igreia e aluidrai"á o que vem a cada huum em cada 
hunni dia e fará do que montar em cada huum dia trres (sic) partes 
e o beneficiado que errar as matinas perderá huma das dietas partes 
e se errar a missa do dia perderá a outra parte e se errar a uespera 
perderá a outra asy que por cada huma destas oras que errar perde- 
rá a terça parte e mandamos ao dicto apontador que todas as dietas 
factas (sic) desde o dicto anuo atee o sam ioham em que elle acabar 
seu anno as entregue ao prioste que vier pêra o anno seguinte o qual! 
prioste reteerá em sy todos os fructos daqnelles que mall seruirem o 
dicto anno e os reparta antre lodos segundo que cada huum seruir e 
se os beneficiados nom fezerem apontador do dia de sam ioham a quin- 
ze dias auemollos por condanados (sic) em mill reaes se ho apontador 
nom fezer o que dicto he auemollo por condanado em quinhentos reaes 
todo pêra nossa chancelaria e se o dicto prioste nom reteuer os fru- 
ctos que perca todo o que lhe montar em o dicto priostado o dicto an- 
no de seu salairo e este apontamento mandamos asy fazer no groso 
(sic) dos dictos benefiçios sem embargo do que temos hordenado acer- 
ca do camtar das capellas e aniversairos. 

que quando sse jinar alguum leigo probe (sic) que todos os creligos 
ssejarn hy iunlos 

89 Item Achamos que quando quer que alguum freegues dalguma 
igreia pobre se fina que porquanto a oferta que se com elle leua he pe- 
quena e aas vezes nenhuma os beneficiados das dietas igreias nom 
querem hir a tall finado e asy nom acham quem no (siê) enterre e 
querendo nos a ello proueer mandamos que qualquer beneficiado que 
sem legitima causa leixar de hir ao enterramento de tall finado que 
perca todo o que em o dicto dia gaanhar em a dieta igreia e lhe mon- 
tar dauer do beneficio que teuer em ella. 

como as capellas seiam ssegundo cuslumc da terra, a saber, huum 
alqueire de trigo por misa, e dous alqueires de ssegnnda por misa, e 
huum almude de vinho por misa, e meo alqueire de azeite por misa 

40 Item por darmos bordem em maneira como as capellas que 
sam situadas em cada huma igreia do dicto noso arcebispado seiam 
cantadas conlbrmandonos com o ciistume antiigoo delle mandamos que 
se tenha no cantar delias esta maneira, primeiramente que todollos 
priostes das dietas igreias recolham cm sy lodo o pam vinho azeite 



E HISTÓRICA 171 



dinheiros e foros, a saber, carneiros porcos e aues e lodallas outras 
cousas e nicolliido asy lodo asoincin (jiiainlas missas se podctii dizer 
pellos diclos liiictos pa-íaudo por missa alipjeire de Iriijío ou dous de 
segunda almude de viulio meo ah^neiíe dazeile e do dintieiro segundo 
costume do arçehispado avaliando os diclos f(-ros segundo (jue valerem 
pelo estado da terra e iia pa^ia das dietas missas se teerá esta ma- 
neira a(iuelle(|U(' lor apontador dds cousa (es (.svV) screftucia a(|Uf'llas mis- 
sas ipiu se diserem (sic) (! aípielles (jue as dizem segundo iguall des- 
Iribuiçam antre lodollos heneliçiados de cada liuma igreia ípie forem 
de missa e asy como cada hmim lener cantado asy lhe pagará pcllo 
modo suso dicto e ante do sam ioliam huuu) mes fará cnmta daijucl- 
las missas (jue ficarem por dizer e se achar que atpielhis (jue as ou- 
uerem de dizer sam inpedidos (pie as nom podeiam acahar de dizer 
alee o dicto dia de Sam ioiíam repartaas pellos que forem presentes 
e forem desacupados pêra as poderem dizer em tall modo que as di- 
etas missas seiam todas dietas atee o dicto (ha de sauí ioliam e acon- 
tecendo (jue pasado (siv) o dicto dia algumas ficasem |)or cantar per 
negrigencia dos dictos benefi(;iad()s mandamos que entam se tomem 
tantos creligos de fora que as cantem ataa huum mes despois de sam 
ioham e alguum beneficiado das dietas igieias as nom posa mais can- 
tar pois as nom cantaram dentro no tempo (jue eram obrigados, epor- 
quamto achamos que em algumas igreias as dizimas dos beens das 
capellas com os h-uctos e rendas delias iuntamente hiiam a Inmm ce- 
leiro e se cantauam o que he contra rezam (sic) e direito porquanto 
as dietas dizimas nom sam obrigadas ao cantar das dietas capellas 
mandamos que daqui em diamle a dizima dos bens das dietas capei- 
las vaa ao celeiro comum da dieta igreia pêra se re|)artirem segundo 
se partem as outras dizimas e das rendas das dietas capellas se faça 
o que dicto he. 

que o prioste nom dem (sic) a benc/iriiado nem a konimo nenhuma 
cousa atees (sic) rjue dem fiança. 

41 Item mandamos a lodollos os priostes das dietas igreias que 
nom dem fructos alguuns a benPÍi(;iados nem iconimos que mereçi(3os 
nom tenliam sem lhe primeiro tomar fiança abastante pêra serviço de 
todo lio anno das dietas igreias e morrendo al2[uum dos dictos bene- 
íiçiados ou nom seruindo a dieta igreia que o dicto prioste pague os 
dictos fructos que asy der sem fiança de sua casa. 

aquelle que aleuantar arroido no coro, o reetor tenha carrego delia 

42 Item porque achamos que as oras canónicas eram mall camta- 
das porque os beneficiados falavam muito no coro e aleuantavam mui- 
tos aroidos (s/c) dizendohuuns aos outros muitas palavras iniuriosas po- 
rém querendo nos a esto proueer mandamos aos reetores das dietas 
igreias que façam rezar as dietas oras apontadamente e nas oras con- 
uenientes e quallquer beneficiado que fallar em o dicto coro sobeia- 
mente em outras cousas senom no que pertençeer ao rezar que per- 



172 REVISTA ARCHEOLOGICA 

ca aqiielle dia e quallquer que aleuantar aroido de palauras desones- 
tas e iniuriosas perca Irres dias e se vierem aas punhadas ou maãos 
que percam huum mes e se ho aroido lor tail per que se outra penna 
de iustiça mereça aalém desta pena tique a nos ou a nossos olfiçiaecs 
que lhes dem aquella segundo o caso requerer e mandamos ao apon- 
tador dos consates(i'iV)que per mandado do dicto reetor asy ho aponte 
e seendo negrigentes os sobredictos reetor e apontador em fazerem 
o que dicto he que aiam a penna sobredicta posta ao que o dicto aroi- 
do aleuantar. 

quem esleuev aos annicersairos, clles os aiam 

43 Item porquanto achamos que muitos fazíiam duvida quem avia 
dauer os aniversairos o que lie determinado per direito que os non 
aiam senon aquelles que seruiiem e forem a elies presentes, porém 
mandamos que em esto se guarde todo o direito comuum. 

como seia hum beneficiado ou iconimo huum mes, solicitando huum 
mes pêra rrequerer seer, se algum fructo perder seia a sua custa a 
perda. 

44 Item Achamos que muitos beens e cousas das igreias se per- 
diam por se 11011 solicitarem e requererem bem pelos beneficiados del- 
ias, porém mandamos que em cada huma igreia em cada um mes 
seia enlegido huum beneficiado ou iconimo que seia solicitador de to- 
dollos fructos que a dieta igreia trouuer e aquelle que solicitador for 
e o mal fezer e na sua culpa' se perder alguum fruclo que elle pague 
a dieta perda. 

que non tomem benefiçiiado nem iconimo cura por o prioll, sob pena 
de ¥ rreaes, e o prior (sic) pague b'' rreaes para a chancellaria 

4õ Item porquanto achamos que alguns beneficiados e iconimos 
tomauam as curas pellos priores absemtes por muito tempo pelo quall 
as igreias nom sam seruidas pellos sobredictos como deuen» seer 
portanto defendemos aos dictos beneficiados e iconimos que non acep- 
tem semelhantes carregos sob penna de quinhentos rieaes e o prioll 
que lha der pague outros quinhentos rreaes todo pêra a nossa chance- 
laria e esto mandamos que daqui em diamte geeralmente se entenda 
em todo o dicto nosso arcebispado. 

que o beneficiado que nom souber leer e cantar atees hutmi anno, 
que non seia contado e a sua rrenda seia pêra a fabrica da egreia. 

4h' Item porquanto achamos que em algumas igreias avia alguuns 
beneficiados os qiiaees nom sabem leer nem camtar segundo que per 
direito sam obrigados saber pello quall as igreias nom sam seruidas 
como deuem omde taees beneficiados ha, portanto mandamos geral- 
mente em todo o dicto nosso arcebispado que quallquer beneficiado 
que asy nom souber leer e cantar do dia que for beneficiado ata a 
huum anno (pie non seia mais contado em o dicto beneficio, e per 
esta defendemos aos priostes que pellos annos em diamte forem que 
lhe nom acudam com nenhuuns fructos dos dictos seus benefiçios sob 



E HISTÓRICA 173 



penna de quinhentos rreaes pêra a nossa chançellaria, e os fruclos 
que os -lictos beneliçiatlos asy perderem soiam pêra a ral)rica da igreia 
em que asy forem beneíiçiados e o nosso visitador lera carreguo de 
os eixarainar. 

tiue todallas visifnrues pasadas ssc pni/nham (sici em liuum caderno, 
e as (/nc veerevi ao diante. 

47 liem geraltiienlo mandamos em lodollas igreias que se faça 
huum caderno boo de todallas consliluirõees e visilaçõees passadas em 
o qual se cosam todallas visilaçõees que se fezerem por se non an- 
darem rompendo e andarem espalhadas o qual será cuberlo de pur- 
gaminhíi com seus coiros detrás asy como huro de recadaçõees delHey 
sob penna de cimquenta reaes pêra o nosso meirinho. 

4S liem visitando nos a igreia de sam ioh;nn da villa doobidos 
achamo> em ella estas cousas e mandamos fazer outras as quaes se 
adiante seguem. 

Titulo da prata 

49 *ltem huuma cruz de prata Item dons cailezes Item huuma cus- 
loodya com ssna cruz Item huum Iribullo item huuma nauela. 



Titulo dos hornamenlos 

50 Item huma vestymenta de baldoquym de passarynhas verde 
com suas ahnaticas Item outra de velludo azul Item outra de pano de 
ssyrguo azul com roodas brancas liem outra dooslada ? vermelha 
com huma cruz daçendal amarello Item duas ahnaticas velhas Item 
Ires capas duas vsadas e outra milhor liem Ires frontaaes dous velhos 
e huum milhor Item huma coorlyna que eslaa no aliar moor verde 
e vermelha. 

Titulo dos iiuros 

51 Item dous dominguaaes de lenda e canto Item huum ssantal de 
lenda e canto Item dous oíiçyaaes Item dous ssalteyros Item huum 
missal mistico do aliar Item huum evangelliorum com ssuas oraçoões 
Item huum pistoleyro Item huum liuro de missas priuadas Item huum 
liuro que tem ho ofiçyo de vitoorya xpyanorum {chri^tianonnn) e ho 
ofyçio da conçeyçam de ssanta maria e outros hoflçyos Item huma 

í D'esta palavra ciii diante, tuda a escriptura é de lettra diíTerenle da que pre- 
cede. 



n4 REVISTA ARCHEOLOGICA 

oraçom do cooro Item huum caderno que tem ho hofiçyo de bautizar 
Item hunm liiiro do tonbo fsic). 

õ-J Item Achamos em a dieta ygreia estes liuros que sse sseguera 
mal emcadertiados a saber, lio dominguai e hos ofiçyaaes anbos (sic) 
e ho euaiigelyorum e ho huio de missas priuadas. Mandamos ao ca- 
biido que mande pooer fsicj huma tauoa ao dominguai que tem que- 
brada, e mandem emcadernar ho liuro de missas priuadas e mandem 
cobriir de burel todos hos ssobredictos liuros e esto laçam atees ho 
natall primeiro que uem ssob pena de ii'^ reaes pêra a uoossa chan- 
çellaria. 

5S Item Achamos em a vysylaçam do anno passado que foy man- 
dado aos raçoeiros do dicto cabiido que dessem ao vigairo da dieta 
ygreia dos dynheiros que avyam de dar ao dicto cabiido mil e qui- 
nhentos reaes pêra se comprar huuma ymagem de ssam ioham de pe- 
dra porquanto a que eslaa em a dieta ygreia he podre e velha e que o 
dicto vigairo ao (sic) compraasse ssob pennade pagar b^ reaes pêra a 
noossa chancellaria. Ao que dicto vigairo nom ssalisfcz porém manda- 
mos ao dicto vygairo que em todo caso requeyra os dictos dynhey- 
ros aos raçoeyros do dicto cabiido que diiz que os aynda em sseu po- 
der tem e os aia aa ssua niaão e atee o natal primeiro que vem man- 
de poer a dieta ymagem na dieta ygreia sob penna de mil reaes pêra 
noossa chancellaria, a qual penna lhe nom ssera quite por cousa ne- 
nhuuma. 

õ4 Item Achamos que a capella dos vydaaes que he da dieta 
ygreia estaa muy mall corregiida assydas paredes como do telhado e 
a ymagem de ssanta marya cuia emvocaçam a dieta capella he he toda 
podre e posto que ia mandássemos ao cabiido muitas vezes que po- 
sessem hy outra de peedra nunca o quizeram fazer e também quoatro 
(sic) liuros da dieta ygreia, a saber, huum dominguai e huum ssantal 
e huum myssal e ho euangellyorum ssam todos desemeadernados e es- 
farrapados e sse os nom corregem antes de dous annos sseram per- 
diidos porem mandamos ao dicto eabiidoo que atee a primeira nossa 
visytaçam mandem pooer em a dieta ygreia huuma booa ymagem de 
peedra de ssanta maria e mandem muy bem emcadernar os dictos li- 
uros e daqui a dous annos mandem eorreger a dieta ygreia muy bem 
bem (sic) das paredes e telhado de todo o que lhe fezer mester e es- 
tas cousas e cada huma delias compram ssob penna de b'^ reaes pêra 
a noossa chançellarya. 

õõ Item mandamos ao vygairo da dieta ygreia ssob penna de ex- 
comunhom que not^Xique esta noossa vysytaçam e mandados da dada 
(sic) delia a huum mees (sic) primeiro sseguinte por nom aleguar 
ygnorançya do que lhe assy mandamos fazer. 

ôO Item mandamos ao eabiidoo de lixboa em virtude dobediençya 
e ssob pena dexcomunhoin que da feylura desta a xb dias primeiros 
sseguintes vaa ou mando paguar esta vysytaçam a ioham de camoões 



E HISTÓRICA i75 



noosso recebedor em lixboa e assy lhe pague Ixxx reaes do scripuam 
ssob a dieta ponna perma (sic) ao diclo lem[)0 o qual recebedor tem 
todo carregiio de lodo receber. 

57 Dada em a dieta ygreia dons de iiinho per o senhor dom 
ioham bispo de çaphy tpie per noosso si)e(;ial mandado vysytou a di- 
eta ygreia leniam correa a fez por aluaro vaaz noosso secrelareo (sic) 
a qual visylaram ho do anno íjne sse começou per ssam ioham baptis- 
ta, de Ixxiii e sse acabaraa [)er esse mesmo dia de ssam ioham de 
Ixxiiii". 



(assignado) ^^T^^ 



ANTIGUIDADES PIIENICIAS NA PENÍNSULA 

O nosso illustre collaborador e amigo, professor E. Iliibner, infor- 
mou a Sociedode Archeologica de íierhn, na sna sessão de I de no- 
vembro, dnm descobrimento importante, o primeiro até hoje feito em 
a nossa península dum resto aulhentlco da arte phenicia. Acharam- 
86 casualmenie no território de Cadix (a antiga Gadir), perto da necro- 
pole romana, a uma profundidade de cinco melros, Ires sepulturas, 
uma das quaes continha um sarcophago. No tampo deste ai:ha-se a 
figura dum homem multo semelhante á do celebre sarcophago de 
Echmunazar. 



BIBLIOGKAPHTA 

PaLEOETHNOLOGIA. ÂNTIGUmADF.S MONUMENTAES DO ALGARVE. TeMPOS 

1'HKmsTOiucos, por Sebaafião Philijips Martins Estado da Veiga. — 
Lisboa, 1886, 8.** gr., íig. e map[). Volume i. 

Esta obra ha poucos mezes saida dos prelos da Imprensa Nacional, 
desde longo tempo era esperada com grande empenho por todos quantos 
se interessam pelos estudos archeologicos. O sr. Estado da Veiga, 
que foi em lempo encarregado pelo governo de estudar as antiguida- 
des do Algaive, e que alli piocedeu a muitas explorações, melhor do 
que ninguém deve ler accumulado maleriaes e noticias acerca dessa 
notabilissima província. É dMsso já uma prova o volume que lemos 
presente ; e que comprehende já muitíssimas informações sobre os 
monumentos prehistoricos d'aquella região. 



176 REVISTA ARCHEOLOGICA 

Muilo desejaríamos dar agora, uma demorada noticia d'esta obra; 
mas, porque não está ainda publicado o segundo volume, onde (como 
o auctor diz na Advertência) termina o estudo relativo á prehistoria, 
julgamos mais conveniente esperar que elle appareça, para então, pe- 
rante o lodo, melhor podermos dar uma apreciação. O que, porém, 
desde já alllrmamos é que esta vasta elocubração do sr. Estacio da 
Veiga está destinada a occupar um dos mais distinctos Jogares entre 
as modernas obras archeologicas, attentos os perseverantes trabalhos, 
largos estudos e grandes merecimentos do consi)icuo auctor das An- 
íiijuidades de Meilola e das Aniiguidades de Mafra, que tem desde 
muito feita a sua reputação de archeoiogo distinctissimo. 

SociKDADE Carlos Ribkiho (Propaganda das sciencias naturaes em 
Portugal). I, O Musku municipal do Porto (Historia Natural), 
por A. A. da Rocha Pe/.To/o.— Porto, 1888 — 8.'^ 

É interessante a muitos respeitos este opúsculo que, como se vè, 
abre a série das publicações da Sociedade Carlos Ribeiro, recentemen- 
te fundada no Porto. 

Folgamos sempre com a fundação de sociedades scienlificas. Não 
porque as consideremos assembleas de sábios, nem porque esperemos 
que ellas collectivamente produzam muito; mas, sim, porque no seio 
de qualquer sociedade desse género ha de necessariamente haver um 
certo numero de sabedores, estudiosos, que trabalharão por si e pe- 
los seus collegas. Sem esses poucos trabalhadores, as sociedades scien- 
lificas 011 passam a ser sociedades de dança e minuete, ou passam de 
todo. Mas, apezar d'essa inevitável desegualdade, são as sociedades 
scienlificas necessárias, porque só uma collectividade, em consequên- 
cia da mulliplicidade de meios de que dispõe, pode conseguir melho- 
ramentos, que um único homem, e mesmo um pequeno grupo só ra- 
ríssimas vezes alcançaria realisar. 

O opúsculo do sr. Rocha Peixoto mira á reorganisação do Museu 
Municipal do Porto. Demonstra qual seu estado, e indica o que elle 
deve ser: aponta e particularisa os melhoramentos indispensáveis para 
que aquelle estabelecimento se torne ulil. O trabalho está bem feito, 
mostra muita proficiência, e em cada uma das suas paginas se revela 
o ardor enthusiasta de seu auctor. 



E HISTÓRICA 477 



MONUMENTOS HISTÓRICOS 

II 

São priíicipíilmciile os ;iiili<íos Ifinplos e mosteiros que mais sof- 
frem com o vandalismo ollicial e parlicuiar. Nos templos, são em geral 
algumas juntas de [)arochia ignorantes (jue, na preterição de restaurar 
e embelesar o ediíicio, (jue lhes está confiado, praticam ou deixam pra- 
ticar os maiores attentados contra o caracter de vetiistez das antigas 
egrejas. Nos mosteiros, é aos poderes [)nblicos que cabe a responsabili- 
dade das prolanações nelles commeltidas. Quando ílca deíinilivamente 
extincto um convento, pelo rallecimento, ou transferencia para ou- 
tro, da ultima íreua que uelle professou, toma o estado conta do edi- 
fício, inventaria seus bens moveis e imrnoveis, e tracta de dar-Ibe um 
destino qualípier, afim de ulilisal-o. E isto perfeitamente justo, por 
isso que pertencem, segundo a lei. ao estado as rendas e os objectos 
existentes nas casas religiosas extinclas pela lei de iSir». E é justo 
também, e direi até necessário, que esses edifícios sejam aproveitados, 
visto que o deixal-os sem applicação seria a sua completa ruina, além 
de ser a negação dos principios económicos, o que vale o mesmo que 
dizer um contrasenso. Mas não só deve presidir á destinação d"ura 
antigo mosleir'o toda a cir'Cumspecção. afrin de ser idónea a applicação; 
senão lambem, qirando lia necessidade de apropriar ao seu novo des- 
tino o editicio, proceder aos reparos e modificações de modo que se 
se não vão prejudicar as partes d'elle consideradas como monumentos 
históricos. Um exemplo recente demonstra esta asserção. 

Havendo passado aos próprios nacionaes o real mosteiro de S. Di- 
niz dOdivellas. que em 1295 fundara o rei lavrador, foi o edificio ba 
pouco cedido a urna instituição qualquer para recolhimento de mulheres; 
sendo talvez razoável a applicação, que não preteridos discutir. Para 
que, porém, o antigo mosteiro podesse melbor adequai--se ao seu 
novo destino, julgou se conveniente pi'oceder a algumas modificações 
nelle. Nessas alter-ações todavia não se tem atlendido ao que era pu- 
ramente necessário para a apr'opriação, de modo que se teem praticado 
alli alguns attentados censuráveis. Por exemplo, a casa cbamada da 
madre Paula, que começou a ser expoliada (como em geral o foi a 
egr-eja e o resto do mosteii'o) pela abbadessa Anchieta, desappareceu 
completamente para alli se fazer alguma casinha muito nova. muito 
estucada, aonde talvez resida a superiora do recolhimento. Não é po- 
rém desses e idênticos attentados que eu falo; mas. sim. d'outros que 
alli se estão praticando e vão praticai--se, segundo me consta, os quaes 
são vandalismos deveras repugnantes. 

Não se supponha referi r-me eu á projectada restauração do tumulo 
do fundador, para o que se está procedendo a trabalhos preparató- 
rios. O tumulo d'el-rei D. Dinis, que está no abside lateral do lado do 

Rev. Arch. e Hist., I, N.° 12 — Dezembro 1887. 12 



i78 líEVISTA ARCHEOLOGICA 

evangelho, conservava-se desde lo?igos annos terrivelmente mutilado, 
quando a rainha D. Estephania ordenou a sua reparação. A reparação 
foi um verdadeii'0 altenlado; fizeram ao rei D. Dinis uma cabeça de 
gesso, com uma barba muito penteada e frizada, mãos e pés de ges- 
so, etc; sem que ao menos houvessem prociu^ado reproduzir as fei- 
ções dadas á estatua do monarclia pelo artista primitivo. Longe d'isso 
lançaram á margem um pedaço do rosto que ainda existia. 

Agora, trata-se de restaurar o tumulo. Divergem muito as opiniões 
entre os archeologos sobre se se devem conservar as antigas estatuas 
no estado em que os tempos noi as teem legado, ou se se deve proce- 
der á sua restauração fazendo desapparecer as mutilações que teem 
soffrido. Ambas essas opiniões são sustentáveis, e não entrarei aqui 
na apreciação das vantagens e dos inconvenientes que uma e outra 
proclamam. Limitar-me-hei a dizer duas verdades: uma, que nenhum 
artista se atreveria a restaurar a Vénus de Milo; outra, que dadas cer- 
tas e determinadas circumslancias muito complexas, se pode restaurar 
uma estatua até ao ponto de refazer muitas das suas mais insignifican- 
tes particularidades. 

A estatua tumular do rei lavrador é uma das que pode ser res- 
taurada : a maior difllculdade a vencer alli é a representação do rosto. 
Se não houvesse fragmento algum da cabeça, opinaria d'outro modo, 
porque seria absurdo apresentar como retrato de D. Dinis uma mas- 
cara qualquer. Mas, pois que ultimamente appareceu um pedaço do 
rosto da estatua-retialo do rei (parte da face direita, comprehendendo 
a maçã do rosto, metade dos beiços, e uma porção de barba), ainda 
um escuiptor hábil e estudioso pode restabelecer o semblante de D. 
Dinis, com grandissimas presumpções de verdade. Consta-me que o 
encarregado da restauração do tumulo é o sr. Simões de Almeida. 
Espero que este distincto escuiptor se desempenhará brilhantemente 
d*uma empreza cujas difíiculdades são enormes, e cuja responsabili- 
dade só pode acceitar um artista consummado. 

Não trato pois do monumento sepulchral do fundador de Odivel- 
las, visto haver motivos para espeiar (pie a restauração d'elle terá 
bom êxito. Tenho porém a mencionar um grande attentado já execu- 
tado contra as leliquias d.1 primitiva egreja do mosteiro. 

Contigua á abside onde está o tuuudo do fundador, existe uma 
capella (de que foi instituidor no secido xvi um cavalleiro por nome 
Nicolau Soares Kibeiro) para a qual será transferido o tumulo real. 
É nessa capella que se praticou o attentado. Picolaram as paredes !... 
Que isto se fizesse numa aldeia, longe da capital, ainda poderia attri- 
buir-se o facto á estupidez d"algum regedor ou sacristão, ou coisa se- 
melhante. Mas que em Odivellas, a duas léguas de Lisboa, num mo- 
numento como a fundação de D. Dinis, e por occasião d'obras maiuJa- 
das executar pelo governo, se piquem as paredes d'aquella capella, é 
o que merece toda a censura. 



E HISTÓRICA 170 



Picolar as paredes d'uma edificação do século xm! 

Pois não é nnihar a um moiiiimcnlo todo o sen merecimenio, o ti- 
rar llie a patina (pie os séculos depozerani nas suas |)aredes? Preju- 
dica ao aceio a còr parda que teein as pedias dos edilicios e monu- 
mentos antigos? Pois é mais magestoso, mais sublime, o templo em- 
bianquecido, brunido á moderna, do rpie conservando em cada uma 
das suas pedias o cunho da antiguidade, a data da sua construcção "? 

Picolar as paredes d"um aniigo edilicio »"' uma falta de gosto artis- 
lico, é uma prolanação, é uma completa demonslração de ignorância 
dos preceitos, estabelecidos pelos mestres, do modo cítmo se deve pro- 
ceder á reparação e conservação dos monumentos históricos. 

Entre nós pouco se estuda em geral; mas menos que ninguém a 
maior parte dos nossos artistas. Desde que deixam o banco da escola, 
suppõem-se mestres, e mestres não só na sua arte, mas em tudo: são 
até litteiatos. Lêem (quando lêem) novellas, ou quando muilo alguns 
esciiptos, que com o nome de historias por ahi se puldicam, minis- 
trando muitíssimas vezes informações erradas; mas não lêem os livros 
que poderiam instruil-os na arle a que se dedicaram. 

No caso subjeito — e pondo já de parte a questão do gosto artís- 
tico e a ideia de piofanação ; a primeira, por ser geralmente falta na- 
tural, a segunda por falta de com[)reliensão d'ella — no caso subjeito, 
bastaria o coniiecimento dos preceitos estabelecidos pelas pessoas com- 
petentes, para haver a abstenção de prejudicar aquella relíquia da fun- 
dação de U. Uinis. Se quem ordenou (pie picolassem aquellas paiedes, 
houvesse meditado a obra de Mantalembert dii Vanda liínm; et du Ca- 
íholicisme dans lArt ; se houvesse lido o Mannd de farcIíHecte des mo- 
numents religieux de Smith, e a obra do mesmo andor que tem por ti- 
titulo les Éfjlises golhiques, onde ha um capitulo inteiro expressamente 
feito contra a caiação e picolagem das egrejas : se houvesse tomado co- 
nhecimento da circular expedida pelo governo francez em ;2G de, fe- 
vereiro de 1849, decerto que, apezar da ausência do gosto artístico 
6 da ideia da profanação, deixaria de ordenar o attentado a que me 
tenho referido. 

Um dos mais notáveis archeologos que teem havido em França, 
Raymundo Bordeaux, diz no seu livro Trailé de la répnration des éfjli- 
ses as seguintes palavras, que transcrevo fielmente, e que os restaura- 
dores de egrejas devem pesar convenientemente : «II ne faut pas croire 
que le badigeon et le grattage appliqinjs sur des surfaces unies n'aient 
point dautre inconvénient que celui de changer la teinte des murail- 
les. lis atíèrenl encore le grain et les lailles des parements. L'oulil de 
Touvrier dans les travaux soignés darchitecture se fait sentir sur la 
pierre, comme le ciseau et la rape du statuaire sur le marbre. Cha- 
qiie époque, chaque style portent la trace de procedes qui dilTèrent. 
Les tailles antérieures au xui° siècle sont faites assez grossièremeut 
et au taillant droit; celles du xni'' à la grosse hrelture et layées avec 



i80 REVISTA ARCHEOLOGICA 

une grande précision ; l;i surface des pierres, converte le slries qui 
se coiipenl carrenient, ressemble alors à du gros canevas et presente 
iin grain aiissi rúgiilier (pie celiii des liacluires dune gravure. Les 
tadies dn xiv"" siècle sonl huii''es \\ la hretture jute avec pliis de nelleté 
encore ; celle du xv, à la hrcllNn' et aii rúcloir. Les retailies, les 
gratlages faites apròs coup allèrent la physionomie des paremenis et 
la forme des profils. II n'est pas de plus sin- moyen de discerner 
les parlies restées inlacles de celles qui ont élé reslaurées (}ue de 
rechercher les tailles primilives conservées sur les pouils peu acces- 
sibles ou masques. Le grallage, toléré quelquefois sur les parlies unies 
des égiises, a donc aii moins rinconvénienl, cndoniiant aux murailles 
un aspect nonveau, de leiír ôler toul caractere d'aullienticilé» '. 

Fez semelhantes ponderações quem mandou picolar as paredes da 
capella onde jaz Soares Ribeiro? Não, Assim conio não considerou lam- 
bem que desappareceriam sob a picola as cifras de canteuos. 

E as paredes d"essa capella estavam pintadas, não a cuspido ama- 
rello e pardo como as freiras mandaram fazer nos dois absides late- 
raes; mas com uma pintura de perto de cinco séculos, onde sobre 
fundo verde escuro realçaviuii flores de lys de ouro. E pensou nessa 
pintura quem ordenoe a picagem das paredes? E não leflecliu no que 
podia significar tal pintura? Essa pinlura não lhe trouxe á memoria a 
infanta D. Filippa de Alencastro, íillia da desditosa viclima de Alfar- 
robeira? Não. decerto. 

Nas paredes interiores d'esta cnpella (como se encontram também 
em grande numero no interior e exterior dos absides) havia muitas 
cifras de canteiros, esses signaes que os obreiros gravavam nos can- 
tos que trabalhavam, para serem reconhecidos na contagem. A picola 
destruiu, apagou inteiramente essas cifras, como obliterou a pinlura 
e como fez desappaiecer o trabalhado da pedra. Felizmenle poude eu 
conservar, entre os setenta e quatro calcos que possuo d'essas ci- 
fras ^, algumas das da mencionada capella. Colhi-as durante o tempo 
que permaneci no mosteiro, para proceder á moldagem e copia dos 
seus monuajentos epigraphicos. Aproveito gostosamente a occasião 
para agradecer aqui a S. Ex.^ o Ministro da Fazenda, sr. Conselhei- 
ro Marianno Cyrillo de (^larvailio, o haver permillido que eu alli fosse 
fazer estudos e executar trabalhos, de que resultou não se perderem 
inteiramente algumas memorias do famoso mosteiro. 

Não é só a capella mencionada, que é victima do vandalismo. 

1 Bordeaux, Traitij dt^ la n-panition des rglises. pag. 15o-irj6 (nlliina edição). 

2 Yi'j. a est. XIX. K quasi (vi-(o (|ii(( varias cilVas estão duplicadas, iiãu tendo si- 
do as mãos d'algi)ns obi-f^ros siiniineiiteriKMile hábeis para executar o seu signa! sem- 
pre com uniformidade. O leitor, que S(í dér ao trabalho de lazer algumas compara- 
ções, que a disposição das cifras já facilita, concluirá o mesmo. Lomipianto eslas ci- 
fras não sejam das mais cotnplicadas ou ornadas, nem por isso deixam de ser. na 
maior parti', muito intcressanlf^s. Cerca d"umá quarta parte são evidentemente lellras 
iniciaes dos nomes dos canteiros. 



E HISTÓRICA IHl 



Na casa do capitulo entre as dezesete sepulturas (jue alli existem, 
ha uma, a da terceira ahljadessa do mosteiro, cuja lapide tem na orla 
o epilaphio o ao centro gravada a ligura da fallecida. Ksla lapide pre- 
ciosa, por ser no seu género uma raridade em Portugal, está desti- 
nada a íicar no mesmo^^logar em (juo se acha, sendo todavia coherta 
pelo laboado geral que cohrirá o chão, para adequar aquelle logar a 
dormitório ou a alguma ollicina. Se áquella lapide se desse a devida 
importância, seria ella dalli transferida para uma das paredes da 
egreja, onde collocada ao alto se conservasse convenientemente. No 
logar d'ella por-se-hia outra onde se copiasse em lellra moderno a 
epilaphio; e no sócco em que assentasse a primitiva, se declararia 
qual o logar em (pie estivera. Mas nada d'isso se íaz; e se o auctor 
d'estas linchas não houvera lido occasião de lirar um calco dessa la- 
pide, d'aqui a pouco ninguém teria tido meio de admirar esse antigo 
monumento. E aquella p"edra não é notável só por sua antiguidade. 
Hoje os pedreiros e outros operários que procedem á composição do 
telhado da casa do Capitulo, lirmam sobre essa lapide sepulchral as 
pesadíssimas escadas de mão, arrojam-lhe em cima os maços, os mar- 
tellos e as traves, as pedras caem do alto sobre ella, e a lapide assim 
se váe lascando, assim se vão perdendo a uma e uma as lettras que 
restavam da inscripção, a segunda em antiguidade que no mosteiro 
existe. 

Pára aqui o vandalismo? Ainda não. 

No pórtico da egreja, á direita de quem nesta entra, vè-se um 
enorme pelouro embebido na parede e por baixo delle, uma lapide 
com inscripção que refere tel-o mandado alli offerecer a S. Bernardo 
D. Álvaro de Noronha, sendo um dos com que os mouros combate- 
ram em 1552 a fortaleza de Ormuz, que eUe capitaneava. 

Esse mesmo pelouro que alli foi collocado ha pelo menos trezen- 
tos e trinta annos, váe dalli ser tirado, para naquelle logar, que lhe 
pertencia por direito de posse, se abrir uma janellal. . . 

Pois nem o ser a expressão de voto dum valoroso porluguez, que 
honrou a sua palria, pois nem o ser uma prova do que valeram os 
nossos maiores, pois nem o ser o testemunho da fé, da coragem, do 
amor pátrio, que os animava em longes terras na defeza do Deus em 
que criam e no augmento da naciona^^lidade com que se ufanavam, pois 
nada disso é bastante para que se deixe onde está essa memoria, a 
única que hoje nos resta do nosso dominio na famosa Ormuz? 

Se para comvosco não valem os monumentos das nossas glorias; 
se para vós é uma palavra vã o patriotismo: se desconheceis o que 
seja veneração pelos documentos históricos; não reconhecereis ao me- 
nos que aquelle pelouro tem direito á conservação naquelle logar, por 
uma posse de tresentos e trinta annos pelo menos? 

E para que deslocães d'aqui o pelouro; para que ides affastal-o do 
logar que lhe assignou quem foi mais crente que vós; para que? 



182 REVISTA ARCHEOLOGICA 

Para abrir uma janella d'onde as regeneradas gozem a pasmacei- 
ra dos mandriões que demorarem no alpendre? 

Rasguem janellas não só alli, mas também na capelia-mór, nos 
absides e nessa capella que já limparam a picola. Façam entrar jor- 
ros de luz nessa pequena capella, que era a única pertença da 
egreja que ainda ha dois mezes conservava caracter de antiguidade. 
Façam tudo isso; mas, pondo-se de parte a modéstia, grave-se no 
logar mais visível da capella o nome de quem quer que ordenou taes 
obras. 

Borges de Figueiredo. 

CONSTITUIÇÕES 

No primeiro numero da Revista disse eu já algumas palavras acerca das «consti- 
tuifões dos bispados", na breve advertência que prepuz ás Constituições do arcebis- 
pado de Lisboa, decretndas por D. João Esteves de Azamlnija. Mal pensava eu que 
poderia aqui apresentar aos leitores um documento imporlantissimo, em que se tra- 
ta das constituições do mesmo bispado no século xiv. É uma composição entre o 
prelado de Lisboa D. Gonçalo d'uma parte, o rei, a nobreza e o clero d'outra parte, 
acerca de certas moditicações feitas pelo bispo ás constituições decretadas pelos seus 
antecessores. O instrumento ascende a 9 de setembro de 1324. 

Poderia acompanhar o original d'uma traducção; mas creio isso desnecessário, 
considerando que as pessoas a quem a leitura interessa inuuediatamente, não podem 
desconhecer a lingua latina. De mais a mais a versão é facílima. 

Eis o documento : B. de F. 

In nomine domini amen. Nouerint vniuersi presentis intrumenti 
seriem inscripturi, quod cum in presenliam mei Dominici iohannís 
auctoritate regali publici et generalis tabellionis in regnis portugalie et 
algarbii et testium subscriptorum ad infra scripta audienda et uidenda 
specialiler vocatorum coratii illustrissimo príncipe domino Dionísio dei 
gralia rege portugalie et algarbii ex parte ipsius domini regis et ali- 
quorum clericorum et laycorum ciuitatis et diocesis vlixbonensis pro- 
ponetur et dicetur quod reuerendus pater dominus G. dei gratia 
vlixbonensis episcopus qui presens erat in sinodo sua per ipsum cele- 
brata die lune tercia die istius mensis Septembris concurrentis cum 
duobus sequentibus diebus, quasdam constituciones per predecessores 
suos editas et penas contentas in eis innouaret ac alias suas constitu- 
ciones nouiter fecerat certis penis adiectis quas idem dominus rex in 
sue iurisdicionis derogacionem et aliqui clerici et layci in suum preiu- 
dicium rediHidare dicebant. vnum et dicebat dominus rex et alii sup- 
plicabant quod ipse episcopus penas in predecessorum suorum et suis 
constilucionibus contentas, duceret reuocandas prefatus vero episcopus, 
respondendo proposuit quod innouationes et constituciones per ipsum 
edite et publicate erant consone canonicis slalutis per quas diuini cul- 
tus augmentum saltem animarum et ecclesiarum perfeclum, morura 
honestates, criminum et excessuum correpciones ad fórum ecclesiasti- 



E HISTÓRICA 183 



ciim spectantes in meliiis aiigmentari, prociiiari el ruformari uolebat 
absqiie iuris preiíulirif) aliciiius [)tf)iil in t3oriiin IciKirihiis li(|ii(!re po- 
teril eiiideiilLT. Tandem posl aliijiios liaclaliis liahilos liinc, iii(l(.'. [)re- 
faliLS episcopiis vulcns duas consliluciones doniini Joliannis pred(!ces- 
soris siii (jLic secunliir inferius cum punis siiis in suo roljuro jiciina- 
nere. Ad inslanciani prefali domini regis et ad supplicalionem cleiico- 
rum et laycorum sn|)er hoc siipplicantiuni, penas et s(ínleniias [x-na- 
les qne in oninil)i.is aliis [iredecessorum suui lun el dnahns suis consli- 
tiicionihns (luaiiini una volenles iurisdicionein el noslra el noslre eccle- 
sie vlixhonensiselcelera reNíjua ueio. liem i rohibemnsipjod nullus cle- 
ricus qui se grauatumassignat elcelera. inci[)iunl, conlmelur. suspendit 
et uoluit (isi>e suspensas quousque aliler ducerel ordiriandum duahus 
conslilucioniljus domini Joliannis predecessniis sui quatiim una incipit, 
cumsacerdolalis etcelera, reli(]ua uero incii)il. liem cum inlelleximus re- 
dores noslre diocesis et celera et aliis conslilucioniljus per ipsum domi- 
num episcopum in predicla sua synodo editis et publicalis cum suis 
senleuciis et penis in eis contenlis in suo robore perpetuo duraluris. 
Dixit eliam quod per suas consliluciones in predicla synodo editas et 
publicatas. non inlendebal iuri alicuius in aliquo derogare. De (luihus 
omnibus diclis dominus episcopus mandauil f)er me labellionem pre- 
dicium fieri lioc publicum iustrumenlum, aclum vlixbone in palaciis 
predicli regis, nona die mensis Seplembris sub era millesima irecen- 
tesima sexagésima secunda, presenlibus. prefato domino rege. Gun- 
saluo petri maiordomo domine lielisabelbis regine. Slephano de Gar- 
dia, Joliaiine dominici de begia, Laurenlio menendi meyrino maiori, 
Johanne laurencii, Slephano arie, fernando roderici prelore, jolianne 
fernandi et petro canaual aluazilibus ciuilalis vlixbone, francisco domi- 
nici priore saneie niarie de alcaçeua Sanctaren ac dicti domini regis 
cancellario, magislro egidio ihesaurario vlixbone, slepliano marlini ca- 
nónico visense, al'"onso dominici salgado canónico silvense marlino al- 
fonsi reclore ecciesie caslri de vile clericis, petro iohannis Uominico 
petri et Laurenlio marlini labellionibusgeneralibus prefali domini regis 
et pluribus aliis. Et ego Dominicus ioliannis labellio supradiclus de 
peimissis omnibus et singulis quibus rogalus vna cum diclis leslibus 
presens interfui. hoc publicum inslrumenlum manu própria scripsi, 

signoíjue meo consuelo signani quod tale est. in lestimoninm 

omnium premissornm. 



184 REVISTA ARCHEOLOGICA 

D. MECIA LOPES DE HARO 
II 

Durante doze aiiiios esteve D. Mecia casada com D. Álvaro Peres 
de Castro (caso não a tenha repudiado, o que não consta), pois que 
este, congraçado depois do cerco de Paredes com o rei de Casteíla, 
ainda era vivo em 1^10. Se sempre reinou boa paz entre os dois con- 
sortes, não se sabe ao certo; ba todavia motivo para presumir que os 
ardentes eflluvios do amor haviam de todo passado. Esse motivo de- 
prehende-se do que vae lêr-se. 

Em 1:238 D. Álvaro eslava em Toledo, junto do rei Fernando in, 
ao passo que sua mulher se conservava no castello de Martos, próximo 
de Córdova, em companhia de um seu sobrinho, de nome Tello, e 
apenas com um pequeníssimo numero de homens darmas. Ê para 
exlranhar que D. Álvaro deixasse sua mulher tão pouco resguardada 
na fronteira da moirama. Acodem ao espirito dúvidas sobre as boas 
relações entre os dois esposos; íicando-se na ignorância das causas do 
fado. I)en-se, porém, alguma das seguuites circumstancias, d"entre as 
quaes o leitor acceitará a que mais lhe agradar: Talvez D. Álvaro fosse 
a Toledo por breves dias ; nesse caso commetteu a imprudência de 
deixar a mulher sem sufficiente defeza no castello. Talvez, desgostado 
de D. Mecia, ou, considerando perigosa a presença d'ella na corte, a 
quizesse conservar aífastada d'alli. Talvez, rotas as relações intimas 
entre elles, de commum accordo se quizessem conservar separados. 
Talvez, finalmente, que a própria D. Mecia por algum capricho, de 
sua própria vontade quizesse estar retirada da corte. Não podendo eu 
acceitar a primeira circumstancia, só considero prováveis a segunda e 
a quarta hypotheses, opinando ainda por aquella. O caso é que o fa- 
cto se deu. 

Tello, o sobrinho, mancebo ardente, ou pelo desejo de illustrar-se, 
ou por outro qualquer motivo, saiu em certa occasião do castello 
com alguns homens, a fazer correrias em território moirisco, deixando 
sua tia sem servidores bastantes para defendel-a em caso de ataque; 
procedimento que só pôde explicar-se e relevar-se com o estouvamento 
e imprudência dos verdes annos; que não era só a sua existência que 
eile arriscava mas ainda a da sua parente. Talvez infoirnado de que 
o castello licara sem guarnição, o wali de Arjona, Al-IIamar, apre- 
sentou-se a assediar a praça, que não poderia oppor senão a fraca 
resistência das suas muialhas. Nesta conjunctura revelou-se bem o 
caracter animoso e aventureiro de D. Mecia. Temendo o assalto, poz 
em execução um estratagema para amedrontar os moiros : envergou 
uma armadura, ordenou ás suas serviçaes que fizessem outro tanto, e 
foi com ellas vaguear pelas ameias do castello, para fazer crer aos 
inimigos que a guarnição era numerosa. Ao mesmo tempo conseguiu 



E HISTÓRICA 185 



enviar um emissário ao sobrinho, a avisnl-odo perigo rpie corria, para 
que se apressasse a ir soccorrel-a. Kiiiíanados os moiros peio ardil da 
biscayntia, não se allreveram logo a dar o assalto ; e isto deu tempo 
a que Tello regressasse com a sua gente. Ksla, amedrontada pela su- 
perioridade das tropas moi riscas, sò pensou em retroceder, e o moço 
Telles não teve a força suíTiciente para contel-a; felizmente porém um 
cavalleiro de nome Diogo Perez de Vargas mostrou ler bastante au- 
cloridade para obrigar a tropa a cimiprir o seu dever. Vov íim foi for- 
çada a moirama a levantar o assedio. 

Esta estada de D. Mecia longe da corte, (juando o seu génio gar- 
rido e ambicioso devia desejar um meio mais brilhante do que o do 
isolado caslello de Martos, fazem acreditar que seu marido linha mo- 
tivos para conseival-a distante do bulicio e explendor dos paços reaes. 
Pois d^oiitro modo não se pôde comprehender que uma mullier joven 
e formosissima, e cuja virtude tudo concorre para considerar negativa, 
se fosse expontaneamente estabelecer na solidão d'um castello, e ape- 
nas defendida por um diminuto numero de homens d'armas. 

Em 1240 ficou D. Mecia viuva. D. Álvaro Perez de Castro, que 
fora encarregado de certa missão na Andaluzia, morreu d'uma curta 
doença em Orgaz, sem ter junto de si sua mulher. Livre, e sem filhos, 
de génio desenvolto, é natural que D. Mecia [)rocurasse, para eslabe- 
lecer-se, esse meio por que tanto almejava. Passou pois á corte da rai- 
nha D. Berengaria, mãe de Fernando m de Castella, como dama de 
honor. 

Borges de Figukiredo. 



MONUMENTOS EPIGRAPHICOS DE BEJA 

Registro hoje na Revista dois monumentos epigraphicos da antiga 
Pax Júlia. Foram-me clles communicados pelo sr. João Tavares Lan- 
çi, residente em Beja. a quem aqui dirigo sinceros agradecimentos. 

1 — Cippo fimerario de cerca de «um metro dallo e largura cor- 
respondente». Foi ha pouco tirado do lugar em que estava, que era 
na soleira d'uma porta do paço episcopal (jue dá para uma cerca;... 
por fortuna serviu de soleira, mas de costas para cima»: 

Dr M S ti? D{iis) M{anibiis) S{acrum) \ Helaeria \ nus 

H E L A E R I A an \ norimi XII \ h{ic) s{itus) e{st) s(it) t[ibi) 

N V S A N N urna t{erra) l{evis). 

O R V M X I I Aos deuses dos mortos. Aqui jaz Helaeriano, 

HSAESrT^TrL(í? fallecido de doze annos. Seja-lhe leve a terra. 

2 — Numa «pedra de forma irregular, que parece ter tido appli- 



186 



REVISTA ARCHEOLOGICA 



cação diversa da que leve na primitiva, está a inscripção e moldura 
que a guarnece relntraute. . . A moldura lerá uds O™, 50 de lado» : 



SERAPI PANTIEO 

SACRWV 
iNHONOREMGrMA 
RI r PRISCIANI ^ 
STEP-ÍA/A PRISCA 
MATER FILlI 
INDVLGENTISSIMI 
D D 



Serapi Panthco \ sacriim. \ In honorem Gaii Ma \ 
ri[i) Prisciani \ Stephana Prisca \ mater filii \ in- 
didgcntissimi \ dcdicarunt. 

Consagração a Serapis Pantheo. Em honra de 
Gaio Mário Prisciano, fizeram a dedicação d'este 
monumento sua mãe Stephana Prisca e seus filhos 
amantissimos. 



Esta inscripção, de que eu já linha ha algum tempo visto uma co- 
pia incorrecta, mas da qual possuo um calco devido á obsequiosidade 
do sr. Lança, creio estar (como a primeira) inédita em Portugal. Não 
poude verificar se já foi publicada no extrangeiro. Esta é sobretudo 
interessante pela consagração a Serapis Pantheo, Sobre Serapis pode 
ler-se com proveito a obra de Dupuis, Origine de tons les culles, vol. 
ui, pag. 508 e segg. 



Lisboa, 25 de novembro de 1887. 



Borges de Figueiredo. 



ERRATAS 



Pag. 



4, 
10, 

;)tí, 

o4, 
54. 
õ'í, 
54, 
54, 
54, 
54, 

55, 

57, 

82, 

109, 

109, 



inli. 9 lale assumptos. 

U '• escala e descripçSo. 
11 .la iiis.^ripção /í^í/c li A S I L E V S. 
() Inle iTÍova. 

10 .. Cnrm. lu, 23. 

11 » Pliidyle. 
Ití >» Episi. II, 1, V. 143. 
17 » Silvanuin. 
20 .. Faat. I, 349. 
27 » depois de prenhes, lede vista a fertilidade, a fácil concepção o 

a utilidade d'oste animal. 

17 .. í;ae0. 

29 » D. Sancho ii. 

13 .. DM- Ai. 

29 » IDVS. 

32 .) Aspice q{u)ia q{iio)d es fui et q(uo)d su{m) eris. 



O amuleto romano representado na est. 
do original em bronza. 



reproduz exactamente as dimensões 



r/^/ÃM^ciLenist. 



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Kev. Arch.e Hist. 



Est.IV 




Moruitnefitos epi^raphuo,': de Ti'ii 




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Rev. Arch.e Hist. 



Est. VI 








Monmne^ltos tfv^ji<iphu<>s rJc Tirij 









MecMuíc âe^D.Àffhns: I 



Rev. Arch. e Hist. 



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CERTAMÍNE- ET 
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Rev. Arch. e Hist. 



Est. Vil 










Iiiscnpf/MsesiprihoJ o.s qraifochhi em veflra.s do. Citiuvua- 



Rev.Arch.eHist. 



EstiX 




Ara ivnuuui de&colMrta er>i Ca^slro Dairc cm ]^1] 





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PACE bNlc^^^ 
V"'M4LSEPT[ft 



Dinhu ro de D. San-cJw II. 



Inscfipçdo chri^td de. Mertvlcu 



Re V. Arca e riist. 



Est. X 




Amuleto romana' 



Rev.ArGh.6Hist. 



EsL. Kí 











D J-oâxf I 
Fracriíes dor&al 




Tijolo dfscohe rto proxi mo fh .I/rmtnier. 



Kev.ArckeHist. 



EotXII 




Cipjxi fiuuJxirio 1 'oman o, -descoberta) (Jiv lixuv 



Moexlcis At D. xJoão I. 




Rev Arch.eHist. 



EstXni 



^iiJl^^éírffRtmiEET! 



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Epilaphi-o <?<9 sr-culo Xíí 



Rev.Arch.€Hist. 



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D. Duarte ~ Bem.í Br-anro^ 



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Est. XV 



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d.Jffoivso V. 
Km£S arafsos e maosrtaes oiv chirn/roTis 



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Rev.ArckeHisL 



Est. ZVI 





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REVISTA 



ARCHEOLOGICA 



ESTUDOS E NOTAS 

PUBLICADOS SOB A DIRECÇÃO 
DE 

A. C. BORGES J) E FIGUEIREDO 

Bibliotbecario da Sociedade de Ueograpbia de Lisboa 



VOLUME II 

1888 



LISBOA 

Adolpho, Modesto ff C." — Impressores 

Fornecedores da Sociedade de Geographia 

Rua Nova do Loureiro, iS a 43 

1888 



ADVERTÊNCIA 



Todos os srs. collaboradores e muitos dos srs. assignanles, 
que possuem o volume intitulado Revista Archeologica e histórica 
publicado no anno de 1887, manifestaram o desejo de se dar ao 
presente volume um numero de ordem que obviasse a qualquer 
futura confusão em referencias ou citações. Attendendo a tão jus- 
to desejo sáe o presente com a numeração VOLUME II, comquan- 
lo a Revista Archeologica nada lenha de commum com a outra 
publicação alludida. 



índice 



I — Por matérias 

Pag. Est. 

A Feira da Ladra lil 

Antiguidades de C.arquere 113 VI 

Aiiligiiidades phoiiicias e romanas na Península 6, 19 

As grades de Santa-Criiz de (Coimbra o8 

As Laoohrlgas da Lusitânia 173 

Aspedras-haloiçantes 1 gr. 

Bibliographia 79, 111, 127, 131, IW. 185 

Convento das Flamengas etn Alcântara. Os andiitectos Frias. . 70, 10o. 1 16 

Da origem do estyi(t gothico 178 

Fecho de abobatia, em Odivellas 14á VII 

Inscripções de Alcácer do Sal 69 

Inseri pçtít^s de Lamego e de Quintella de Penude 170 

Las diez ciudades bracarenses nombradas en la inscripcion de 

Chaves 81 mappa 

Miscellanea: 

Inscripção de Aeminiun 109 

» (^onimbriga 110 

Pax Júlia". 111 

» Aeminium 12S 

Myrtylis.. 126 

Tessera curiosa 181 X n." 1 

Real preto de D. Duarte cunhado no Porto 184 

Annei com inscripcão 18i 

Monumento d'uma lillia de D. Dinis 

Nova inscripção christã de Mertola 

Numismática porlugueza. D. Duarte 

Pontevedra monumental 

Sello antigo de Ferreira do Alemtejo 

Sepulchrns antiguos de Cadiz 

Sepultura de D. Orraca Paes, abbadessa de Odivellas 

Sobre uma forma do sicastika 

Um monumento de Aeminium 66, 123 

Uma inscripção lusn-romana de Panoias 50, 69 

Una inscripcion Cristiana inédita de Málaga 129 

Visitação do arcebispado de Lisboa (Século xv) 8. 22 

II — Por nomes d^auctores 

Berlanga (Dr.) — Sepulcros antiguos de Cadiz 33 

— Una inscripcion Cristiana inédita de Málaga 129 



18i 


X n.o 2 


17 


I 


65 




19 


I 


143 


VIII 


78 


V 


33 


II e III 


51 


IV 


60 


gr- 



VI índice 

BoRtíKS UK Fuur.iHF.no — As pedras haloiçantes 1 

— Mnmiiiifiilo (liiiiia lillia de 1). Dinis 17 

— Sepnltuia lU' 1). (Mraca Pai's. abbadessa de Odivellas. . 51 

— Schrt' unia IVnina do swasitika 00 

— Tm iiionuiiifnto dt' AtMiiiiiiiwn 66, 12a 

— iMsrriprõfs de Alcarer do Sal 69 

— Sfllo :ui(ij:i) do Ferreira do Alenitejo 78 

— Fecho de altoliada, em Odivellas 14á 

— Iiiscripções de Laineijo e de Quintella de Penude 170 

— Biblit-^irapliia .^ 79, Hl, 127, 131, 143. 18o 

— Miscellanea 109, 126, 184 

Cloqi'et (L ) — Da origem do esl^lo gnfliico 178 

Fehnamhíz-Giehha V ÓRni: (D. Aureliaiio) — Las diez ciudades bracarenses 

nombradas en ia inscripciúri de Cliaves 81 

tioMKS DK Brito — (lonvenlo das Flamengas em Alcântara. Os architectos 

Frias 79, 105, 116 

IUíhnrr (E.) — Antiguidades plienicias e romanas na Península 6 

— >!()va inscripção ebrislâ de Mertola 65 

Leite dk V-^sconcullos (J.) — Uma inscripção luso-romana dePanoyas... 50,69 

— Antiguidades de Carquere 113 

Hne.HA Espanca (J. J. da) — As Lafobrigas da Lusitânia 173 

Santa .Mónica (Visconde de) — A Feira da Ladra 141 

Sousa Vitkrbo — As grades de Santa (^ruz de (loiínlira 58 

ViLLA-AMiL V (Iastro (D. José) — Pontevedra monumental 143 



CORRECÇÕES E ADDITAMENTOS 

Pag. 



5. 


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ha 2 = 


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. Chamam-lhe Pedra da ]í)'r.i 


17, 


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lede MONUMENTO 


29, 


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33 = 


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lencooes. 


53, 


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18 = 


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LXXVIIII 


54. 


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14 = 


., 


1760 


67, 


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32 = 


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pttb(licap) 


67. 


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pot(estatc) 


73, 


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18 = 


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preclaro 


73, 


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ainda ha que 


74, 


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conhecida 


75, 


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Geneal. 


76, 


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é facto 


76, 


» 


ultima = 


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o illustram 


77. 


1, 


1 4 da 


mscripção = lede PERPETVO 



REVISTA 



ARCHEOLOGICA 



AS PEDRAS-BALOIÇANTES 

Entre todos os monumentos megalithicos conhecidos pelos nomes 
de mcnhirs ou peidvans, alinhamentos, cromlechs, antas ou dolmens, 
galerias cobertas, e loghans ou pedras-baloiçantes, são estes últimos 
considerados os mais raros. 

Em França conhecem-se algumas pedras-baloiçantes, entre as quaes 
mencionarei a de Fermanvilíe (Mancha), a de Livernon (Lot), a de 
Saint-Estèphe (Gironde), a de Uchon (perto de Aulun) e a de Perros Guy- 
rech (Cote du Nord). 

Na Inglaterra, é principalmente notável a pedra-baloiçante do cé- 
lebre condado de Sussex. Esta, cujo peso se avalia em quinhentos 
mil kilogrammas, é chamada pelo povo great-upon-little (o grande so- 
bre o pequeno), alludindo ao facto de ser relativamente de muito me- 
nores dimensões a pedra que serve de supporte. 

Na Hispanha, ha, além doutras, a de Abra e as de Boariza (Piedra 
grande e Piedra chica), na província de Santander; duas nas ilhas de 
Bayona, na Galliza; e outra perto da vilia de Luque (Coruova). 

Em Portugal tenho conhecimento de duas: uma na quinta da Torre, 
freguezia de S. João de Lourosa, do concelho de Vizeu, d'onde distará 
5 kilometros, e pertencente ao visconde de Taveiro» *; a outra numa 
herdade de Carragozella, freguezia de Espariz, concelho de Tábua. 
D'outras mais tenho tido noticia por varias vezes; mas as indicações 
teem sido tão vagas que não me atrevo sequer a aponlal-as. 



* Noticia no jornal O Conimbricense^ n." 3910, de 10 de fevereiro de 1885. 
Rev. Arch., n." I — Jan. i888. i 



REVISTA ARCHEOLOGICA 



Consiste o monumento chamado pedra-baloiçaníe numa pedra de 
grandes dimensões collocr.da sobre outra em taes condições de equi- 
líbrio, que oscilia levemente a um certo impulso. 

Quatro variedades ha d'esta espécie de monumentos, que importa 
conhecer. 

Ha pedras-baloiçantes : 

1) Que, assentando horizontalmente sobre outra vertical, de ordi- 
nário menor e de lórnia cónica, oscillamjá para um lado já para o 
que lhe fica diametralmente opposlo; 

2) Que, collocadas lambem horizontalmente sobre outra vertical, 
gyram sobre esta como sobre um eixo, com uma leve oscillação; 

3) Que, descançando equilibradamente sobre duas outras pedras 
inclinam para um ou para outro lado, onde teem por esperas ainda 
duas pequenas j)edras; 

4) Que, poisadas verticalmente sobre outra horizontal, oscillam 
quer para um quer para outro lado, quando se lhe imprime impulso 
em certo logar. 

Em França, estes monumentos são designados de diversos modos, 
não só segundo as localidades, mas segundo a variedade a que per- 
tencem, e as lendas ou superstições que lhes estão ligadas. Assim, cha- 
mam-se : pierres roulantes, — i'oiilées, — tournantes, — retoiírnées , — trans- 
portées (?) — folies,— qui dansent, — qiii virent, — branlanles, —tremblan- 
tes, — de répreuve. 

Sendo desconhecidas em Portugal outras pedras-baloiçantes, além 
da que existe na quinta da Torre, e da de Cai-ragosella, não sei que 
nomes tenha qualquer outra que haja no paiz. Á de Carragozella cha- 
mam a pedra que abana. O meu amigo professor Adolpho Coelho, apu- 
rou já * os nomes locativos de Falperra (falsa pedra) e Peravana (pedra 
abana), como indicadores da existência de pedras-baloiçantes. Mas pa- 
rece-me que a essas se podem addiccionar os toponímicos de Pedra 
Cavalleira, Pedra Encavallada, Pedra da Paciência, Penedo que fala, 
Perramedo, Penedo da Mú^. As duas primeiras designações provêem da 
posição relativa da pedra; e a ultima da configuração da pedra supe- 
rior. Muitas das pedras que abundam no nosso paiz com os nomes de 
Pedra da Moira, Penedo da Moira, e ainda com outras denomina- 
ções, foram provavelmente pedras-baloiçantes que perderam já a sua 
qualidade oscillante. 

lia quem seja de opinião que as pedras-baloiçantes não são monu- 
mentos devidos ao trabalho do homem; mas simples curiosidades na- 
turaes. «Bizarrerie de la nature (diz o sr. II. du Cleuziou), ces blocs, 
quon rencontre un peu partout, suspendus dans le vide, siir des bases 



1 Compte-fírndu de la O" Session du Congrès international d'Anthropologiú et d'Ar- 
chéolorjir prehisloriqiie, Lisljonntí, 1880. 

2 Vej. Notas sobre a loponymia portugiieza, na Rev. Ardi. vol. I, pag. lOG. 



REVISTA AUClIKOLOÍilCA 3 



illusoires, pierres absoliilenierit nalurelles, qui, jadis mème, peul-èlre, 
noiíl jamais oscillé, ctaienl bieii íailes pour servir doiilil de dumina- 
tion a ces charlalans, quon s'esl plii à grandir outre mesure, et qu'il 
est leinps de reinettre en bonne piace (Ivs dnúdesjo *. 

E men parecer que esta asserção não é exacta em absoluto. 

Que o primeiro d'esla espécie de monumentos não deve ser attri- 
buido ao trabalho do liumem, é também minha convicção. Um grande 
penedo errante, locahsado accidentahiiente sobre uma rocha (que al- 
luviões cercavam, e que foi com o tempo por muitas causas desmu- 
dada), ficando assente em certas condições de equihbrio, constituiu a 
primeira pedrabaloiçante. O homem inteihgente, que primeiro desco- 
briu as suas propriedades de oscillação, serviu-se d"elia para donnnar 
aquelles que desconheciam o segredo de movel-a, e a superstição au- 
xihou-o. Mas, como nem sempre uma pedra-baloiçante se encontrava, 
•e ao mesmo tempo se tornava necessário esse meio de dominio, foi 
indispensável preencher a faMa arliíiciahnenle. Se um grande numero, 
a maior parte até, de |)edras baloiçanles são apenas penedos errantes, 
que o accaso dispoz nas condicções que teem ao presente, ou se sabe 
tiveram já, algumas evidentemente ha devidas ao trabalho do homem. 
Entre as segundas podem talvez collocar-se as de Boariza, como a 
de Abra, e sem duvida alguma a de Carragozella. 

As pedras da [irimeira e segunda classe são vulgares. Paliarei das 
outras unicamente. 

A descripção da pedra de Abra, na província de Santander. é feita 
pelo sr. Amador de los Rios da maneira seguinte: 

«Sobre este campo se ergue uma grande rocha granítica perpen- 
dicularmente cortada na altura de cinco a vinte pés, em toda a cir- 
cumferencia, e rodeada de outras menores, desordenadamente amon- 
toadas em estranhas situações, bem como as muitas que cobrem o 
terreno. Não assim a grande, que é quasi plana na face superior, 
formando já de per si um dolmen^ natural de uns trinta pés de diâ- 
metro. Na extremidade meridional desta espécie de mesa e dirigin- 
do-se á parte nordeste, se ergue a segunda pedra com a forma de 
um grande cubo ou silhar posto de esquina sobre quatro ou cinco pe- 
dras applicadas a um e outro lado. porém de modo que a superior, 
nellas suspensa, não toca immediatamente nenhum dos pontos da 
grande mesa uiferior. Isto demonstra alli palpavelmente a mão do 
homem; e tanto que, estando uma das pedras que susteem a supe- 
rior na posição diagonal, para adaptar-se ao lado da mesma, acha-se 
pela sua parte appoiada por outra pedrinha que não tem mais de oito 
pollegadas de comprido e três de grossura ; isto não obstante não se 
pôde arrancar do seu logar, por mais que por ella se puxe, e uia- 

* H. (Ju Cleuziou, La Création de fitomme, pag. o07 
2 Denominação mal applicada. — B. de F. 



REVISTA ARCHEOLOGICA 



gueni até o ousaria tentar com medo de se desaprumar o todo. A pe- 
dra superior tem vinte e dois pés de largura, dez de altura e vinte 
de circumferencia, cingida perpendicularmente pelo meio. Basta indi- 
car taes dimensões para se conhecer que o seu peso deverá ser de 
milhares de arrobas. 

«Pela mesa inferior póde-se andar commodamente, rodeando a de 
cima, excepto pela extremidade meridional em que estão ambas na 
mesma linha perpendicular. Junto a esta extremidade e da parte de 
sueste, as pedras pequenas que susteem a superior, encaixadas á ma- 
neira de cunhas, servem de degraus para subir á mesma pedra, que, 
segundo já indicámos, forma um espinhaço bastante agudo, posto não 
haver impossibilidade de qualquer se suster nos dois lados. Desde o 
meio do espinhaço corre por elle da parte de nordeste com alguma 
inchnação para o lado de sueste, uma fenda ou rego, chegando quasi 
até á ponta do pedregulho : e como por esta parte está bastante adel- 
gaçado pela extremidade inferior, segue-se que uma ou mais pessoas 
poderiam collocar-se por baixo d'elle, para receber o baptismo de 
sangue, se com effeito era esse e não outro o fim do sulco». * 

A pedra-baloiçante que ha no cemitério de Perros Guyrech, é de 
forma oblonga e repousa em equilíbrio pelas extremidades sobre duas 
espécies de pilares; pesa um milhão de libras, e as suas dimensões são 
de quarenta pés de comprido por vinte de largo. «Tem na superfície 
uma bacia com desaguadoiro, e parece ser o altar, onde se faziam os 
sacrifícios pelos mortos, cujos túmulos a cercavam» 2. 

Estas duas pedras-baloiçantes pertencem pois ao terceiro grupo. 

Passo agora a descrever a pedra-baloiçante de Carragozella, soc- 
correndo-me da memoria e dos breves apontamentos que me restam e 
que foram tomados ha vinte annos. A estampa que a representa foi 
feita de memoria; se não é d'uma grande exactidão, dá pelo menos 
uma ideia approximada da configuração do monumento. 

Perlo duma galleria se bem me recordo artificial, sobre uma ro- 
cha erguida a cerca de um metro do nivel do solo, e cuja face supe- 
rior foi porventura grosseiramente desbastada pela mão do homem, 
se eleva um monolitho d'uns Ires metros d'a!to, d'um e meio de lar- 
go e de variável espessura, volumoso na base e adelgaçando para a 
parte superior pyramidalmente. O monolitho a uma branda pressão 
em qualquer das faces, inclina levemente para o lado opposto; se não 
é precisamente um ponto dado aquelle em que, para pôr a pedra em 
movimento, se ha de fazer a pressão, deve comtudo procurar-se o 
logar d'ella na parte central da pedra e a uma certa altura que exce- 
da o centro de gravidade. Recordo me de que, durante três dias fiz 



1 Transcripto na Introdiicrão á archeologia da peniusula Ibérica, por A. F. Simões; 
pag. 79-80. 

2 A. K. Simões, op. cil. pag. 80, citando Kougemont, L'ãge dii bronze. 



REVISTA ARCHIiOLOGICA 



5 



tentativas inúteis para mover a pedra, conseguindo-o finalmente tanto 
d'um como d'outro lado. 

- Se as pedras-baloiçantes de Abra e de Perros Guyrech teem cor- 
tes que parecem indicar que esses monumentos serviram de aras de 
sacrificios, a de Carragozella, pela forma, pela disposição e pela au- 
zencia de quaesquer cavidades ou sulcos, não foi destinada para nella 
se sacrificar. 

Teem divergido as opiniões sobre o Hm a que foram applicadas as 
pedras-baloiçantes, quer naturaes quer artificialmente dispostas. Con- 
sideraram-nas já como symbolos da divindade, como emblemas do mun- 
do suspenso no espaço (opinião de De Camby), como emblemas do li- 
vre arbítrio, e finalmente como meios de reconhecer a culpabilidade 
dos accusados, uma prova judiciaria. 




A este respeito diz judiciosamente o ilhistre Henri Martin: 
«Cette idée d'interroger les forces secrètes de la nature sur les 
secrets de la vie humaine a été aussi univ^rselle que la magie procé- 
dait du même príncipe ou de la même illusion; on croyait faire par- 
ler dans la nature exlerieure le Dieu qui ne parle que dans la con- 
science de Thomme. Les accusés qui ne parvenaient pas à mettre en 
mouvement la pierre étaient sans doule reputes coupables. II n'y a 
pas bien longtemps encore que les maris qui soupçonnaient la fidéli- 
té de leurs femmes, les obligeaient à subir celte épreuve.» 

Esta hypothese é plausível e de demais a mais confirmada pelas 
tradições que em muitas localidades andam ligadas a estes monumen- 
tos. Mas ella não importa a negação de que algumas pedras-baloiçan- 



6 REVISTA ARCHEOLOGICA 

tes não hajam servido ao mesmo tempo de altares de sacrifícios, como 
fica dicto. 

Em França, conforme diz o sr. H. du Cleuzioii, «on la consulte en- 
core de nos jours» *; noutras partes succederá o mesmo. Mas esla con- 
sulta não é, nem foi talvez jamais, unicamente feita pelos juizes que 
buscavam conhecer a iiuiocencia ou culpabilidade de alguém. Se a pe- 
dra-baloiçanle era prova judiciaria, se ella era o jiiizo de Deus, se elia 
tinha a virtude de responder sobre o gravíssimo facto de uma accu- 
sação, não daria ella também resposta a quem a interrogasse sobre ou- 
tros assumptos, sobre coisas futuras? Interrogavam o oráculo acerca 
do destino da alma do morto, como o consultavam sobre o resultado 
d'um combate. O homem interrogava-o sobre a opportunidade de ef- 
fectuar uma empreza, sobre a fidelidade da sua companheira, sobre 
variados objectos. A mulher perguntava-Ihe se o seu noivo correspon- 
dia ao seu aHecto, se o ente concebido seria filho ou filha, inquiria-o 
sobre mil duvidas. 

O emprego da pedra-baloiçante como prova judiciaria é, porém, o 
mais importante; e algumas das denominações portuguezas, que apon- 
tei, parecem conservar memoria do emprego do monumento e do ter- 
ror que infundia a tremenda prova. Pedra da paciência é a que gasta 
a paciência de quem busca movel-a. Penedo que fala é o que em sua 
particular linguagem, a oscillação, responde à pergunta que lhe é di- 
rigida também por um especial modo de dizer, a pressão. Perrainedo 
(pedra medo:=a pedra que é medo, que causa medo) é a que incute 
receio, terror, ao accusado que tem de a fazer oscillar para provar a 
sua uinocení-ia. Peravana (pedra abana — ó pedra, abana) exprime o 
desejo intimo e ardente, a invocação mental ou explicita de quem pe- 
dia ao oráculo uma resposta, de que suppunha depender a sua ventu- 
ra, ou de que de facto dependia a sua existência. 

Janeiro, 1888. Bohges de Figueihedo 



ANTIGUIDADES PHENICIAS E ROMANAS 
NA península 

Devido á obsequiosidade do meu amigo e collaborador o professor 
E. Hiibner, posso ministrar aos leitores uma exacta informação do que 
o illuslre archeologo communicou á Sociedade Archeologica de Ber- 
1ÍD, na sessão de novembro ultimo, acerca da descoberta de antigui- 
dades phenicias e romanas na Ilispanha. Eis o que se lê na acta 
daquella sessão, a qual vem |)ul)licada no Sonderabdruck aus «Wo- 
chenschrift fiir Idassische Philulogiei), 1887: 



1 II. du Cleuziou, loc. cit. 



REVISTA ARCHEOLOGICA 



«... Do noroeste do império romano o orador passou ao extremo 
sudoeste do mesmo império. Por occasião de em Cadix se abrirem os fun- 
damentos d'um ediíicio destinado a uma exposição mnriliina, á beira- 
mar e á entrada da cidade, situada numa peninsula pouco elevada, e 
num sitio chamado Punta de la Vaca encontraram-se ã profundidade 
de cinco metros três sepulturas ladeadas de paredes, provavelmente 
os restos da antiga necropole dos phenicios de Gades. Dentro duma 
d'essas sepulturas eslava um bem trabalhado sarcophago, do íino cal- 
cário que ha na(juelles sitios. O sr. Berlanga, o conhecido archeologo 
de Málaga, Icmbrou-se logo do célebre sarcophago de Eschmunezar, 
conservado no Louvre. As photographias que o orador poude mostrar 
confirmam por complecto esta lembrança. O tampo do sarcophago 
representa a figura deitada do morto, homem de barbas e cabellos 
compridos, uniilLo bem conservada e trabalhada no verdadeiro eslylo 
antigo (approximadamente V século a. Ch.). O braço direito descança 
estendido sobre a estreita roupagem; a mão direita segura sobre a 
a coxa uma grande coroa de loiro que é somente pintada. O braço 
esquerdo está flobrado para o lado direito do peito; e a mão respectiva 
segura um coração, segundo a relação diz; é também só pintado. A 
photograjihia faz suppoi- que se quiz representar um fructo, talvez 
uma romã. As extremidades dos pés excedem a roupagem; os dedos 
são cuidadosamente trabalhados; e tem pintadas bonitas sandálias. A 
cabeceira, aos pés e aos lados do tampo ha pegas, destinadas a faci- 
litar a abertura do sarcophago; o qual, assim como o tampo, se appro- 
xima da forma humana. Do caixão de madeira, (jue se continha no 
sarcophago de pedra, existem apenas insignificantes restos. Os vesti- 
dos e os adornos do defunto parece terem-se decomposto ou sido rou- 
bados. Diz-se que nesta sepultura só se achou um annel d'oiro com 
um sinete movei. Do lado do emblema, mostra uma figura de mu- 
lher, de perfil do lado esquerdo; ella tem na mão direita um ramo e 
na esquerda uma coroa. É possível que este annel fosse trazido do 
Oriente ou d'alli mandado vir pelo seu possuidor, negociante talvez 
da opulenta cidade. O esqueleto está intacto; o craneo é um achado 
de summa importância para a anthropologia. 

«Duas outras sepulturas, também cercadas de paredes, estão ira- 
mediatamente contíguas áquella. Não se encontraram nellas sarcopha- 
gos, mas somente dois esqueletos, bem conservados; um, d"homem, 
com armas de bronze e um collar composto de vértebras; outro, duma 
mulher, com dois braceletes de grosso fio doiro e dois broches do 
mesmo metal. Suppõe-se que elles pertencem a iberos de distincção, 
ligados d'algum modo ao patrono phenicio. Outras escavações, que 
infelizmente mal se podem esperar, dariam provavelmente em resul- 
tado importantes achados para a historia da Gades phenicia. Os que 
ficam mencionados são, além das moedas, os primeiros restos certos 
até hoje encontrados d'uma colónia phenicia era Hispauha. 



8 REVISTA ARCHEOLOGICA 

«Perto d'eslas sepiilluras tão antigas, está uma necropole romana, 
a menor profundidade, onde, na occasião das escavações, se encontra- 
ram alguns objectos que não são destituídos de interesse. Entre as 
inscripções funeraes, que são pequenas, e que íazem lembrar os lel- 
treiros dos columbarios, ha um epigramma que é digno de menção. 
Está gravado em formosos 'caracteres, pouco mais ou menos do tempo 
dos augustos. O orador mostrou um cabo d'essa inscripção, e termi- 
nou pela leitura dum curta e mimosa poesia que não é composta se- 
gundo os modelos ordinários; o auctor, porém, não a poude levar ao 
fim com a forma elegiaca que lhe destinava. A poesia, em dois dísticos 
e um baxamelro, que está intercalado, lamenta a morte prematura de 
duas creanças. Eil-a : 

Contegit hic tiimulus duo pignora cara parentum, 

indicai et iilidus, nomine quo fuerinl. 

Sors prior in piiero cecidit; sed flebile fatum 

(trislior ecce dies !) renovai mala volnera sana, 

el, modo quae fmral filia, mine cinis esl. 

Festiva an ínorumj XI, Sodalis anniculfusj h(ic) s(iti) s(unl). 

Síitj v(obis) l(erra) l(evis). Rogatus dal. 



VISITAÇÃO DO ARCEBISPADO DE LISBOA 
(Século XV) 



Havendo eu já publicado umas constituições do arcebispado de Lisboa, redigi- 
das nos começos do século xv, c também duas visitações feitas á egreja de S. João 
do Mocbarro d'Obidos, uma pelo celebre Cardeal d'Alpedrinba em 14 de fevereiro de 
14G7, outra pelo bis|)o de Çaíim (em nome do arcebispo) aos 2 de junbo de 1474 ; 
vou hoje encetar a publicação d'uina visitação geral du mesmo arcebispado ao que 
me move, além do seu natural interesse, o incitamento de alguns cavalheiros aquém 
particularmente imporia o estudo de documentos d'esta ordem. 

Esta visitação é sobretudo interessante por moslrar o estado do clero portuguez 
ao começar do século xv. F^alta a data ao documento, assim como lhe falta assigna- 
tura; mas, pelo caracter da lettra, a.scende elle certamente aos inicios do século xv. 
Pertenceu ao mesmo lombo, de que fizeram parte os (h)cumentos supracitados, e oc- 
cupava alli o primeiro logar, facto que por si só não lhe imputava maior anciani- 
dade do (jue aos outros, visto ser vulgar a transposição de documentos em antigas 
collecções. 

E natural que se encontrem nesta visitação geral do arcebispado repetidas al- 
gumas das determinações feitas nos alludidos documentos; resolvi, |)oréin, publical-o 
da integra, attendendo a que assim nada perderá de sua importância, e melhor pode- 
rá ser estudado. 

Assim como pratiquei já com os documentos análogos já publicados, precedo a 
visitação do Índice dos capítulos, que a(jui vão numerados para facilitar citações. 

B. DE F. 



REVISTA AliCHEOLOGICA 



índice 

1 — como noiíideiitMii de alisoluer dos casos neste capitólio conteúdos. 

2 — domo som coiiiitidos os casos aos priores e beneficiados. 

ii — (vomo os beneficiados nem Iconiraos nom deuem teer cura por |)rioronde 
assy for beneficiado. 

4 — í^omo noiíi deuem os crelij,'os aleuaiitar aroydo nos coros em canto (sic) 
steuerem ao oíieio. 

5 — Como os priores e vijíairos ieiietn ibj fazer rezedenria em seus benefícios. 

6" — (>omo deuem reipuirer os fregueses ijue doentes forem que recebam os sa- 
cramentos da sancta egreia. 

7 — Csmo (IfHiem de dizer as oras e missas cantadas. 

8 — Como nom deuem fa^er casamíMilos sem banos (sic). 

O — Como bc posta scntemn dexconumbom em aquelles que se casom per ssy. 

10 — Como o crelijjo d(!tie dizer ao domin;.'o o pater noster e aue maria e (js 
preçeptos e os outros sacramentos a oferta. 

11 — (]omo deueíu de baulizar .seus lilbos a o.\to dias. 

12 — Como liam de sair aa ii" feira sobre os finados. 

13 — Como nom deiK-m de arendar (sir) os beneíieios sen licença. 

14 — (]omo deuem d(! |)edir licença as arcebispo dos bees que se aforem. 

15 — Como o priostedeue de dar conta. 

10 — Como os fiefíiieses am de receber os sacramentos em suas egreias. 

17 — Como os bciieliçiados ou iconimos possam bautizar. 

18 — Como os creligos se podem confessar a quem qiiizerem. 

19 — Como os priores deuem de mandar dizer ao arcebispo quaes som os bene- 
ficiados ausentes e [tresentes. 

20 — (]omo os priores beneficiados deuem de tomar o tralado dos priuilegios 
que alguuns beneficiados trouiierem. 

21 — Como 08 tesoureiros deuem de tanger aa trindade. 

22 — Gomo deue de seer prioste leigo. 

28 — Como deuem de conqjrir as visilaçoões ante desta. 

24 — Como deuem dti teer as visitaçoões de Jobain garcia e vasco dominguez e 
as que forom fetas per .lobam paaez e as constituiçoões sinodaaes. 

25 — Como os creligos deuem de dar o sacramento da vnçom quando forem re- 
queridos. 

20 — Como os priores e beneficiados nom deuem de tomar cousas que seiam 
oferecidas nas capelas sofreganbas aas dietas egreias 

27 — Como os leigos se deuem deitar dentro na egreia se ia alguum seu diuido 
dotou a dieta egreia. 

28 — Como os beneficiados deuem de visitar em cada buum anno os beens das 
agrei as. 

29 — Como deuem poer lençooes pretos nos altares. 

30 — Como as visitaçoões e esta deuem de seer postas em no coro da egreia em 
huum liuro. 

31 — Como se alguum dota a egreia por se deitar em ella deue seer posto em 
fabrica da egreia. 

32 — Como deuem de poer bancos nas egreias. 

33 — Como o que nom fie bautizado como se deue depois bautizar. 
34 — Como deuem depois de comer dar o sacramento da comunhom. 
35 — Como ham de abstíluer 



iO REVISTA ARCHEO OGICA 

VISITAÇÃO 
1 — como nom deucm de absoluer dos casos oeste capitólio conteúdos 

Visitando nos nosso arcebispado achamos per certa noticia que al- 
gumas pessoas ecciesiaslicas assy seculares como relligiosas que car- 
rego teem de confessar absoluerem dos casos pontificaaes que a nos 
per direito e costume perteençem sem lhes per nos nem per aquelle 
que par.i ello nosso poder tem seerem cometidos em grande perigo 
das suas almas e conçiençias e daquelles que vaão confessar, confes- 
sando seu peccado e nom seendo absolutos delles e porém por euitar 
tam grande erro e socorrer as almas dos fiees xpaãos a que somos 
Ihendos por carrego que teemos. amostamos os sobre dictos a primeira 
e a segunda e a terceira uez dandolhe por todas três canónicas amoes- 
taçoões e termho perantorio que do dia que lhes esta nossa visitaçom 
for dada ou pobricada ou delia noticia ouuerem a três dias primeiros 
seguintes cessem e desistam desse tremeterem de absoluer dos dictos 
casos que a elles nom perteençem. e fazendo elles ou cada huum o 
contrairo poeinos em qualquer (jue o contrairo fezer Sentença desco- 
raunhom cm estes scriptos resaluando pêra nos absoluçara e ainda 
seendo delo conuitos e seiam certos que aalem da pena spritual lhe 
seera dada tal pena corporal que a elles seia scaramentofi/(;j e a outros 
exemplo e por nom poderem alegar inorançia. e saber quaaes som os 
casos pontificaaes de que nom podem absoluer mandamos que lhe fos- 
sem aqui postas e declaradas assy por sua auisança delles como 
de seos confessados. Os quaaes som estes que se adeante seguem, a 
saber. Omeçidio uoUintnrio cometido fora de gerra {sk). Auer alheo 
soonegado que passe de çem réis acima. Voto sinpres. Sacrilégio. In- 
cêndio. Percussam de cleligo (s/c) em que nom haja enorme lesom. Di- 
zimas nom pagadas onde deuem. Excomunhom mayor. Os quaaes 
casos speçialmente reseruamos pêra nos ou pêra aquelle que pêra ello 
nosso logar teuer dos quaaes e cada huum delles defendemos que nom 
absoluam posto que per nossa leçença seiam cometidos, todos os ou- 
tros e sse alguuus cayram ou cayrem em alguuns dos dictos casos re- 
saruados pei-a nos. uenham a nos ou aaquelle que pêra eilo nosso 
speçial mandado teuer e acharom remedm saudauel pêra suas almas e 
por se esto melhor comprir e e.xucutar {sic) e auitar (sic) o dicto erro 
mandamos a todos os priores e vigairos perpetuus {sic) e capellaães de 
cura do dicto nosso arcebispado que cada mes uma vez ao domingo 
pobrifjuem esta hordenaçom em suas egreias e o que o contrairo fezer 
pague mil reaes brancos pêra as obras de piedade. 



REVISTA ARCIIEOLOGICA 



n 



2 — Como som comitidos os casos aos priores e beneliriados 

Item por quanto lodosos priores e vigairos perpetmis do dicto nosso 
arcebispado som llieiidos em cada limim aiino viiiirem (sic) receber os 
nossos casos ponliílcaaes e aiier nossa leçença pêra ello e muitos som 
negligentes e nom curam dello por scusarem despesas e trabalhos, 
poròin nos querendo as almas dos fiees xpaãos. per esta presente lhe 
cometemos os ditos casos em (luaiUo for nossa merçee. reseruando 
pêra nos os conlheudos no capitólio sobre (belo e por que muitas ue- 
zes acontece pella multiplicaçoin do poboo os sobre (bctos [)riores vi- 
gairos nom poderem remediar a todo ou por alguum caso. Alguuns 
nom se querem confessar a elles seendo mais contentes de sse con- 
fessarem alguuns benfiçiados. porém lhes damos por ajudadores e lhe 
cometemos nossas uezes e poder tam compridamente como o come- 
temos aos dictos priores e vigairos. ora selam beneficiados como capel- 
laães e Iconimos que de missa forem e por que poderia seer que huuns 
se querem scusar por os outros e assy se poderá perlongar (.s7C)o ser- 
uiço de deus. e sseguirsse alguum perigoo. mandamos a todos os sobre 
dictos que quando quer que alguuns delles for (s/c) requerido pêra con- 
fessar ou comungar que seia logo prestes e deligente pêra ello e ssem 
poendo alguma sensaçom e o que o coutrairo fezer querremos (sic) 
que jaca seis meses no aljube fazendo peendença da sua pouca obe- 
diência. 

5 — Comi) os beneficiados nem Iconimos nom dciiem teer cura 
por o prior onde assy for beneficiado 

Item achamos per certa emformaçom que muitos beneficiados do 
dicto nosso arcebispado nom embargando em como som obrigados per 
direito perssoalmente seruirem seus benefícios e fazerem em elles re- 
gedençia {sic)e ainda querem filhar os ofiçiose carregos alheos. tomando 
as curas, e carregos dos priores e vigairos donde assy som beneficia- 
dos seendo em aa^zo de em emlhear (sic) e tirar da seruidoõe da egreia 
e cidiu diuino huma pessoa o que nom he justo nem onesto e ainda dam 
aazo aos priores e vigairos sse scusarem de seus próprios carregos. 
indo em ello contra o juramento que fezerom em a confirmaçom de 
seus benefícios e por que segundo regra de direito singulla oficia sin- 
gullis perssonis sunt comittenda. porém por scusar o que dicto he hor- 
denamos e mandamos que qualquer beneficiado ou Iconimo que filhar 
cura em egreia onde assy for beneficiado ou Iconimo que perca os 
fructos daquelle anno do dicto seu beneficio ou Iconimia e o prior ou 
vigairo que esto cometer que page (sic) mil reaes brancos pêra as 
obras de piedade e esto hordenamos por cada huum se contentar de 
seu oficio e as egreias seerem melhor seruidas e oficio diuino acre- 
çenlado. 



12 REVISTA ARCHEOLOGICA 

4 — Como nom doiiem os crolÍ!)os aleuantar arojdo nos coros 
cm cauto [sic) slevercm ao oliçio 

liem por quanto achamos por certa noticia que aiguuns beneficia- 
dos do dicto nosso arcebispado aos tempos que vaãm as egreiasestam 
aos oliçios diuinos aleuantam paiaiu^as e aroydos em tal guisa que tor- 
uam os d ictos ofícios e fazem scandallo ao poboo. porém querendo nos 
a esto remedear com direito mandamos aos diclos beneficiados por ser- 
uiçode deus e lionrra das dietas egreias e bem de suas almas que nos 
dictos tempos nom leuantem os dictos aroydos nem palauras e perfias 
per qualquer coussa que sela depois que slenerem ass dictos ofiçios. e 
pacificamente e sem toruaçom os comecem bem e acabem e qualquer 
que o contrairo fezer mandamos ao nosso vigairo que logo os prenda 
e mande ao nosso aljube onde façam peendença ataa nossa merçee e 
sse peruentura for em logar onde tal se fezer nom ouuer nosso vigairo 
que o prior ou beneficiados que em ello culpados nom forem o notifi- 
quem logo ao nosso vigairo da comarca e nom o fazendo elles ou cada 
huum delles assy que paguem quinhentos reaes brancos, e sse o dicto 
nosso vigairo a que for notificado, esto nom exucutar como per nos he 
mandado que pague mil reaes brancos. 

5 — Como os priores e vigairos deiiera de fazer rccjedeuçia era seus benefícios 

Item por quanto achamos que muitos priores e vigairos perpetuus 
do dicto nosso arcebispado estam em perigoo de suas almas e dapno 
de ssuas conçiençias e ainda nom notariamente sem necessidade de 
cousa alguma ligeu'a contra o juramento que fezerom em as confirma- 
çoões de seus benefiçios onde jurarom fazer regedencias perssoaaes 
em as egreias onde assy som beneficiados poendo em ellas capellaães 
e indo por onde lhes apraz sem em todo o anno per algumas uezes 
viinrem a ellas saluo quando vêem apanharas rendas porém querendo 
nos a ello remedear segundo forma de dereito hordenamos e manda- 
mos que daqui endeante os sobre ditos vaam seruir seus benefiçios 
perssoalmenle e compram seu juramento e nom queiram mais cair em 
prejuro (síc)(\\\q nom helicitonem justo mais que todauia compram seus 
juramentos saluo se for priuilligiado per nosso Senhor o papa ou nos 
alegar necessidade ou legitima cousa per que lhe demos leçença que 
em seu logar ponha creligo idóneo que supra seus encarregos nom 
fazendo per este mandado perjuizo aacostituçoinfòíc^sinodal quedespoõe 
que cada huum vaa fazer regedençia perssoal na coreesma e o prior 
ou uigairo que contra este nosso mandado veer que perca os fructos 
do prioriado ou uigairia que assy nom seruir aquelle anno. 



RKVISTA AUCHEOLOGICA 13 

6' — Como (Iciioiii reiíiKTcr os frcjjiiosps (|ii(' docnlcs forem 
que recebam os sacramentos da saiicla eyreia 

Item outrossy achamos qiie algmins prioros vigairos perpetuus e 
capellaães (jiie carrego toem de cura eram negligentes e remissos em 
aderem seus fregeesses assy como som Iheudos e alguns dos dictos 
freegeses (sicj morriam sem confesso e outros sacramentos o que era 
mui mal feio e querendo nos proueera tal perigoo hordenamos e man- 
damos que quando (juer que alguum fregees for doente que os dictos 
priores e vigairos e capellaães logo sem alguma deleença os vaam ni- 
sitar posto que pêra ello nom seiam reijiieridos e lhe requeiram da 
parle de deus e da saneia egreia que se menefestem e recebam os 
ecciesiasticos sacramentos em a egreia de deus por saluaçam de suas 
almas honlenadas e nom o querendo elles assy fazer e morrendo em 
sua contumácia que os nom soterrem em nas suas egreias nem cimi- 
terios delias nem recebam por elles obraçoões nem llie façam ofícios 
de xpaãos ordenados por a sancta egreia e qualquer prior ou uigairo 
ou capellam que o assy nom fezer comosuso dicto he e íTorem em ello 
negrigenles queremos que jaca seis meses no aljube fazendo peen- 
dença de sua pouca obediência. 

7 — Como deuem de dizer as oras e missas cantadas 

Item por quanto achamos que antigamente se acustumauam de sse 
dizerem as oras canónicas hordenadas na nossa sancta madre egreia 
em algumas egreias do dicto nosso arcebispado cantadas e agora mui- 
tas uezes se nom rezauam nem diziam per culpa e neglegençia dos 
priores e vigairos e beneficiados delias o que nom he bem hordenado 
de seerem quebrantados os boos costumes antigos instituídos em ellas 
por seruiço de deus e ainda se geera grande scandallo a seus freeges- 
ses e querendo nos a esto remedear de remédio oportuno segundo so- 
mos obrigado, e perteençe a nosso oficio pastoral e por conseruar as 
dietas egreias em suas boas liberdades e custumes amigos e tirar o 
dicto scandallo mandamos em virtude de obediência e sob pena dexco- 
munbom aos sobrediclos que daqui em deante assy aos que ora som 
como aos que adeante forem que digam suas oras cantadas segundo 
se husou antigamente aos tempos que se deuem de dizer e qualquer 
que o contrairo fezer mandamss que pellas matinas pagem ískj çem 
reaes e por a missa outro tanto e por a uespera e completa I. reaes 
e esto se entenda por cada uez que as assy nom cantarem como dicto 
he aaquelles em que for a negrigençia. 



14 REVISTA ARCHEOLOGICA 

8 — Como uoiii (leuciQ fazer casamontos sem banos fsicj 

Item por qtianlo achamos que algiiiins priores e vigairos e capel- 
laães de cura do nosso arcebispado a quem perteen.çe de ministrar 
os ecclesiasticos sacramentos nom sgardando a regra que os sanctos câ- 
nones em elles ordenarom e precipue em os casamentos assy como 
transgressores delles e penas em ellas contheudas fazem por o con- 
trairo fazendo os dictos sacramentos sem banos dos quaees casamen- 
tos se sseguem muitos perigons casando parentes com parentes iifi- 
Ihados com madrinhas compadres com comadres assy contra prohibi- 
çom devina como canónica e os filhos de taaes casamentos neem som 
inletinios (sic) * porém por euitar a taaes perigoos e por que nom he 
em conueniente que creçendo a contumácia deue de crecer a pena per 
esta lhe defendemos que nom façam taaes casamentos e gardem em 
elle a regra dos sanctos cânones e qualquer que o conlrairo fezer se 
for prior ou uigairo alem da pena que lhe he posta per direito, ut, 
quis timor diuinus a mallo non reuocat. saltym temporallis pena co- 
hibeant a peccato. que page quinlios reaes brancos e sse for capellam 
pague mil reaes e sse for raçoeiro perca per aquelle anno os fructos 
de seu beneficio e porque muitas uezes se acondoçe fsicJ que dam lecença 
a outros que os façam, e os fazem sem gardarem em ello a regra do 
direito mandamos que aquelle que lhe assy der a dieta lecença que ja- 
çam VI mezes no aljube onde faça peendença e aquelles que o faze- 
rem se forem priores e vigairos e capellaãs (sicj ou outros quaees 
quer creligos que ajam as susso dietas penas. 

O — Como hc posta sentença dexcomunliom em aquelles que se casom per ssy 

Item achamos por a visitaçom feta ante desta per Vasco domin- 
guez e João garcia que forom nossos visitadores que era posta sen- 
tença dexcomunhom em os leigos que faziam alguuns casamentos e 
nom eram em a dieta visitaçom. prouendo acerqua das pessoas prin- 
cipaaes que per ssy se casauam. porém querendo nos por regra e 
entender a dieta visitaçom lhes defendemos que per ssy nom façam 
taaes casamentos e fazeendoos sob as dietas amoeslaçoões queremos 
que encorram em sentença dexcomunhom assy como os outros leigos. 

20 _ Como o creligo denc dizer ao domingo o pater noster e auc maria 
e os preçcplos e os outros sacramentos a oferta 

Itera achamos em a dieta visitaçom que foy mandado que aquelles 
que fezessem a confissom ao domingo aa missa dissessem mui [)assa- 
mente ísic) ao poboo o pater noster e aue maria e o credo in deum 



1 Deverá lér-se inleliuios ? 



REVISTA AKCHEOLOGICA 15 

de gisa (sicj que os freegeses o podessem bem entender e aprender e 
que outrossy os domingos do auenlo e coreesma lhes dissessem os dez 
preceptos da ley com seus conlrairos o melhor e mais chiramente que 
elles podessem e lhes deus ministrasse e as obras de misericórdia, e 
os vii peccados mortaaes e os vii sacramentos da egreia e os doõe 
do sprilu sancto e as uertudes cardeaaes e theohcas fskj segundo 
mais compridamenle em a dieta visitaçom he conlheudo e achamos por 
certa enformaçom que se nom fazia e querendo nos a esto proueer 
por salvaçom das almas dos fiees xpaãos e se a dieta visit;içom dar a 
exucuçam mandamos aos sobre dictos que gardem a dieta visitaçom 
segundo se em ella contem e qualquer que o contrairo fezer por cada 
uez que fallezer jaca xv dias na cadea, 

ii— Como deuem de bautizar seus íilhos a ojto dias 

Item achamos em a dieta visitaçom que foi mandado aaquelles que 
filhos ou filhas teuessem que do dia que lhes naçe.ssem a 03 to dias os 
veessem de bautizar e tomassem compadres em as cosliluçoões de- 
terminadas, s. ao homem dous homees e huma molher. e a molher 
duas mollieres e huum homem e por quanto ouuemos por certa en- 
formaçom que viinliam muitos homeens e molheres com as creaturas 
com enteençam corrupta por seerem compadres e comadres posto que 
digam que ueem em companhia e quando o creligo dizia as pallauras 
per que a creatura he bautizada se chegauam aa pia ouuindoas e que 
por segundo dispusiçom de dereito fraus et dolus aiicui patroçinarii 
non debent : per esta presente os amoestamos em forma da sancta 
egreia dandolhe três momentos por todas três canónicas amoestaçoões 
e termho precioso (sicJ a. que disistam da dieta temerária presunçom e 
nom sse acheguem aa dieta pia saluo aquelles ties que asiuiados fo- 
rem pelo sacerdote e fazendo elles ou cada huum delles o contrairo 
poemos em qual quer que o contrairo fezer sentença descomunhora 
em estes scriptos e reseruamos pêra nos absoluçam outrosy por 
quanto nouamente aa nossa noticia ueo que alguns leigos afirmauam 
e tiinham que o sacerdote que bautizaua nom ficaua compadre por 
bem do dicto bautismo. nem outrossy quando o marido hia ao bautis- 
mo e nom hia a molher. ou ia a molher e nom hia o marido que 
aquelle que alio nom fosse nom era compadre porém por esta pre- 
sente lhe determinamos que o dicto creligo que fezer o dito bautismo 
ora seia rogado ora nom que he uerdadeiro compadre e assy meesmo 
determinamos que quando quer que o marido e molher som uerda- 
deiros compadres do padre e madre do dicto bautizado. 



16 REVISTA ARCHEOLOGICA 

12 — Como liam dp sair aa ii'' feira sobre os finados 

Item hordenainos e mandamos por serniço de deus e bem das al- 
mas dos liees xpaãos que em Iodas as villas e lugares, sayam cada 
segunda feira sobre os íinados segundo ordenança da saneia egreia em 
cada huma egreia saiuo se fforem dias de festas dobrez e oragos prin- 
çipaaes da egreia e eslo se nom entenda em os logares onde sempre 
se acustumou de aos domingos sayrem sobre os finados por a coiflre- 
gaçom da jente e qualquer ereligo que o contrairo fezerem (sic) 
page (sic)^ 1. reaes por cada uez que o asy nom fezerem. 

13 — Como nom deuem de arendar (sic) os benefícios sen Iccença 

Item achamos que muitos beneficiados indiscretamente como nom 
deuiam e muitas uezes a pessoas defezas em direito arendauam seus 
benefícios e recebiam dante maão as rendas delles e sse hiam pêra 
onde Ities aprazia e asy as egreias ficauam desfraudadas e ssem mi- 
nistros e ainda que algumas cousas e despesas fossem necessárias per 
as egreias nom auia hi por onde se fazerem e sse jeeraua por ello 
grande scandallo ante o poboo e os creligos e querendo nos a ello pro- 
uer com remédio de direito e em acreçentamento da constituçam si- 
nodal que alguum tanto falia acerca desto e por euitar o que diclo he. 
ordenamos que qualquer beneficiado do nosso arcebispado nom seia 
tam ousado que areudem seus benefiçios sem nossa lecença pêra lhe 
darmos modo e maneira segundo forma de direito que em ello tenha 
e qualquer que o contrairo fezer se for prior ou vigairo page dous 
mil reaes brancos e o raçoeiro pagev'. e nom uaiha o contracto. ^ 

(Continua.) 



1 Julgo (lover advertir que esta visitação foi copiada com o maior cuidado, e 
que a revisão das provas é íeita em presença do original. Não causem estranheza as 
irregularidades da orltiograpliia nem os erros de syntaxe, qne intendi dever conser- 
var. Esta advertência, dispensa-me de repetir o (sic) mais frequentemente. — B, de F. 



REVISTA AkCHKOLOGICA 17 



MONUMENTO D'UMA FILHA DE D. DINIS 



Teve eirei D. Dinis diins filluis b;isl;ir(lns, nmhas fio nome de Ma- 
ria: iiin;i (jue se conservou no secnio. oulra que foi recolhiiJa uo mos- 
leii(#<le Odivellas. A primeira, L). .Maria Aironso. leve por mãe D. 
Marinha Gomes, mulher de qualidade, riainral de Lisboa, a qual de- 
pois casou no logar da Charneca, próximo da capital. Descobriu ou 
tornou conhecida esta maternidade o monge dAlcobaça, fr. Francisco 
Brandão. (]ue li'anscreve para prova as passagens (]e dois documentos 
do cartório do mosteiro de Santos. D. Maria Aironso casou, no mez 
d"agosto (segundo parece) do anno de 1318, com D. João de Lacer- 
da, filho de D. Affonso de Lacerda prelensor dos reinos de Leão e 
de Castella •. Desta nada mais direi. 

A outra D. Maria foi mellida no mosteiro de Odivellas. Parece que 
um mau lado pesou sempre sobre esta filha do rei lavrador, poisque, 
havendo motivo para acreditar que não foi muito feliz, a sua existên- 
cia se acha involla no véo do mysterio. As únicas noticias, que a respei- 
to delia lenho encontrado em nossos antigos escriptores, são as mes- 
mas que condensou o mencionado Brandão. Não se sabe quem foi sua 
mãe; o chronista hesita'entre o dal-a como nascida d"uma celebrada 
Mór AíTonso, que tivera relações com D. Aílonso 111, e declaral-a filha 
de Branca Lourenço, que suppõe filha de Lourenço Soares de Valla- 
dares, e na qual o rei não houve filhos até ao anno de 1301 -. Por 
varias razões que não declaro agora, mas que expenderei noutra oc- 
casião ao fallar da sepultura de D. Maria, opto por que sua mãe fora 
Branca Lourenço. 

Vejamos que outras noticias nos dá o chronista. Depois de allu- 
dir á sepultura de D. Dinis, accrescenta : «Alem deste deposito se vem 
sepultadas em Odivellas algúas pessoas de sãgue Keal, a saber. O Infante 
Dõ loão neto delBey Dom Dinis, d- fdho delBey Dom Afonso Ouarto, 
o qual está na Capella de S. Pedro. A senhora Dona Maria, lilha bastar- 
da delBey Dom Dinis, Beligiosa professa deste Conuento a sepultura da 
qual está na parede do claustro, que responde á Capella de S. loão 
Baptista ^». Noutro logar diz mais: «E pois tão conexos andaõ nasci- 
mentos^ & finamentos, digo que o gosto, que ElBey teve com o nas- 
cimento daqiielle neto, foy pensionado com a morte de sua filha Dona 
Maria Beligiosa no seu Convento de Odivellas, da qual já falíamos no 



1 Mon. Lusit. P. V, 1. 17, c. 6; P. VI, 1. Í8, c. G6. 

2 Mon. Lusit., P. V, ]. 17, c. 6 e 69. 

3 Mon. Lusit., P, V, 1. 17, c. 24. 
Rev. Arch., n." 2 — Fev. i888. 



\s 



REVISTA ARCHEOLOGICA 



tomo nnlecedonte, a qual despois de gastar a vida cõ louvável proce- 
dimento os annos, que ali viveo, neste presente de 1320 foy recolher 
o premio da sua merecida coroa : deixando naqnelle Convento com o 
deposito de seu corpo, huma viva lembrança da santidade de sua vida, 
que com esta opinião fazem delia elogios nossos escriplores» K 

A isto se reduziam ns noticias que de D. Maria colhera já, e ás 
quaes outros esciiptores nada acci-escentam, quando tive a fortuna de 
ver descoberta em Odivellas por uma pessoa da minha familia um 
precioso monumento da filha de D. Dinis. É esse monumento uma la- 
pide granítica de O"', 36 de alto por O'", 20 de largo, cujo exacto fac- 
simile se pode ver reproduzido na est. I. Em dez linhas contêm elle 
a seguinte inscripção em caracteres onciaes de O™, 023 d'alto : ^ 



DNA : M : FILIA : DÕNI : Dl 
sic ONISII : REX : PORTUG 
sic ALIE : ET : ALGARBII : JU 

SIT : FIERI : HOC : ALTARE 

5 : AD : HONORfcT : DEI : ET : 

sic : G L O R I O s I b I M I : 

S"Gl : AN 

DREE : A 

sic PPLI : Ê : 

I O M:CCC:L 

lo. Era de mil tresentos cincoenta. . . 



Dfomijna M(aria), filia do(mi)ni 
Di\onisii rex Portug\ali[ae\ et Algar- 
bii ju(s)\sit fieri hoc altare \ ad hono- 
7-efmJ Dei et \ gloriosi(s)simi \ sfanj- 
cftji An\dre[ae'] a\ ppfostojli. E(ra) \ 
M CCC L... era 1350 =p.C. 1312? 

Dona Maria, filha de Dom Dinis rei 
de Portugal e do Algarve, mandou 
fazer este altar em honra de Deus e 
do gloriosíssimo santo André aposto- 



Podc ter sido gravada esta inscripção no anno de 1312 ; mas creio 
antes que, com a mutilação da lapide na parte inferior, desappareces- 
sem outras lettras pertencentes á data. que era necessariamente um 
dos annos que decorreram desde 1312 até 1320, em que D. Mana fal- 
leceu. A lapide parece iiaver sido destinada primeiramente a outro 
monumento, visto que a inscripção foi gravada em sentido inverso ao 
do escudo das quinas, já aberto na pedra, o quç claramente se de- 
duz de o letreiro continuar ao lado d'elle, e da disposição das lettras 
na C.'"' linha. 



1 Mon. LiiHÍL, P. VI. 1. 19. c. 21. 

2 Dando o fac-simile da iiiscripçáo, julgo desnecessário reproduzir (\|)ograpliica- 
mente as libações das lotlras. 



REVISTA ARCIIEOLOGICA li) 

É impossível averiguar hoje onde era o aliar ou capella de Santo 
André, por causa da modificação que soíTreu a egreja do mosteiro de 
Odivellas por occasião do dia I." de novembro do I7;)0. As capellas 
6 altares actualmente existentes não correspondem todos exactamente, 
pelo menos no que respeita a oragos, ás capellas antigas. Não ha ne- 
nhuma capella dedicada a Santo André. Nem mesmo o logar onde foi 
descoberta a lapide (um dos claustros) poude esclarecer-me em cou- 
sa alguma. 

Este monumento epigraphico é o segundo em aniiguidade per- 
tencente a Odivellas. O mais antigo já ficou descripto noutro lo- 
gar *. 



\0 de fevereiro de 1888. 



Borges de Figueiredo 



ANTIGUIDADES PHENICIAS E ROMANAS 
NA península 

Por lapso se não advertiu na pag. O da Revista, ao transcrever do 
Sotidembdruch- aus « Wochonschrifl fur Klassische Philologie» a noticia 
dada pelo meu prezado amigo e collaborador E. íliibner sobre o acha- 
do de Cadix, que as informações d'este sábio professor, destinadas 
somente á Sociedade Archeologica de Berlin, não teem um caracter 
definitivo, e que só depois da publicação dos alludidos monumentos, 
pela academia de Madrid, será possível juigal-os com inteira con- 
fiança. 

B. DE F. 



NUMISMÁTICA PORTUGUEZA 

D. DUARTE 

Apezar dos esforços empregados por vários escriptores, nomeada- 
mente por Severim de Faria. Viterbo, Lopes Fernandes, pelos reunidos 
na Historia Genealógica da Casa Real por D. António Caetano de Sou- 
sa, e mais modernamente pelo sr. Aragão, para resolver varias e im- 
portantes questões da numismática portugueza, subsistem ainda mui- 



1 Revista Archeologica e Histórica, vol. I pag. 147 



20 REVISTA ARCHEOLOGICA 

las duvidas sobre o valor de certas moedas da primeira e segunda dy- 
nastias. O ultimo dos mencionados auciores, no primeiro volume do 
seu vasto tratado, procurou dar solução a esses diversos problemas ; 
e não se pode negar que lançou muita luz nas trevas que etivolviam a 
nossa numária. Parece-me, [)orcm, que algumas vezes passou super-» 
ficialmente sobre certos pontos que precisavam e precisam discussão; 
e que outras vezes, porventura por motivos alheios á sua vontade, foi 
pouco complecto na descripção e classificação de algumas espécies. 
Uma obra de tal grande importância como a do sr. Aragão é indispen- 
sável assim a quem se dedica ao estudo da nossa moeda, como ao 
simples colleccionador: ao primeiro, por lhe proporcionar grandes meios 
de estudo nas noticias que dá e documentos que encerra; ao segundo, 
porque dirige e facilita a classificação das moedas. 

Creio, porém, que será de utilidade publicar nesta Revista breves 
notas destinadas a preencher algumas das lacunas que existem nos 
tratados numismáticos. Essas lacunas são devidas quer á falta de no- 
ticias, quer à falta de discussão de certos pontos, quer ainda ás in- 
exactidões na descripção e classificação das moedas. 

Por agora fallarei dos chamados ceitis de D. Duarte, 

Entre as moedas de cobre cunhadas no curto e infeliz reinado do 
rei eloquente, aquella que maior modulo tem, e que é caracterisada 
pelo campo do anverso onde se vêem, sob uma coroa, as iniciaes do 
rei, ED, é chamada dinheiro^ por Lopes Fernandes, e ceitil^ pelo sr. 
Aragão. Não pretendo discutir agora qual d'estas duas designações é 
a mais exacta; o meu íim é apenas mostrar que Fernandes descreveu 
erradamente a moeda de que dá a gravura, e preencher a lacuna da 
obra do sr. Aragão que deixou de descrever a mesma moeda. 

A moeda é a seguinte (vej. est. I,), que diverge da que se vê gra- 
vada na obra de Fernandes unicamente em ter p o R T em vez de 
POR: 

4-GDVARDVS*REX*P0R — No campo, dentro de oito arcos 
duplos as lettras ed, encimadas duma coroa, e por baixo L. 

^. A mesma inscripção; no campo, as quinas, acompanhadas de 
quatro castellos. 

Fernandes apresentando esta moeda, transcreve a inscripção d"es- 
te modo: gduardi rex port; dando em genitivo o nome que 
na moeda apparece em nominativo. 



* L. Fernandes, Memoria das moedas correntes em Portugal. .. pag. 80. 
2 Teixeira d'Aragão, Descripção geral e histórica das moedas cunliadas em » orne dos 
reis, regentes, e governadores de Portugal, pag. 218, e est. X n." 5. Cf. pag. 221. 



REVISTA ARCHEOLOGICA 



2i 



Por oulro Indo, o sr, Aragão não menciona moeda com a inscri- 
pção (: D V A R 1) V s, mas somente com a de Ci D v A m) l . 

Não é de exlranliar o erro cominellido por Fernandes, visto na 
sua obra se encontrarem outros a cada passo, que demonstram a sua 
leviandade. 

OníMio á omissão que se riota na obra do sr. Aragão, foi ella 
devida (alvez á falia de noticia da moeda de que se Irada, bavendo 
cbegado ao seu conliecimenlo apenas exemplares com a letlra euv A R Dl, 
o que Ibe faria suppôr que a forma GDVARDVS tinba sido erro do 
gravador. Mas egual facto que se dá com a gravura e descripção do 
real prelo na mesma pagina do livro de Fernandes, devia cbamar a sua 
attenção. 

Temos pois que, nos cbamados ceitis de D. Duarte, apparece o no- 
me do monarcba ora em nominativo, ora em genitivo, devendo, quan- 
to a mim, ser considerados os que teem a segunda forma menos vul- 
gares que os outros; por isso que, entre uns duzentos exemplares que 
tenbo visto bem conservados, só em duas terças partes delles se me 
ha deparado a forma Eduardus. 

Nos d"este typo, que tenho examinado ou de que lenho noticia, e 
que teem egual inscripção no anverso e reverso, apparecem apenas 
as seguintes differenças : 



+ eD\^ARDVS.REX.POR 

^ + — 



^ 



+ 



+ G D V A R D I 








PORTV 


- — ~ 


POR 
PORT 














RX . PO 



14 de Fevereiro de 1888 



Borges de Figueiredo 



22 REVISTA ARCHEOLOGICA 

VISITAÇÃO DO ARCEBISPADO DE LISBOA 
(Século XV) 

(Concluído da pag. 16) 

14 — Como deuem de pedir leçença ao arcebispo dos bees que se aforem 

Item achamos por certa enformaçom que muitos beneficiarmos do 
(liclo nosso arcebispado fazem seus contractos infitioticus alguuns leigos 
dos bees ecciesiasticos e segundo ordenaçora das sanctos cânones per 
seerem valiosos deuem de seer per nos diocesanos autorizados, e dou- 
tra gisa som nenlmuns per direito e as dietas autoridades deuem de 
seer pedidas pellos dictos beneficiados que ham de jurar se som aas 
dietas egreias os dictos contractos proueitosos o que elles fazem muito 
pello eontrairo fazendo os dictos contractos sem pedindo (sic) as dietas le- 
çenças e autoridades e os dictos leigos per bem das scripturas que lhe 
assy som fetas se metem aos dictos bees ecciesiasticos aproueitandoos 
e des que lhos vêem bem aproueitados os trazem a juizo e lhes des- 
ffazem os ditos contractos por nom seerem autorizados e assy ficara 
os dictos leigos perdidosos e emganados o que nom he justo e porém 
por euitar o que dicto he mandamos jeeralmente a todos os beneficia- 
dos do nosso arcebispado que querem fazer taaes contractos que os 
façam segundo forma de direito e do dia que os assy fezerem atee 
huum mes peçam ou mandem pedir e auer as autoridades e nom o 
fazendo elles assy o que o eontrairo fezer page mil reaes brancos pêra 
as obras de piedade. 

15 — Como o priosle deve de dar couta 

Item porquanto achamos per certa enformaçom que muitos prios- 
tes que foram e som das egreias do nosso arcebispado apanhauam os 
fructos e renda delias e faziam delles o que lhes aprazia sem os poen- 
do em recadaçom em tal gisa que igual repartiçam se nom fazia aos 
beneficiados e aaquelies a que perteençiam. pella qual cousa naçia (sic) 
muitas reixas e contendas antre os dictos priostes e aquelles a quem 
os dictos fructos perteençiam. poròm por euitar o que dicto he manda- 
mos a qualquer priosle que for em algumas das egreias do nosso ar- 
cebispado que em cada huum anno faça huum livro do priostado em 
que serepuam todas as rendas e cousas que receber da dieta egreia 



REVISTA ARCIIEOLOGICA 23 

pello qual livro faça igual reparliçam aos diclos beneficiados e pessoas 
a qucMii perleençer e de conta segunda tnanda a cosliluçam sinodal e 
qualquer que o conlrairo fezer page mil reaes brancos pêra as obras 
de piedade. 

l(j — Como os freeyeses am de receber os sacranieiilos cm suas egreías 

Item adiamos per enforraaçom certa que alguuns freegeses dal- 
gumas egreias do nosso arcebispado nom contemples de receberem 
os ecciesiasticos sacramentos nas egreias onde som freegeses e per 
dereito som obrigados vaam baulizar seus íillios a outras egreias onde 
nom som theudos fazendo esto por lhes tomarem mais compadres do 
que per direito he ordenado e querendo nos a esto remedear e pro- 
ueer com dereito hordenamos e mandamos que se compra a uisilaçom 
que ja sobre esto be ordenada que manda que cada huum seia bau- 
tizado em sua egreia e nom em outro logar saluo em caso de neces- 
sidade quando nom possa seer trazido aa dieta sua egreia sem perigo 
e queremos que prior e vigairo e campellam que lhe tal leçença der 
que se em outra egreia bantize page quinhentos reaes brancos e o quem 
o bantizar outros, v^ ficando ainda de lhe seer dada outra pena se e 
tal causo (sic) couber saluo se pêra ello ouner nossa leçença ou da- 
quello que teuer pêra ello nosso encarrego. 

17 — Como 08 benefiçiiidos ou iconimos possam bauti/ar 

Item ouuemos outrossy per certa enformaçom que muitas uezes se 
acontece que alguuns freegeses daignmas egreias do nosso arcebis- 
pado leixauam andar seus filhos por baulizar alem do tempo orde- 
nado por lhes nom prazer seerem bautizados per seus redores ou 
per aquelles que teem seu carrego e esto por algum ódio que lhe teem 
ou scandallo e lhe prazeria seerem bautizados per alguuns benefi- 
ciados e pedem leçença aos diclos redores e seus logo leeníes e nom 
lha querem dar pêra ello e em esto se aquecem muitos perigoos. po- 
rem querendo nos prouueer a ello de remédio oporlnno mandamos 
que quando tal caso aueer que o dicto beneficiado ou iconimo de missa 
ha possa baulizar sem fazendo piejuizo alguuns dos diclos redores em 
seus dereitos. 

iS— Como os crelijjos so podem confessar a quem quizerem 

Item porquanto achamos nas visitaçoões passadas fetas per nos- 
sos uisitadores que os creligos doordeens sacras que ham de celebrar 
oficio deuino denem de seer ao meos (sicj em cada huum mes confessados 
e nom despoeem a que pessoas se ham de confessar, porém querendo 
uos declarar e interpelar (sicj as dietas visitaçoões posto que o dereito 



24 REVISTA ARCHEOLOGICA 

diga que cada liimin se deue confessar a sseu próprio sacerdote, e 
porque poderia viinr (sic) caso que o diclo seu próprio sacerdote elle 
o nom poderia assy auer de legeiro e ilie seeria necessário celebrar o 
oliçio deuino. e çellebrando çellebraria assy em peccado mortal o que 
a elle seeria grande perigou. ílordenamos e mandamos por cuilar o que 
dicto he que huum sacerdote se possa menefestar a outro e lhes damos 
leçença |)era ello coineíendolhe todos os nossos casos poutiíicaaes que 
a nos perleençem per dercito ou costume leseruado pcra nos os que 
acustum.idos som de seruar dos quaes casos ponlificaaes que assy 
reseruamos [)era nos llie defendemos que nom absoluam nem dem 
peendenças e os enviem a nos ou aaquelie que pêra ello nosso poder 
teuer e acharom remédio pêra suas almas. 

i5— Como os priores deiiciii de mandar dizer ao arrcltispo qiiaecs som 
os beiíeliçiaiios ausentes e presentes 

liem adiamos per certa enfnrmaçom que em algumas egreias do 
nosso arcebispado se costuman i que os reitores e rfçoeiros delias 
apropriauam e repartiam antre ssy per sua auturid.ide [)ro|iria os fru- 
ctos e missas das capellas stituadas (sic) em as dietas egreias em as 
quaees segundo voontade dos testadores se auiam de poer capellaães 
de fora e outrossy repartiam as absençias dos beneficiados ausentes 
onde era necessário de sse poerem iconimos por nom seerem defrau- 
dadas as egreias em seus diuinos ofícios o que de dereito nom poe 
diam fazer sen (sic) autoridade do sancto padre ou nossa ou de nos- 
sos antecessores e porque a nos perteençe taaes cousas como estas 
de correger e emmendar por deus ser louuado e oucullo (sic) deuino 
acreçentado e as egreias bem seruidas. Hordenamos e mandamos e 
remedeamos as dietas egreias se necessário for de ministros e outrossy 
as almas dos finados e qualquer que o contrario fezer. o que assy fe- 
zer seia nenhuum e mais page mil reaes brancos saluo se lhe per nos 
for dada leçença pêra ello por alguma necessidade ou legitima cousa 
6 por se melhor fazer e as egreias nom ficarem desfraudadas e em 
seu debito e abriuiar os inpedimentos que podiau) viinr (sic) manda- 
mos a todos os priores e vigairos perpetuus ou logo teentes do nosso 
arcebispado que em cada huum anuo como ueer o ssam .loham bau- 
lista logo nos mandem dizer per scripto quantos somos beneficiados 
das suas egreias e quantos presentes e quantos absentes e quantos pre- 
uilligiados e quaees e outrossy nos mandem dizer quaees som as ca- 
pellas (jiie tem capellaTies e quaees nom e como se cantam (sic) e 
quem ssom os ministradores delias e as rendas delias |)era nos todo 
veer e proueer com remédio oportuno assy as egreias como as almas 
dos testadores e o que o conlrairo fezer page mil reaes brancos pêra 
as obras de piedade. 



REVISTA ARCHEOLOGICA 25 

20 — Como os iiriores beiícliçhulos doiiprn dr tomar o (nlado 
dos |iriiiili'!|ios que alyuuns bcnelíciaiios Iroiiiiercm 

Item achamos per certa e iierdadoira enformaçom dalguns redo- 
res e benofiçiados do nosso arcebispado que alguuns redores benefi- 
ciados das suas egreias pretctnliauí per bctu d alguns priuilIcLiios dos 
quaees o tempo era ja passado auer (»s liuclus de seus benefícios e 
muitas uezes de facto os uexauam e scoumungauam como uom deuiam 
e outros alguuns cuios priuilegios já dnrauamper sua negligencia nom 
querriam (sic) ir nem demandar aos tempos acustumados da reparti- 
çom e requerer seus Irudos e muitas uezes os requeriam a taaes 
tempos que eram ia perdidos per aguas ou per outros casos fortui- 
tos per cuio aazo os tragiam em demandas perlongadas tirandnos das 
egreias em detrimento do culto deuino oliçio porém querendo nos 
proueer o que dicto lie de remédio oportuno, mandamos a lodollos prio- 
res e beneficiados de todo nosso arcebispado que como alguns (s/íydos 
seus beneficiados j)erteu(ler auer os fructos de seu beneficio per uigor 
dalguum priudegio que logo filhem o iralado do diclopriuillegioe o dia 
que lhe foy apresentado e os tempos que já receberam per bem de 
seus priuillegios e nos enviem todo. pêra nos lodo ueermos quaido 
dura seu efedo e lho fazer gardar e os beneficiados seerem uexados 
contra dereito nem as egreias seerem desílVaudadas em seu debito 
alem dos tempos dos dictos seus priuillegios cuios priuillegios (skj e os 
priores ou beneficiados que o contrai ro fezerem paguem mil reaes 
brancos e quanto he aos priuilegios cuios privilégios ainda duram man- 
damos que vaam ou mandem aos tempos acustumados da repartiçam 
requerer seus fnilos ou ponham taaes pessoas que lhos recebam e nom 
o fazendo elles assy em caso que sse percam os priostes nom lhe 
seiam obrigados por elles. 

21 — Como os tesoureiros deuem de tanyer aa trindade 

Item achamos que &ín muitas egreias do nosso arcebispado per culpa 
dos tesoiueiros nom se tangia a trindade quebrantando os boos cos- 
tumes amigos ecciesiasticos o que no he bem fedo porém por seruiço 
de deus e onrra e lounor da sanda trindade e bem das almas dos 
fiees xpaãos mandamos aos sobredictos tesoureiros ou aaquelles que 
dello teuerem carrego que da(]ui endeante contenuadamente cada dia 
a tangam (mj aos tempos antigamente acustumados e qualquer que o 
contraiio fezer page por cada uez que assy leixar de tanger. I. reaes 
brancos. 

1^1^— Como deue de seer prioslc lolgo 

Item visitando nos o dito nosso arcebispado veerom a nos alguuns 
reitores e beneficiados e nos diserom que per nos fora mandado que 



26 REVISTA ARCHEOLOGICA 



noni fosse priosle leigo saluo os beneficiados cada huum per seu anno 
poendo çerla pena a quem fezesse o contrairo dizendo que desto se 
ssegia (5/f)em algumas egreias assy aos beneficiados como a ellesperjuizo 
fsic) \)or que muitas uezes em ellas eram Iam poucos ministros que como 
huum delles tinlia o diclo carrego e andaua fora logo a dieta egreia era 
defraudada e em seu debito e outros eram laaes beneficiados juctos(6^í(;) 
pêra o diclo oficio que dauam mais de perda as dietas egreias que 
proueito e ainda sse ssegia dapno a elles e scandallo ao pouoo que 
quando Ibe pediam o sseu leuantauamsse em palavras e aroydos que 
muitas uezes onde eram juntos em as dietas egreias pêra louuar deus 
sse ssegia muito pello contrairo pedindonos de merçee que prouees- 
semos a esto e lhes déssemos leçença que podessem filhar outros ora 
fossem creligos ora leigos. E nos veendo o que nos assy pediam e de- 
ziam e porque fomos alguum tanto dello certificado mandamos que 
sem embargo do dicto nosso mandado onde taaes casos aueerem (sic) 
que o filhem de conssintimento de todos aquelles a quem perteençe a en- 
hçom (sic) do dicto priostado e ffilhem delles ante que lhes dem o dicto 
oficio taaes obligaçooes ou permissões assy per sentenças como per 
cauçoões que compram a costiluçam sinodal s. que fique a dar con- 
tas com entrega depois de sam Joham huum mes e sseerem constran- 
gidos per o juiz ecclesiastico e os beneficiados que o contrairo feze- 
rem conpoeloam de suas casas. 

23 — Como deuem de cotiiprir as visitaçoões ante desta 

Item achamos per çerla enformaçom e ainda a esperiençia assy o 
demostra que algumas visitaçoões que foram fedas per nossos visita- 
dores e mandado a alguuns beneficiados do nosso arcebispado que era 
aquelle tempo eram que fezessem algumas cousas necessárias em as 
dietas suas egreias assy açerqua do sprilual como do temporal por 
orra fsic) delles e bem de suas almas e porque muitas uezes se aqueeçia 
que aquelles a que fora mandado leixauam suas egreias assy per morte 
como per renunçiaçom ou outio modo em tal gisa que as auiam por 
derelilas sem fazendo nem comprindo o que lhes assy fora mandado 
em tal gisa que per bem do que diclo he as egreias viinham gran- 
des perdas e dapnos e aos freegeses seus scandallo. e querendo nos 
eslo remedear com dereito mandamos aos beneficiados que os dictos 
benefiçios onuerem como forem confirmados logo se trabalhem de 
auerem as visitações e as compram de todo e nom alegeni (sicj ino- 
rançia e sse peruentura ao tempo que assy forem confirmados o tempo 
que assy ficar for Iam biene que o nom possam comprir venham a 
nos e darlhemos a maneira que em ello aiam de teer e assy como 
elles som bem ddligentes a requerer os fruclos e seus proueilos assy 
seiam diligentes a ssoporlar os encarregos e fazendo elles o contrairo 



REVISTA AUCIIEOLOGICA 27 

seiain çerlos que cayram em as penas (jue em as diclas visilaçoões 
forem postas em as quaes nos querremos que elles emcorram. 

2^— Como deucm de leer as visilucoões de Joiíain «jarcia o. vasco domíii()iiez 
e as que forom feitas per Joiíam paaez e as constítuçoões siiiodaacs 

liem adiamos (pie muitos redores e beneficiados das egreias do 
dido nosso arcebispado nom tem as visitaçoões que forom fectas per 
vasco dominguez e joham garçia nem as que forom fectas per o diclo 
vasco dominguez e joham paaez que forom nosos (sio visitadores nem 
outrosy as visilaçoões sinodaaes as (juaees lhe som muito necessárias 
assy por seu rigimenlo como inslruçam do pouoo e collaçom dos sa- 
cramentos e refeiçam das egreias e porém lhes mandamos que man- 
dem por ellas atee três meses do dia que lhes esta nossa visitaçom 
for dada sob pena de. v'". reaes e as gardem e compram assy pella 
gisa que em ellas lie coiilheudo sob a pena de encori'erem em as pe- 
nas em ellas postas e outrossy mandamos jeeralmenle a lodollos prio- 
res e beneficiados e capellaães de cura do diclo nosso arcebispado que 
cada mes huma uez ao domingo leeam e probiquem (sicj ao pouoo a 
uisitaçom jeeral fecta per os didos vasco dominguez e joham garçia e 
esta nossa por se anisarem e gardarem das scomunlioões e penas em 
ellas postas e noin o fazendo elles assy paguem ii' reaes brancos por 
cada vez que o leixarem de fazer. 

25 — Como os creliuos doiiem de dar o sacramento da viiçom 
quaudo Coreia requeridos 

Item achamos per enformaçom dalguuns leigos que quando alguuns 
creligos do nosso arcebispado som requeridos que vaam dar os sa- 
cramentos da vnçom a alguuns enfermos nom o querem fazer de boa 
uontade a menos de lhes darem alguuns preços pedindonos que lhes 
ouuessemos alguum remédio com dereito e nos veendo o que nos assy 
era diclo como tal cousa he defessa per dereilo. lhes mandamos em 
uertude de obediência e sob pena dexcomunhom que cada uez que 
pêra ello forem requeridos huremente aminislrem o diclo sacramento 
sem sobre ello poendo outro alguum impedimento nem ponto nem com 
ueença (sic) nem permissom de preço e qnahjuer que o contrairo fe- 
zer queremos que jaca vi meses na cadea onde faça peendença de 
sua maa corrupta teençam. 

26 — Como os priores e beneliçiados nom deuem de tomar cousas que selam 
oferecidas uas capellas sofreyaubas aas diclas suas eyreias 

Item achamos per clamosa insinuaçom dalgiimas pessoas assy ec- 
clesiaslicas como seculares que algumas egreias slituadas em nosso 



^8 REVISTA AUCHKOLOGICA 

arcebispado tem outras egreias assy sobielas e sofraganlias assy em 
padroados como em onlros algiuins dereilos as qiiaees egreias sofra- 
ganlias lêem seus redores e oulros algnuns beiíeíiçiados e ministros 
e seus bornameiílos deputados pêra o diuiiio oíiçio e sua nunistraçom 
em solido e as dietas egieias pnucipacs noin sguardando quando lhes 
apraz itidislitamente (sicje a sua booiítade lilliam o que lhes apraz das 
dietas egreias assy subieclas e as leuam pêra onde querem e a seu li- 
bilo o que nom parece seer bem oídenado, pedindonos de merçee que 
perçedessemos a esto e nos ueendo o que nos assy era diclo e pedido 
querendo a ello remedear de lemedio opoituno hordenamos e man- 
damos que depois que algumas cousas forem dadas c oferecidas aas 
dietas egreias assy sofreganhas ora seiam pellas egreias prinçipaees a 
que som sobieclas como per quaaesquer pessoas, que dali nom seiam 
tiradas pêra seerem leuadas e postas em oulios vsos doutras egreias 
ou dalgumas outras pessoas e as leixem stai' i)era vso das dietas 
egreias a que assy forem oferecidas (jue nom he cousa razoada nem 
o (lereilo o permete e por se esto melhor guardar e executar amoes- 
tamos e mandar»!0s que nom seia nenhuum tam ousado que filhe as 
dietas cousas ou algumas delias das que assy forem oferecidas nem pri- 
uem as dietas egreias do seu vso e dominio delias dandoíhes por todas 
três canónicas amoestaçoões seis dias do dia que lhes esta nossa visi- 
taçom for dada ou pobricada ou delias noticia ouuerem os quaaes pas- 
sados fazendo o contrairo poemos em elles ou em cada huum delles 
sentença dexcomunhom em estes scriptos os nomes dos quaaes aqui 
auemos por spressos e reseruamos pêra nos absoluçam. 

27 — Como os Jciíjos se denerii deitar dentro na ejjrcia 
se ia ahjuuni seu divido duton a dieta ecjreia 

Item visitando nos o dito nosso arcebispado achamos algumas dunidas 
antre os creligos e os leigos acerqua das sopolturas (sic) que se per- 
uentura alguma pessoa emiege sua sopoltura dentro em alguma egreia 
e dotasse sse sse lança em a dieta sopoltura outra alguma pessoa de 
seu linhagem se sse ha de dutar outra uez aa dieta egreia pedindonos 
por merçee que lho declarássemos e nos veendo o que nos assy era 
dicto achamos per certa enformaçom (jue he uso antigamente acustu- 
mado em o dicto nosso arcebispado quando tal sopoltura assy for enli- 
gida dentro em liuma egreia per alguma pessoa e dotada a dieta egreia 
que em a dieta sopoltura se podem lançar os do seu linhagem per li- 
nha dereila decendente sem dotar mais a dieta egreia saluo se peruen- 
tura conrronp(!rem terra nona fazendo outra coua o qual custume nos 
parece boo e razoauel e mandamos que se guarde. 



REVISTA ARCIIEOLOGICA 29 

2H — Cumu os bciicliciaiios deuem do visitar cm cada liiiiim anuo 
os beeiís das cijicias 

Item achamos per certa enforinaçotn e noliçia e ainda uisilando ui- 
mos per uei^íiadeira s[)eriençia (jiic miiilos beens ecclesiasticos per al- 
guiiiis (los beiíellçiados do nosso arcebispado fonjin e som dados algu- 
mas pessoas assy ecciesiaslicas como seciillares per coiilratos iiililio- 
ticos e des que os assy dam requerem bem as pessoas delies em cada 
hmim anrio e nom curam mais de os requerer nem visitar se ssom 
deniíicados (sic) ou em boo ponto pella (jual razom os dictos beens se per- 
dem e uam em cada huum dia a perdiçom per cuia perdiçain (sicj vêem 
as dietas egreias grande prcjui/o e ainda maximam (sicj defecto em o 
culto deuino. por que segundo desposiçom de dereito nom se pode so- 
portar o es|)iilual em o temporal e porque nom seeria cousa razoada 
de os dictos beens que assy forom dados aas dietas egreias per alguuns 
fiees catliolicos por loinior de deus e acreçentamento do culto deuino 
e saúde das almas per negligencia dos dictos benefícios seerem [)erdi- 
dos. Porem (juerendo nos a esto remedear (juanto com dereito pode- 
mos e por cuitar o que dicto lie mandamos a todos os priores e vi- 
gairos perpétuos e beneficiados do dicto nosso arcebispado que como 
som diligentes em requerer as pessoas que assy o sseiam em reque- 
rer e visitar as dietas propriedades e que aalem da uisitaçam que de- 
uem de fazer em cada huum anuo em elles segundo lhes he maFidado 
pella visitaçom de Joham garcia e vasco dominguez nossos visitadores 
que façam de guisa de constrangam (]>ic) os que os dictos beens trazem 
danificados ora seiam creligos ora leigos que corregam ísicj e tornem a 
boo stado ssegundo per dereito e forma de seus contractos som obliga- 
dos.Oiitrossy lhe mandamos que se alguuns beens das dietas egreias nom 
som empiezados a quem por elles mais der e a taaes pessoas que nom 
seiam defesas em dereito e que os tragam setipre melhorados guar- 
dando pêra ello a forma desta nossa visitaçom açerqua das autorida- 
des e quaees quer que o contrairo fezerem pagem dous mil reaes 
brancos. 

29 — Como deuem poer ienoçoes pretos nos altares 

Item visitando o dicto arcebispado algumas pessoas dele veerom a 
nos per modo de prouisom consselho e remédio dizendo que elles eram 
tanto priuados da uista dos seus olhos que quando hiam aas egreias 
pêra veerem o seu Senhor deus per bem dos dictos factos e outrossy 
por nom entrarem nas capellas onde se assy faz o sancto sacrifício 
muitas uezes o sacerdote leuanta o corpo de deus sem per elles seer 
visto e que lhes era grande pena e despeito pedindonos que a esto 
lhe ouuessemos alguum remédio e nos veendo o que nos assy era di- 
cto e pedido e porque a nosso oficio pastoral perteençe proueer as al- 
mas dos sobre dictos e outrossy guardar e exucutar os sanctos degre- 
dos e porque per dereito he dellesso que os leigos nom entrem em as 



30 REVISTA ARCHEOLOGICA 

dietas capellas principaaes onde se faz o dicto sacrefiçio r*^/cj porem por 
remedear e proiieer o dicto defeclo per esta presente mandamos a 
todollos benotiçiados do nosso arcebispado que em suas egreias po- 
nham em o altar prinijipal lençooes pretos per tal gisa que quando o 
ssaçerdote lenantar o corpo de deus per bem da color do dicto pano 
pellos qne sleueiem em as dietas egreias seia bem visto e nompoendo 
os dietos lençooes do dia que lhes esta visilaçom for dada atee huura 
mes paguem, ii'". reaes brancos. 

SO — Como as visitaroões e esta (leuem de seer postas 
em 110 coro da egreia em liuum liiiro 

Item adiamos em fazendo a dieta visitaçom que muitas cousas das 
que assy forom mandadas per nosos visitadores que se íezemsem (sic) nas 
egreias por seruiço de dens e bem delias nom forom fectas nem com- 
pridas e esto segundo a emformaçam que ouiiemos por aazo e culpa 
dalguuns priores e vigairos e outros alguuns beneficiados que filhara 
as dietas visitaçoões e as lenam pêra suas casas e pêra onde lhes apra- 
zia en tal guisa que nunca mais pareciam nas egreias. porem querendo 
nos a esto remedear euitar as dietas maliçias e por alguum nom ale- 
gar inorançia mandamos que as dietas visitaçoões seiam postas em 
huiim liuro em nos coros das dietas egreias em tal guisa que cada 
huum beneficiado lea se quiser per ellas amoestando pêra ello os so- 
brediclos era forma da sancta egreia que nora seia alguura tara ousado 
que as dali tire e Iene dandolhes terrao preciso de Ires dias e qual- 
quer que o contrairo fezer poeraos era elle sentença dexcoraunhora em 
ertes seriptos e reseruamos pêra nos absoluçara os noraes dos quaes 
aqui auemos por expressos. 

31 — Como se algiumi dota a egreia por sse deitar em ella deue de seer 
posto em fabrica da egreia 

Item achamos que muitas pessoas se emlerrara e raandam enter- 
rar dentro era algumas egreias do nosso arcebispado e segundo cus- 
torae delle denera de dotar as dietas egreias era que assy som se- 
pultadas e o que assy dom Csic) por dote deue de seer dado e posto era 
fabrica da dieta egreia e ornamentos do de (sic) culto deuino e segundo 
a enformaçom que nos foi dada os beneficiados das dietas egreias ho 
apropriauani a ssy e conuertyara em seus usos da qual cousa se sse- 
guiani periuizo aas egreias e a seus freegeses scandallo e ainda he 
inal feeto qiiia quod semel deo dedicatura est ad humanos usos anplius 
redire uon debet. porera querendo nos prouer a ello mandaraos que 
taaes dotes seiara guaidados pêra seus próprios usos e nom pêra ou- 
tros stranhos e pêra se esto melhor encaminhar queremos que o 
priosle que for aquelle anno daquella egreia onde for a sopollura re- 
cade e demande o dicto dote e o entregue ao mais abonado raçoeiro 



REVISTA ARCHEOLOGICA 3i 

presente em a dieta egieia e receba do diclo raçoeiro conhecimento 
como lho entrega e as screpiia o diclo priosle todas (!m hunm rool e 
noilas de per scriplo ou a nossos visitadores ipiaiido lorinos visitai' 
pêra as nos mandarmos destrit)uir em aipiellas cousas pêra (jue assy 
som dotadas e sse peruetitura Cor tal egreia que tii nom aia prioste 
nem beneíiçiados em tal caso mandamos que o prior ou uigaiio ou 
seu logo teente as receba e rogamos aos freegeses da dieta egreia por 
seruiço de deus e onrra delia (jue scolliam outrossy liuum homem boo 
que as screpua e noilas de em rool ou a nossos visitadores pêra hor- 
denarmos delias o que suso dicto he e fazendo os dictos beneíiçiados 
o contrairo do que suso dicto he mandamos tpie as tornem em dobro. 

3'j — Como (leiícm de poer bancos nas cgreias 

Item mandamos a todolhos fsic) priores vigairos beneficiados e outras 
quaesquer pessoas a que esto pertencer que ponham bancos em suas 
egreias hordenadamente em que seiam os freegeses quando veerem 
aas dietas egreias ouuir os deuinos oíiçios. do dia dada ísicj desta vi- 
sitaçam atees (sitj seis meses sob pena de v^ reaes brancos. 

33 — Como o que nora he bautizado como se deue depois bautizar 

Porquanto o ssancto sacramento do bantismo segundo hordenança 
da nossa saneia madre egreia he principio e fundamento de todollos 
outros sacramentos sem o qual alguum nom pode seer saluo e por- 
que visitando nos o dicto nosso arcebispado achamos per certa en- 
formaçom que algumas creaturas em tempo de necessidade forom 
bautizadas em casa per pessoas leigas e por quanto he duuida se em 
taaes baulismos foy guardada a forma da saneia madie egreia a qual 
he necessária e por tirar algumas openioões dos leigos seguindo em 
ello a regra dos sanctos cânones e ordenança da sancta egreia e quia 
in dubiis Uicior ísic) via est aligenda/^s/cj. mandamos a todos aquelles que 
teem cura em nosso arcebispado que quamlo taaes casos veerem qu3 fa- 
çam perante sy viinr aquelles que taaes baulismos fezerom ou fezerem 
e lhes perguntem per (pie modo os baulizarom e as palauras que lhe 
diserom se sse acharem que as diserom como deuiam nom os bauti- 
zem mais e se as nom diserom como compria e he ordenado na san- 
cta ma'lre egreia ou duuidam em tal caso as baulizem como deuem 
com protestaçom que se acostuma dizendo se lu es baulizado eu le 
nom bautizo e sse tu bautizado nom es eu te baulizo em nome do 
padre e do filho e do spritu sancto. 

34 — Como deuem depois de comer dar o sacramento da lomunliom 

Item achamos per certa emformaçom e ainda veo a nos per que- 
xume de alguuns leigos que muitas vezes alguuns priores vigairos per- 



32 REVISTA ARCHEOLUGICA 



pelGiis capellaães de cura tio diclo nosso arcebispado eram requeri- 
dos (pie fossem depois de comer dar o saneio sacramento da eiika- 
rislia algduns enfermos e que elles recusauam de o fazer dando por 
sua scusa que o nom fariam porquanto nom stanam jeguuns (sic)e assy 
se finauam sem o dicto sacramento pedindo-nos de merçeeque a esto 
llie ouuessemos algum remédio com dereito lhe onuessemos algum 
remédio com dereito e nos veendo o que nos assy era diclo e pedido e por 
soccorrer as almas dos xpaãos e amlar o diclo perigoo (]uerendo em 
ello seguir a regra dos sanclos cânones que somos obi igados que nos 
ensinam quod videlicet hoc sacramentum debetfieri a iemno tamen non 
perbibelur fsic) tempore necessitas dar (siopvdiuvãfsic), porém per esta 
presente mandamos a todollos prioi'es vigairos per[)eluus e capelaães 
de cura do dicto nosso arcebispado que sempre tenham o sacramento 
da eukarislia prestes e aparelhado posto em logares pêra ello depu- 
tados contenuadamenle huma alampada anle o dicto sacrameeto se- 
gundo lhe ia per outras visilaçoões ante desta foy mandado e quando 
taees casos veerem e forem requeridos (jue logo muito honrradamente 
o leuera aos enfermos e lho dem se forem em tal disposiçom (pie o 
possam lograr e conteer no stamago (sic) posto que tenham ia comido e 
sse peruentura forem tal disposiçom que o nom posa fs/cjlograr abaste- 
Ihe de o adorar e qualquer dos sobredictos que em esto for negli- 
gente queremos (pie iaça seis meses no aliube onde faça peendeça da 
sua pouca obediência e sse peruentura por a dieta sua negligencia 
sse sseguir alguum perigoo ao enfermo seia certo que aalem da dieta 
peendença lhe seera dada tal pena que a elle seera scaramenlo (sicj 
e a outros emxemplo. 

■Hõ — Como liam de absoluer 

Item oulrossy achamos per çerla speriençia que muitas pessoas 
ecciesiasticas do dicto nosso arcebispado que carrego teem de confes- 
sar nom sabem bem a absoluçom per que acho penitente de absoluer 
o que he muito mil feito (sicj e ainda grande perigoo porem por eui- 
tar o dicto perigoo lha mandamos aqui screpuer a (jual he esta que se 
ssegue 

Autoritate domini noslri ihu xpi et apostollo- 
rum suorum petri et pauli oficii mihi in hac 
parte comissi absoluo te ab iis peccatis mihi 
parte confessis el contrictis et ab aliis de 
quibus non recordaris et eadem autorilale. te 
absoluo a sentencia excomunicalionis minoris 
si quara encorrisli loqnendo comendendo bi- 
benílo couerssando com excomunicatis et res- 
tituo te sacrosanctis matris ecclesie sacramen- 
lis : p. x. d. n. (par xpi domini 7iostriJ amen. 



REVISTA ARCHEOLOGICA 



33 



SEPULCROS ANTIGUOS DP^ CADIZ 

En los primeros dins dei mes de Agosto dei afio actual (1887) me 
manilestaba eii Berlin mi auligiio é ilustre amii^o el ProCesor IliUjner 
su deseo de coiiocer las inscripcioiícs romanas, (]ue se decian encon- 
tradas ultimamente en Cadiz, con el íin de incluirias en el Suplemento 
ai segundo volúmen dei Corpus Inscriplionum Lalinarwn, que eslaba 
para entregar á la imprenta. Con este motivo le ofrecia que á mi re- 
greso á Empana pasaria por diclia ciudad y procuraria calcar y enviarle 
los traslados de los epígrafes inéditos, que lograse examinar. A este 
propósito el Í5 de Setiembre sali de Sevilla con direccion á Cadiz ádonde 
Uegué con grandisimo retraso, como de continuo acontece en los ferro- 
carriles espanoles, (pie son de los peor servidos de Europa. Merced á 
la atencion de las personas á quienes me dirigi pude aquella noche 
mismo sal)er donde se encontraban reunidos todos los objelos bailados, 
y ã la manana seguiente me encaminè desde luego y sin perdida de 
liempo ai lugar donde estaban custodiados, que era uno de los pa- 
bellones dei edifício levantado de nueva planta fuera de las murallas 
con destino á la Esposicion marítima, que á la sazon acababa de abrirse 
en dicha plaza. Aunque la instalacion no eslaba terminada encontra- 
banse ordenados los objetos que deseaba ver de tal modo, que con no 
ser muchos, podianse estudiar comodamente. Tanto el presidente de 
la diputacion provincial, como el arquitecto de las obras y el sobres- 
tante me facilitaron los médios de examinar y copiar cuanto fue ne- 
cesario à mi intento, merced á cuya deferência y con presencia de 
vários números dei periódico local La Palma de Cadiz ', que lie debido 
mas tarde á la atencion de persona, que en mucbo estimo, he logrado 
fijar algunos datos sobre tales ballazgos, que son de la mayor mipor- 
tancia para la arqueologia nacional. 

Segun manifestacion que me liizo el antes mencionado arquitecto, 
director de los trabajos para la instalacion de la referida Esposiaon 
manlima nacional, que se inauguro en Agosto de 1887, [)areLe que ai 
allanar el terreno, donde habia que lavantar los diversos departamen- 
tos, de que aquella deberia componerse, ai Este de la poblacion, en 
la llamada Punia de la Vaca, á mas de un kilómetro de la Puerta dei 
Mar. y à unos trescientos metros largos de la mayor saliente de as 
forlificaciones, se descubrieron vários sepulcros antiguos. Examinados 
los que aparecieron casualmente, se vió que eran de mamposteria, 
cubiertos de ladrillos, que formaban como un tejado, con vertientes 



1 12 Marzo, 1." 3 y 31 Mayo, 1." 2 y 3 Junio 1887. 
Rev. Arch., n.o 3 — Março i888. 



34 REVISTA ARCHEOLOGICA 

á ambos lados, encerrando luiesos no queniados, conteniendo cada 
sepullura un esqueleto y algiinos objelos de cerâmica, de los que se 
conservaban vários restos. Tambien se hallaron ai remover aquel ter- 
reno dos lápidas sepiílcrales integras con leyenda latina y três frac- 
turadas, varias monedas municipdles y coloniales balidas en Espana 
y, segun alirmabani diversas pcrsonas, algunas pequenas joyas como 
de nuios. No era necesario, para el objeto de las edificaciones que 
se intentaban levantar, seguir descubriendo aquella, que parecia ba- 
ber sido necroi)olis romano gaderitana, y por ello se dejó sin explorar. 
El pormenor de lo que he visto pertenecienle á la época de la 
dominacion romana en la península y encontrado en el lugar que 
dejo senalado puede fixarse de esta manera : 

I — Cerâmica descubierta de Marzo á Mayo de 1887 : 

A- — Uii ânfora roínaiia grande de barro, Wien ancha por abajo 
P — Dos penueãas vasijas tambion de barro, rolas por La pari.e inferior, semc- 
jantes á las que sueien enconlrarse en las tumbas romano-hispanas. 

II — Monedas dcscubierlas de principio de Marzo á fia de Mayo de 1887 : 

A — Púnicas de Africa : 

Una de Lix Miiller, Numisinahqiie de runc. Afrique, iii, n."335 

B — Púnicas de Espana 

Cuatro de Cadiz Delgado, N. Mêl. de clasif. Tab. xxvii, n." 38 

Una de id Id. Id. » xxvii, n." 46 

Una de id Id. Id. » xxvni, n." 74 

Três de id Id. Id. » xxvni, n.°7i 

Três de id Id. Id. » xxvui, n." 72 

{] — Ibérica de la Tarragonenfc : 

Una de Castulo Id. Id. » r.xiv, n.^Sl 

D — Romano-hispanas de la Bética: 

Una de Carmo Id. Id. » xi, n.° 22 

Una de Carteia Id. Id. » xiv, n." 47 

Una de la colónia romulense, Id. Id. » i.xvii, n." 3 

E — Iiiiperiales romanas : 

Una de TIB. CLAVDIVS — med. bronce. 

Debese advertir sin embargo que en esta clasificación podrá ha- 
ber algun ligero error en las concordâncias, que he tenido que hacer 
de memoria, entre las piezas amonedadas, que se han encontrado re- 
cientemenle en la Punta de la Vaca y los egemplares corrcspondien- 
tes, que van senalados de la obra aludida de Don António Delgado; 
pêro por lo demas puedo afirmar que las diez y ocho monedas que 
be examinado en el mismo lugar dei ballazgo son en resúmen una de 
Lix, una do Carmo, una de Carteia, una de Castulo, una de la Coló- 
nia romulense, doce de Cadiz y una dei emperador Tibério Cláudio. 

III — Aihajas 

A — Dos brazaletes pequenos, annillae, formados de un grucso alambre de 

iiro onrnsrado en espiral 
15 — Cnatrn pcípicnos ohjetos laiiibien de oro que nie parecierom zarcillos, 

iiKiures. aunquc los vi entre cristal(!s, sin tonerlos en la mano y me (lue- 

dó la duda si podria ser hebillas, fihulue. 



REVISTA ARCHEOLOGICA li") 

Estas seis alliaj.is hk; nííCííiiiaroii iniiclios que se liabian encon- 
contrado ai Indo ó (iebajo de la lapida de los dos ninos Festiva y So- 
dal, de que me ocuparè en seguida, y su forma no me pareciú que 
repugnaba en lo mas mínimo ai estilo de la orfevrería dei principio 
dei império; pêro hubo tambien quien me indico (|ue se liabian des- 
cubierlo en el mismo sepulcro de que liablaré despues, donde el anillo 
y el collar con cuenlas de oro, lo cual no me parece lan probable. 

111 — Inscripciones romanas. 

i.» conTegit-hic-tvmvlvs-dvo • pignora 

CARA • PARENTVM 
INDICS • ET • TITVLVS • NOIVIINE • QVO • F\ERKt 
SORS • PRIOR • IN • PVERO • GECIDIT • SED • FLE 

BILE • FATVM 
TrISTIOR • ECCE • DIES • RENOVAT-MALA 
VOLNERA • SANA 
^^^_ ET^MODO-QVAE • FVERS- FILIA- NVNG-GINIS-EST 
^FESTIVA- AN- XI -SODALIS • ANNICVL'H-S • S 



svTl- ROGATVS- DAT. 



El Profesor Iliibner, á quien hice conocer en seguida este inlere- 
sante texto, dió cuenta en Noviembre de 1887 á la sociedad arqueo- 
lógica de Berlin de tan eslimable hallazgo en estos términos: «Entre 
las pequenas inscripciones (las encontradas em Cadiz), que recuerdan 
las tabletas de los columbarios romanos, merece seualarse un epi- 
grama, que está grabado eu fina letra mayuscula como de la época 
de Augusto»... «Este pequeno y gracioso poema no está redaclado 
conforme ai modelo usual, si bien su autor no ba podido terminarlo en 
la forma elegíaca, que se proponia. En dos dísticos, y un exametro, 
que entre aquellos sobresale, se queja el que lo redactó de la tem- 
prana muerle de dos ninos y dice asi:» 



Contegit hic tumiilus duo pignora cara parcntum^ 

indicat et titidus^ nomine qiio fuerint 

Sor s prior in piiero cecidit; sedjlebile fatinn 

(trislior ecce dieslj renovai mala volnera sana, 

et, modo qiiae fuerat filia, niinc cinis est. 

Festiva an(norum) XI,Sodalis anniculfus) hficj s(iti) s(iint) 

S(it) vfobis) tferraj Ifevis). Rogatus dat. 



36 REVISTA ARCHEOLOGICA 



Cubre á la vez este sepulcro dos prendas queridas de sus 
padres; la inscripcion indica el nombrc que tuvieron. 
Kl nino fuo el primero á quien toco el desaparecer ; 
pcro he aqui que en un dia de mayor tristura el hado 
adverso renueva la herida mal cicatrizada y la que poço 
ha fuera hija es ai presente ceniza. 

Aqui yacen Festiva de once anos y Sodal de uno : que os 
sea la tierra libera. 



Rogato lo regalo. 

La coleciou lapidaria de Cadiz es copiosa, * y entre las inscripcio- 
nes que la avaluraii liny una á la memoria de Quinto António Rogato, 
hijo de Caijo, de la Iribu Galeria y Deiiinión ^, otra á la de Elia lio- 
gata, hija de Quinto ^, una tercera á la de Cago Anio (sic) Rogato de 
20 anos S y otra última á la de Mareia Rogala de cinco, no siendo 
posible íijar con precision si tales personajes pndieron estar unidos 
entre si por vinculo alguno de parentesco, ni menos con el nnevo 
Rogato, que coslea la lápida sepulcral de los ninos Festiva y Sodal. 
Uespeclo de la formula rogatvs dat , á que acabo de aludir se 
registra oiro exemplo muy interesante, lambien en las inscripciones 
de Cadiz en la piedra funerária de Marco Emilio Optato Longo, hijo 
de Marco, donde se lee que Suavís, . . . mernor amicitiae hoc múnus 
suprenuim dat ^. 

La inscripcion en verso de que acabo de hablar como la de que 
voy á ocuparme en seguida fueron bailadas en el lugar ya indicado de 
la Punta de la Vaca ai terminar el mes de Abril de 1887 por que en 
La Palma de Cadiz de 1." de Mayo se trata ya de ambas como aca- 
badas de encontrar en los desmontes de los terrenos contiguos ai silio 
de la Esposicion. 

Salvia^ cara siiis. h(ic) sfita) efstj. Sfit) t(ibi) 

2." SALVIA • CARA ,. m, ■ ^ 
tf erra) lievis). 

SVIS 

u.c.p.c.T-.-r.i Aqui yace Salvia. querida de los suyos ; seale la 

tierra lijera. 

La forma de esta inscripcion no puede ser mas sencilla, siendo 
frecuente en Cadiz, donde se encnentran varias análogas, aunque nin- 
guna de otra mujer llamada Sairia. 



í C. I. L., n, 172't á 1922 y pag. xmii. 
2 C. I. L., w, 1729. 
5 C. L L. 11, 1747. 
'• C. 1. L., II, 1784. 
'" C. l.L..n, 17S3. 



REVISTA AUCIIEOLOGICA 



37 



3/ 



ANN 1/ 



En los epigrafes garlitanos se dan á conocer varias Annias y di- 
versos Aniiios, (jue son Annia Linrwa hija de Cíí//o' y Annid Palnuiia 
liija lambien de uii Can o-, Annia Salniid ^, Cai/o Annio Feli.r *. y 
Sexlo Annio Liicano, Itijo de Scitu ^, de modo que el liagmeiílo Iras- 
crito bien puede liaher coiimemoiado á mi liombre ó à una mujer y 
en cualqueira de los dos casos la reslilucion seria facilisinia, por(|ue 
su texlo debiò ser análogo ai de Sairia y decir proxiuiamenle, si era 
lieiiibra la inhuniada Anni[di cara] /;ar[enlibus liic sita esl, sil, libi, 
terra levis]. 



A \ 

AJVJV 



Parece que debiera haber dicho este epigrafe : 

Q,(iniiis) C[orncliiis] Av[iliis] ann{oritm) . . . [hic sitiis csl; sit., tibi^ terra levis]; 

110 conociendose entre las inscripciones de Cadiz el iiombre ni el 
cognombre de Corndio Anilo. 



Acaso pudieran ser estas letras resto de la conocida formula iis- 
ES-T-T-L- 

La fecha de los hallazgos de estos Ires fragmentos no se conoce 
con la precision que la de las dos primeras inscripciones, si bien me 
ioforrnaron en el lugar donde se encontraron que las cinco piedras 
se descubrieron casi ai niismo liempo. 

Pêro el descubrimiento mas importante, que se hizo en las indi- 
cadas esplanaciones fue como a unos ireinta metros de la necrópolis 



1 C. I. L., II, 1757. 

2 C. I. L., II. 17o8. 

3 C. /. L., II. 1759. 
í C. I. L.. 11. 17G0. 
^ C.I.L, II. 1761. 



38 REVISTA ARCHEOLOGICA 

romana y mas distante que esta de la plaza, en la misma Ptinta de la 
Vaca, como á mil trescientos metros de la Puerta dei Mar y á unos 
trescienlos cincuenta de la mayor saliente de las fortiíicaciones, ha- 
biendo consistido en três sepulcros de fecha antiquisima y de época 
muclio mas remota que la dei enterramento alli imediato y de que 
acabo de hablar. 

Segun me informo el tan aludido arquitecto, parece que desmon- 
tando una pequena eminência natural, de piedra caliza, sobre Ia que 
se habia construído un ventorrillo, para allanar todo aquel terreno de- 
jándolo á un mismo uivei, cuando llevaban los trabajadores rebaja- 
dos como unos cinco metros, dieron con três tumbas, que estaban es- 
cabadas en la piedra misma de aquella colina y rellenados los huecos 
hasta la cumbre con arcilla compacta impermeable. Dentro de la es- 
cabacion praticada en la dicha piedra caliza, se habian construído três 
compartimentos, con destino á igual numero de sepulturas, con sillares, 
que he visto colocados en los escalones de la escalinata de uno de los 
pabellones alli cerca levantados, y que formaba parte de los que com- 
ponian la ya nombrada Esposicion marítima gaditana. La principal que 
era la mayor se hallaba situada mas ai oeste, las otras dos unidas por 
el centro arrancaban dei pie de la anterior, siendo ambas mas cortas 
y mas angostas que aquella, sin coincidir con ella en su angulo 
izquierdo y leniendo la que fue de una mujer menos profundidad que 
las dos restantes, segun todo ello aparece en el croquis que de la po- 
sicion respectiva de cada una debi á la atencion dei mencionado sefior 
arquitecto. El perímetro de estos três compartimentos no sé que 
haya sido medido, de modo que no puede fijarse con esactitud la su- 
perfície que ocupaban, operacion que hoy es ya imposible practicar, 
porque el sitio donde se descubrieron ha desaparecido por completo 
en razon á que la rasante dei terreno ha quedado por la espianacion 
bastante mas baja que el lugar donde tales monumentos se encontra- 
ban construídos. Estaban tambien cubierlos con sillares, Io cual hizo 
que ai destaparse pudieran verse les restos humanos, que en ellos 
descansaban por tantos siglos, tal como habian sido inhumados sin 
mescla alguna de cuerpo estrano y solo con los restos de las telas 
que envolvia y de la cajá de madera que encerraba ai uno, con vá- 
rios fragmentos de armas el otro y con algunas alhajas de oro la ter- 
cera. Todos ellos tenian los pies ai oriente, la cabeza ai ocaso, el cos- 
tado derecho ai norte y el izquierdo ai médio dia. 

Ocupaba el sepulcro mayor, que era como he dicho el que estaba 
mas ai oeste, un arca de marmol hianco, no tan grande ni de tan fina 
labor, pêro afectando la misma forma que la descubierta cerca de 
Sayda en Enero de 18;)5 y conservada en el Louvre, que encerraba 
los despojos mortales de Esmunazar rey de Sydon *, de la que se 

1 C. I. S., I, t;il) II y III. 



REVISTA AKCHEOLOGICA 39 

diferencia siii embargo por carecer la cubierla de ioda inscripcion se- 
pulcral. 

La lapa de esta arca funerária de picdra gaderilana es inuy digna 
dei mas delenido exámen. Sobre eila eslaba esculpida la imagen re- 
presontnliva dei difuiilo; la cara mny hien Irazada, la barba rizada, 
el bigole cuidadusamenle arreglado. el pelo prornsamenle colocado 
sobre la frenle, la boca y los ojos bien caracterizados, presentando 
todo el roslro un conjunto tan armónico y natural á la vez, que ai 
contemplarlo no queda duda en el ânimo que debiò ser un Irasunto 
muy parecido ai original, tal es la espresion y la movilidad de 
aquella mascara inanimada. Sigue luego todo el cuerpo apenas perfi- 
lado y como envnello en nn sudário, que bajando de la cabeza, solo 
deja ai descubierto los brazos, las manos y los estremos de los pies. 
Dichos brazos apareceu apenas delineados en el marmol ; recogido el 
izquierdo sobre el peclio, oprime con la siniestra algo que se ase- 
meja à un corazon himiano; estendiendo el derecho á lo largo de 
aquel costado y descansando sobre el mnslo dei mismo lado, figura 
agarrar con la diestra una ancha corona de laurel, que no está gra- 
vada en la piedra, como el que parece corazon, sino pintada sobre 
ella, conservándose aun visibles cuando examine el monumento, algu- 
nas hojas trazadas á la redonda, que ni la humedad ni la intempérie 
habian hecho desaparecer aun. Tambien me dijeron que se habia con- 
servado pintado el canto de la suela dei calzado con que se quiso 
representar á aquel personage, annque por mi parte no logre notar 
la huella de tal pintura, ni distinguir las correas que debieron figurar 
que sugetaban aquella espécie de sandálias ai pie, si bien pudieron 
estar cubiertas con el sudário, que solo dejaba ver en la escultura la 
parte estrema de los pies desnuda y bien conservada. No lo eslaba 
tanto la punta de la nariz y algunos delalles de los ojos, porque segun 
me asseguro el arquitecto â que tanto he aludido, los sillares que 
cubrian aquella sepultura se habian rehundido algo. especialmente el 
que se encontraba sobre el roslro de piedra. habiendo venido à en- 
contrar en la parte saliente de la nariz su punlo de apoyo por muchos 
anos y aun por siglos. 

Dos cosas se notan en la tapa de este sarcófago, la una que sobre 
ella ha venido el escultor marcando desde los hombros las ondulacio- 
nes dei cuerpo, los contornos de los muslos y las lineas de las pier- 
nas, representando un cadáver envuelto en un sudário y no una mo- 
mia liada con largas fajas, ocultando los brazos y manos y dando ai 
cuerpo Ia rigidez de las lineas rectas, como sucede en la escultura dei ci- 
tado sarcófago de Esmunazar. La otra que sobre la cabeza, bajo los pies 
y cerca de cada hombro presenta la misma tapa una saliente bastante 
grande, (pie siendo en número de cualro debieron servir entonces como 
han servido alioia para levantar en alto la dicha cubierla, por médio de 
un aparejo. cuidando antes de sujetar eo tales salientes los estremos 



40 REVISTA AKCIIEOLOGICA 

de olras tantas cuerdas, para poderia izar mas facilmente. En el arca fu- 
nerária de Esmiinazar solo recuerdo una saliente á los pies de la cubierta. 

La descrita cajá de piedra estaba compuesla de dos partes, la in- 
ferior de una sola piedra. y la tapa de otra, coincidiendo ambas per- 
fectaniente en sus lineas estcrnas y niidicndo de largo dos metros 
quince cenlimelros, de ancho por la parte mayor noventa y seis cen- 
tímetros, de alto noventa y siete, coando el sarcófago estaba cubierto, 
siendo de sesenta y dos cenlimelros cuando no estaba cerrado. Den- 
tro dei arca descrita se hallaron reslos como de otra de madera, que 
se ha crcido luese de cedro, fragmentos como de vestidos; pêro am- 
bas cosas muy desechas, un tarro muy pequeno y roto de barro y dos 
clavos de cobre como de unos dos ceniimetros escasos y adernas el 
esqueleto dei difunto, que aun se conservaba, cuando lo vi, donde 
mismo fue encontrado y ai parecer en Ioda su inlegridad. Desgracia- 
damente en la dicha tumba no se hallaron monedas ni alhajas, que 
hubieran podido contribuir á fijar con alguna precision la época en 
que aquellos restos humanos, que por tantos siglos ha guardado en 
deposito, fueron soterrados en semejante sepulcro de marmol. 

En la sepultura, que segun me aseguraron seguia imediatamente 
á la antes descripta, formando parte de las ires descubiertas, no apa- 
reció arca alguna de piedra sino solo un esqueleto de hombre, reslos 
de armas de hierro y un largo collar de huesos, de los que aun que- 
dan vários pequenos canulos perforados, habiendo desaparecido otros. 

La tercera tumba, que como he dicho era menos profunda, tampoco 
encerraba sarcófago aíguno de piedra, sino solo el esqueleto de una 
mujer, con un collar que se componia de unas cuentas de oro, olras 
de ágata, alternando entre si y con vários adornos ai parecer de mar- 
fil cada Ires cuentas, teniendo el referido collar en la parte central 
una espécie de dije de oro redondo, dividido por nueve espécie de bojas 
que salen dei centro, la una de oro brunido, la otra de color azul como 
esmaltada y la tercera de oiro color indefinido. Tambien se descubrió 
en este sepulcro un anillo, que se asegura haberse encontrado en la 
falange de uno de los dedos dei esqueleto alli encerrado. Esta alliaja 
está muy bien hecha, consisliendo en un sim[)le aro de oro, cnyos es- 
Iremos sugetan una pequena piedra negra, que giia con su monlura 
ai rededor de dos pequenos pernos, engastados en el aro. La piedra 
representa por el lado convexo un escarabajo y por el opuesto, que 
es plano, una mujer de cuerpo entero y de peifil, que se dirije hacia la 
izquierda dei que mira; en la mano dereclia lleva un ramo y eu la opues- 
la un jarro. No es difícil conocer en esta [lequena joya una de tantas como 
impnrlaban d(!l oriente los negociantes íVmiícíos. para cambiarias por me- 
lales preciosos, sosleniendo y facilitando las ti'ansaciones mercanliles. 

(>omo qniera que se trata de un descubrimiento arqueológico de 
la mayor imporia ncia para nuesti'a historia anligua, no parecera fucra 
dei caso el íijar algunas fechas y vários detalles estradados dei perio- 



KKVISTA AUCIlKOLOCilCA 41 



dico de la localidad ai principio citado, rjuo acaso piiedan ser de in- 
teres para en adulaiilc, [)M(!sIu (pio ignoro que nadic eii Espana haya 
dedicado liasía alioia un estúdio suiio a tales Ijallazgos. 

La Palma de Cadiz, n. 27.488, dei 12 Marzo de 1887: 

«Mas antignedades. Ayei' fiieron inuclias las pei'sonas (jnc ('>luvie- 
ron examinando las d''s sepulturas de [)iedia encontradas el dia an- 
terior en la Punta de la Vaca. 

«Al ser recogidos los liuesos se encontro en uno de los dedos nn 
anillo, ai parecer de oro con piedra de ágata... Tambien liierou en- 
contradas dos anillas de forma especial y varias cuenlas de oro, como 
de liaber formado parte de un collar. . . y adcmas una medalla que 
correspondia ai collar. w 

De aqui se deduce que el 10 de Marzo de 1887 se enconlraron 
los dos sepulcros de piedra, el dei horabre con los restos de sus armas y 
el collar de hueso y el de la muger con su anillo y su collar de oro, de 
que acabo de ocuparme, y que antes de diclio dia se liabiam bailado 
otras antignedades, que no be logrado colegir cuales fueian, por no 
haber podido obtener el número dei periódico que de ellas se ocupaba. 

La Palma de Cadiz, n. 27.501, dei 1.° de Mayo de 1887 : 
«Inscripciones romanas. Se ban encontrado dos en los desmontes 
de los terrenos contiguos ai sitio de la Esposicion. Una es de una 
muger llamada Salvia. . . La otra es una inscripcion mas estensa, se 
halla escrita en. . . latin y en. . . verso.» 

De donde se colige que las lápidas sepulcrales de Salvia y de los 
ninos Festiva y Smlal se descubiieron dei 21) ai 'M) de abril de 1887, 
cerca dei lugar donde se encontraron los sepulcros de piedra; pêro 
no en el mismo sitio, conforme lo bemos ya dicho. 

La Palma de Cadiz, n. 27.531. dei 31 Mayo de 1887: 
«Hallazgo curioso, En las escabaciones que se estan praticando en 
la Punta de la Vaca cerca dei Casucbo que en algun tiempo fue ven- 
torrillo y que estan derrivando y acabando de desmontar, se ha 
encontrado ayer una sepultura toda de marmol blanco en muy buen 
estado de conservacion de dos metros de largo por uno de an- 
cho, en cuya tapa tambien de marmol aparece una figura hecha a 
cincel, teniendo una mano sobre el pecho y la otra estendida... Se 
han pueslo guardas para evitar las imprudências de los curiosos, 
cercándolo de una enipalizada, dejando para hoy su apertura.» 

El sarcófago, pues, de que ya be hablado se encontro el 30 de mayo 
de 1887, es decir á los odienta y dos dias — cerca de Ires meses — 
des[)ues que los ntios dos sepulcros do piedra de que tambien me he 
ocupado, y que resultaron formando con iu\ae\ una misma conslruccion 
y unidos entre si por los muros de sillares de que se componian. 



42 UE VISTA ARCHEOLOGICA 



La Pahm de Cadiz, n. 27.5^2, dei 1." de Jiinio de 1887: 

«Sepulcro. Segiin nos lian asegurado en la lapa dei sepulcro de 
marniol, que aun no se ha abierto, liay una gran figura de lamafio 
natural en relieve, que tiene. . . la mano izquierda sobre el pecho con 
una llor y la mano derecha estendida. No la hemos visto y nosotros 
solo nos atenemos á informes de personas verídicas. 

«Inscripcion. Una lápida sepulcral recienlemenle se ha encontrado, 
que no hemos visto lampoco; pêro segun nos refieren dice: adorIS- 
ANNLXII-HS-C-S-H-S » (f^ic). 

No he visto esta piedra entre las encontradas en la Necrópolis 
romana gaderitana, cuya transcripcion se conoce que está deplorable- 
mente hecha por la foima exótica dei nombre dei inhumado y por los 
triviales errores de la conocidíssima fórmula final. 

Lu Palma de Cadiz, n. 27.533, dcl 2 de Junio de 1887 : 

«Se ha descubierto una tumba marmórea en perfecto estado de 
conservacion en el derribo de un edifício ai sitio Uamado antiguamente 
Pnnfa de las Vacas y hoy Punia de la Vaca. Es como de dos metros 
de longitud. Sobre la tapa — de marmol blanco tambien como el sc- 
l)ulcro — hay una figura yacenie con la cabeza bacia la parte dei 
Oeste, cual si mirase á la de Levante. Eslá con la misma orientacion 
que dos sepulcros aiitiguos descnbiartos ha unos dos meses... Den- 
tro dei sepulcro se hallaron pequenos fragmentos de una cajá de ce- 
dro, en que debió estar encerrado el cadáver. Los huesos son como 
de una persona de sesenta anos, segun la opinion de dos distinguidos 
profesores de medicina. No babia dentro de la tumba ni de la cajá 
objecto alguno, que acompanase aquellos restos, salvo un deteriorado 
basilo de barro, que debia conlener perfumes... 

«En los terrenos de la Esposicion. En la manann de ayer con una 
Iluvia bastante inerte se procedió á levantar la lapa dei sepulcro de 
marmol descubierto en los terrenos de Ia Esposicion... Despues de 
levantada la tapa se estuvo recogiendo lodos los huesos con suma mi- 
nuciosidad, siendo encerrados en una cajá construída aí efeclo.. . se 
encontraron dos pequenos clavos de cobre.» 

La apertura dei sarcófago se verifico pnes el 1.° de Junio de 1887 
ciiando aun no bacia dos dias de su descnbrimiento. Si no se cono- 
ciera la manera atropellada con que se confecciona cierto género de 
periódicos, Mamaria la atcncion qne en el mismo número de la lan 
cilada publicacion diária de Cadiz se diga en la tercera columna de 
la priínera plana que se halló dentro dei sarcófago solo un deteriorado 
vasilo de barro y en Ia segunda cohunna de la tercera plana qne uni- 
camente se encontraron dos pequeíws clavos de cobre, de los que no se 
habló antes, como ahora nada se dice de ningun objeto de cerâmica, 
y eso que la aludida seginida nota parece esti-aciada dei acta de 
apertura dei arca de marmol. Conforme he dejado indicado y segun 



KEVISTA ARCHEOLOGICA 43 



mc reitero d arquileclo director de todos aqiiellos trabajos, con 
los restos dei iiiliinnado eri el sarcófaga) se encoiilraroti dos pequenos 
ciavtjs de cobre y uii tarrito de barro algo roto. (^oino aquellos no 
eran bastantes para armar la cajá de cedro que segun se indica de- 
bió contener imediatamente el cadáver, es de suponer que algunos 
oiros se perdiesen con el polvo á que se liabian reducido ia madera 
y los vestidos dei difunto. 

La Palma de Cadiz, n. 27.534, dei 3 de Junio de 1887: 
«Sepulcro. Se ha bailado uno en la Punta de la Vaca. No es de 
importância. Estaba forrado de barras gruesas de barro cocido; los 
huesos se encontraban en malisimo estado. No ha parecido inscripcion 
alguna.» 

De este sepulcro nadie me dió noticias, cuando visite el lugar de 
los descubrimientos, apesar de la rareza, para mi desconocida, de es- 
tar forrado de <j mesas barras de barro cocido. 

Fijados los antecedentes que precedeu con toda esactitud posible 
resta determinar á que periodo dei arte antiguo corresponde el sar- 
cófago de Cadiz. Careciendo de todo epígrafe que pudiera determinar 
su fecha, es fuerza proceder à la comparacion con su similar de Sayda 
y con otros de igual procedência y tambien anlropoides, aunque sin 
leyendas, conservados igualmente en el Louvre. prescindiendo de las 
Gajas de iMomias egipcias de que se ven repetidos egemplares en los 
Museos de Itália, de Áustria, de Alemania y de Francia. 

El ilustre duque de Luynes ha publiccdo hace mas de 30 anos una 
erudita Memoria sobre el sarcófago ij la inscripcion funerária de Es- 
munazar reij de Sidon, monumento que habia adquirido y destinado 
ai antes citado Museo dei Louvre *. Describiéudolo dice que es de 
basalto negro... «de esa forma peculiar á las cajás de momias, es 
decir oblongo, como un cuerpo envuelto hasta el cuello con un grueso 
bendage, dejando solo ai descubierto la cabeza, esculpida con su an- 
cho tocado, su barba trenzada y recta, llevando un rico y ancho coUar 
en relieve á cada una de cuyas estremidades se encuentra la cabeza 
de un gavilan sagrado, como se ven con frequência en el cuello de 
las momias egipcias. El caracter de la tapa de este ataud y su forma 
general, ancho en proporcion de su longitud y de un grueso conside- 
rable, lo asemejan singularmente á los que se encuentran en Egyplo, 
y cuyo uso fue adoptado lo mas tarde bajo la dinastia decima nona. 
Pêro en lugar de estar adornado de geroglilicos lleva este sarcófago... 
en casi toda su cubierta una inscripcion en veinle y dos renglones es- 
crita en caracteres feniciosos gravados en hueco, perfelamente con- 



1 Luynes, Mémoire sur íe sarcophage et Vinscriptioii funeraire dEsmunezar roi 
de Sidon. Prefacc, vi. 



44 RKVISTA ARCHEOLOGICA 

servados y tanto mas bellos ciianto que las letras, que tienen una 
forma análoga, apareceu cuidadosamente trazadas para no ser con- 
íundidas. . . Las dimensiones dei alaud sou de dos metros cuarenta y 
cinco centimetros i)or uu metro cuarenta centimetros.» ' 

Respeclo la íecha eu que debió ser esculpida la cubierla de este 
monumento sepulcral, despues de examinar el sábio duque el estilo de 
la inscripcion '^, su paleografia y sus giros gramaticales ^ pasa á con- 
siderar los caracteres de la escultura, indicando que para determinar 
la época á que peilenecia «el documento mas cierto era Ia forma dei 
sarcófago que fue la misma adoptada eu Egipto desde el íinal de la 
dinastia decima nona basta la vigésima sesta *,» anadiendo el hecbo 
capital que «ires sarcófagos, encontrados eu las imediacioues de las 
grandes pirâmides y que babian conteuido las momias de personas de 
la familia de Amasis, eian exactamente dei mismo estilo y de la misma 
forma que el de Esmunazar, cuya idenlidad no era casual, por mas 
que los fenícios no imitarau sino dentro de ciertos limites los usos, 
la escultura y los rilos de los Egípcios contemporâneos», concluyendo 
por íijar en la segunda mitad dei siglo sesto antes de J. C. la fecba 
de la tumba dei rey de Sidon ^. 

Los redactores dei Cuerpo de inscripciones semiticas, ai discurrir 
sobre la fecba probable de la tumba de Esmunazar, sientan como 
acceplado ai presente por los egipliólogos que el sarcófago de este rey 
de Sidon fue labrado en Egipto en piedra dei pais, de donde se llevó 
á la dicba capital de la Fenicia, no faltando quien conjecture que la 
tapa en la parte que corresponde ai pecho tuvo uu tiempo gra- 
vada alguna leyenda geroglifica. Alirman en seguida que á no dudarlo 
la forma y el género de escultura de este sepulcro son de uu periodo 
no muy anterior á Alejandro Magno, es decir de los íines dei quinto 
á principies dei cuarto siglo antes de J. C, anadiendo que no seria 
de estrafiar que algiin dia se probara que Esmunazar fue posterior a 
Alejandro el grande ^. En el mismo libro se hace referencia à otros 
sarcófagos ávOcr,)7:cct^£í; bailados tambien en la Fenicia y conservados 
igualmente eu el mismo IMuseo dei Louvre. sin inscripcion alguna ^, y 
de uno encontiado eu la uecropolis, donde apareció el tau citado de 
Esmunazar, en el que la estatua yacente re[)resentando ai difunlo le- 
nia esculpido los brazos, siendo de fecba antiquisima *. 

Distinguidos arqueólogos esploradores de aquellas lejanas regiones 



1 Ibidem., ]). l \ 2. 

2 IJiidnii, \\. í)7. 

^ Ihhlem, p. GOyCI. 
•'' Ihiflrm, \). (52. 
ã Ibidem, p. ()2. 
G C.I.S.,\.\s. 20. 

7 C./..S.,i,p. 8. 

8 C./.S.,i,p. 8. 



REVISTA AliCUEOLOGICA 45 

lian pueslo de maiiiíieslo que los mas anliguos fenícios sepullaban sus 
cadaveies eii sarcófagos aiiiropoidcs, encerraiidolos en liipogros de mas 
6 menos eslension, de los (|ue se encuenlr.-in icpelidos rtíslos en las 
costas de ia Siria '. One las antifiuisinias cuidades de la Fenícia y los 
mas viejos nionunientos de aijiiel puel)lo eslaban conslniidos á la ma- 
nera ciclopea con inmensas i)iedias sin iabrar, que se Irocaron luego 
por grandisimos sillares Irabajados á escuadia -. Que los arquitectos 
fenícios no iiicieron olra cosa que copiar la manera de construir de 
los b^gi[)cios, levantando pesados edifícios aunque no tan colosalcs como 
los de las comarcas, que fecunda el Nilo ^ y por último que los es- 
cultores de la Fenícia crearon un arte híbrido, que á veces lenia los 
caracteres dei egípcio \ como en vários monumentos de liiblos, y otras 
los dei Asirío, como en las últimas estatuas descubierlas en Chipre '•'. 

Cuíuido se considera con detencion los hábitos y la manera de ser 
de esos mismos Fenícios, á qnienes cupo el cumplir una mision, puede 
decirse providencial, en el mundo anlíguo, respecto de las diversas 
razas que moraban en las estensas playas mediterrâneas, se comprende 
muy luego como siendo esencíalmenle raarinos y negociantes, ni la 
literatura ni las artes los preocupasen gran cosa, sino en tanto que 
podian contribuir á facílitarles los médios de hacer mas productivo 
su comercio. Por ello tomaron de los Egípcios el alfabeto hierálico, 
mas cómodo que el geroglííico y que el cuneiíbrme para redaclar las 
transacciones mercantíles, asi como tambien adoptaron la manera de 
edificar igualmente de los Egípcios, que prestaba estremada seguridad 
y gran solidez á los almacenes, donde guardaban los efectos que iban 
á espertar y los que traian de retorno. Por semejante motivo no se 
cuídarou de crearse un arte escultural propio y peculiar de ellos 
mismos, sino que encontraron mas cómodo y hasta práctico el imitar 
los modelos de sus vecínos dei Egipto y de la Asiria, modificándolos 
á su talante, porque no fueron realmente artistas de vocaciou, sino 
fabricantes de objectos de arte para dentro y fnera de su território ^. 

Los cartagineses se mostraron aun menos dados ai estúdio de la 
escultura, ni de la arquitectura, asi es que ni erigíeron estatuas, que 
fueran tolerables, ni levantaron edifícios de algnna importância, ni 
aun siquiera snpieron acufiar las monedas mas bellas de que se ser- 
vieron hasta que los griegos no le revelaron como se esculpian aqnel- 
las, de que modo se construian estos y porque procedimentos se ba- 
tian las piezas amouedadas, con tipos y símbolos tan esbeltos, en tanto 



1 De Voguó, Vuyaiie eu Orieut. Paris, l8oo. p. i:\, 29 y 33. 

2 Ibidem, p. 39 á 4o. 
^ Ibidem, p. 53. 

^ C. /. S., I, p. -2 y tab i. 

5 Bayet, Precis d'histoire de Vart. Paris, 1886, p. 38; Vogue, Voyage en Qrient. 
p. 55 á 59. 

•• Clerinont-Ganneau, L'magerie phénicienne. Paris, 1880. 



REVISTA ARCHEOLOGICA 



que la tal gente púnica, apenas parando mientes en semejantes pri- 
mores, solo atendia á estender sii comercio por tierras y por mares, 
sosteniendo dilatadas y sangrientas guerras, por conservar la pose- 
sion de las regiones, cuyas riquezas esplotaban. 

Ahora bien, volviendo á examinar detenidamente el sarcófago ga- 
deritano, es preciso ante todo tener en cuenta que la estatua yacenle 
esculpida á lo largo de su tapa no ap irece.envuelta en anchas fajas 
de tela, que la ciueran, de modo que los pies. Ias manos y los bra- 
zos quedasen ocultos, dando á los contornos de la figura la dureza 
de las lineas rectas, como á los cadáveres embalzamados y transfor- 
mados en momias por el antiguo procedimento egipcio. Por el con- 
trario la diclia escultura, ofrece á la vista, Irazadas en el marmol las 
suaves ondulaciones de las curvas dei cuerpo humano, que aparece 
velado por una túnica ligera, que deja conocer los contornos, y pre- 
senta ai descubierto parte de los brazos, las manos y el estremo de 
los pies, lo cual se aparta de los conocidos cânones técnicos de la es- 
tatuária sepulcral dei Egipto. Ni menos se asemeja esta obra de arte 
à las esculturas asirias, en las que ademas de ia pesadez dei traje, 
aparece constantemente un amaneramiento tipico en el rizado de la 
cabellera y de la barba que cae simetricamente en compactos lirabu- 
zones sobre el cuello la una y sobre el pecho la otra, formando un 
conjunto antieslélico en fuerza de ser tan armònico. Mas bien trae á 
la memoria el personòge púnico que describe Silio Itálico en el tem- 
plo gaditano de Hercules con túnica de Uno, locado egipcio, descefíido, 
y desnudos los pies, si bien no aparece con el pelo cortado *, sino cui- 
dadosamente arreglado sobre la frente, reposando suavemente la barba 
sobre el pecho, no à la manera que acostumbraban á egecutarlo los 
artistas de los Pharaones ni lo de los monarcas Ninivitas, sino tal 
como los griegos solian modelar en la piedra los tipos que escultura- 
ban, aunque personificasen en ellos algunos de sus heroes en los mo- 
mentos dei mas empenado combate. 

A este propósito es preciso no perder de vista que fueron grava- 
dores griegos los que en la Sicilia y en la Hispânia modelaron y acu- 
naron las monedas de Cartago y los que abrieron los troqueles para 
batir el mas antiguo monedaje púnico de Gadir, hacia el ultimo ter- 
cio dei siglo tercero anterior á J. C. como á las claras lo revelan la 
csbeltez y la elegância de las divinidades que en ellas aparecen es- 
culpidas ^, con el perfil perfectamente helénico. 

Mucho antes de esta época y â causa de las Inchas de los africa- 
nos contra los griegos comenzaron á estar en contacto Cartago, Sira- 
cusa y Gadir, tanto mas cuanto que no bien perdió Tyro su autono- 



1 Sil. Ital., Punic. in. v. 2't á 28. 

2 Miiller, Nnmismatique de Vuncicnne Afrique, ii, p. 107; Berlanga, Los Bromes 
de Lascuta Bonanza y Aljustrel, p. 388. 



REVISTA ARCllEOLOGICA 47 

mia en 574 antes de J. C. los Turdelaiios, lai vez á exilacion dei ele- 
iiieiiU) helénico que á juzgar por lo (jue dice Slrabon ' de liempo alras 
ocupaba eslas re{,'iones, uiovieron cruda guerra á los de (iadir, (juie- 
nes, cuando viciou agotados lodos los elemenlos de defensa, con que 
conlabau, acudierou eu demanda de auxilio á (^arlago, que se lo olorgó 
pronlanienle, mandando en su soccorro un cuerpo de Iropas, que 
puso lermino â la lucba empenada, acaso ai lerminar el mismo siglo 
seslo, porque reliere Oiodoro Siculo '^ que anles de mediado el se- 
guienle, en iOO anles de J. C. invadió Ilamilcar I la Sicilia ai íVenle 
de un ejercilo carlagines, de que lormaba parle ima division com- 
puesla de Iberos, reclulados en la Hispânia. Por esle liempo es muy 
posible que se escullurase el sarcófago gaderitano, segun opina el dis- 
tinguido profesor Uiibner, lan profundo conocedor dei arle clasico, 
quien eslima que aquella escultura, egeculada en el mas puro estilo 
arcaico, puede ser como dei quinto siglo antes de J. C. ^. Aceplada esta 
conjectura lo primero que se ocurre es la duda sobre la nacionalidad 
dei que labró la lapa de aquel sepulcro, que desde luego puede afir- 
marse no fue ibero ni púnico, porque ni en lan remoto liempo ni 
muclio despues moslraron aqucllos ni estos grandes aptitudes artísti- 
cas à juzgar por las toscas piezas monelales de las prostreras emi- 
siones de Malaca, vaciadas en moldes abierlos por los indígenas ai 
mediar el primer siglo anterior à J. G. *, y por las losquisimas esteias 
votivas descubierlas en el recinto de la anligua Cartago, que acusan 
un arle lan rudimenlario como inmovilizado''. Como quiera que re- 
fiere Heródoto*', que seis siglos antes de J. C. los Plioceos liabian 
venido á visitar el território de Tarteso, bien pudo ser griego el es- 
cultor que dió la vida que tiene semejanle marmol, tanto mas cuanto 
que la manera como eslan representadas aquellas facciones y sobre 
todo la barba traen á la memoria numerosas estatuas conservadas en 
los mas importantes Museos de Europa, debidos ai cincel helénico. 
Pêro nada se opoue lampoco á suponer que el artifice fuera venido 
el inhumado, mas que á los escasos restos que se conocen dei arte 
de las costas de la Siria, y como quiera que la cabeza que representa 
fenicio, se asemeja á los dei griego, debe suponerse que quien la es- 
culpió debió haber frecuentado los lalleres de los escultores de la 
Grécia, estudiando sus modelos y procurando imitarlos. 

Surge luego otra segunda duda y es la de quién pudo ser el pe- 
sonage con tanto cuidado encerrado en una cajá de cedro primero, 
metido luego en otra de marmol y colocado por ultimo dentro de un 



1 Strab., III, IV 3. 

2 Diod. Sicul., 11, 1. 

3 Woclwischrifl litr Klasaiche Philologie. Berlin, 1887. 
* Berloiiíja, Iludem, p. 390. 

^ C. I. S.. I, lai). xLiii y siguientes. 
6 Herod., i., 163 à 165. 



48 REVISTA ARCHEOLOGICA 

sólido sepulcro de piedra, y que tanto era dable que fuese un opu- 
lento negociante tirio, como \m egrégio prócer cartaginês. El ilustrado 
profesor Iliibner se decide por lo primero mientras por mi parte me 
inclino mas á lo segundo inducido por la corona de laurel, que lauto 
cuadra con ia vida liazanosa de un guerrero púnico, repugnando á 
los hábitos tranquilos de un comerciante fenicio. Desgraciadamente 
la falta de toda Icyenda sepulcral impide que se paeda conocer cual de 
los dos está eu lo cierto. 

La tumba imediata cá la eu que se ba descubierto el sarcófago de 
marmol, de que acabo de bablar, á juzgar por los restos de armas 
de bierro y mas aun por el collar de huesos encontrado en ella y que 
bubo de usarse como adorno, acaso estuviera ocupada por el pode- 
roso gefe de alguna banda ibera, aliada de los cartagineses. 

La tercera sepullui'a, donde aparecieron el anillo, de procedência 
conocidamente asiática, y el collar con cuentas de oro y de ágata, aten- 
dido el esqueleto en ella conservado, debió haber guardado los restos 
de la muger dei gefe ibero antes aludido, unidos ambos con grandes 
vínculos de afecto ai prócer fenicio ó púnico, encerrado en el arca 
antropoidc de marmol blanco. Asi se esplica bien que solo se hayan 
encontrado estos trcs sepulcros reunidos, abiertos en la piedra caliza 
de aquella colina aislada, lioy desaparecida, y cubiertos con el mismo 
monliculo de arcilla impermeable. 

Por los descubrimientos bechos parece probable que á la distan- 
cia de treinta melros de estos sepulcros, en direccion á la plaza y 
donde aparecieron las lápidas sepulcrales de los ninos de que antes 
me he ocupado, deba enconlrarse la necrópolis romana gaderitana, 
sin que pueda conjelurarse que estuviesse tambien por alli la fenicia, 
ni la púnica, solo por el sarcófago encontrado; porque como se ha re- 
pelido, hallabase este aislado con los oiros dos delas Iribules indígenas, 
en un silio elevado y á mas altura que el suelo actual, sin que ai des- 
montar y allanar el terreno à Ia redonda se hubiese dado con alguna 
otra cosa análoga sino parecida. 

Del sarcófago gaderilano se ha sacado un modelo en lamano re- 
ducido, dei que se ha hecho un molde, sobre el que se han vaciado en 
yeso vários ejemplares, uno de los cuales he debido á la amabilidad 
dei actual Presidente de la Dipulacion provincial de Cadiz, á quien 
agradeci infinito obsequio tau inesperado como espontâneo. Siento 
vivamente que nada me autorize para rogarle que ordenase bacer 
una cromolitografia, que represente el sarcófago y los objetos en- 
contrados en aquellas Ires tumbas, es decir el pequeno tarro roto de 
barro y los dos clavos de bronce, los restos de armas y el collar de 
hufíso, el anillo // el collar de oro y ágata, con escrupulosa precision 
copiados y marcando sus verdaderas dimensiones. Asi como que hiciera 
publicar una descripcion detallada dei hallazgo, con planos dei ter- 
reno, croquis de la posicion esacta de las três tumbas, las fechas íi- 



líEVISTA AUCIIEOLOGICA 49 

jas en quo se cnconlriirnn, la indic.icion de los materiales y de la 
manera como eslabaii coiislruidas las sL'[)ulluras, coii la corres[)on- 
diente folograíia de los Ires craneos ; lodo ello redaclado por el ar- 
quitecto (jiiti dirigiu las escabaciones, qiie á sii competência técnica 
reúne el tener los datos Fiecusarios ai efecto. De ese mddo I(js an- 
tropólogos, como ya ha notado lamhien el professor lliibner, y los ar- 
queólogos clásicos podrian determinar con precision los caracteres 
craíiianos de las razas de los inhumados y clasiíicar con esactitud la 
cerâmica, las armas y las joyas en semej antes tumbas descubiertas. 
La rologialia (pie se ha sacado dei sarcófago dista mucho de cor- 
responder á la importância dei monumento, siendo por otra [)arte im- 
prescindible olvidar por com[)leto los primeros estúdios que un eru- 
dito gaditano ha consagrado ^ á la poética inscripcion dei sepulcro de 
los dos nihos. que fueron hermanos. Festiva y Sodal, que el delicado 
humanista califica de csvrilo cu mal latiu // pésimns versos, asi como 
los (jue ha dedicado á ilustrar el sarcófago, ciiya estatua yacente ase- 
gura que es la efígie de un arúspice gaditano, ahadiendo que todo el 
caracter de la cabeza pertenece ai arte romano, y concluyendo con la 
desconsoladora frase de que no puede haber duda vi opiuion en el asun- 
to; aí menos con razoues arqueológicas, que verdaderameule lo sean, 
pnes cuantas personas inteligfutes e.vamiuen el sepulcro diran lo mismo 
que ha dicho tan benévolo como modesto critico. 

Málaga, 18 Diciembre 1887. 

Dr. Berlanga. 



Em?,.A.T.A. 



Vá^. 47 la linea 32 que empieza — el iiilmaiado — debo oslar domlc la 33 que co- 
mienza — de las costas — y esta pasar á ocupar el lugar de aquella, por haberse tro- 
cado inadvertidamente en la iniposicion. 



1 La Palma de Cadiz, de 1." de Mayo, 2 y 3 de Jiinio de 1887. 
Rev. Arch. e Hist., I, N.° 4— Abril 1888. 



50 REVISTA ARCHEOLOGICA 



UMA INSCRIPÇÃO LUSO-ROMANA DE PANOIAS 



Nnma excursão que fiz em Tras-os-Montes em Janeiro d'esle anno, 
encontrei nas celebres ruinas de Panoias, perlo de Villa Real, uma 
pedra de granito, onde depois de algum traballio consegui ler a se- 
guinte inscripção funerária, que julgo ainda inédita : 



d M S [-0(í75)] Mianibiis) S{acriim). 

/LAVIO \_F\lavio Albino Mcixvmina vxor 
ALBINO pi[i\ssima... 
MAXV 
MINA 

VXORPI Consagração aos deuses dos 

I 3SIMA mortos. A memoria de Flávio 
Albino erigiu este monumento 
sua affectuosissima mulher Maximina. 



A pedra tem de comprimento uns 5 palmos e 2 poUegadas, e de lar- 
gura 1 palmo e 2 pollegadas, e eslá aífeiçoada para se poder enterrar 
a pino até certa altura, tí possível que a baixo da inscripção transcripla 
houvesse ainda algumas letras, mas não as pude ler, nem lambem os 
vestígios me pareceram claros. A pedra havia apparecido ha pouco ao 
lavrarem ou cavarem um campo. 

O texto não offerece nada digno de nota senão a forma Maxumina 
por Maximina. Com quanto seja a primeira vez que tal forma appa- 
rece numa inscripção da Lusitânia, todavia Iliibner traz como da pe- 
nínsula Maxumiis e Maxsumus, Maxsuma e Maxuma, e mesmo Ma- 
xumimist, exemplos perfeitamente comparáveis a Septnmns e Opíumus 
lambem das inscripções peninsulares. São conhecidos exemplos seme- 
lhantes noutros pontos do dominio do latim. 

Ao meu presado e intelligente amigo o dr. Alexandre Cabral, muito 
digno governador civil de Villa Ueal, pedi a graça de mandar recolher 
aquelle pequeno monumento em local onde se não extravie. 

Lisboa, 22—3—88. 

J. Lkitk de Vasconcellos. 



REVISTA ARCHEOLOGICA 51 



SEPULTURA DE D. ORRACA PAES 
ABBADESSA DE ODIVELLAS 

Fundado em 120.*; o Mosteiro de Odivellas, foi nomeada sua pri- 
meira abbadossa D. Klvira Fernandes, que era, ao que parece, freira 
do convento de S. Bento dEvora, e cuja assignatura se encontra nas 
constituições e carta de dotação do mosteiro, que teem a data de 127 
de fevereiro do apontado anno. \ esta seguiu-se a abbadessa D. Con- 
stança Lourenço, religiosa de Arouca, a qual era (ilha de D. Lourenço 
Soares de Valladares e de sua mulher U. Sancha Nunes de Chacim, 
da melhor nobreza de Portugal e Castella. Parece que nestes princí- 
pios do mosteiro houve ainda outra abbadessa, também do nome de 
Constança, pertencente á familia de Porlocarreiro e dos Gedeãos, con- 
forme diz o Livro das Liitharjens '. Destas Ires abbadessas nada mais 
se sabe. "O seu governo occupou o lapso de tempo que decorreu desde 
27 de fevereiro de 1:295 até agosto de LHO, como adiante se verá. 

A quarta abbadessa de Odivellas (se é verdadeira a asserção do 
Livro das Linhagens, quanto à segunda D. Constança) foi D. Órraca 
Paes, filha de Payo de Molles Corrêa e de sua mulher, a qual era fi- 
lha de Martim Copeiro, que foi copeiro de D. Alfonso III. Por seu pae 
descendia de D. Fstevam Pires de Molles e de D. Orraca Pires Cor- 
rêa. Teve D. Orraca Paes três irmãs. De duas, cujos nomes se igno- 
ram, sabe-se apenas que foram abbadessas: uma do mosteiro de Vai- 
rão; a segunda do de Yilla-Cova. A outra, por nome D. Dordia Paes, 
foi commendadeira de Santos da ordem de Santiago. «No anno de 
1309. (diz fr. Francisco Brandão) sendo Comédadeira do mosteiro de 
Santos D. Teresa Annes Corrêa, i!t Abbadessa de Loruão D. Cõstança 
Soares, se íizerão as partilhas entre D. Dordia freira de Sãtos, d sua 
irmãa D. Orraca mõja de Loruão, a escriptura das quaes se cõserua 
no cartório desta casa. Tinhaõ parentesco pelos Corrèas cõ D. Teresa, 
á a este respeito tomou o habito em Santos D. Dordia, A- foi depois 
Comendadeira dos annos de mil trezètos à- vinte d- hum adiante».^ 
Como se vê, D. Orraca Paes era religiosa do antigo mosteiro de Lor- 
vão; dalli passou com outras companheiras para o de Odivellas. Dos 
actos da vida de D. Orraca, pouco se sabe; parece ter sido mulher 
virtuosa, e que procurou reformar os costumes do convento que regia. 
É isso que se collige d'um instrumento do anno de 1319, legalisado 
pelo tabellião de Lisboa, João Gonsalves. Nesse instrumento obri- 



1 Yej. Mon. Liisit. P. v, L. xvii, c. 23. 

2 Ibid. 



52 REVISTA ARCHEOLOGICA 



gam-se as religios.is a guardar perpetua e voluntária clausura, sem 
alheio conslraiii^iuíeiílo, liiaiido todavia á abl)adessa a faculdade de 
conceder entrada no niosteiío a algumas damas de iiualidade. Alii 
lambem declaravam as monjas: «prcimelemos que nunca sayamos 
deste moesleiro, nem liremos o pce pela porta da Igreja, nem por 
outra poria, nem por outro lugar tora do moesteiri)». Accrescentavam 
porÍMii: «E pedimos por mercee ao mui nobre senhor dom denis pella 
graça de deus Uey de porlugal, d- do algarve, (jue fondou c\.- fez, ti- 
doulou este moesleiro por amor de diMis, c\: por sa alma, d- abo ab- 
bade de alcobaça, que lie nosso visitador, (]ue elles, nem os que de- 
pôs delles veerem. que pois de nosas vontades prouietemos, & ou- 
lorgamos todas eslas cousas, pella maneira íjue diclo he, d- manteello 
assi peia sempre, per obra que elles nunca nos ponham grade, nem 
roda, nem outro mayor encerramento de parede, nem de madeiía, 
nem doutra cousa por que leixemos de ir aa egreja, hu hade eslar o 
moimento do dicto senhor Rei, pêra fazermos sobr el nosas oraçoões 
e rogar a deus por eile». * 

As demais noticias, que temos de D. Ori-nca Paes, são-nos mini- 
strada pelo seu epilaphio. de que passo a occupar-me. 

Exisle ainda na casa do (Capitulo do mosteiro de Odivellas a lapide 
sepulchral de D. Orraca. Ultimamente as obras fei'as no edifício, para 
adaptal-o a uma nova corporação, transformaram em certo modo 
aquella casa, fazendo desapparecer a porta de entrada que abria ao 
centro da sua ala occidental. Em frente dessa porta, hoje desappare- 
cida, na fileira de sepulturas do lado opposlo a ella, está a de D. Or- 
raca. A lapide mede 2'", 45 de comprimento por \,^^(i de largura, e 
tem de espessura media O'", 18. Vê-se nella representada em gravado 
a figura de D. Orraca, revestida de seu habito, segurando com a mão 
direita o báculo abbadessal, insignia do seu cargo, e tendo um livro 
na esquerda que se liie appoia no peito. O epitaphio occupa uma orla 
da pedra, numa facha de O'",06o de largo. 

A figura da abbadessa. que se pode considerar retrato, está per- 
feitamente traçada. O rosto indica uma certa belleza; a posição dos 
braços e das mãos é natural; as roupagens estão bem dispostas e de- 
lineadas, caindo com toda a naturalidade. Apenas a representação das 
mãos deixa muito a desejar: a que segura o bacculo está mal contor- 
nada, c a que sustenta o livro apresenta nm dedo indicador de ex- 
traordinário comprimento. 

A inscripção, que começa no angulo esquerdo superior da lapide, 
e vae acompanhando os quatro lados d'ella, como fica notado, diz o 
seguinte era lettras onciaes maiúsculas : 



í L. 11 da Eslremcuhira, foi. 582, no Arcli. Nac 



REVISTA ARCHEOLOGICA 53 

a a a c, , a a Efa 1378-p C. 1*40 

i—\i: :m jccc ;lxxviii [injvi;- x idik; i\ii:nsis ;M(AU)Tir: 

2 — OBIITi VENERAB[1L(IS):]1J(0MI)N[a];0RRA(:A ; P1£LA[GI(I) :• 
(sk) HEN]EME[r]E(N)S ; ABBATISA ; MON{ASTERII) ; DE ; 

ODIVELL(IS) ; Q(VAE) Q(V)ID 
(i/c)3 — E(M) : ABATISA ; ABATISAVIT : XXIII : A[NNIS] \ ET \ SE 

(5íc)4— PTEN ; ME(N)SiB(vs): IN DITO ;mon(ASterio) íeCtJ; i[acet ; 
Hi]c ;SEPVLTA ;a[n]i[m]a ;[ei(VS)J ; R(EQviescat) ;• 

IN : P(ACE) ; AME(N). 

Na era de iSyS, no dia dezeseis de março, falleceu a 
venerável Dona Órraca Paes, benemérita ahbadessa do 
mosteiro de Odivellas; a qual abbadessa verdadeiramente 
como tal governou durante vinte e três annos e sete meses 
no dicto mosteiro, e jaz aqui sepultada. Descance em paz a 
sua alma. Assim seja. 

Na primeira linha, (lesapparei^eram completamenle as leltras íjiie 
havia enlro a dala do atino e a do mes. Não coniiiiuava alh a data do 
anno (que, nesse caso, seria lxx.viii) porque no que existe da pedra 
se não vè vestigio algum da parte inferior de I única lettra numeral 
que ahi podia existir: iinlandose pelo contrario o espaço divisório de 
palavras. Por outro lado. não estava alli parte da dala do dia, visto 
achar-se a dezena depois da unidade. Do (|ue resulta (jiie na parle 
mutilada da pedra houve a preposição in, de cujo emprego em casos 
idênticos se enconliam vários exemplos, que considero desnecessário 
indicar. 

Na segunda linha, tem ipiatro lacunas a insci-ipção; os pequenos 
fragmentos (jue restituí a seus lugares, andavam dispersos. Um. o de 
DN, encontrei-o debaixo da metade superior da lapide no logar cor- 
respondente ao bacculo; é sunplicissiina a restituição da plirase. O ou- 
tro, que tem em^^, foi encontrado embutido no pavimento do claustro 
a três passos da porta cilada, deslriiida hoje. Creio (pie não pode ha- 
ver dúvida (bem estudada a extensão da lacuna e altendido o sentido 
da inscripção) em que alli estava escripto bencmerens. 

Na terceira linha apparece o verbo abbatisave, de pouco vulgar 
emiirego. 

Falleceu. pois, D. Orraca Paes, segundo o testemunho do seu epi- 
taphio, a Ki de março do anno de Ciiiislo de 1340, havendo gover- 
nado o mosteiro durante vinte e três annos e sete meses; o que de- 
lej^mina bem a epocha da sua eleição para abbadessa, que assim deve 
ler-se eíTeiluado em melados de agosto de 1316, no dia 10, se a in- 
dicação sete meses é rigorosamente exacta. 

O epita[)hio de 1). Orraca é a mais antiga inscripção sepulchral do 
mosteiro de Odivellas, e sob lodos os pontos de vista a mais impor- 
tante de Iodas. 



54 REVISTA ARCHEOLOGICA 



Durante quatrocentos e vinte annos foi respeitada a sepultura de 
D. Orraca Paes. isto é, até ao anno de 1760. Mas nos vinte e nove 
que decorreram desde esta data até 178tt, por quatro vezes foi er- 
guida a campa, para sob ella se enterrarem outras tantas freiras. 

Em 1700, faliecendo a abbadessa D. Theresa de Macedo, as soro- 
res cistercienses intenderam dever sepultal-a sob a lapide que cobria 
as cinzas de D. Orraca, e mandaram embutir na parte inferior d'ella 
uma pequena lamina de mármore avermelhado, onde se gravou o se- 
guinte epitaphio : * 

Aqui ias a ??2ui7o relis,\osa imdre D. Teresa de Macedo, 
a.quem a natvre^a não aitara repartia pródiga e ficov vfana. 
Falleceo a i5 de ianeiro de lyõo. 

No livro dos óbitos do mosteiro diverge a data do dia, dizendo se 
ahi que «A KJ de jan."^'^ era de 1670 Faleceo iW." D. Theresa de Ma- 
cedo». Esta senhora, cujo nome complecto era D. Theresa Gerarda Mil- 
les de Macedo, professou com sua irmã D. Antónia no primeiro dia de 
janeiro de 1724. Eram filhas de Francisco Milles de Macedo e de D. 
Josepha Maria de Magalhães. Outras freiras houve em Odivellas per- 
tencentes á mesma familia. 

Passados oito annos outra religiosa alli foi sepultada, em 1708. 
Desta falarei adeante mais largamente. 

Dez annos depois, outra abbadessa foi enterrada na mesma sepul- 
tura. Foi D. Luiza Antónia de Sousa, filha de António Corrêa de Sousa 
e de D. Maria Rosa Ayres, a qual havia professado em 20 de março 
de 1710. O epitaphio foi gravado no alto da lapide, á esquerda da figu- 
ra de D. Orraca ; diz assim : 

Aqui ias a illustrissima e exccWenússlma senhora D. 
Liti-fa Antónia de Souja, abbadessa que foi deste real mos- 
teiro 4 annos 2 ine^^es 12 dias. Falleceo a 21 de ianeiro de 

Finalmente, passados onze annos, em 1789, foi inhumada naquella 
cova D. Luzia da Conceição, filha do tenente coronel Lourenço Cor- 
rêa Lisboa e de D. Maria dos Santos, natural da villa da Caxoeira, 
comarca da Bahia, a qual professou a 7 de outubro de 1730. Diz o 
epitaphio, que está gravado, ao lado esquerdo da figura e no sentido 
do comprimento da lapide : 



1 Não se transcreve em fnc-simile typographico este epitaphio, nem os dois seguin- 
tes, por se encontrarem todos exactamente reproduzidos na est. iv. 



REVISTA ARCHEOLOGICA 55 

Aqvi ias a mui/o rclif^iozíT maávc D. Liijia da Concci- 
cam cxabbíióci^sa deste nioslciro. Aniov a Iodas com im\ternal 
caridade; vivco com singular exemplo de ^elo e de santidade, 
e nela moreo aos 23 de abril de /yAVy. 

Não concorda lambem a cla(a do dia indicado no epilaphio cora a 
que se encontra no assento do livro dos óbitos ; neste se lè : lAos 
Dois de Abril de mil sete centos oiitenta e noue, faleçeo a Heli(jiozisima 
M. e Snr.'' D. Luzia da Conceição,. .» 



Vou agora occupar-me, como promelli, da freira sepnllada em 1708 
sob a campa de D. Orraca Paes. Kssa freira cliamou-se U. Paula Tlie- 
reza da Silva, geralmente só conhecida pelo anlonomaslico de Madre 
Paula, e que foi a amante favorita d'el-rei L). João v. 

D. Paula Tliereza da Silva nasceu em Lisboa, aos 17 de junho de 
•1701, conforme consta do assento de baptismo. Este assento não é o 
primitivo, visto haverem ardido por occasião do terremoto alguns li- 
vros do cartório da freguezia de Santa Justa ; mas sim um assento 
feito em 17Gá por ordem do palriarcha, e em presença duma certi- 
dão passada no mosteiro de Odivellas. 

D. Paula leve por pães Adrião d" Almeida Paulo e D. Josepha da 
Silva e Sousa. 

Pela linha paterna, descendia d'um allemão, como se vè do seguinte 
quadro genealógico elaborado pelo sr. Visconde de Sanches de Baèna: 

«1 João Paulo Brit, natural da Allemanha. soldado da guarda es- 
trangeira, do Imperador Carlos v; e sob o titulo de Carlos ni rei de 
Hespanha. Era filho de João Brit. 

«Depois de obter a sua baixa ficou residindo em Lisboa, exercendo 
o oílicio de ourives. 

«Casou em Lisboa com Leonor d"Âlmeida, filha de Domingos Ur- 
selo, natural de Nápoles, de occupação embarcadiço, e de sua mulher 
Domingas Andrade Almeida. Teve 

«2 Adrião d'Almeida, que exerceu o oííicio de Ourives do Ouro, 
como tmha feito seu pai. 

«Teve o habito de Christo, quando era maior de 50 annos, como 
consta das habilitações em ordens, e livro 2 das mercês de El-Uei D. 
João Y. 

«Casou com Josefa da Silva, filha de Manuel Mendes. 

«Teve as duas filhas que se seguem : 

«i} D. Paula, freira, como já dissemos ha pouco, e 

«'t D. Leocadia Felícia de Assis de Almeida, a quem D. João v do- 
tou com cento e oitenta mil cruzados e três mil cruzados mais de juro 



56 UEVIisTA AKCIIEOLOGICA 

Beal em cinco vidas, para casar com certo fidalgo como de facto casou 
ele. etc. etc. e teve numerosa descendência.»* 

D. Paula tomou a mantilha de professa em Odivellas no dia 31 de 
janeiro de 1717, e professou a 22 de fevereiro do anuo de 1718. 

Não é d'este logar o partioularisar a vida da Madre Paula; direi 
somente de passagem que foi ella quem incutiu em D. João v a mais 
duradora paixão. Ainda ha poucos mezes (setembro de 1887) se viam 
no mosteiro de Odivellas restos da antiga casa da célebre freira. 

D. Paula falleceu em 1708, aos 22 de abril; e segundo o respe- 
ctivo livro dos óbitos foi enterrada no Capitulo, onde procurei a sua 
sepultura. Foi fadigosa a busca, e quasi desesperava jú de a encon- 
trar, quando ao tirar um calco complecto da lapide sepulchral de D. 
Orraca attenlei mais nalguns vestígios de lettras, que já notara entre 
as duas primeiras linhas do epitaphio de D. Luzia da Conceição, e des- 
cobri finalmente com grande satisfação o que até áquella data muitos 
haviam debalde procurado. 

O epitaphio de D. Paula desperta varias observações. Tendo falle- 
cido a célebre freira em 1768, não é natural que gravassem o lettreiro 
muitos annos depois. Embora seja certo que naquella epocha, a forma 
da lettra em monumentos lapidares foi extremamente descurada, os 
caracteres da epigraphe são muito peor delineados do que os outros 
da mesma epocha. Accresce a isto que as lettras são tão pouco pro- 
fundas, que menos se podem dizer gravadas do que apontadas : a maior 
parte dos traços não chegam a ter um millimetro de profundidade. 
Deve ser repudiada toda a ideia de haver sido raspada a pedra, para 
obliterar as lettras, visto não haver vestígios d'essa operação, e o ní- 
vel da pedra estar perfeitamente egual. 

De tudo isto pode, pois, deduzir se o seguinte: Havendo D.Paula fal- 
lecido na edade de quasi 67 annos, por considerações em que não é 
preciso insistir aqui, e talvez por inllueucias de seus vaidosos parentes, 
foi ella enterrada no Capitulo, local destinado ao eterno repouso das ab- 
badessas, mas onde já tinham sido sepultadas outras pessoas que 
nunca exerceram o primeiro cargo da commuiiidade. Qualquer que foi 
o motivo por que alli sepultaram a Madre Paula, não deixaram de gra- 
var o seu nome na campa, que a cobria, embora contra a ordenação 
exarada na visita de rejorma, feita em 172'i pelo abbade de Alcobaça, 
o dr. fr. Bernardo de Castelbranco, ordenação que diz: «em nenhuma 
campa de Sepultura se ponha escrito o nome da defunta senam tiver 
sido Abb.^ e só se ponha por algarismo o anno em que aly se sepul- 
tou». Quando vinte e um annos mais tarde depozeram, sobre as cinzas 
da célebre freira, o cadáver de D. Luzia da Conceição, não achando 
na lapide para o epitaphio desta outro logar mais conveniente do que 
aquelle onde já eslava o nome de D. Paula, ahi abriram profunda- 



1 Folhetim do Commerciu de Porlugal, ii." 137, du li de dezembro de 1879. 



lii:VlSTA AK(Ili:OLOGI('A 57 



iiKMile o Icllroiro. K províivel alò que, a essõ (empo modificndas as 
razões (pii; houvera [)ar indicar o nome da fillia di; Adiião d Almeida, 
itilencionalmeiíle sol)re|)Ozés<ein um epilaphio ao oulro, para tornar 
illegivel ou menos appareiite o primeiro. 

Ò epilaphio da madre Paula consiste apenas nas seguintes pila- 
vras : 

h)ARIil.ZAl)l^\\'LATi:Rt-:ZAl)ASA 

E da rre/igiof.T D. Pavia 1 cre:;a da Súva 

Esta formula, que encontrei dezenas de vezes nas campas do Mos- 
teiro de Odivellas, subentende a palavra sepiilnira, ordinariamente ex- 
pressa no epilaphio da primeira pessoa sepultada sob a lapide. 



A lapide sepulchral de D, Orraca Paes c, pois, duplamente interes- 
sante : é-o como monumento arlistico; é-o como monumento archeo- 
logico-hislorico. 

Como monumento arlistico, é um raro exemplar das campas icono- 
graphicas gravadas, em uso na edade media. 

Como monumento arclieologico-hislorico : por um lado mostra-uos o 
habito ou o trajo clauslral d"aquelle tempo ; por onlra parte conser- 
va-nos a imagem e paiticularidades da vida da quarta abbadessa de 
Odivellas, conserva-nos os epilai)hios de Ires successoras suas, e o 
duma nuilher célebre por seus amores. 

Noutro pais, onde os monumeníos arlicos e históricos são aprecia- 
dss devidamente, e conservados com cuidado, não ficaria alli aquella 
pedra no Capitulo já hoje transformado, ecujo pavimento, segundo me 
foi alTirmado por pessoa competente, será coberto de madeira, occul- 
lando-se assim o monumento. NY)utro país subsliluir-se-hia aquella la- 
pide por outra, onde se transcrevessem os epilaphios, e onde se de- 
clarasse qual o novo local que a antiga passava a occupar. E o monu- 
mento reparado, mas não restaurado (note se bem), disposto conve- 
nientemente em posição veitical sobre um pequeno síjcco, iria ador- 
nai- não tiirei já mu museu, mas uma das paredes da capella-mór da 
egreja do mosteiro. 

Se alguém hoje tiver o prazer de ver a lapide de D. Orraca, en- 
conlral-a-ha já mais danmilicada do que estava na ocrasião em que ti- 
rei o calco, que reproduzido piíotographicamente, foi com lodo o es- 
crúpulo gravado. 

Lisboa, 2o de março de 1888. 

Borges de Figueiredo. 



58 REVISTA ARCHEOLOGICA 

AS GRADES DE SANTA-CRUZ 
DE COIMBRA 

As obras de serralharia artística entre nós nunca attingiram — ao 
que se nos afigura — a importância (jue tiveram em Ilespanha. É pos- 
sível, todavia, que ainda existam alguns specimens valiosos e que te- 
nham passado até hoje completamente desapercebidos á falta d' um 
exame minucioso da parle d'aquelles que se dedicam ao estudo das 
artes industriaes. Desta deficiência se queixa o diligente investigador 
o sr. Gabriel Pereira na pequena noticia que sobre ferragens inseria 
no seu folheto acerca das Bellas artes em Erora, e que faz parte da 
sua valiosa collecção d'estudos sobre a historia, arte e archeologia 
d'aquella cidade. xVli verá o leitor a descripção de algumas obras de 
serralharia artística, (jue actualmente se encontram em Évora. 

A Ilespanha, apezar das guerras e commoções politicas, apezar 
do desleixo e vandalismo com que tem sido tractados muitos dos seus 
monumentos, ainda hoje possue alguns exemplares notabilissimos, que 
despertam a admiração dos entendidos. Poucas são as cathedraes e 
egrejas importantes (fue não possuam grades ou rejas dignas de es- 
pecial menção, merecendo deslacar-se em primeira plana, como mo- 
delo esplendido, a reja decorada com figuras em alio relevo e outra 
fina ornamentação do periodo do renascimento feita por mestre Bar- 
tholomé para a capella real de Granada nos princípios do século xvi. 
Egualmente admirável é a finissuna reja existente em Toledo e fabri- 
cada em 1518 por Francisco Villapando. Outros exemplos se podiam 
citar e o leitor que tiver desejos de conhecer mais a fundo esta ma- 
téria recorra ao Essai/ on Spanish art, do sr. Juan F. Riafio, que pre- 
cede o Catalogo da exposição de arte ornamental hespanhola e por- 
tugueza celebrada em Londres em 1881, no South Kensington Mu- 
seum, e ainda mais particularmente ao livro do mesmo author The 
industrial ar is in Spain. 

Dignas de rivalisar com alguns d'estes trabalhos artísticos, de que 
se ufanam as cathedraes hespanholas, seriam por ventura as grades 
monumcntaes, que, no venerando templo de Santa Cruz, separavam 
o cruzeiro do restante da egreja e as que vedavam os túmulos dos 
reis. Hoje já não as podemos contemplar, mas sabemos da sua exis- 
tência por alguns documentos e referencias históricas, que mais ou 
menos directamente lhes dizem respeito. Citaremos em primeiro to- 
gar o trecho duma carta de 19 de março de 15:22, em que Gregório 
Lourenço dá conta a D. João III do estado em que se achavam as 
obras que o seu antecessor, D. Manuel, mandara fazer no templo de 
Santa Cruz. Um dos items da carta é do Iheor seguinte : 

«Item Senhor, mandou que fezessem huúa grade de ferro grande 



REVISTA AKCHEOLOGICA 



59 



que atravessa o corpo da egreja de xxv palmos d'allo com seu coro:3- 
mento, e ao rrcdor das sopidUiras dos rreix a cada liua sua grade de 
ferro, segundo loiíiia diuiin contraio e mostra que pêra ysso se fez. Eslam 
eslas grades feitas e asetitadas, e pago tudo o í|ue montou na obra 
dos pillares e barras das ditas grades porque disto avia daver paga- 
mento a rrazoui de dous mill reis por quintal asy como fosse entre- 
gando ha olira. E do coroamento das ditas grades que llie ade ser 
pago per av;illi;içam nom tem rrecebidos mais de cinquoenta mill reis, 
que ouve danlc mão (piando começou a obia, que llie am de ser des- 
contados no lim de toda liobra segundo mais compridamenle vay em 
huúa cerlidam que antonio fernandes mestre da dita obra diso levou 
pêra amostrar a V. A. E nom se pode saber o que desta obra he de- 
vido atee o dito coroamento destas grades ser avalliado.» ' 

O trecho da carta de Gregório Lourenço é parcamente descri- 
plivo, mas, apesar d'isso, muito" agradecido lhe devemos ficar por ter 
salvado, ainda que involuntariamente, o nome do artista que fabri- 
cou a obra, Antonio Fernandes. 

Como se sabe, D. Francisco de Mendanha, prior do mosteiro de 
S. Vicente de Lisboa {\:')\Ú), escreveu uma descripção em italiano do 
templo de Santa Cruz, a qual D. João 111 ordenou se traduzisse em 
portuguez, sendo impressa nos prelos d"este ultimo convento. De tão 
curioso opúsculo cremos que não se conhece hoje nenhum exemplar, 
mas D. Nicolau de Santa Maria perpetuou o, incluindoo na sua Chro- 
nica, prestando assim um serviço, litlerario e artístico, bastante apre- 
ciável. Mendanha não se esquece de fallar das grades e dedica-lhe as 
seguintes linhas : 

«Além d'este púlpito espaço de 20 palmos contra a Capella mór 
está a grande e venusla grade de ferro, que atravessa toda a Egreja, 
ficando dentro o Cruzeiro, e tem de alto trinta palmos». ^ 

O epitheto vritusia synthelisa, para assim dizer, em toda a sua 
singeleza, a formosura da grade. Entre Mendanha e Gregório Lourenço 
ha todavia uma discrepância no que respeita ás dimensões; Mendanha 
dá a grade >') palmos mais alta. Outra dilTerença notamos ainda. O 
prior de S. Vicente diz que as grades dos túmulos eram de cinco pal- 
mos de alio, todas de pao preto e bronzeadas com ouro: Gregório Lou- 
renço claramente especifica que eram de ferro. 

Coelho Gasco ^ classifica de sumptuosas as grades do cruzeiro e 
accrescenla que nellas havia um epitaphio, ou antes letreiro, latino, 
em letras de ouro, que rezava da seguinte forma: 



1 Esta carta de Gregório Lourenro puljlicámol-a no Conimbricense n."' 4188, 
4189, 4191. 419o. 

2 D. Nicolau de Santa Maria. Clironica dos coneqos reijrantes, T. "2." pag. 90. 

^ Conquista, Antiguidade e Xobrrsa da mui insigne e ínclita cidade de Coimbra, 
pag. 83. 



()0 REVISTA AUCllEOLOGICA 

Hoc templiim ah Alphnnso Porlugaliae primo rege instrucluui ac 
lempure pene collapsum, lU'(/no siiccesore cD actorc Emmanncle rcslaii- 
raverit. Anuo jSuíalis Duniini MDXX.» 

Esla ilata I"JiO reí'ere-se por ceito á opoca em que fui assentada 
a grade e collocado o seu respectivo leti'euo. A egreja já eslava re- 
conslruida, como, aléui de outros documentos, o denioi^slra o epila- 
phio do bispo D. Pedro, fallecido a \'A dagosto de 15IG. 

No prioiado de D. Acúrcio de Santo Agostinho (eleito cm princí- 
pios de maio de 1590) as grades foram piutadas e douradas de novo. 
Diz o cliionista «... e portpie as grades de ferro do cruzeiro e capei- 
las da mesma igreja eslavão pouco lusli'ozas, as mandou alimpar, pin- 
tar e dourar em paites e pai-licularmeute mandou dourar as armas reaes 
e folhagens, em que as ditas grades se rematão e tem as do Cruzeiro 
trinta palmos de alto e as das capellas quinze tauibem de alto, e fi- 
carão (Jepois de pintadas e douradas muy apraziveis á vista.» ^ 

Não sabemos até que época diH'assem as grades de Santa Cruz. 
Das que circumdavam os sepulchros temos informação de IC^O.Ou 
haviam chegado a extrema mina ou foram substituídas ineptamente 
por outras. Refei'indo-se ao governo de D. Miguel de Santo Agostinho, 
que foi eleito pela segunda vez em 30 d'abril de 1618, escreve o chro- 
nista da ordem: «Nos últimos mezes do seu Jriennio ornou o V. Prior 
geral as sepulturas dos primeiros Reys deste Keyno, que estão na ca- 
pella mór de S. Cruz com grandes grades de pao santo, marchetadas 
de bronze dourado.» ^ 

Sousa Viteubo. 

SOBRE UMA FORMA DO SWASTIKA 

Em grande numero de cippos funerários, e em outros monumentos, 
apparece na parte superior, quer isolada e de grandes dimensões, quer 
duplicada e de pequeno tannnanho, uma ílgura cujo lypo mais regular 
é o seguinte : 




Esta figura, geralmente considerada como um simples ornato, o 
designada pelo nome de roseta, em consequência da semelhança (jue 
se nota entre a disposição de suas linhas caracterislicas e a disposição 
das folhas d'uma rosa. 



1 1). N. tio StJ' iMaria, Cliromm dos C. R., T. 2." pag. ;}7G. 

2 Id. Id. pag. 407. 



REVISTA ARCHEOLOGICA 61 

Creio iiiexncla essa asserção. Em meu parecer, esse signal é uma 
modilicíirão do sirdsiikd. 

Quando se observa que o signal da cruz é simplesmente a figura 
resullanle de duas linhas que se Cftrlam em angulo reclo +. e se con- 
sidera (jue o espirito inventivo do hninem tende sempre a aperfeiçoar 
e a einhcllesar os objectos que [jiodnz. accode á ideia qn(! a repre- 
sentação daipielle sign d, em mnilos e variados objectos e monumentos 
das mais remotas edades, conslilue apenas nm motivo de ornamenta- 
ção, um dos primeiros de (]ue o homem se servira peia sua natural 
singeleza, aquelle que mais lacilmennte elle podia formar pela combi- 
nação da linha recta, principal elemento do desenho. Mas, ipiatido se 
rellecle em ipie esse signal, além de se nos deparar jimtamente com 
vários ornatos, apparece também isolado, umas vezes collocado evi- 
dentemente em logar de preferencia, outras na parte menos visível 
do objecto, começase por se duvidar de que o signa! da cruz fosse 
um mero ornato e termina-se pelo convencimento de que seria absurdo 
considera 1-0 como tal. 

Por mais justas que hajam sido as desconfianças prudentes do sá- 
bio, por maiores que hajam sido os esforços do christão em reivindi- 
car pai-a o christainismo a oiigem d"aquelle symbolo, uns e outros 
não poderam deixar de ceder perante documentos de inconteslavel au- 
thenticidade. Não c, pois, da discussão da antiguidade do signal da 
cruz que eu vou tratar; desde muitos annos eslá ella demonstrada, pe- 
los excedentes trabalhos de G. de Mortillet (Le signe de la croix avant 
le christianisme, Paris, 1866) Ludwig Miiller {Lemploi et la significa- 
tion dfins rantiquité dii sir/nc de la croir f/a}iimí'e, Copenhague, 1877), 
R. Ph. Greg (Ou íhc Mcaning and origiii of lhe Fi/lfot and Sicastiha, 
In Archeologia, London. 188'i.). Schlieman illios, p. ol7-oi9-. Traja, p. 
132-i:]7; fijrintho, p. 95-97) e outros. ' Não vou repetir a demonstra- 
ção já feita, o que seria ocioso. Mas, sendo meu propósito falar duma 
das suas mais notáveis modificações, segundtj creio, julgo dever dar 
previamente uma succinta indicação da origem da cruz, para elucida- 
ção de quem não tiver disso conhecimento. 

A mais notável manifestação do naturalismo é incontestavelmente 
a adoração do sol, o divino Snrj^a celebrado nos hymnos do Hig-Veda, 
ou do fogo Agni (pron. Anlii. Temos o portuguez r/;^/ío= lat. agnii^ ; 
cf. tamuianho=^hl. lawmagno), emanação divina que do céo cáe sobre 
a terra, ou que nesta produzido tende para o céo. O culto do fogo, 
um dos mais antigos, senão o primeiro de todos, foi o principal obje- 
cto de adoração entre todos os povos: os arianos e os semitas, os afri- 
canos, os azteques, e os povos da Oceania, todos elles numa epocha 



' Vej. N. Joly, Vhomme avant les métatix: Burnouf, Dictionnaire classique san- 
skrit-français s. v. e Science deu religions. Cf. H. Gaidoz, Le dien gaulnis du Soleil et le 
symholisme do la ruue. Paris, 1885 



62 REVISTA ARCHEOLOGICA 



determinada adoravam o sol ou o fogo. Isso nos é revelado: entre os 
Parsis, pelo nome de Mithra; entre os gregos, pela fabula de Prome- 
Iheu e pelo fogo sagrado que ardia continuamente no Prytaneu; entre 
os Egypcios, pelo culto de Amon-Rah; entre os Latinos, pelo culto de 
Apollo e pelo fogo de Vesta; enire os Peruanos, por Patchakamac e 
as virgens do Sol; entre os azteques, pelo seu deus Xiulileuctli e in- 
iiumeraveis monumentos; entre os clialdeus por liaal ou Bel; e em 
Africa elle subsiste entre os Ova-lléréro, onde lia mulheres destinadas 
a conservar o fogo sagrado. O fogo, que ainda presentemente em sab- 
bado de alleluia se accende, bem como a lâmpada que se cuida em 
ter accesa deante do sacramento, nos templos cbrislãos, é simples- 
mente um resto do culto do principio fecundante e conservador. 

Quando os primeiros homens quizeram representar esse objecto 
da sua adoração, conheciam apenas a linha recta simples ou combi- 
nada, como meio de indicar as funcções do astro que, gyrando no 
espaço, irradia em todas as direcções seus ellluvios fecundantes de 
luz e de calor, ou do fogo (pie igualmente emitte estes em todos os 
sentidos. Assim, para representar os raios solares empregaram elles 
duas linhas rectas cruzando-se em angulo recto, rudimentar expres- 
são dum symbolo, que logo foi appendiculada de qutro pequenas li- 
nhas com (jue elles pretenderam segniíicar melhor a sua ideia. Por 
outro lado, muito cedo o homem descobriu o modo de produzir o fogo 
por meio da fricção continuada d'um pão {paramautha) noutro pão 
(arani); e logo um primeiro e singelo apparelho de duas peças, uma 
d'ellas com movimento rotatório, produzia pela fricção o calor, o fogo, a 
luz. É esse apparelho qije os povos australianos chamam icintíi-kalk-kalk. 

O symbolo do sol, e por consequência do fogo. foi pois a repre- 
sentação de sua força irradialiva, representação idêntica á do appare- 
lho que produzia a chamma. Swaslika é o nome por que commumente 
se designa esse symbolo, cuja forma é : 



FU 



O swastika, impropriamente chamado por alguns cruz gammada, 
porque o suppunham formado de quatro gg gregos (T), enconlra-se 
por toda a parte: nas necropoles hallstaltianas da Itália, como nas fu- 
saiolas descobertas na Troada por Schlieman; nas fibulas da Grécia 
antiga, como nos menhirs e dolmens. 

Uemonta pois à mais alta antiguidade o symbolo chamado cruz, e 
muito cedo começou a ser modificado. Num monumento assyrio, um 
stello que representa Samas-Vul ii, filho de Shalmanazar, vè-se elle 
sobre o peito da ligura, com a forma da cruz grega. 

Também o vemos nos monumentos egypcios-: é esse symbolo ca- 



REVISTA ARCHEOLOGICA 63 

raclerislico da vida divina, dislinctivo do Amon-Hah, o espirito que 
peneira Iodas as coisas, e cuja íorma é: 



Este symbolo é lambem ornamento de Aclé, fonte da geração ce- 
leste e terrestre ; c vè-se na mão de todas as deusas mães, como 
Neitli e Allior. 

O swaslika é ainda hoje um signal sagrado. «Ce signe (diz È. Bur- 
nouf) est précisement ceiui que lon trace sur le front des jeunes bud- 
dhistes et qui êlait usité ctiez les bràbmanes de toule antiqnilé : il 
porte de nom de stcastilia; c'est-à-dire, le signe du salnl, parce que 
la swasti (en grec fj íttí) était dans Tlnde analogue à la cérémonie 
du salut cliez les cliréliens. Ce signe represente les deux pièces de 
bois qui composaient larani, dont les extrémités, etaient recourbées 
ou renllées, pour ètre solidement relenues avec quatre clous. Au point 
de jonclion était une fossette: là on plaçait la pièce en forme de lame, 
dont la rolalion violente produite par une sorte de llagellation, faisait 
appraraitre Agni» * 

Apresentando esta summula da historia do swastika, unicamente 
com o intuito já apontado, passo agora a occupar-me d^aquella de 
suas modificações que se viu figurada no começo d"esle artigo. 

Ludwig MiiHer dá como ornamento derivado do swastika o signai 




e outros mais, que diz encontrarem-se unicamente nos paizes do Me 
diterraneo. Accrescenta que se não encontram esses signaes nas moe- 
das, nos altares, nos stellos funerários, nem na face dos rochedos, e 
que nenhum delles foi empregado como altributo d'uma divindade, 
nem como amuleto; que, pelo contrario, elles se vêem por Ioda a parte 
como ornatos e são frequentemente collocados a par d'oulros orna- 
mentos. ^ 

Esta asserção do sábio archeologo dinamarquez, quanto ao signal 
acima trasladado da sua obra, deve considerar-se prejudicada, em pre- 
sença do facto de existirem cippos funerários romanos com o signal 
que originou este artigo, o qual é essencialmente o mesmo que o 
da obra de Miiller, cora a única difterença de um ser formado de li- 
nhas quebradas, outro composto de linhas curvas. 



^ É. Biirnouf, La scieure des religious, eh, xiii. 



64 KEVISTA ARCHEOLOGICA 



O swaslika enconlra-se já em toda a pureza da sua forma recti- 
línea, já com as suas liastes curvas. 

O encunlrar-se o sigual, que forma o objecto d'esta nota, em va- 
ries cippos funerários ila epoclia romana (os principaes (pie conheço 
foram descriplos no vol. i da Revista, a pag. 90 e 9i), e no iogar 
principal, por cima da inscripção, é, creio eu, uma prova da impor- 
tância que se lhe ligava; quer (como diz Lud. iMiiller) o symbolo haja 
sido transformado eui ornato, quer o ornato fosse usado porque com- 
preheiulia o syinholo -; o que. ahnal, se reduz á mesma coisa. Tal- 
vez, e é natural, (jue os homens que empregaiam esse signa!, já não 
comprehendessem o seu symolismo ; mas que o considerassem como 
um amuleto. Como tal se encontra o próprio SAvaslika em muitos mo- 
numentos chiistãos, i)odendo ver-se um exemplo no vol i da lU^vtsta 
(Kst. VI, n." l e pag. i')), onde (iz menção d uma lapide tumular 
descoberta nas pioximidades de Tuy, onde ao lado da cruz ed'outros 
symbolos apparecem dois swastik;is trhastes arredondadas. 

Como amuleto landjem appaiece o swastika, em plena edade me- 
dia, gravado nos muros de varias egrejas. líncontrei o gravado cm lo- 
gai' proeminente, no lado exlerior do abside principal e num dos la- 
leraes da egreja do mosteiro de Odivellas (1295-1305). 

Ainda (juanto ao objecto principal, direi mais que nalguns dos si- 
gnaes de (jue trado, se nota no centro, onde se juntam ou cruzam as 
hastes, um ponto, que também tem seu symbolismo. Eis, segundo É. 
Burnouf, a explicação d'esse ponto: «Le symbole du cruciíiement du 
Christ fut souvenl remplacé par lagneau. Le christianisme avait sup- 
primé rimmolalion de cet animal... Puisque la théorie d'Agni est 
idenli(|ue à la théorie du Christ et que les deux legendes se ressem- 
blent de toul poinl, le symbole de Tagneau a pu devoir sa grande for- 
tune dans TÉglise latine à fidentilé des deux noms. 

«II y a des textes qui par eux-mèines seraient à peu prós inin- 
telligibles, commc celui : aCorporis Agni margaritam ingens» (Forlu- 
nat, XXV, 3), reproduction d'une formule sanscrite: agni-káijamahâ- 
ratnam, «le grand joyau du corps d'Agni». Ce joyan principal se pla- 
ca, dans les croix gainmées, au poinl oíi les deux branches se croi- 
sent, là ou, dans les croix nues nous plaçons encore un foyer de rayons 
dores s'echappant dans toutes les directions; c'est le point d"ou pari 
la premiére étincelle dans ropéralion de arani ^.y> 

Lisboa, 20 de Março de 1888. 

BoRGKS DE Figueiredo. 



» Lud. Miilior, np. nt., pag. 
2 Irl.. ihid. 

^ ]•;. liui-iioiif, /. c. 



REVISTA ARCIIEOLOGICA 



65 



NOVA INSCRIPÇilO 



CnRIST7V DE MERTOLA 



[Creio d;ir prazer aos leitores da Ihn-isln apreseiilando atnii a scííiiiiite noticia 
que, em carta (ii; .'i do corrente mes. acalia de cummuiiicar-nie u illii>lre i>ru(es- 
sor da Universidadíí de Herlnii. dr. K. lliihtier. 

Para ii()s portiii^uezes é triste (|U(! os iiioiuimentos aiclieolojíicos descobertos no 
nosso país sejam enviados para o estran^íciíd. indo enri(|uecer os museus doutras 
naçòes, sem (pie nem ;io menos liaja entre nos nnmedialo conhecimento da des- 
col)erta. Os poderes públicos deviam prestar aljíuma altíTiçàoa estiís fados. Todas 
as demais nações são enlimsiaslas por seus monumentos e ciosas de suas riíjue- 
zas archeoloi^icas. l'ortoi,'al faz excepçào a esta retira. 

Ao menos consida-nos a amaíjilidade (|U(! teem para comnosco alguns sábios 
estrangeiros, niostrando-nos o (pie cru nosso. 

Eu, agradeço a(pii publicamente, em nome dos fortuguezes que se interessam 
pelos nossos monumentos, e reitero os meus próprios agradecimentos, ao sábio 
professor de Berlim.— li. de F.J 

Eis, meti caro amigo, a nova inscripção chrislã de Merloia. É uma 
lamina de mármore, da altura de cerca de dois pés, da largura de 
vinte pollegadas (inglezas). Foi enviada de Mertola pelo sr. Warden á 
Sociedade Archeologica de Newcaslle-oiiTyne, na Inglaterra. O meu 
venerável amigo, o Ur. Bruce, publicou a, nos Proceedings of lhe Soe. 
of Ant. of Neiccastle, vol. Ill, 1888, n.'^ "2o. p. 2(3i, e daiá delia uma 
minuciosa explicação no outro jornal da mesma Sociedade, Si Ârclwolnyia 
Aeliana. O lexlo do inscri[)ção diz assim: 



+ BRITTO PRESI^ 
VIXIT AiNiNOS 

fev~irbrQ~virv~rf 

IN facITUnTI^ 

5 NONAS^ÁGVSTÃS 

ERA DlxXXlUI 



-\- Britto pres(bjterj \ vixit annos \ LXV, 
requievit | in pace diomi)ni dfiej \ uo7iJS 
As^usUs I era DL XXX II II. 



O nome Britto não é raro cm Hispanlia ; Agustas é a forma do 
baixo latitii por Augustas; o anuo da era hispanliola 581 corresponde 
ao 54C p. C. A inscripção é notavelmente bem escripta. 



E. HunNER. 



Rev. Arch., I, N." 5— Maio ú 



06 REVISTA ARCHEOLOGICA 



UM MONUMENTO DE AEMINIUM 

Desde o século xvi foi objecto de controvérsia entre archeologos 
porliiguezes a situação do nppidiim AemíNium, mencionado por Plinio \ 
por Plolemcu -, e no Itinerário dicto de Antonino •'. A grande maioria 
dos auctores localisou-o em Águeda ; alguns, muito poucos, idenlifica- 
ram-n"o com a actual Coimbra. Á frente da maioria estava Diogo Men- 
des de Yasconcellos '', o infeliz scholiasta de Rezende ; à frente da 
minoria parece dever collocar se Gaspar Barreiros ^. Deixando em 
paz a maioria, mencionarei apenas os principaes que opinaram pela lo- 
calisação em Coimbra. No século passado apparece o académico Ma- 
nuel (le Faria " : e neste século. João da Cunha Neves e Carvalho Por- 
tugal ', D. fr. Francisco de S. Luis ^, A. Filippe Simões '\ É notável 
que, emquanto em Portugal a maioria é abertamente contraria á locali- 
sação de Aeminium em Coimbra, quasi lodos os sábios estrangeiros, que 
teem tratado o assumpto, estão decididos por tal identificação. Isto 
prova que, em geral, os nossos archeologos teem tratado as questões 
sem critério algum ; e que, ao contrario do que por ahi se affirmou 
ultimamente, os sábios estrangeiros teem contribuído muitíssimo para 
o adiantamento da sciencia archeologica em Portugal ; e mais que ne- 
nhum outro o professor Emílio íliibner. 

Depois dos auctores em derradeiro logar nomeados, ainda houve 
quem tratasse da situação do Aemínio. Foi o auctor doestas linhas, 
que leve a fortuna de demonstrar evidentemente (em 1884) que Aemí- 
nio existiu no local da moderna Coimbra "\ Para essa demonstração 
serviu-se dos argumentos já dados pelos escríplores alludidos, e d'ou- 
tros novos que conseguiu deduzir da interpretação critica dos textos 
antigos e medievaes, e dos monumentos archeologicos em varias 
épocas descobertos em Coimbra. Esse estudo, releve-se-me o dizel-o, 
foi lido com interesse no estrangeiro, ao passo que em Portugal fi- 
cou desapercebido, e só mereceu uma critica, em que seu auctor di- 



1 Hist. Nat., L. IV, cap. 22. 

2 Geogrophid , f." tábua da Europa. 

3 Itin. (eil. Paríhcy e Piíider), 421, 4. 

4 Scholia in qnnUior Uhros Resendii. . . (Eborae, lo!)!)), pag. 248-249. 

' Chorofjraphid d'al(jHiis togares... pag 49 v. Cf. Ortolius Sj/nomjmia Geogra- 
phica, s. V. Arminiiim. 

6 Acailewia dn Historia. 

' Actas das Sessões dn Arademia Real das Sciencias de Lisboa, t. ), pag. 101 scqq. 

" Coimlira e Eminin iii Berisla Estrangeira (Lishoa) pag. 50. 

^ Alguns /w.sso.s )i'n)n lalii/rintlid. Se ('niinbra foi povoação romana e gitc nome teve 
in Portugal Vittoreseo ((]oimÍ)ra, 1879). e noulros joriiaes.' 

'" Boletim da Sociedade Geographia de Lisboa, 5." serie, n.° 2. 



REVISTA ARCHEOLOGICA G7 

zia : —«lenho sustentado que a situação da (sic) Eminium fora nas 
myrfíens do Águeda. . . e, todavia não sei onde ella esteve!» * 

Havendo eu sido o ultimo a sustentar a identiíicação de Aeminiutn 
com Coimbra, senti verdadeira satisfação ao saber (jue na cidade do 
Mondego se iiavia desc(jberto uma lapide onde se lè o nome de cidade 
de Aeminium ; monumento que, em vista dos argumentos e provas ex- 
postos na minha alhidida memoria, se não pôde admittir fora trans- 
portado doutra parte para Coindjia. 

A noticia do achado li-a eu no Correio da Noite, n." 2400, de O de 
abril lindo. Ahi se diz que o monumento fui encontrado ((^'' um prédio 
junto ao arco do Collegio Noro», e que «yl pedra é da qualidade da que 
se exlrae nas cercanias de Coimbra, (calcareoj.y) 

Tendo para mim summo interesse o conhecimento exacto do mo- 
numento, procurei particularmente primeiro, e em seguida por inter- 
venção da respeitabilissima Sociedade de Geographia de Lisboa, obter 
um calco da inscripção.não só para dar delia conhecimento aos estudio- 
sos mas especialmente para completar os meus próprios estudos sobre 
Aeminium. Teve óptimo resultado a intervenção (como eu esperava), e 
pude finalmente ver por copia o monumento, que, segundo o calco, 
terá d'allo O,"' 91 e de largo O,"' 44. 

A inscripção, segundo o que poude ler no calco, diz : 

i n • h o n o r c m 

ET AVGMENTVM 

REI • PV B • N AT O • Dí 

LECTO QVE • PRIN 

C I P I • D N F L AV I O 

5(6) VAL ■ C0N5TANTI0 

PÍO FELICIINVICTO • AV 

GVSTO • PONT • MAX 

d.C.30õ/6 TRIBPOTP-P-PROGN 

(lo) CIVITAS • AEMINIENSIS 

\_In honorem f e]i augmentu\jn re\i publ{icae) nato 
{^dil^ectoqiie prin[ci\pi d{omino) n{ostro) Flávio [VaJ- 
l{erio) Constantio, [pio]^felici, invicto, a[iig^it]sto, pon- 
t{ifici) max{imo)^ \jr\ib{unitia)potiestate\p[al7-i) p(a- 
triae), procon{sulí), [civ]itas Aeininiens[is]. 



^ A. F. Barata, num foltietim do Progresso do Alemtpjo, n." 162, do 18 de Abril 
de 1885. 



68 REVISTA ARCIIEOLOGICA 



Esla leitura foi já por mim communicada (oxcepçlío feita da pri- 
meira linha c d"oiitras minúcias, que só em presença do calco me de- 
cidi a (ieterininai), om caria de 10 de Al)ril. ao meu prezadissimo ami- 
go, o professor lliibuer, e liz d'ella cunuiiunicaçâo á Sociedade de Geo- 
graphia de Lisboa na sessão do mesmo mes. 

Na 1.* (2.'') linha, a lettra, que precede avgmentvm pôde ler sido 
um N, e nesse caso teríamos a formula in augmentiim reipnblicae nato, 
variante nova da frequenlissima bono rcip. unto. ]\Ias, pela comjiara- 
ção que fiz d'essa leltia com o t da pahivra ijue se lhe segue, (appa- 
recendo em ambas uma haste transversal luuilo pequena, conforme o 
calco accusa) inclino-me a crer que é esta ultima lettra, do que resulta 
em meu intender a leitura ET- Assim, falta uma parle da lapide, onde 
devia estar a primeira linha da inscripção, que eu com todas as re- 
servas (visto não ter examinado o moimmento, e o calco não estar 
nalguns pontos muito perfeito) intendo poder completar-se com um 
princi[)io de foriuula como in honornn, in reparationem, etc. Esta for- 
mula seria inteiramente nova ; mas lambem o é já a in augnientum, 
e a existência na pedra d'esta ultima palavra é indiscutível. 

Na 5.'"^ (G.^) linha, vejo distinctamenle no calco um L- antes de 
CONSTANTlO: lettra que tanto pôde ser a ultima de IVL como de 
VAL; parece-me, porém, distinguir a parle inferior da segunda haste 
obliqua d"um A, d'onde se conclue a leitura val-, sendo por conse- 
guinte Constâncio Chloro o imperador em honra de quem o monu- 
mento foi erigido. 

Na linha 8.^ (9.'"^), está claramente cscripta, como acima fica tras- 
ladada, a palavra procônsul, e não progos, como ordinariamente se 
encontra. 

Proponho pois, em presença do calco, a indicada leitura, que em 
vulgar vem a dizer como se segue : 



'&' 



«Ao que nasceu para honra (?) e incremento da re- 
publica, e amado príncipe, nosso senhor Flávio Valério 
Constâncio, pio, feliz, invicto, augusto, pontífice má- 
ximo, com o tribunicio poder, pae da pátria, procôn- 
sul, os cidadãos de Aeminium (dedicaram este monu- 
mento)». 

Temos pois finalmente um monumento epigraphico, testemunha ir- 
recusável da existência de Aeminium no local da moderna Coimbra, 
monumento que exprime um voto dos seus cidadãos ao imperador 
Constâncio I. 

Lisboa, 20 de maio de 1888. 

BOUGKS DE FlGUEmEDO. 



REVISTA ARCIIEOLOGICA 69 

INSCRIPÇ7V0 LUSO-RO:\rANA DE PANOIAS 

(nota) 

Km appendice ao artigo que pul)Iiqnol na Ufv. Arch., pg. 50, ciim- 
pre-ino dizer (pie a pedra com a iiiscripção luso-romana de l'anoias 
está acliialmeiíle guardada no Museu da Sociedade Martins Sarmento, 
de Guimarães, e que o nicn amigo dr. F. Martins Saimento me disse 
que, depois de examinar o texto da inscripção, distinguiu nella mais 
um C, de certo resto da foiínula F- C. Assim desapparece a minha 
duvida, que eu linha assignalado, e o leitor deve substituir no meu 
citado artigo os pontos do lim da inscripção por aquellas duas lettras. 

J. Leite de Vasconcellos. 



INSCRIPÇOES DE ALCÁCER DO SAL 

Existem na Academia de Bellas Artes de Lisboa duas inscripções, 
da época romana, que não me consta hajam sido pubhcadas em Portu- 
gal, nem no estrangeiro. 

Segundo as inlormações que poude obter, foram encontradas em 
Alcácer do Sal. 

1 — Pedra granilica, de 0,'"9I de largo, 0,n'i de alto e 0,'";j:{ de 
espessura ; leltras bellas e profundas. 

LMP • CAESARI • DWl ■ F A VG VSTO Imp(eratori) Caesari Divi f^ ilio) 

I^ONTlFICI-MAXVMO-COS-Xn Augusto \ pontifici maxumo co{nJ- 

a.C.749/7ãoTRIB-POTESTATE-XVlíTr s{ul{) XII \ írib{umcia) potcstate 

VIGANVSBOVTI-F- XVIIU \ Vicanus Bouti(i) /{ilius). \ 

S SACRVM Sacnnn. 

Ao imperador César Augusto, íilho do Deus César, pontífice máximo, côn- 
sul pela duodécima vez e com o poder tribunicio pela decima nona,Vicano filho 
de Boutio consagrou. 

Este monumento vem estabelecer indubitavelmente o cognome Vi- 
canus, já presentido por Iliiíjiior numa inscripção de Tacci^^. Boutius 
é vulgar na Península -. 



1 C. 1. L.. ir. 1687. 

2 C. /. L. n, 4U8, * 458, 620. 744, 7o6, 794, 2786. 



70 REVISTA ARCHEOLOGICA 

2 — Lapide marmórea de \"W) de alio, O.'"00 de largo, e 0,"'30 de 
espessura; lellras bellas e profundas do primeiro ao segundo século: 

IVNIA • CORII^IA lunia Corinthia \ an{norum) XVII,h{k) s{ita) 

AN-XVII-H-S-E- e{st). \ S{ii} t(ilu) t{erm) l[cvis). \ Satiilla filiae. 

S-T-TL- 

S AT VLL A- FILI '^''' Junia Corinthia, de dezescpte annos, aqui 

está sepultada. Seja-te leve a terra. SatuUa 

(dedicou este monumento) a sua filha. 

O nome de Corinthia. enconlra-se numa inscripção de Oiisippo * ; 
e o masculino correspondente, Corinthius, apparece numa de Corduba: 
CORINTMIVSSEX-MARIISER etc. - Uma Licinta Sandia é conhecida 
por uma inscripção de Tarraco? 

Borges de Figueiredo. 



CONVENTO DAS FLAMENGAS EM ALCÂNTARA. 
OS ARCHITECTOS FRIAS 

Está ainda por escrever a Historia Artistica de Portugal. E não é 
que seja nem complicada nem extensa. Três livros, três periodos, 
não mais. Abrangeria o primeuo tudo o que vem desde os primórdios 
da monarchia até D. .João II. Comporia sú por si o seguinte esse bri- 
lhante reinado de U. Manuel, tão glorioso para a nacionalidade portu- 
gueza, quão funesto a seus ulteriores destinos. Compendiaria, emfim, 
o ultimo todo esse largo succeder de decadencias que o reinado hor- 
roroso de D. João m iniciou, e a que a ultima obra do estado sob o 
antigo regimen o Ilospilal da Mariídui, tiisle ironia da sorte! viria pôr 
seu natural remate. 

No primeiro dos dois primeiros periodos, sem duvida o mais 
sympathico, a exposição singela das singelas manifestações da Arte, 
no seio de uma nacionalidade recem-constiluida; a influencia da velha 
arte gothica desenredando-se dentre as truncadas amostras da sua 
existência neste canto da peiíinsula. para attingir no primeiro monu- 
mento archileclonico de Portugal, no Monumento por excellencia, na 
B.VTALHA, toda a austera perfeição e toda a grandiosa simplicidade do 
génio veraz que a animava. 



2 C. 1. L., ir, 2269. 

3 c. /. L.;ii;4'i08. 



REVISTA ARCIIKOLOGICA 71 

Essencialmente episódico, o segundo período constilue, sem contes- 
tação o primor dessa historia. A arcliilectura inonumenlal e a pintura 
lêem, com eíleilo, no reinado do venturoso \). Manuel a sua grande 
apotlieose. Os dois assumptos mais caracterisados da Arte portugueza ; 
a existência e as obras de (Irão Vasco, e a questão do (lolhico-manuc- 
liito imprimem a esta parte da historia das artes em l'urtugal o cara- 
cter de originalidade suíTiciente para a tornar interessante, inslrucliva 
e deleitosa. 

D'ahi por diante começaria o terceiro período. 

Ainda que a partir denlão até o termo já por nós designado, a 
missão do historiador-artista a pouco mais se reduza do que a um in- 
sípido inventario de constantes allentados contra a integridadti da Arte, 
conviria estabelecer, comtudo, duas subdivisões do mesmo fado, aíim 
de considerar o caracter essencial deste terceiro período — a decadên- 
cia — sob o duplo aspecto que ella nos apresenta. 

Por muilo pernicioso que fosse para a Arte o inlluxo da Renas- 
cença, mais fatal lhe foi, certamente, entre nós o destino politico que 
nos coube em sorte logo á sua estreia em Portugal. D. João III teve 
apenas tempo de estragar o que a Renascença apanhou por concluir. 
Vem depois D. Sebastião, vem a sombra de um rei, na pessoa do car- 
deal seu tio; vêem os jesuítas, os verdadeiros campeões da Renas- 
cença, aquelles a (luem ella bem deveras deveu o poder deixar no 
solo portuguez amostras completas da sua genuína íniluencia. Entra- 
se, emfmi, em plena decadência com os Philippes. D'ahi até o fim do 
reinado de D. Pedro 11, os altenlados contra a sombra, seijuer, do que 
fossem Artes succedem-se ininterrupta e consecutivamente. 

Bem sabemos que o terremoto de 1755, derruindo muitos edifícios, 
mesquinha e toscamente reparados em seguida, foi causa de se nos apre- 
sentarem esses ediíicíos com o aspecto miserando que ahi lhes vemos. 

Fazendo^ porém, a i)arte a essa circumstancia, íica-nos ainda muito 
com que justilicar as nossas asserções. 

A partir de D. João V se pôde estabelecer a segunda das subdivi- 
sões propostas para a historia d'este período. Essa nos levaria até o 
fim do regimen absoluto. 

A decadência do primeiro período é terrível ; é a da miséria andra- 
josa. A do segundo, graças aos milhues de que dispoz o Salomão por- 
tuguez, é a miséria dourada, perdulária, extravagante, vasia de senti- 
mento no reinado do fundador de Mafra; mesquinha, fóssil, utilitária, 
no seguinte; parasita, emfim, nos dois últimos; é como a decadência 
da decadência. 

Exhausta do ouro com que tríumphára a vida, primeiro, e depois 
agiotara, chegou a viver apenas do reflexo dos veliios dobrões de D. 
João V e das reminiscências do Erário do grande Pombal. 

Dahi até ao expirar de todo o movimento artístico, até á iucta 
armada pela liberdade, tudo são allegorias, a ultima expressão de 



72 REVISTA ARCHEOLOGICA 

decadência na arte. Allegoria em pintura com Vieira Lusitano, com 
Cyrillo, com Sequeira, allegoria em esculptura com Aguiar e os auclo- 
res de todas essas Virtudes que decoram os nichos do alrio d' Ajuda ; 
allegoria. emlim, na gravura, pelas inirnrõcs do melhor mestre que 
ainda tivemos neste ramo das artes, o perilissmio Joaquim Carneiro 
da Silva. 

# 

Nas cortes de 15G2, um dos capítulos apresentados pelo braço po- 
pular pediu que «se não [)erm!tlisse o estabelecimento de ?iovos mos- 
teiroSj porque os existentes eram já de mais, e se tornavam nocivos e 
enfadonhos com os peditórios». Ora, desde os últimos annos do rei- 
nado de D. IManuel até o fim do reinado de D. Pedro II, excederam 
de cincoeiíta as varias edificações religiosas levadas a eífeito só em 
Lisboa. Entre os vinte e cinco annos que vão de lGi7 a IG72, isto é, 
entre D. João IV e seu desgraçado filho AíTonso VI, se repartem, d'es- 
sas cincoenta e tantas edificações, doze conventos ou mosteiros. 

E a quem quer que passar da Esperança para Alcântara azinha se 
lhe offerecerá a occasião de supprir pelo seu só critério uma parte 
d'esse mesmo desconsolado inventario. 

O mosteiro da Esperança, com as misérrimas memorias d'esse 
vergonhoso divorcio que tão repellentes tornou as fragilidades de uma 
mulher rainha; perspectiva desenxabida eenesgada, feita de molde para 
justificar alguma vez a summaria alçada do camartello municipal ; o das 
Bernardas, casarão enorme, cujo brutal aspecto parece estar desafiando 
os mais violentos terramotos, o convento dos Maiiannos, com todas as 
mar/nificencias que d'elle se lêem na Corogra[)hia de Carvalho, a hu- 
milde fundação do cardeal Alberto, tão pouco em harmonia com as 
possanças de um governador-archiduqne, S. João de Deus, convertido 
em quartel d"infanteria, o mosteiro do Sacramento, com aquelle ele- 
gantissimo paredão, séteirado de miseráveis frestas, que todos nós co- 
nhecemos, os que passamos entre a Pampulha e a Praça dArmas; o 
da Quietação, emfim, ou das Flamengas, hoje dentro da cidade, na or- 
dem das edificações do género, a mais antiga das que temos nomeado, 
e não menos attestadora úo goslo (\i\e reinou em Portugal, de Alcacer- 
Kebir por diante. 

Como amostra do que foi a architectura civil sumptuosa em Lis- 
boa, e, póde-se dizer em todo o reino, nessa lobrega treva artística 
dos restos do XVI século e de lodo o XVII, alii temos o i)alacio Minas, 
adiante das Albertas, do lado op[)osto, e junto a S. João de Deus o 
solar dos condes de Óbidos, casarão inmienso, em que a insipidez do 
todo e a chateza da concepção disputam [)rimasias, com vergonha da 
arte e opprobrio do gosto. 

Mas, comquanto aborrecida e ei'ma de interesse perante os mil ve- 
zes mais nobres intuitos da arte, a enumeração de todos esses despri- 



RKVISTA ARCIIKOLOaiCA 73 



mores e suas causas, se não é absoIíUamenle indispensável ijara a 
coinpreiíensão do nosso profundo nnarasmo polilico-arlislico, ajuda-o 
graiidenionle. 

Kxpicssão reflexa da irremediável atonia da nação, o concurso de 
circiinis(;iiicias que orií^iiiaiu a coriiplela auzeiícia de gosto ailistico em 
Portugal, a partir da inal estrelada intrusão da Uenascença, merece 
ser amiudado. Contiibuindo á sua parle para completar o quadro ainda 
mal esboçado d'essa parcella da aguarentada vida da sociedade portu- 
gueza, na phase mais descolorida e tiistoiíha que ella ainda atraves- 
sou, um transumpto do que foram entre nós os seiscentistas das ar- 
tes, tão completo como o temos do que foram os seiscentistas das let- 
tras, não seria decerto nem menos bem vindo, nem menos bem acceito. 

Para satisfazer, porém, ao propósito, quasi tudo está [)()r fazer. Na 
verdade, mais de um investigador paciente tem illustrado a longa e 
fastidiosa tarefa preparatória com muitos e valiosos subsidies, colhi- 
dos nas chronic^s e memorias que o grande terramoto e o incêndio 
subsequente respeitaram, e, com summo gosto o confessamos, é ainda 
na esteira dos corajosos pesquizadores cujo perclaro alento nos anima, 
que hoje nos empenhamos no estudo que vae seguir-se. A própria na- 
tureza d'elle, porém, nos patenteia a extensão enorme da senda que 
ainda ha de percoi"rei', quer pela variedade dos assumptos, quer pela 
necessária copia de noticias a cuja pesquiza elles hão de necessaria- 
mente dar occasião, (pierendo-se fazer alguma cousa com consciência. 

Não basta, porém, aggiomerar pormenores, reunir noticias, apurar 
datas, colher informações, dar-se emfim, constante e persistentemente, 
ás duas occupações mais ingratas que um homem de letlras conhece : 
ler chronicas de frades e decifrar emaranhados pergaminhos. 

É preciso applicar a critica a todos esses elementos, armando com 
cila, e com os dados obtidos, curtas mas substanciosas monographias, 
|)or meio das quaes, e merco de uma ordem racional na escolha dos 
assumptos, se vão pouco e pouco soldando umas ás outras, as diffe- 
rentes épocas, até formarem completo corpo. E preciso mais;— é 
preciso ter a abnegação precisa para não aspirar a ruidosas nomea- 
das, e deixar aos que vão triumphando a vida banal e apparatosa- 
mente, o pens.irem que foi só para gloria d'elles (jue se fez o sol que 
a lodos nos allumia. 

Os Frias, não só os já conhecidos e apontados no Diccionario de 
Raczynski, mas os que este estudo vae dar a conhecer, estão bem 
longe, como artistas, de merecer altos conceitos, embora o que con- 
siderare;nos como [»alriarcha da fnmilia, Nicolau de Frias, passasse á 
posteridaiJo, pela penna do monge chronista d"el-rei D. Sebastião como 
«grande architeclo». Fr. Bernardo da Cruz, mencionando-o a par de 
Philippe Terzo, a ambos fez commum o encómio. O architecto italia- 
no, porém, foi mais feliz do ijue o seu confrade portuguez ; deixou 
justificação, (jue ainda hoje depije do seu mérito verdadeiro^ tendo 



74 REVISTA ARCHEOLOGICA 

allenção ao lempn, á feijão da arte então predominante e ao meio e 
recursoí em que se produziu e de que dispòz. 

De Nicolau de Frias nada conhecemos, e as obras que sabidamente 
dirigiu, — as dos Paços da Uibeira, subverteu as o terramoto. Seu fi- 
lho egnalmente architecto, passou até agora ignorado, e a uma fortuita 
circuuislancia vae a sua memoria dever o ser conliccido pelo que 
d"elle temos a dizer no estudo que vae seguii'-se. Seu neto, 
Qieucionado equivocadamente como seu fillio pelo conde de Uaczynski, 
ou antes pelo sen venerando collaborador, o visconde de Juromenha, 
do mesmo modo merece apenas a menção de existência, que lhe pro- 
veiu de lhe ser encontrado o nome nas chancellaiias philippinas. De 
um bisneto, emtini, de Nicolau de Frias, se é que não erramos, ape- 
nas agora apparecerá menção. 

Não é pois porque, insignes pelas obras que deixassem, credores 
emfim de celebrada memoria, intentemos hoje em modesta pagina 
'vingar os Frias do esquecimento ingrato das gerações. É pelo contra- 
rio, porque esta familia de architectos de pães a filhos, representante 
das tradições da arte, cúmplice, certamente, nas degenerescências 
d'ella por annos e annos de successiva decadência^ tem justamente na 
tela da historia artística de Portugal o logar que na historia lilteraria 
d'elle occupara os gongoristas. Os deméritos de que deixaram altes- 
tado, e as causas d"elles não teem só, taes quaes são, o direito de ser 
julgados à luz da critica imparcial; é mister mais alguma cousa: é mis- 
ter que esse julgamento se dè. E, pois que nem o eloquente António 
Vieira, nem o illustre polygrapho D. Francisco Manuel, com todo o 
seu talento, podcram escapar á soporifica e tantas vezes amaneirada 
influencia da péssima corrente lilteraria do seu tempo, não poderão 
achar indulgência, acaso, perante o espirito desprevenido, os desacer- 
tos artísticos d'esses homens em quem a arte passou em património 
numa época repassada de todas as desditas do captiveiro? 

Digamos, pois, dos Frias o que já podemos apurar, e fiemos que, 
se por elles exclusivamente não vale, talvez, a pena entrar em gran- 
des pormenores e investigações, não será de todo inútil o trabalho que 
ellas representem para o pecúlio de informações e noticias, sempre 
curiosas e interessantes sempre, mesmo quando se referem a uma 
época em que, a respeito da arte, se pôde escrever o mesmo que na 
terra escreveu o morto de Goia, solevantaudo-se da sepultura:— A^í/a / 



Quando ha um anno nos occupámos do Convento das Flamengas, 
em Alcântara, nas quatro cartas que escrevemos ao director do Com- 
mercio de Portugal *, era nossa intenção continuar a dar conta de algu- 



I N."' 2259, 2263, 2280 e 2298. 



REVISTA ARCIIEOLOGICA 75 



mas cuiiosidades mais, áquelle exiincto mosteiro referentes. Mas, não 
tendo podido até agora dar seguimento a esta matéria, volvemos de 
novo a occupar-nos d"ella nas paginas desta Ikvista, especialmente 
dedicada aos assumptos da ordem d'este que temos tractado. 

Nas cartas alludidas, não só dêmos noticia de se achar depositado 
o coração d'elrei D. Pedro II na capella mór da egreja das Flamen- 
gas, conforme a inscripção latina da lapide que encerra o deposito, 
como summaiiámos o Iheor de um livro raro que por essa occasiOo se 
nos deparou, livro de que não sabemos que ande noticia impressa, e 
que, pareccndo-nos, [)elo titulo, dever conter espécies não conhecidas 
acerca da fundação do convento, pouco mais adianta por fim, ao poiíco 
já sabido ^ 

Quanto à inscripção da pedra que encerra o coração de D. Pedro 
II, agora a transcrevemos com a fidelidade que cila não poude obter 
então, attendendo a não ser a folha, em que foi [)ublicada, especial para 
esta espécie de estudos. A lapide mede (),'"o() de largo por 0,"'4i de 
alto, comprehendidos os cordões que a enquadram. 



Cor jacet híc Petrí 

Regís mortale secundí 

Cor vivEBAT vbí 

CONTVMVLATUR ÍBÍ 



Como se acha o coração d"el-rei D. Pedro II neste logar? Eis o 
que não é possível, por ora, dizer. O irmão de D. Affonso YI fez testa- 
mento na cidade da Guarda, vinte e sete meses, proximamente, antes 
de morrer (IO de setembro de ITOi). Esse documento, publicado na 
Ilist.Geaneal.da C.ReaV- não contem disposição alguma a tal respeito refe- 
rente. «O meu corpo será sepultado na Igreja de S. Vicente de Fora, 
junto do Tumulo da minha sobre todas muito ainada, e prezada mo- 
Iher D. Maria Sofia Isabel, que está em Gloria.» É quanto o monarclia 
dispoz. Nada mais neste ponto dizendo este testamento, será verosí- 
mil a supposição de que tal deposito se tenha effectuado por desejo 
verbal, expresso pelo rei in articulo mortis'! Parece, cremos; até por- 



1 Relacion de como se ha frndado en Alcântara de Pnrtvqal irntoa Lisboa, el 
mu\i devoto Monasterio de A'. S. de la Quielacion, por la Calholica Magestad dei Rey 
N. S. D. fhelippe II de gloriosa memoria, para las monjas peregrinas de S. Clara 
de ta primera regia, venidas de la Província de Alemania Baxa, despues de los he- 
herejes las auer perseguido, y desterrado de tierras en tierras por quatro vezes. Com- 
puesta por la madre sor Catttalina dei Spiritu Sanrto Monja dei inismo Monasterio. . . 
En Lisboa, Por Pedro Craesbeeck Lipressor dei Re;/. Ano 1621. — 8.». 

2 Provas da llist. GeneaL, vol. V. pag. 86-87. 



76 REVISTA ARCHEOLOGICA 



que nenluima outra explicação se nos afigura mais consentânea com a 
verdade. Couio quer tjue seja, um tal acto não se realisou sem forma- 
lidades. A honra que as religiosas Flauiengas receberam, devia de ter 
notoriedade, certamente. Não houve alguma ceremonia, não se lavrou 
termo algum (Testa, não se cobrou recibo de tão precioso deposito, não 
íicou conuneuiorada na escripta, mais ou menos perfeita, das religiosas 
memoria alguma de tal fado? 

Pela nossa paite, confessamol-o, com quanto nos parecesse que o 
deposito do corarão de D. Pedro 11 na capella mór da egreja das Fla- 
mengas de Alcântara era facto que havia, até que da sua existência 
demos noticia, passado desapercebido, sempre esperámos como espe- 
ramos ainda, poder esclarecel-o e explical-o melhor. Por emquanlo, 
porém, temos de nos contentar com estas sós considerações. 



Daremos agora breve noticia das inscripções das campas que estan- 
ceiam ao centro do corpo da egreja e outras. 

Descendo do arco do cruzeiro para o corpo da egreja, lè-se pois 
na primeira campa: S." de Simão Granaet e de sua molher e herdeiros. 
Faleceo em 12 de abril de 1682. Na segunda : S." de Manoel da Silva 
Louzado e de sua molher Isabel da Silra e de céus (sic) herdeiros, o qual 
faleceo em 17 de fevereiro de 1083. 

A terceira inscripção é a que mais abaixo vamos dar. 

Concisa, mas eloquente, se apresenta a quarta inscripção, que nas 
sós duas linhas que a compõem vale por um epitaphio inteiro, se não 
é um commcntario verberante da triste epocn a que se refere. Reza 
assim: S." de Pedro Fernandes pae de três filhas religiosas neste con- 
vento, F. a 2 de Dezembro de 1640. 

Ha ainda uma sepultura, que parece ser a primeira que na egreja 
se abriu, de: Jerónimo Anriques e de Grocia da Veiga sua molher e de 
seos herdeiros, f. ella a 20 de junho de 1588, elle a 2 de novembro de 
lõOõ; o a de João Antunes e de sua molher Domingas Roiz. Ha, final- 
mente, a sepultura de: Duarte Smite e de Joanna Galoa e de seus her- 
deiros, e d de Álvaro de Castro Maqedo, etc, ele, ele. 

Ambas estas ultimas campas datam de IGOi. A primeira está ar- 
rumada ao centro da |)arede do corpo da egreja, á parte do Evange- 
lho; vè se a segunda encostada á parede do lado opposto, ao fundo da 
egreja, por de traz do guardavenlo da porta da entrada, que é lateral, 
e" virada a nascente. Fsla segunda campa está quebrada; tem escudo 
d'armas bipartido: seis arruelas e Ires cruzes de Santiago a ''lustram. 



REVISTA ARCHEOLOGICA 77 

Venlinmos .igora á terceira inscripção apontada, que oi-igiiiou o pre- 
sente estudo. 

A ionsa que a contém, é. como se disse, a terceira, descendo do 
cruzeiro, no corpo da egreja. Mede de altura I, '"!)() e de largura tem 
(),"'S7. A inscriprâo eslá emoldurada por um duplo coidão de desegual 
grossura, sendo as medidas lomadas de extremo a extremo do coidão 
externo. Diz o seguinte: 

A 

S PEFíPETVA DE TlIEODOSIO 

E) FRi.AS CAVAl!^° FIDALGO K) CA 

SA D S M'^ SEV ARCHÍTECTO E 

MESTRE D SVAS OBRAS E K) CÍ 

5 DADE B L^^E ARCEBFDO ÍVÍS DA 

sic BABACA DA CASA DA iMOEl^^ DIA 

F° D NÍCOI AO F) FRÍAS CAVALR° 

DO A BI TO DXPO E ARCHTE 

CTO D O DITO SÕR E D SVA 
loMOLHER D LIANOR PREÍRA sic 

OS QVAiS POR GRÃD FJVACÃ sic 

Q TiVERAÕ A ES'ES CÕSZÍTO sic 

ESCOLFERAÕ ES^E ÍAZÍGVO 

PREPETVO NELE E F ES AS RA sic 
i5 SAS DO M0ST''° novo POR 

MANDADO E) SVA M^' Ca A ORB 
sic DO QVAL COREO ÉQVÃTO VI 

\E0 POR AMOR E) DS FALECEO 

5ZC E L L A A ! 8 D D E Z E N B R 

2oODÍ627EELLEAÍÍB 

N O VENBRO E) í 6 24 

Estamos, pois, em presença da sepultura de um architecto de que 
até hoje não houve menção impressa, e pelo decurso d'este estudo se 
verá que não é só este nome que ha de dora avante ir augmentar a 
lista dos artistas porluguezes cuja memoria anda perdida. 

(ConliniiaJ. 

Gomes de Brito. 



78 REVISTA AKCHEOLOGICA 

8ELL0 ANTIGO DE FERREIRA DO ALEMTEJO 

(est. v) 

D'nm mokle em gesso, que faz parte das collecções da Bibliotheca 
Publica, foi copiado este sello, de que lambem possue um molde o sr. 
J. J. Júdice dos Santos. 

Ferreira do Alemtejo c muito antiga. São poucas c insignificantes 
as noiicias a eiia relativas, antes de ITJIT, anno em que D. Manuel 
lhe deu foral. 

Alguns auclores. invocando a tradição, comprazem-se em referir 
que esta povoação fora cidade no tempo dos romanos, com o nome 
de Siiifjn, e que nella se tornara celebre uma matrona defendendo 
valorosamente a porta do castello da mesma cidade, por occasião da 
invasão golliica e sueva; e que, para commemorar o feito, tomáia a 
povoação por armas uma figura de mulher com dois malhos nas 
mDos. 

Eu não repetiria esta lenda, se ella não tivesse uma remota relação 
com os symbolos representados no sello. 

O sclío, de forma ligeiramente elíptica, tem no maior eixo 0"\074 
e no menor 0'",071. Representa uma ligura humana, de pé, de frente, 
segurando na mão esquerda um martello ou malho, e na direita umas 
tenazes; tem ao seu lado esquerdo uma bigorna. Á direita da figura 
vè-se uma torre com suas ameias; á direita da torre uma espécie de 
tropheu composto do bordão e da concha de peregrino a Santiago. 
O trajo da figura é um;i simples túnica, apertada na cintura, que desce 
até aos joelhos. Parece que houve a intenção de representar nús os 
braços, as pernas e os pés. 

A inscripção, que começa conforme o costume no alto do sello, é 
composta de lettras onciaes e caracteres romanos, predominando todavia 
o emprego d'estes. Diz o seguinte : 

S{ello) DE CONCELHO D{e) FERERA D{e) BEIA IB FABER 
PS ANNES JRO PERUERIDOR 



A primeira metade da inscripção não apresenta difficuldadc alguma. 
Não succede, porém, o mesmo com o resto, que é para mim incom- 
prehensivel. A divisão que dou das palavras é a que me parece mais 
plausível. Accode ao espirito lei': ib(ij? fabcr P(elru)s Aunes v(e)ro? 
perveridor (provedor?); mas não tenho confiança alguma nesta inter- 
pretação, que demais a mais não se fundamenta em exemplo que eu 
conheça. 



REVISTA ARCIIEOLOGICA 79 

Folgarei com que alguém, mais hábil ou mais feliz do que eu, con- 
siga dar uma iiilerprelação mais sustentável a esta inscripção, e ex- 
plicar satisfatoriamente o symbolismo deste sello, que é deveras curioso. 

Borges de Figukihkdo. 



BIBLIOGRAPHIA. 

(As publicações, com cuja troca se honra a Rkvista AnciiKoi.OGirA. mo mmciunadas 

pela ordem da recepção) 

BoLLKTTiNo PKi l'i.\ii'i:ri.\lk Istituto Ancin:oLO<jico Germânico. Sus- 
sione romana. Vol. 11. Uoma, 1887. 

Esta publicação, replecta de óptimos artigos de archeologos aba- 
lisadissimos. e primorosamente illuslrada, é um dos melhores reposi- 
tórios da sciencia aicheologica. 

Basta enunciar os trabalhos que compõem este volume, e os nomes 
de seus auctores, para se conhecer lodo o interesse que desperta e que 
logar eminente occupa entre as publicações doeste género. Eil-os: 

W. Helbig, Sopra nu rílrallo di [Jrin. — G. Ilcnzen. hrr/zionc tivvata pressa 
la palteria dei Fnrlo — Gonte di Monale, Delle antichità falisdie venufe alia lace iii 
Civila Castellane e in Corckiano e delia vhicazione di Fesrennia — F. DííiihiiUt, 
Iscrizione delia fibnla preuestina — H. Heydeiiiann, Le frecce amorosi di Eros — 
Sitznn(isproloc(dle — G. B. de fiossi e w. Hclliiir, Commemorazioite di G. llenzen 

— G. toinmazi-Oudelli, Aleune riflessione sul liiiita deWunlicha Roma — F. Slu- 
dniczka, Arrhaisrhe Urunzestatue des Fiirslen Sciarra — \. Man, Sravi di Pnnipei, 
J885 86 — G Liiínnna, Supra ilscrizioiíe delia fdiula prenestina —Misrellanea epí- 
graphica — ^\. Ilolhig, Speccliio 'etrusco — Sitzuinjsprotocolle — W. Holliiir, Scavi di 
Corneto — 1^. Ilariwig, Testa di Helios — Id., Rapporto su una serie di tazze atti- 
clte a ftcjure rosse con nomi di artisti e di favor iti, raccolta in Uoma — F. Duetiim- 
ler, Ueber cine Classe griescliischer Vasen niit sclnrarzen Fiç/nren — P. Steltiner, 
Considerazione sulT Aes grave etrusco — G. Lignana, Iscrizione fídisrlie — F. 13ar- 
nal)ei, Uel litiello di Cerminio Eutichete — A. Mau, Sul significato delia parola p e r- 
gula neWarchitletura anlicha — G. F. Gamurrini, Deli arte antichissima in Roma 

— F. V. Dulin, La necropidi di Suessula — G. Pauli, Inscriptione sclusinae ineditae 

— Dessau, Un arnica di Cicerone ricorduto da un bollo di mallone di Preneste — 
Sitzungsprotocolle. 

Boli:tin de la Institucion libue de Ensenanza. Madrid. Tomo 
XU, n.°^ Í62>20o. 

Órgão da justamente acreditada Instituição madrilena, esta publi- 
cação quinzenal occupa-se de sciencias, litteratura, pedagogia e cul- 
tura geral, e tem já prestado relevantes serviços. 



80 REVISTA ARCIIEOLOGICA 

Traz o seguinte artigo archeologico : 

N." 260.. . Sepulcros de los siglas XIJI y XIV, por D. D. Sulor (I. Carácter 
coniun; ejoiuplos 011 ,i'orliii:al, Casiilla, ele. — II. Siglo XIII: las Ilucigas. — III. 
Inllticncia ilaliaiia. — IV. Uso de ooluinnas y do rolioves; iiilkijo áiahe. — V. Sigio 
XIV; iiilhifiicias italiana y gcnuáiiica. — VI. Laudas de bioiicc. — Vil. Ejenii)los). 



Ri:vrK AucHKDLOGiQrK, piibliée sons la direclion de MM. Alex. 
Beiliaiid el G. Penol. l'aiiá — Tiuisiòme série. — Tome XI; Janvier- 
l-uvrier 188S. 

Os nomes illnstres dos srs. Alex. Bertrand e G. Perrol bastara 
para dar toda a importância a esta publicação, optimamente illusliada 
(jue ha tantos annos se itnblica em l*aris, e que Ião grandes serviços 
lem prestado á sciencia arclieolegica. Tecer-lhe aqui elogios, pareceiia 
preteução de lecommendal-a; a sua recommendarão está na sabia di- 
recção d"aquelles grandes mestres e na excellencia dos trabalbos fuma- 
dos por arclieologos dislinclissimos. 

Eis o suuuuario da licraison de janeiro-fevereiro: 

Saloiiioii l{('inach, Lllciiiiès de Praxitèle — E. Rcnan, Insci/ption phénieienne 
et grccque déconverte au Pirce — E. Muntz. LAntipape Clénieitt 17/. Essai snr 
riiistoire des Aits á Avigno)i, rers la fin du XVe siède — Salomon lieinacli. Sta- 
tuelte de fenuiie ganhme an Mnsik' briUmique — Deludic, Eludes siir gnelques ca- 
cheis et anneaux de féjoche wérovuigieiuie (suite) — l\. Cagiiat, Xule sur une pla- 
que de brouze découcerte à Crémone — Eiigène líévillout, Une coufrérie égi/pHeune 
— A. L. des Ortiieauv, Observation sur le itiode d'eiiiploi du inurs de bronze de 
Mfpriugen — Salomon iieiíiach, Chroniqne d'Orient — Bullelin viensuel de VAiadé- 
mie des iuscriptious — Sociíié naliouale des Anliquaires de Fríuice — ]\. Cagiiat, 
JSécrolíigie — Xoucelles arcliéologiques et co)Trspuiidance — Bibliugraphic — R. Ca- 
giiat, Heiue des publications épígraphiques relatives à lanliquité roíiiaine. 



13 LETiN DEL Centiio Altistico DE GnAx.\r.\, publicacion quincenal 
ilustrada. Granada. Ano IIÍ, Tomo II, n.°^ 25, 28—32, 34—40. 

Publicação interessante, com excellentes artigos sobre variados as- 
sumptos artísticos, arclieologicos e lillerarios, promette tornar-se uma 
das melhores publicações hispauholas. 

Entre outros artigos, traz os seguintes trabalhos de archeologia: 

N.'- 28 Iliberis y Granada por Reinaldo Dozy (continua no n." 29) — La ense- 
Tianza de la arqueologia eu los Seminários por A. Caro Riailo (continua nos 11.°' 
29 e .30). 

N.o 30 Elvira por M. Gómoz Moreno (continiia nos n."' o2, 34, 3o, 36, 37, 39 
e 40.) 

N." 39 lainistica espanola, de la cruz, dei crucifijo y de la Virgen en los siglos 
medias, conferencia por F. Bricva. 



REVISTA ARCIIEOLOGICA 81 



LAS DIEZ CIUDADES BRACARENSES 

NOxAÍBRADAS EN LA 

INSCRIPCIÓN DE CHAVES 

I 

El ilustre geógrafo Senor Don António Cardoso Borges de Figuei- 
redo * publico hace ires anos como parte de sus Ántigiias Ciudades 
Vorliifjuezas re.síituidas d gloriosa vida histórica, magistral estúdio 
acerca dei Foram Naebisocuni, ciudad mencionada en un monumento 
lapideo inmedialo ai i)uente de Chaves; la cual tan esciaiecido escritor 
conjelura íiaber existido en el monte Louzado, junto á Ponte de 
Anliel. 

El Senor Borges es el primero que por médio de la prensa ha 
hecho pública la distracción inexplicable de muchos escritores nacio- 
nales y extranjeros, ai no reparar que las diez ciudades mencionadas 
en la famosa inscripción van todas colocadas por orden alfabético, y 
que de consiguiente los epigrafistas no habian leido bien el octavo de 
los nombres geográficos : allrmación más exacta, de seguro, que la 
de suponer fuera de su sitio en la piedra aquella oclava ciudad. Nues- 
tro clarisimo Flórez lo mismo (jue el insigne Iliibuer habian dejado 
correr la insostenible lecciún de Acbisoci, en lugar de Nai;bisoci, que 
es la recta á muy poço que se rellexione sobre el particular. 

Más de quince anos hace que tengo concluídas mis monografias 
geográfico-históricas de la Espana Antigua; y en la de Brácara habia 
íijado ya resueltamente la lección Naebisoci. Sobre el particular llamé 
entonces y después he llamado varias veces la atenciòn de mis ami- 
gos y académicos más distinguidos y entendidos en este linage de 
estúdios, ai consultarles si eslimaban plausible mi conjetura de haber 



* Se eu me pDtlesse julgar auctorisado a fazer qual([ucrmoilificaoão nesta impor- 
tanlissima memoria do insigne archeolog(, e goograplio e meu dilecto amigo, o sr. 
D. Aureliano Fernández-Ciuena y Orljo, certamente supprimiria as lisongeiras pala- 
vras que me dirige. Xão me considerando, porém, com direito a fazel-o, consiíjno 
a(pii piihlicametUe o meu cordial agradecimento ao iliustre l)iljliothecario da Real 
Academia Espanola e venerando Antiquário da Real Academia de la Hisloria, pela 
benevolência extrema com que trata a mim e aos meus trabalhos. — Iíorges dk Fi- 

GUlilKEDO. 

Rev. Arch., n.o 6 — Junho 1888. 6 



REVISTA AIÍCHEOLOGICA 



podido occupar los Naebisocos el território de Naballo, hacia el na- 
cimienlo de los rios Tuela y Mente. Giistoso es y muy lisonjero para 
la ciência que dos personas amantes de ella, en lugar y tiempos dife- 
rentes y sin noticia el uno dei oiro, convengan puntualisimaniente en 
una observación determinada: prueba de su exaclitud apetecible. Yo 
coníieso que caí en ello por intuición, y que en mis apuntamientos no 
me deluve á justificar menudamenle mi enmienda, sino que la dí con 
alirmaciún decidida. El Sefior IJorges de Figueiredo evidencia su feliz 
observación cun lii-mes y elocuentisimas pruebas. 

El docto português, y yo estamos perfectamente de acuerdo en lo 
que toca ai nombre de la ciudad, por cierto no mencionada ni en 
otra piedra, ni en ningún antiguo escritor; pêro disentimos respeclo 
de la reducción á sitio lioy conocido. La probidad literária nos fuerza 
á ser contrários en la opinión, siendo adictísimos en la persona. Sin- 
embargo, yo no me hubiera atrevido á publicar fuera de mi obra lo 
que pienso en el particular, á no invitarme à ello el generoso y docto 
bibliotecário de la Sociedad de Geografia de Lisboa. 

II 

Toda la parte de mi monografia dei Convénio juridico de Brácara, 
en lo concerniente á las diez ciudades que menciona la inscripciòn de 
Chaves, descansa en el hecho probabilísimo para mi de haber ayudado 
esos diez pueblos, imperando Vespasiano, á la obra y gastos de una 
via pública entre los Lucenses y los Yettones, desde el Padrón (Iria 
FloviciJ, por Caldas de Reis (Aquae CelenaeJ, Cusanca (Cusanca), Gar- 
ballino, Orense (Aóhriga); San Pedro, junto á Nocelo da Pena fLimica), 
Yerin, Chaves (Aquae FlaviaeJ; y de aqui á la orilla dei Duero, en la 
parte que media entre la desembocadura dei Túa y dei Sabor. 

Yo me resisto á imaginar que la inscripciòn donde se menciona á 
Vespasiano, Tito y Domiciano, ai Legado de la Tarraconense, ai Legado 
de la Legiòn YII, ai Procurador dei César en el território de Asluria 
y Galicia, á la misma Séptima Legión y diez poblaciones, sea un tri- 
buto de obediência rendido á la gente Flavia por diez de las veinti- 
cualro ciudades que compoiiian el Convento jurídico Bracarense. No 
recuerdo haber habido entonces ningiin levantamiento de los gallegos, 
ni encuenlro expiicación para que tales diez poblaciones se viesen 
obligadas a perpetuar en una memoria lapldea su obediência y lealtad 
á los Flavios. Creo además que si aquel lestimonio público hubiera 
sido necesario, el monumento epigráíico se habria colocado en Braga 
como capital dei convento juridico; ó en Tarragona, como capitai de 
la província. 

Para mi no hay dudar: á la sazón que lenia en su mano los des- 
tinos dei mundo la famih'a de los Flavios, se abrió una carretera pú- 
blica por lo interior dei distrito Bracarense ; y luego en ella^ bajo el 



REVISTA ARCIIEOLOGICA 83 



império de Traja iio, ei pueblo de Chaves, á su cosia, labrò herraoso 
puenltí solji'e el Tâmega. 

La inscripcióii que evidencia esto úllimo dice asi ': 

IMP- GAES • NERVA 
TRAIANO • AVG • GER 
DAGICO • PONT • MAX 
TRIB • POT • GOS • V • P • P- p. Ch. 104 

AQVIFLAVIENSES 

PONTEM • LA PI DE VM 

DE SVO-FG 

«Imperando el Gcsar Nerva Trajano Augusto Ger- 
mânico Dácico, pontífice máximo, con potestad tri- 
bunicia, cônsul Ia quinta vez, los Aquiflavienses cui- 
daron de hacer á su costa el puente de piedra.» 

El letrero resallaba en una columna sobre ei mismo puente. 
Cerca de él, en unos iiuertos y do seguro á la vera dei camino, hubo 
Gira columna, veinticinco anos más antigua, con el epigrafe siguiente^: 

IMP-GAES-VESP-AVG-PONT 

MAX • TRIB • POT • X • L\P -XX-PP-GSÍX 
IMP-T- VESP • GAES- AVG -F- POSTtrIb 

POT- VTII- -IMP- Xlíir- GOS • VT/ p ch79 

//////////////////////////////////////////// 

///////////////////////////////////// 
C • CALPETANO • RAlTlO . QVkNAlí 
VAL • FESTO • LEG • AVG -PR-PR 
D • GORNELIO • MAEGIANO • LEG • AVG 
L • ARRVlTlO • MÁXIMO • PRoG • AVG 
LEG • VTl • GEM • FEL 
CIVITATES • X 
AQVFLAVIENSES-AOBRIGENS 
BÍBALI • COELERrí • EQVAESI 
IIsTeRA-VISÍGI • LIMICI • AE B I S O G 
Q V A R Q V E R r^í • TA M A G a n I 



1 Iliiliiicr, Inscriptiones Ilispaniae Latinae, 2'i78 

2 llubner, /. H. L., 2177. 



84 REVISTA ARCHEOLOGICA 



«Imperando el Cósar Vespasiano Augusto, pontí- 
lice máximo, con tribunicia potestad la decima vez, 
cmperador la vigésima, padre de la pátria, cônsul la 
nona vez ; imperando asimismo Tito Vespasiano Cé- 
sar, hijo dei Augusto, pontífice, con tribunicia potes- 
tad la vez octava, emperador la décima cuarta, côn- 
sul la séptima ísiguen borrados elqiiintoy sextorenglón 
donde se nombraba á Domiciano^ ciiya memoria fiié 
condenada); siendo legado dei Augusto (Vespasiano^ 
en la provinda Hispânia Citcrior 6 Tarraconense) e! 
propretor Cayo Galpetano Rancio Quirinal Valério 
Festo (que en el ano 71 habia ejercido el consulado); 
y siendo legado dei Augusto en la Icgión séptima De- 
cio Cornelio Meciano ; v procurador dei mismo Au- 
gusto (por Astiiria y GaliciaJ, Lúcio Arruncio Máxi- 
mo, — la Legión VII Gemina Feliz y diez ciudades, á 
saber los Aquitííavienses, los Aobrigenses. Bíbalos, 
Coelernos, Equaesos, Interámnicos, Límicos, Naebi- 
socos, Quarquernos y Tamaganos [llevaron á cabo la 
obra de esta via publica}». 

Reproduzco el magistralmente depurado texto latino dei benemé- 
rito Hiibner, con la tan exacta y discreta lección geográfica dei Senor 
Borges de Figueiredo. Y niego con el doclo alemán qne tales dos pie- 
dras sean dedicatórias: escnipiéronse, en la más anligna, los nom- 
bres de los emperadores cônsules, ai objeto de significar solemne- 
mente el ano; y por fausto mayor, se mencionaron las autoridades 
que luvieron inlervención en el mejor logro de la empresa. 

Ill 

Veamos aliora quién fueron esas diez ciudades qne ai par de la 
Séptima Legión, con liombres, bestias, carros y dinero abrieron el 
camino. 

Para indagar la correspondência de cada una á sitio conocido, es 
fuerza ante todo circunscribir el território donde bubieron de estar 
enclavadas, presupuestos el interés grande ó la obligaciòn inexcusable 
que los hubo de empenar en la obra. 

Durante el primcír siglo de nucstra era. Ia región galaica formaba 
parle de [n prucincia Hispânia Citerior ò Tarraconense, cuya capital 



KKVISTA AKCHEULUUICA 85 

fue Tarragoiia; y si; h.ill.ilja dividida cii los ú{>s conventos jimáicos de 
IJiaga y Kiigo. 

Sidxlividiaso el convénio jiiiidico de Uraga cn ciialro importantes 
ai;ru[)aciones, denominadas Ineyo cundados y chispados jnnlamenle; y 
el de Lugo eii olias ciialio, que en ;)G!) el rey suevo Teodomiro acre- 
cenló á once, pêro solo respeclo de los condados, sin aumentar las 
sillas epis<,:o|)ales. 

Iban á liligai' á IJraga veiíilicuatro ciudtulcs 6 puehlos ; y á Logo 
diez y seis. 

Llamábase cindtid 6 jnteblo á la reunión de lodos los liombres libres 
de una circunscripción determinada, con iguales franqnicias y dere- 
chos. Y de semejantes circnnscripciones fué cabccera, ya nn úppido, 
ú siquier vecindario en silio foilalecido por la naluraleza y el arte, 
como oppidtim Noela, Noya, y oppidiiin Ahóbrica. de que hablaré des- 
pués ; ya un loro, voz aplicada tanto ai conjunto de caserios indepen- 
dientes que formaban ayuntamiento con jurisdición y gobierno propios, 
cuanio ai lugar donde se alzaba su cúria 6 casas consistoriales, como 
Foifun Bdidíonim y Foruui Limicnnim, de que tambien luego be de 
tratar; ya un rico, aldeã importante y no snjeta á ninguna población, 
como Yicm Spaconini, Vigo; ya insigne casiillo ò ciudadela, ensefio- 
reada de bravo território, como Cnstdlum Tyde, Tuy, 

Yo me persuado de que todas las diez ciudadcs cuyo nombre se 
esculpió en la famosa columna vial ya referida, correspondeu á la pro- 
vincia Hispânia Citcrior ó Tarrciconensf, á la región apellidada Gal- 
laecia 6 Callaccia, ai convento jurídico de Brdcara Aiigusla; y cuatro 
de ellas, á la demarcación que en su dia se llamó obispado de Orense. 
y las otras seis poblaciones á lo que de igual suerte se dijo obispado 
de Chaves. 

Partiendo de lo conocido á lo desconocido, consultando con esme- 
rada ateución los documentos eclesiásticos de la edad media, los geó- 
grafos é historiadores griegos y iatino*s y las piedras escritas ; y, 
cuando esto falta, aceptando las razonables conjeturas, á que inducen 
ya el parentesco de nombres geográficos modernos con los antiguos, 
ya la necesidad de llevar á determinado punto una ciudad desconocida 
que en otro ningún lugar puede colocarse, — lie intentado fijar gráíi- 
caniente después de muchos anos de estúdio la autigua geografia es- 
pafiola. Y en ella, con tales auxílios, por consiguiente, el convento 
jurídico de líraga. 

Su território, desde remota edad y quizá para el mejor gobierno 
militar, judicial ó económico, debió estar hecho cinco partes; las cuales 
fueron con el liempo oiros tantos obispados, supuesto que la división 
eclesiástica dei mundo romano se ajusto fielmente á la división civil 
augustea. Los obispados fueron Braga, Tuy. O Porto, Orense y Chaves. 
De las veinticuatro ciudades que formaban este convento jurídico, 
perleneciau seis ai obispado de Orense, y siete ai de Chaves. 



86 REVISTA AKCHEOLOGICA 

Dos de aquellas, á saber la de los Liibaenos y la de los Neméta- 
tas, no figuran en la columna vial por no haber ayudado á la obra; y 
si las olras ciiatro, de los contribuyentes Aobrigenses, Equaesos, Ll- 
micos y Naebisocos. 

Las siete dei obispado de Chaves eran las de los Aquiflavienses, 
Bibalos, Coelcrnos, Infcrámnicos, Quarquernos y Tamaganos, lambien 
contribuyentes los seis; y la de los Gallaecos, omitida en la piedra, 
por cuanto no lo fneron. 

Diré en que sitio veo yo á cada cual de las diez ciudades indicadas. 

IV 

Aquiflavienses. Los de Chaves. 

Se ignora el sobrenombre primitivo de las Aguas á que debió ce- 
lebridad esta población, trocado entre los anos 69 y 70, por el de Fia- 
rias, en honor de Vespasiano. 

El clarisimo Flórez ^ con Ia sagacidad de su mucho ingenio puso 
aqui resueltamenle la mansión Ad Aqiias, inventariada en la primer 
carretera de Braga á Astorga en el Itinerário de Antonino. Tuvo por 
acertada y buena semejante reducción y la esforzó inteligente mi sábio 
y querido companero Úon Eduardo Saavedra el ano de 1862, ai tomar 
posesión de su plaza de número en nuestra Real Academia de la His- 
toria, disertando sobre las obras públicas de los Romanos. Sinem- 
bargo, reconociendo en Chaves como reconozco yo, la mansión Ad 
Aquas, entiendo no poder hoy subsistir el trazado general que de toda 
esta via propuso el egrégio Académico y perilisimolngenicro anheloso 
de no separarse por completo y á diâmetro de las conjeturas dei P. 
Contador de Argote. 

Mas, como sea conocido ya, merced á oiro laureado ingeniero (el 
senor Don Enrique Gadea) que la mansión de Veniaiia fué en el des- 
poblado de la Pena dei Caslillo, término de Roya, provinda de Zamora, 
poço antes dei paso de la sierra de la Culebra por el portillo de San 
Pedro, — he intentado proseguir con buenos elementos el estúdio de 
aquella primera via. Me figuro haber obtenido resultado lisonjero, 
pues donde coinciden las distancias dei liinerario, sin esfuerzo nin- 
guno me han salido ai paso dos lugares modernos con nombre muy 
poço diferente dei antiguo. 

Ofrezco á los doctos mi trazado conjetural de este camino para 
que avaloren los aciertos, si los hay, enmendando los eiTores y descui- 
dos. Advierto que eu ciiatro de las doce mansiones elijo de entre las 
variantes que ofrecen las distancias, según los antiguos códices, otras 
distintas de las preferidas por los beneméritos G. Parthey y M. 
Pinder. 



Espana Sagrada, iv, 317. 



REVISTA ARCHEOLOGICA 87 



lie aijiii mi Irazado : 



Jlviii li Hiiitiiiii .l>/ /iiK (111/ iii/<ii/ '< M \ II /iii iiii íiiiiiinii l/l- Hnii^ii li As/orí^a se rc- 
(sicj: loi-rcii :!'>.'> kilónictros, de esta inancra : 

«""-- ■"-- r-vAmnu^::::'::^í^':!?:'^^ 

, l\s() da Ri^rua, 7 kil. ai N. de 
Pracsidio mpm xxvi J Lamego, marg-en derechu dei 

( Duero 41 » 

Caladuno mpm xxvr Ilacia Sabrosa 41 » 

Ad Aquas mpm xviii Chaves 29 » 

Pinetum mnm sxix ! P'"íit'ro Velho, comarca y ai 

Roboretum mpm xxxni El Robledo, ai SE. de la Fuebla 

' I de .Sanabiia íA » 

CompIeiUiea (quí/á xiii)- mpm xtx Hacia el Oriente de Brat:ança 30 »(quizá9) 



\'cnialia mpm xw 



Despoblado de la Pena dei Ca> 
tillo, término de Bo.va(Zamora) 40 



Petavonium mpm xxvm ! l^^.spoblado de Sansuena, entre 

' I V illayferiz V Rosmos 4o » 

Arírentiolum mpm xv ) Despoblado "entre Villamonlán 

'^ I yTabuyuclo 24 » 

Astuiica inpm xiiii Astorffa. 22 » 



LTiS : sobran 6 40.3 : sobran H 



Réslame advertir que ya en 1790 Cornide habia rediicido á Pi- 
nheiro Velho y ai Rohiedo ias mansioiies de Pinclnm y Roboretum. * 

For el le.xto que he preferido resullaii de más 0,000 pasos li si- 
quier 9,000 metros. Oiiizá esta diferencia provenga de la inseguridad 
con que e.xpresan los códices la distancia de Roboretum á Compleulica, 
variátidola en 19, 25, 20, 29 y 34 millas. Mny bien pudieran haber 
sido 13, y asi resullarian exactos los 247,000 pasos que anuncia el 
titulo en esta parte dei Itinerário. 

Queda, pues, graficamente fiiera de duda que Ia mansión Âd Aguas 
de tau precioso registro es la antigua ciudad de Arjune Flariae, aíian- 
zada en la actual de Chaves por el irrecusable teslimonio de las inscrip- 
clones geográficas. 

En nuestros dias uii varón eruditisimoha sospechado si Aguae Fia- 
viae pudiera ser la cabecera de los Túrodos, llamada por Tolomeo 
"Yõy-x Aaia ó Aata, Atjuae Laeae, á los 0'\30'; i3'\2o'; ó segun otros 
códices, 43",40'. 

Paréceme á mi que los Túrodos fueron más occiden tales y se en- 
senoreaban de cuanto media, por cima de Areoza, desde el monte 
Dór (que aun retiene algo de la denominación de aquella gente primi- 
tiva) hasta los airededores de Monção; y á esta villa precisamente re- 
duzco las Aguas Leas. 

Su nombre ha de ocultarse en el de Aquae ddeuae ó Aquae Scek- 
7iae, que oírece el Itinerário de Antonino ai mencionar la via de Bra^^a 
à Aslorga por algunos lugares marítimos (per loca maritima). Josefo 



Mapa corogyófico de la anti<jwi Galicia, por Dou Josef (^ornidií, 17!J0. 



88 REVISTA ARCIIEOLOGICA 

Simler, ediciòn de Basilea de 1575, propuso la eiimienda de Aquae 
Laenae. 

Refiérese el vigésimo primo camino espafiol dei Itinerário á una 
estación segiiiamento maiitima 6 fluvial, de donde con IVecuencia 
salian naves para el piierlo dei" lio Ulla. Pêro á nadie sorprenda no 
ver en aquel registro oficial las dos estaciones, por lo menos, que 
antes faltan, de Araáncca y Âbúbrica, junto á la desembocadura dei 
Lima y dei Mino. Como de estas omisiones hay muclias en tan útil 
documento. 

A CLXV estádios ó sean 33 kilómetros de una estación omitida pone 
el Itinerário la de Aquis Scelenis; pêro no es subsistente aquel numero 
pues algunos códices fijan en cxlv los estádios; por manera que bien 
pudieran ser cxcv estádios ó 39 kilómetros. Esta distancia precisa- 
mente viene á mediar entre A Iiisua y IMonção, puesta aquella islã y 
fortaleza á la entrada dei Mino; y la segunda pobiación, en su margeu 
izquierda, frente por frente de Salvalierra de Galicia. Pues muy cerca 
ai oriente de Monção brota salutífero raudal de agua caliente, y le 
describe asi Carvaíbo da Costa: * «Tiro de mosquete da villa para o 
Nascente, perto do rio nasce bum olbo de agua quente, a que cliamão 
Caldas, em que la vão roupa ; poucos se ajudão delias por baulios, 
tendo-se experimentado serem mui medicinaes.» "^ 

He aqui en IMonção. en una estación íluvial, las Aguas Leas, y con- 
cordadas las noticias de Tolomeo y dei Itinerário ; cuyo camino de 
Braga á Astorga, por algunos lugares marítimos, barían los viajeros 
de este modo: 



Brácara Braga. 

Araducca Vianna do Castello. 

Ahóhrica A Insua, á la boca dei Mino. 

Aqiiae Laeae Monção. 

Viciis Spacorum Vigo. 

Aã Duos Pontes Pontevedra. 

Grandimiro Grandoiío, sobre la izquierda dei 

Ulla, ai terminar la ria de Aroza. 



1 ChorograpJiia Portiirjueza , i, 211. 

~ Aquae Laeae ('^oy.Tc/. Av.ia) encierran el si.muficatlo de «Aguas izquicr- 
das» ó situadas á la izquierda dei expeclador, n de aiguii paraje delerrni- 
nado. No parece que liaya lenido otra siííiiiíicación el Yocai)lo Cclcnae, Scclc- 
nae aquae, porque se h;dla en todas las famílias de la estirpe céltica: lo cual 
arguye que á ellas no vino de otro extrafio idiouia. La mano «izquierda», 
6 ol adjctivo «izíiiiierdo» se dico en irlandês de, en escocês cli ó dith, en welsh ó 
lengua dei pais de Gales rlrihl. y en lirelón Ikiz. Asi que Aatá (Laeae) pudo ser 
Iraducción griega dei céltico (lelcuae. Monrào. sitio de Aqwte l,aeae ó Celenae, se en- 
cuentra, precisamente, cn la rihera, iz(|uierda dei Mnlio. — F. Fita. 



REVISTA AliCHKOLOGICA 89 



De lo dicho hasta aqui resiilln sernos desconocido el nomhre qiie 
Uivo Ia ciudad de Chaves antes de Vespasiano; y que enlonces sus 
naliiinles, seiiúii ronsla de pieihas escritas, se Ilamaron Afjfd/lavicnses. 
De ellns iii Hiiiio, iii Toloiiieo se aciierdaii. I':i llineraiio de Aiicoiiiuo 
Augusto designa anlononiáslicatnenle la [)í»l)lación con el solo nonibre 
dúAfjiiae. Pêro, muy mediada va la centúria V. el insigne Idacio. obispo 
de aíjuella diocesis. escribe que á 20 de jnlio de 40i2, fué preso in 
Aqwjhivieuíii Kcdesia; y que Ires meses después, por noviembre, vol- 
vió libre dil FUivias. A la sazóri, pnés, se ve que era indisliiilo el uso 
de Aunifldriai' y de solo Flariac. Ksla voz úllinia corronii)ida produjo 
la actual de «Cliaves». 

Por iiltiino. los A/piillarieiws, bacia la banda dei norte, eran veci- 
nos de los liibalos y Tamaganos; bacia oriente dividian lindes con los 
Inlorámnicos; ai mediodia con los Coelcrnos y Gallaecos; ai occidente 
con los lirácaros. 



Aoimir.iíNSES. Los de la ciudad de Orense. 

IMuiio, Toiomeo, el Ifinerario de Antonino y el Ravenate no men- 
cionan esta población. Por priniera vez la cita el Cronicón de Idacio, 
en el indicado ano i6:2, apellidáiidola Aárcga, voz ya corrupta de 
Aóbriga. ' A/fhmja se dit ia en tiernpo de los suevos, y pronto Aárcga, 
que los documentos eclesiásticos y suscripciones conciliares vinieron à 
latinizar en Aurca, Aiiria y Aurisina. 

La escritura de Lugo, fechada en 509, asigna á la cátedra epis- 
copal de Orense estos diez arciprestazgos: Ad (skdem) Auiutasem: 
Palia aurra, Vernigio, Bébalos, Crporos, fennes, Pincia, Cassavio, Ve- 
récanos, Senabria, et Calapages maioi-es. - 

Lo misino con algunas variantes repita la división de obispados atri- 
buída à Waniba. ^ 

Y en 880 el magno príncipe Don Alfonso ni enumera esos arci- 
prestazgos, ai restaurar y dejar dotada la Santa Ecdesia Auriensis se- 
dis provinciae Gallacciae. ^ 

Del adjelivo Auriensis ó Auremis, calificativo de civitas, se derivo 
la actual deuominación de Orense. 

Céltica es á no dudar la dicción Aôbriga, cuyo segundo elemento 
briga, ya demostre hace 10 anos que vale «puente» y no ciudad. ^ 
Con efecto en luicslra piiiniliva Espana, desde las antiquisimas Sego- 



1 Rcmismmuhts vicina paritrr Auregensiwn loca et Lucensis conventus marilima po- 
puhilur. 

- Exjmiin S>agrad(i, iv, 132; y dos copias dei siglo xvii. 

^ Idem. 2.U, y los manuscritos. 

■'» Idem. XVII. "SMi. 

"' Femández-Guerra, El Libro de Sanioíia, 2.* edicción, pag. 24. 



90 REVISTA ARCHEOLOGICA 

briga, Centóínir/a, Miróbriga, Caetóhriga y Caelúbriga, hasta las más 
cercanas Brtitóbriga, Julióbriga, Cacsarõbriga, Auguslúbriga y Flavió- 
briga, y otras muclias de igual desinência, iodas, con rarísima excep- 
ciún, se hallan cerca de un rio, y varias con rastros de uno ò más 
puenles. No recuerdo otra localidad de solo el nombre Briga, «El 
Piienle», que la que nos ofrece la escritura de dotación heclia el ano 
lOii, ai Monaslerio de Corias, eu Astúrias, por el conde Pinniolo y 
Aldonza su muger. * 

La dicciòn Briga responde ai escocês brig y ai gótico bri/gga; y 
háceule consonância el anglosajón bricg, alemau brikhe, holandês 
brug, el inglês bridge y el galo briva, palabras todas que signitican 
«puenle» -. 

Y siendo componente primero de la voz Aóbriga la dicción ao que 
nuestro nniy docto académico de la Historia y mi amigo R. P. Fidel 
Fita •* iguala ai céltico í//)o, signilicativo de «mananlial, fuente, arroyo, 
rio, agua corriente», ya bajo la forma Melsh de afon, ya bajo la gaêlica 
de abhami, amluum, amhauin; en sanscrilo, ajmas; en lalin, amnis; 
en brelon aien, — si aceptamos el sentir de lan afamado varón, ten- 
driamos que Aóbriga se debiera interpretar «El puente dei rio». 

Salgamos ya dei campo de las etimologias. 

No considera diferente el senor Iliibner '' esta Aóbriga, dei óppido 
Abóbrica, situado por Plinio ^ en los Cilenos y convento bracarense. 
Inclinase á que la forma genuina de tal nombre debió haber sido la 
de Avóbriga, con alusión ai rio Avo, hoy Ave, que corre bacia la banda 
oriental y meridional de Braga Y se apoya para discurrir así en dar- 
nos escrita de esa manera la voz geográlica un monumento de Tarra- 
gona, erigido por la Província llispani? Citerior ai llamen Lúcio Sul- 
picio Nigro Gibbiano Avobrigerise. ^ 

A dicho parecer se opone con este otro el Senor Detlef Detlefsen: ' 
(íAbobrica. Equivòcase lliibner ai derivar dei nombre dei rio Avo 
aquella palabra, en su advertência á la inscripción número 4247 ; no 
menos que en colocar semejante ciudad en território de los Kilenes, 
pueblo que perleneció evidentemente ai convento de Lugo. Abóbrica 
estaba á grau distancia dei rio Aro; y debe colocarse en la espécie de 
península, de forma triangular, que hay ai norte de la embocadura 



' Espaila Sfifirnãii. xxxviii, 2'J2. 
- Feri)ández-Giierra. /. c. 

^ Fita, Restos de la dechnación céllici i/ rcllihrrua oi algunas lápidas Espnnolas, 
J878, páuinas 12 y 13. 
' /. //. L. 'i2'i7. 
•^ i\at. llisl.. IV, 2U. 1 12. 
r> /. //. /.., fíVí7. 
' Philologus de Gotinga, j)ág. 658. 



RK VISTA ARCIIKOLOGICA 01 



dei Mino. ^ Ahóhrica fué quizá el puerto situado on la costa septen- 
trional de diclio rio.» 

Uosdo niiiclios anos hace tengo consignada enmi «Galicia Antigua», 
una opiíiiúii, li;is(;i cierlo piiiilo, no dcseniejnnln. 

Alli lijo cl sitio de Áhnhrini en la islã forliíicada que existe á la 
desemhocadura y costa seplentrional dei Mino. Y da vigor à mi con- 
jelura un testimonio dei afio Ho4, nada menos que dei geógrafo 
árabe Edrisí. Kslas vienen á ser sus palabras: «Kl Mino (j^^ j^) 
es rio Ljrande, caudaloso, ancho y profundo; y en médio de él, á las 
seis mi lias dei mar, liay una islã con sn casliílo sobre cicrtos penas- 
cos, maravilla de foitiíicaci(3n y dificilisima de ganar. Su altura no es 
iKucha; y aqucl presidio se denomina el Castillo de Abraça (j^^s^t 

Estrabón, aun cuando no dice el nombre, menciona la islã que 
descuella á la desembocadura dei Mino; y liabla de dos valientes es- 
colleras que amparan y deíienden el puerto allí formado.'' 

Plinio, recorriendo esta misma costa galaica de norte á sur, nos 
liabia dicho «que en los Cilenos (cuya linde meridional, divisória de 
Braga y Lugo, arrancaba desde la ria de Vigo y Puente de S. Payo 
bastia Cusanca) tenia principio el Convento jurídico IJracarense ; que 
de los lugares próximos ai Oceano eran moradores bracarenses los 
Helenos y Gravios; que se alzaba alli la ciudadela de Tuy, siendo 
todos estos pueblos de gente griega; y que por alli tambien se veian 
las islãs Cicas (Cies), elóppido Abúbriga y el rio iMifio, de 4000 pasos 
en la embocadura •'» 

Concordando á Plinio y Edrisí, no vacilo cu identificar el oppidum 
Ahôhrigay iai^l ^^-a:-'^ El Castillo de Abraça, y le reduzco á la fuerza 
que tiene Portugal en la boca dei Mino sobre unos penascos graníticos, 
por quien se divide la barra en dos, Mamada portuguesa la una y 
gallega la olra. Aquel propugnáculo, dentro dei cual brota una fuentc 



í Supongo que aludo á la que arrancando cn el puehlo de la Guardiã termina en 
la punta do (íi^nete. 

- Kdi"iíi, Dciicyipcióude Espaíw.rWmax. parte i. 

A tal punto SC Iiallan en el Geógrafo eíjuivocadas las distancias, que desde il/^cífca 
á Tuy pituc ()0 millas, las ciiales iiaccn dos jornadas; en vez de IG millas, que es lo 
correspondiente á los 27 kil('iiiielros ([ue niedian entre la barra dei Mino y aquella 
ciudad: (> en lugar de los 18 kil()melros que liay de Tuy á la Í5la Boega. Y adeniás fija 
una jornada, ó sean ilO millas, de Tuy á Santiago, cuando por lo menos se recorreu (58. 

Mi grande y sahio amigo el sr. Sàavedra, snponiendo que Edrisí pudiera tener 
razón, en cuanto á las ('» millas ó 9 kilómelros de Alinira ai mar, conjplura que este 
castillo dehe entonces colocarse en la islã Borqa. entre la polilación espafiola d(! Ei- 
ras y la portuguesa de Novella de Cerveira; y que el Geógrafo se distrajo ai escribir 
l'é\y}\ (Ahrncn) por ia! o! (Ahocca). — Rev. Arch. e Hist., Lisboa, 1887: i, 4, pág. 51- 

3 Libro III. cap. iii. 4. 

i Plinio, i\at. llist.,nn, 20, 112. 



92 REVISTA AlíCHEOLOGICA 

de biien agua potable, y donde hubo desde 1392 hasta nuestros dias 
un convento de Capuchinos de la Concepciúii, se halla situado ai oeste 
de la villa lusitana de Caminha y ai sudoeste de la es[)ariola de Cam- 
posaucos. Dicenie hisua de SoNfo Isidro y vulgarmente Forle da Iiisua; 
y los gallegos A Insua. La fortaleza actual es obra dei rey Don Juan 
el i en el ano 1388. 

Yo de ningún modo me atreveria â negar que á orillas dei Avo 
pudiera haber liabiilo una Avúbriga, segun sospecha el sehor lliibner 
rectamente; ni que fuose naiural de ella Nigro Gibbiano; como ni 
que tal ciudad recibiese nombre de nn puente sol)re el rio Avo. Muy 
verosimd y plausible me parece todo ello y bien adivinado. Pêro estimo 
três poblaciones distintas las de Aóbriga, Abóhfiga y Avúbriga: la pri- 
mera, en la parle superior dei Mino, no demasiado abajo de su con- 
fluência con el Sil ; la segunda, en la desembocadura dei Mino; y la 
tercera, á la margen dei Ave. De igual modo es diferente^ de esos 
três óppidos el de Adróbrica, hoy Puente de Eume, en los Ártabros, 
que nos descubro Pomponio Mela K Hecho de los três de estos cuatro 
distintos nombres uno solo y único, por impremeditación de algunos 
editores de nuestros siglos de oro, que se airojaron á enmendar de 
auloridad propia los textos de las obras clásicas griegas y latinas, 
viéronse pronto los cultivadores de la Geografia confusos, perplejos y 
embrollados. 

La identiíicación de Aóbriga y Orense no era nneva en esta ciudad. 
Sabialo el famoso autor de la Espana Sagrada "^; pêro aun cuando 
apunta la espécie, en ella no (piiso hacer alto, ni consumir liempo en 
aclarar de caso pensado la matéria. Habíanle desorientado por com- 
pleto las equivocadas opiniones que entonces corrian por culpa de los 
viciados textos, llarduino, bacia 1(580, y Cristobal Cellario, bacia 1703, 
colocaron en Bayona como una sola y única [)oblación los três óppidos 
que apareceu de Pom[)()nio Mela, Plinio y el epigrafe de Chaves. ^ 
Mayans desatino llevándola á Hivadavia. '' Para Cornide, enfin, Abôbrica 
estuvo entre el Grove y la Lanzada; y Aóbriga, en Orense. 

En Orense la reconozco yo ; partiendo limites, ai cierzo^ con los 
Cáporos y Lcinavos, pueblos uno y oiro dei convento jurídico de Lugo; 
á oriente, con los Tibaros dei convento de Aslorga.y con los Eqaaesos 
dei de Braga; ai sur, con los Limicos y Quarquernos ; y ai occidente 
con los Luaucos. 



1 Choroçiraphia, cdicJóii de 1'arllioy, Herlin, 1867 : pág. G'i, liiica 28. 
~ XVII, 7. 

^ Harduino, edicióii pliiiiaii;ip;ira uso dei JJ>clíiii. 1686. — Cellario, Nolilia Orbis 
Antiqni. pág. 67. 

'' De Hispana progénie voeis ur^ pág. 92. 



REVISTA ARCHEOLOGICA 93 



VI 

RíuALOS. Arampaban, de oriente á ocaso, desde la derecha dei 
Tâmega y Monlerrey hasta la sierra de Larouco, província de Orense; 
y de norte à sur, desde la población gallega de Coaledro, hasta las 
portuguesas de Pedreira y Os Arcos. 

Fertiliza todo este distrito el rio Búbal, que se une ai Tâmega por 
su margen derecha, entre los pueblos gallegos de Villaza y Quizanes. 

En manera ninguna se ha de confundir este rio con otro de igual 
dominación, que hoy sirve de limite á las províncias de Orense y Lugo, 
y se incorpora ai Mino poço más abajo de habersele unido el Sil. 

Plinio y Tolomeo * incluyen los Bíbalos en el convento de Braga, 
sin diCerir como ni la inscripción de Chaves cuanto á la identidad dei 
nombre. 

Los suevos los llamaron Béhalos, según manifiesta la escritura de 
arreglo de diócesis fechada el ano de 509, ai distribuir la Iglesia de 
Orense en diez arciprestazgos. "■^ 

Y los godos vinieron á decirlos Búbalos, cual debia leerse en có- 
dices llevados á Oviedo cuando la irrupción de los áraltes, y cuyos 
da tos hizo valer, á fines de la centúria xi, el fabulizador obispo ove- 
tense Don Pelayo, cuando hilvanó la llamada división de Wamba. ^ 

Asolada Orense por los Agarenos, y duehos estos de la comarca, 
no hubo de revivir hasta fines dei siglo ix. Recobro sns despedazadas 
ruínas Don Alfonso ni, las pobló, restauro la ciudad y su Iglesia, y le 
confirmo por agosto de 880 los arciprestazgos que tuvo, entre ellos el 
de B('-balos, escrita la palabra tal como la ofrecia el documento suevo 
ya citado. ''* Pêro aquellos naturales continuaban seguramente apelli- 
dândose Búbalos, como hoy lo patentiza el denominarse Bfibcil su rio. 

Florez, "' no recordando el afluente dei Tâmega en las fronteras 
de Espana y Portugal, y si el dei Mino, ó séase el arcedianato de 
Búbal. bacia el seplentrión de Orense, limítrofe dei obispado de Lugo; 
como le repugnara con razón situar aqui los Bibalos de la edad romana, 
túvolos por diversos de los Bébalos y Búbalos de la época visigótica y 
sueva. V dejando á estos el alfoz dei arcedianato, supuso á los Bíbalos 
cerca de Viana dei Bollo, á la margen dei rio Bibey. 

Tal insubsistente conjetura desaloja de su propio território ai 
arciprestazgo suevo de Cassaria, hoy Casayo. que se prolongo hasta 
Viana y el rio Bibey, y desde la villa dei Bollo, puesta entre este rio 



1 Plinio, ni. 3. 28.— Tolomeo, ir, o. 21. 

■' EsjHiíia Snijyadu. iv. l.'{2, ppro con auxílio de muy (Ipsruiilada copia. 

^ Expaíia Sdfirddn, iv ; 'iVí. con a errata (\c Ruvnle por Bubale. 

' K.-^pafia Sfuirada, xvn, 2-!5. 

^ Espana Sagrada, xvii, lo. 



94 REVISTA ARCHEOLOGICA 

y el Tares, hasta la Pena Trevinca y Sierra Segundera. Más, todavia: 
priva de su antiiiuísima circunscripción ((jue fué Ia misma dei arci- 
preslazgo) á la ciudad de los Nemétalas, ciiyo óppido Volóbriga supongo 
eii Viana dei Bolio, que liene un puente (briga) sobre el Bibey. Seme- 
jante circunstancia me impulsa á ver aqui la población tolemaica más 
bien que en el Bollo, como entiende Cornide', aun cuando confieso que 
Bollo (forma poço diversa de VoloJ es componente primero de la dic- 
ción Volóbriga. 

Para concluir : el juicioso autor dei «Alapa corográfico de la antigua 
Galicia» no quiso admitir el parecer de Florez respeclo ai território 
que atribuye ésle á los Bibalos (parecer equivocado y seguido, no 
obstante por todos los escritores modernos); pêro no acerto ai colo- 
carlos en el arcedianato de Biibal, bacia el norte de Orense, ni ai 
imaginar su cúria ó casas consistoriales, Fortim Bibalorum, en la 
parroquia de Alba. 

Yo creo saber donde fueron los Bibalos, pêro no el Fórum Biba- 
lorum. Sospecbo, no obstante, que tal vez logren dar con sus ruinas 
los sábios y diligentes arqueólogos portugueses, buscándolas bacia la 
bermita de Nuestra Sefiora de la Salud, sobre la orilla izquierda dei 
Búbal, entre Solveira, Villar de Perdizes y la frontera bispano- 
lusitana. 

Tenian los Bibalos por vecinos bacia el norte á los Quarquernos y 
Limicos; por el oriente á los Tamaganos; ai sur los Aquijlavicnses; y 
ai occidente los Narbasos. 

VII 

CoKLKRNos. Los do Auciães, nombre equivalente á Villavieja, por 
sus grandes rastros de antigiiedad y piedras escritas en caracteres 
desconocidos. Toca esta villa á la província de Tras-os-Montes, comarca 
de Carrazeda de Anciães, y se alza sobre lugar elevado y fuerte, à 5 ki- 
lómetros dei Duero y en su margen derecba, entre los rios Tiía y Sabor. 

Coeleriii, dicen sin discrepar, tanto el monumento de Chaves como 
los selectos códices de Plinio ; el precioso escurialense, aun no estu- 
diado, nos da la forma Cohelerni, disuelto el diptongo por interposi- 
ción de una h. "^ 

Tolomeo los llama Coelerenos ó Coelerinos, y recuerda su óppido 
de Coeliúbriga. •* 

Cuanto ai sitio donde hubo de estar, mucho se ha discorrido y 
escrito. Imaginaule en Celorico de Basto, por la aíinidad dei nombre, 
el dr. Don Juan de Barros, el P. Jerónimo Contador de Argole y el 



^ Mapa corográfico, grabado cii 1790. 
^ Pliiiio, III, 3. á8. 
3 Tolomeo^ ii, o. 



REVISTA ARCHEOLOGICA 95 

académico dr. Dun Francisco Javier de ia Sierra. Vários geógrafos y 
de ellos Ciisloljal Cellario le conjeluran eii Barcellos; mienlras que 
el l'. Enrique Flúrcz y Don Gregório Mayáns dejan su reducciúii inde- 
lerniiiiada. 

Veainos como se pudiera adivinar. 

El afanoso estúdio y colocaciòn de las 24 ciiidades que resuella- 
mente afirma Plinio componer la romana cliancilleria de Braga, nos 
prcsenla en blaiico un território importante, limitado de E. á O. por 
los rios Sabor y Pinhão ó Penlião, y ai sur por el Duero; cuya cir- 
cunstancia nos lleva á suponer muy cerrado bosque todo aquello en 
lo anliguo. «Bosque» significa en celta la voz coil, radical de Coelerni 
y Coeliúbriga. 

Y como quiera que debemos renunciar á imaginar que Coeliúbriga 
fuó la actual Barcellos, porque su demarcación desde Espozende, per- 
teneció á los Scurhos * ; y como ni lampoco, sin arrebatar anliquisimo 
património á los Gallaecos propiameníe dichos, habrá de parecer en 
los valles meridionales dei Tâmega, desde Arco de Baúlhe, comarca 
de Celorico de Basto, y desde Aroza hasta Lomba y Eja ú Entre- 
ambos-os-rios, — estará resuelto el problema si reconocemos á los 
Coekvnos y su úppido Coeliúbriga en Anciães y en el coto cefiido por 
los rios Penhão, Sabor y Duero. 

Siendo esto asi, tendrian á los Interdmnicos ai norte; los Asfures 
à oriente; los Veltones y Lusitanos, ai sur; y los Gallaecos, ai occidente. 



VIII 

Equaesos. Los de Conso y el rio de su nombre. Dilatábanse desde 
la mitad superior dei Navea, por toda la margon izquierda dei Camba 
y un buen trecho dei Bibey, hasta venir á los términos de Tribes y de 
Mendoya. 

Plinio - y la columna de Chaves escriben identicamente Ecjuaesi; 
y como apellido personal, y bajo la forma de Equesus, nos brinda con 
esta voz una mscripciún de Oteyza, en Navarra^. 

No debió ser dicción rara en las antíguas lenguas que por allí hu- 
bieron de hablarse, coando una parroquia cercana y adscrita á Braga 
se llama, en la escritura sueva de Lugo, ano de 5G9, Eqidsis ó Equirie 
ad Salliim'*. 

La capital de los Equaesos debió nombrarse Equia; y de Munici- 
pium Equesum proviene quizá el actual de Conso. 



> IMiiiio, N. H..UU, 20,112. 

- 1'liiiio. III. 3. 28. 

3 líiihner. /. //. L, 29G8. 

* Espaíia Sagrada, iv, 234 y 132. 



96 REVISTA ARCIIEOLOGICA 



Partian lindes, ai cicrzo, con los Tiburos lucenses; á oriente, con 
los Noitétatas; ai sur con los Naebisocos; y á occidcnte, con los , de 
Aóbriya. 

IX 

Intehámnicos. Su òppido debiò elevarse entre los rios Tiiela y Túa; 
y correr su jurisdición, desde el Torto, por Franco, Cabeça de Mouro, 
Candosa. Mirandella, liasta Letrica y Villafranca. 

Ninguno de los escritores griegos y latinos los nombra. En cambio 
Tolomeo y el Itinerário de Antonino liablan dei Intemmnw de los As- 
tures, que liubo entre el Esla y Bernesga, cerca de Soto ; y de 
luteramnio Flávio, lambién de aquelia gente, donde ahora el pueblo 
de Onámiol, entre los lios Boeza, Parada y Molina*. Plinio recuerda 
â los iNtercuniienses lusitanos, de que liay memoria entre los municí- 
pios que costearon el famoso pnente de Alcântara"^. 

Siempre y en toda nación, ai pueblo situado junto á la confluência 
de dos ô más rios ó no lejos, impusieron los traginantes nombre 
apropiado á tal circunstancia y por ello fácil de retener en la memo- 
ria. De modernas poblacioiies espailolas denominadas ai estilo y por 
la misma causa, recuerdo once Entrainhos-rios, nueve Eutrambas-aguas. 
dos ENtrwnbas-mestas; é igual ó análoga combinación respecto de 
puentes, foces, montes, vias, etc. 

De Portugal ya he mencionado á Eja, que indistintamente se llama 
Entre-ambos-os-rio.>; pêro aqui no liay términos hàbiles de colocar los 
Jnlerámnicos de la piedra de Chaves, por corresponder á los Bvú- 
caros aquelia parte de las máigenes derechas dei Tâmega y el Duero. 

Véanse los pueblos que rodeaban á los Inlerámnicos bracarenses. 
Por el norte, los Tamagaiws: ai este, los Astures: ai sur los Coelernos; 
y ai oeste, los Aquillavienses y GaUaecos. 



X 

LíMicos. Los dei valle de Li mia, província de Orense. 

Plinio y Tolomeo los adscriben á la chancillería de Braga; y el mis- 
mo Tolomeo recuerda la cabecera dei distrito, apellidándola Fórum 
Limicorum''^ . 

Vivian dispersos en barriadas y caserios, formando ayunlamiento, 
con jurisdicción y gobierno propios. Su foro, ó séase la curía ó casas 



' Tolomeo, n, .^5, odíción áo. Willjcrt,'; pag. i22, 1, 10 y IG. — Ilinerario, edito- 
res Partliííy y Piíiflor; pas. 2i^i v 21(i;'202 y 20;{. 

2 Plinio, N.ll.. 1111,21, 118.' 

3 Plinio, JS. II. Jii, ;j, 28.— Tolomeo, ii, 5, en Wilberg ])ag, 123. 



REVISTA AKCIIKOLOGICA 97 

consisloriales, dorniriancJo variada llaniira de 17 kilúmetros, se encura- 
braba sobre el (|iie décimos aliora moiile do Viso; el cual corre de 
norie á siir. piieslo en lo más oriental de la Limia, ya muy cerca de 
Ia sierra de Haldriz. 

Los Li micos recibieroii de los Griegos este nombre, por la voz Aiu-va 
«Laguna», en considaración ã la que, insalubre y pestilenle, ancha de 
norte á sui- una légua, y larga dei este á oeste légua y cuarto, se 
hace â la milad dei valle. Fné en otro siglo mucho mayor este lago, 
y veiase rodeado por selva impenetrable de zarzas y juncos y pinos. 
Mas los natnrales, en remotisima edad le llamaron Lago licliõn, y 
ahora, con poça vaiiedad, le denominan Lago Beón, aun cuando más 
comúnmente, Laguna Antela. 

El rio que de ella brota, y discorre por Galicia y Portugal tuvo iin 
primitivo nondjre de \hhwy. y el vulgarizado por los griegos, de Li- 
mea. 

Reconócele ambos Estrabón, y adernas el de Lct/ies ó dei Ovido; enlo 
cual se eípiivoca, pues tal rio dei Olvido ò Lethes no fué otro que cl 
Mondego*. 

Pomponio Mela cayò en descuido igual; y entendió por raudal tan 
afamado, ai Limia, que los códices escriben Millia'-. Pêro Cayo Plinio 
Secundo, sin citar ni ai geógrafo de Amasia ni ai Andaluz, no deja de 
censuiarlos con estas palabras: «Se ha cometido grave error, aun ha- 
blando de Ínclitos rios; como dei Aeminio, por ejemplo; dei cual tan- 
tas fábulas se divulgaii y á quien apellidaron dei Olvido nnestros mayo- 
res. Pues no falta quien le saque de su lugar, que es á doscientos mil 
pasos dei Mu~io, y lo lleve á oiro sitio diferente y le imponga el nom- 
bre de Limaea.»^ Ya antes el escritor naturalista liabia mencionado 
bacia la marina á Eumcnium oppldum et (lúmen. Aeminio y Eumenio 
ténganse por la misma palabra, referente á la actual Coimbra y ai rio 
Mondego que la cine. Pêro vuelvo á mi propósito. 

Dista O kilóinetros ESE de la laguna Antela el sitio donde se irguió el 
Fontm Limiconnn. Al rededor de la cúria habia ido creciendo acomo- 
dada y rica población, do que hoy se ven las ruinas tituladas «La 
Ciudátí», à 13 kilometros E de Ginzo. á 7 NNE de Villa de Rey. á 
1800 metros por el septenlrión de Nocelo da Pena, de cuyo término 
son i)arle, y á 1100 E de Lodoselo. en el valle do Viso. Alli, bacia el 
ano 13:2, ó siguiente, la ciudad de los Limicos, Civitas Limiconnn, que 
es decir la reunión de los hombres libres dei partido, erigió una me- 
moria de alhesión y afecto ai Emperador Adriano; y en 141 ó 142, 



1 Estrabón, iii, 3, 4. 

- Mela, III, 8. 

3 Plinio, A', li iiii, 115. Erratum el in amnibm inchitis. Ah Minio cc. m. pass. 
abest Aeminius, quem alibi qiiiãam intellectum et Limaeain vocant, Oblivionis auliquis 
declus, multumque fabulosm. 

Rev. Arch., n." 7 — Julho 1888. 7 



98 REVISTA ARCIIEOLOGICA 

otra ai biien Antonino Pio. Aun todavia doran ambos monumentos, in- 
crustados en el frontispicio de la ermita de San Pedro, único resto 
que ha quedado en pio de la famosa Limka. 

Sábese con exactitud y puntualidad es!e nombre, merced ai tesli- 
monio eficacisimo de Idacio. obispo de Chaves ('.{90 — 470), nacido en 
ella: llalius provincioe Gallaeciae, natus in Lemica CivitaíeJ 

No cabe, pues, abrigar la menor duda cuanto á la ubicación de la 
ciudad y de su território; fronlerizo ai seplentrión con los Aobrigenses; 
á oi'iente, con los Equaesos y Naebisocos; ai sur, con los Btbalos: y 
á occidenle, con los Quarquernos. 



XI 

Naebisocos. Los de Nabeaos yNaballo de Castro de Laza, próximos 
ai nacimiento dei Támeíía. 

Los antiguos geógrafos é historiadores entregaron ai olvido estas 
gentes. Nómbralos tan solo el monumento de Chaves; pêro sin facili- 
tar otra guia para descubrir donde habilanm, que la de haber leni- 
do vecindad con alguna ó algunas de las cuidades conlribuyentes á la 
referida obra de un camino público. 

Este debió cruzar por el território de \o's, Aobrigenses, Limicos, Quar- 
quernos. B/halos, Tmiiúfjanos, Aqui/lavienses, Iníeràuinicos y Coelrrnos; 
quedando fuera de la linea el de los Equaecos y JSaebisocos. No hay 
manera de suponer á estas dos ciudades en la banda occidental delas 
ocho anteriores, por estar averiguadas ó poço menos cuantas de aquel 
ladoles eran comarcanas; y hay que llevar el discurso á la banda opues- 
ta, ó sea la que mira ai oriente. Pues, aun aqui, por el motivo ya dicho de 
ser conocido lo nicás de la frontera, habremos de limitamos á ia par- 
te oriental de la moderna província de Orense; y de ella, ai único es- 
pado de lierra interpuesto desde los Aobrigenses, Limicos y Bibalos, á 
los Nemétatas y Lubaenos. De ese espacio ocupaban la mitad septen- 
trional los Equaesos, y la meridional los Naheisocos. 

No vacilo en atribuir á los Naebisocos por jurisdición suya lo que 
hay desde la sierra de Baldriz, el nacimento dei Navea, y dei Tâmega, 
y la plaza fuerte de Monte Rey, hasta Gudifia y el rio Diabredo; y 
desde la derecha inferior dei Camba, hasta Villar do Ciervos, Sierra 
de Penas Libres, Naballo dei Rio Mente y Pinheiro Vellio {Pmctum); 
qnedándoles situados ai norte los Eq?(aesos, ai oriente los Lubaenos, 
ai sur los Tamaganos, y ai occidente los Limicos. 

Del solo y escueto nombre gcntilicio Naebisori ó quizâ Naebisocii, 
mal podriamos inferir si la cabeza dei partido se llamó Naebia, JSae- 
his, Naebisa, Naehisoqua, ó solamente se dijo Fórum Naebisocum. Ni 



Espana Sagrada iv, 317. 



ItlOVlSTA AmjJiKULOGICA 09 



tampoco, si por nvenliira (que eii lo posible cabe) se apellidú aiiiicl 
disrlilo "Los Naottios asociados», Naebii Socil. 

lí^s coimiii la radical Nwh ai rio Ni'his fescrito asi en los códices 
de Mela). Iioy Neyva, que corre entre el Cávado y cl Lima, y dividió 
á los piieblos Lcunos y Seiírhos '. Lo es lambieii á los rios Navea y Na- 
via; eu los Nafhisocos, Equansos, y Tihuros aquél;y este, eu los Sehur- 
ros Incenses y Paésicos aslures. 

Con el distrito de los Nadiisocos formaron los Suevos, en 569, el 
arcipre/lazgo de Pincia, hoy Pinza, no lejos de donde corren á jun- 
larse el Camba y el liibey. 

Xll 

QuAHorKHNos. Los de Bande. Se extendía su alfoz por ambas ori- 
llas dei rio Limia. uesde San Lorenzo de Cafiòn (ai sur de Celanovaj 
hasta la siérra de Larouco; y desde Moimenta á Lobera y la poente 
Pedrina. 

Las célebres Aqnae Qmrqmrnae, donde baclan descanso los viajeros 
qne iban de Braga á Astorga, fneron en San Juan de Banos, como á 
s kilómelros ai sur de Bande. Allí un poste miliar senala xxxxviiii 
millas, ó sean 78 kilúmetros, á Braga. 

Semejante camino puede estudiarse á niaravilla, pues existen ma- 
chos trozos de él y no pequeno número de miliarios, algnno quizá en 
el mismo sitio 6 no mny distante de aíjuel en que se coloco. 

Dice Plínio- que los Quenjuernos tocabau ai convento de Braga. 
Qaerqueiini leemos en el importante códice escurialense dei siglo xiv; 
y con igual forma en el Itinerário de Antonino Augusto, según los 
mejores textos^. 

Sigue en mucbo á esta preciosa guia de viajeros el escritor anó- 
nimo de Uavenna, aunque eslropeando los más de los nombres, si no 
es que estabau corruptos ya en el siglo vn. Anota pues, en su índice 
itinerário, Aqais Cercenis ''. 

Tolomeo pudo acertar con la forma genuína de la voz geògráQca, á 
no haber en ella suprimido la primera r, cuando cita la cindad y su 
óppído: 'Yoy.-.y. K:j y.y.izvúv, «Las Aguas de los Ivuakernos»,'' abora Banos 
de Bande. 

Eran vecinos de este pueblo bacia el septentríún los Aolnigenscs, à 
oriente los Limicos, á medíodia los Narhasos; y á occidente los que 
tal vez se denominarian Melgaecos, ó más bien Caiicenses, compatrio- 
tas dei grau emperador Teodósio. 



1 Plínio, N. II. nu, 112. 

2 MI, 3. 28. 

3 Eiiicioii (lo Parthey y Pinder, pag. 201. 
■* Edicioii (ie Parlliey "y Piíuler, pag. 32U. 
3 Ediciún de Wilberj:, pag, 123. 



100 KEVISTA ARCHEOLOGICA 



XIII 

Tamaganos, Á existir una población dicha Támaga, de quien hubie- 
se recibido nombre el famoso rio, tá biieii seguro que de lai voz ha- 
Uariamos rastros en villa ó aldeã próxima á sus fuentes ó nacimiento. 
No de otra maiíera el Liniia, nacido en la laguna Antela pêro acre- 
centado por afluentes cercanos y superiores á este lago, debe su nom- 
bre á la ciudad Limica ó Limia, colocada junto á las fuentes de uno 
de ellos. Asi también, el pliniano rio Scuuja (el más oriental de los de la 
Cantábria, llamado actualmente Sangas ó Mayor) tomo apelacíón de 
pueblo inmediato á su nacimiento, y que aun hoy mismo se dice San- 
gas y San Bartolomé, en el valle de Soba. 

Si con el Támaga, que abora pronunciamos Tâmega, sucediese una 
cosa parecida, habria que sacar de sus fuentes á los Naehisocos y re- 
conocer en ellas á los Tamaganos. Pêro nada de eso. El Tâmega se 
dilata en Galicia por un trayecto quizá de 40 kilomelros; y hasta los 
30 no viene á salirle ai paso la feligresia de Tamagós, y á los 33 la 
de Tamaguelos (ambas palabras con fisonomia primitiva), fuera ya de 
la circunscripciòn meridional de los Naehisocos. 

En ella pudiera arrancar la boreal de los Tamaganos: desde la ori- 
11a izquierda dei Tâmega, por Tamagós, Lama de Arcos, sierra de 
Penas Libres, Quiraz, Pinheiro Novo y Velho, Cerdedo, Muimenta y 
sierra Gamoneda, hasta llegar á partir limites por el raediodia con los 
lutercimnicos. 

En ese território quedarían comprendidos la comarca de Valle de 
Paços, con Monforte do Uio Livre y Lebução, Vinhaes, Torre, Villa- 
franca, Santa Comba, Bragança y Penella. 



XIV 

Hasta aqui la investigación geográfica. He procurado llevarla acabo 
en conjunto, y desde un pimto de vista nuevo seguramente y que, 
en mi opinión, ha de dar fecundos resultados. Los deberemos en rea- 
lidad ai precioso monumento epigráfico de Chaves apreciado en to- 
do su valor. 

Él nos muestra la forma genuína en diez nombres de ciiidades, en- 
tre las 24 que componian el convento jurídico de Braga. Él nos ofre- 
ce cuatro de ellas no registradas en los escritos griegos y latinos que 
han Uegado á nosotros. Y él nos brinda con luz bastante para averi- 
guar el território que ocuparon siete, de las cuales no hay más noti- 
cias que el nombre solo, conservado ya en la «Historia Natural» de 
Plinio ya en la inscripción llaviense. 



JUNHO— JULHO, l88X 





MAPA 

ímmn jiridico de Biua 

D. Aureliano Femándej- Guerra y Orbe 



REVISTA AHCHEOLOGICA 101 

La ciial, por el mismo hecho de presentar diez ciudades asociadas 
para iin íiii do iiUlidad comini, nos (loclara que por necesidad liabían 
de teiier las imas rcíspiiclo de lasolras suíí lerrilotios veciíios. F(jrma- 
han, pnes, una espécie de cadena; y si ai intentar yo volveria á su 
pristino estado, lie cogido un eslabon por otro, poniéndole fuera de su 
verdadero lugar, ya vendrá quién más afortunado y coo menos fatiga, 
le reslilnya á su pnpio sitio. 

En resolución, la cohuniia de Chaves nos demuestra que en el ano 
7í) de la ei'3 Cristiana diez ciudades dei convento jurídico Hracarense, 
ya por iniciativa propia ó ya por excitación dei Legado auguslal, unie- 
ron sus esfuerzos para construir una via interior desde el Mino ai 
Duero. Tralãndnse de obra necesaria y conveniente, no solo bajo el 
aspecto comercial, beneíicioso para aquellos habitantes, sino de interés 
nuiitar para el l^iieblo Romano, el Legado de la província y á sus or- 
denes el Legado de la legión vii Gémma Feliz, acampada en la Tarra- 
conense, hubieron de coadyuvar ai logro de tan buen proyecto, ha- 
ciendo que soldados de la Legión y sus ingenieros à la cabeza, 
comparlieseu con los moradores de dichas ciudades el gasto y la fa- 
tiga. 

Esto era á la sazón frecuentisimo. Gran número de inscripciones, 
en las varias províncias dei Império, leslifican de qué suerte las 
legiones, cohortes, alas, destacamentos aislados, y hasta la marina 
de guerra construyeron y re[)araron alcazáres, templos, banos, ca- 
minos. poentes, canales, acueductos y diques. 

Baste recordai' la epistola dcl procurador de la Mauretania Ce- 
sariense Tito Vario Clemente, grabada en mármol y dirigida á Marco 
Valério Etrusco, legado de Ia provinda de Numidia en 132; docu- 
mento relativo á la obra de cierto canal que, á través de montanas 
y profundos valles. labraron en Lambese, comarca de Bugia, los 
soldados de la legión iii Augusta. Pues otra inscripción nos dice 
que, médio destruído y abandonado el acueducto por la incúria de 
los hombres y el trascurso dei tiempo, Io repararon y mejoraron 
valieutemente los emperadores Diocleciano y Maximiano, y en su 
represenlación el Presidente de la província numídica, cuidando de 
los Irabajos un comisionado de la ciudad y un centurión*. 

Entre los anos de 177 á 180, imperando Marco Aurélio Antonino 
y Lúcio Aurélio Cómmodo, una cohorle reedifica, desde el suelo, 
soberbio anfiteatro en el território de Argel. Y ai reprodncir Wíl- 
manns el epígrafe conmemorativo, no se detiene un punto en asegu- 
rar: Sacpius ita per legiones, cohurles vexillatiouesce opera fada vel 
refecta inveniuntuf' . 



1 Gustavo Wilmanns. Exempla inscriptionum lalinariim in usum praecipiie acade- 
iitiaiui. IJeiiin, lH~'^. Niirneros, 785 y 769 a. 
~ Idem, Ibidem. Numero 743. 



102 REVISTA ARCHEOLOGICA 

El niismo docto epigrafista alemán nos Irae á la memoria como 
los soldados romanos, estacionados no muy lejos de allí á fines dei 
siglo II Y princípios dei iii, levanlaron en Lambese templos y eri- 
gieron unas termas y un arco de triunfo *. Pêro, ^que más? En los 
tiempos de Valentiniano, Valente y Gracjano (371), cierlo destaca- 
mento de caballeria fabrica desde los cimientos un burgo en Arábia ^. 
Y, finalmente, sabemos por la inscripción bailada en Coptos el ano 
de 188:1. baber abierlo los soldados cinco cisternas, en distancia de 
380 kilômetros, entre Coptos y Puerto Berenice-^ 

Siendo evidente, pues, que el soldado romano lomaba parle en las 
obras públicas, veamos abora á cuáles de ellas y como babian de con- 
tribuir las ciudades. Clarísimo aparece este punto en el capítulo 98 de 
la ley colonial de Osuna; míMiumento aun no descubierto cuando salieron 
á luz el tomo n dei Corpus Inscriptíonum Lalinarum y el repertório de 
Wilmanns. lie aqui el texto: «Cuando los Decuriones de esta colónia 
Júlia Genetiva de los Urbanos dispongan que se emprenda ó per- 
feccione cuaiquier obra de interés común, sea válido y ejecutorio 
su acnerdo si se bubiese tomado asisliendo á la junta la mayor 
parle de los Decuriones; y con tal de que à ningún vecino se exijan 
más de cinco dias de trabajo gratuito ai afio; y solo três á quien 
acuda con bestias de tiro y acarreo. Los Ediles lomen desde luego 
la dirección de la obra. La cual se ha de llevar á cabo tal y como 
la bayan Irazado y aprobado los Decuriones; mas, por supuesto, sin 
obligar á que Irabaje en ella, contra su voluntad, ningún menor de 
14 anos ó mayor de GO. Cualquier persona que, así en esta colónia 
como en su término, tenga domicilio ó finca, sin gozar los derechos 
y consideración de colono, sea obligada no obstante, cual si lo fuese, 
á dar sus peonadas en tales obras.''» 

Gravamen semejante debió existir en los demás pueblos de Espana. 
Y, fuera de ello, muclias personas eran forzadas á trabajar sin des- 
canso en las minas ó en las obras de las carreteras, ya por castigo á 
vlrtud de sentencia judicial, ya por tirania de algnnos emperadores. 



1 Wilmanns, DieRòmische Lagcrstaclt Afrilas.Yease en Ias Commentationes Philo- 
lorjae in honorem Theodori Mommseni, Berlin, 1877, pag. 197. 

^ Wilmiiiiiis, Exempla, 7(50. 

3 A. Boiíirlié-Leclercq, iManuel des Institiitions Romnhips, Paris, 188G. pág. H29. 
— Ocioso fuera querer \o comproijar liasta ia saciedad mi aserto. acumulando ins- 
cripciones sobro inscripcioiíes de diversas provincias romanas, y disorlando sin me- 
dida sobre lo que nadie ignora. Todo ello se cncueníra averiguado con diligencia y 
peregrina erudición, ya por el ilustre Guillermo líársUir, en su opúsculo intitulado 
JJie Bauten der rhmkchen Soldaten zwn iilfvntlichen Nxdzen. Spira, 187;.{; ya por 
nncstro sábio catedrático y académico D. Eduardo de Hinojosa y Naveros, en su ma- 
gnifica Historia (jenercd dei Dereclio Espaitol, Madrid, 1887. 

•'' Lex adoninc luliae Genelivae Urúanorum uive Irsonis, dei aíio 710 do Roma, 44 
antes de Cristo: texto é iluslraciones de lliibner y Monunscn, en la Ephcmeris Epi- 
fjraphica, 1874. 



REVISTA AliCIlKOLUGlCA lOo 

Calígiihi siípcró á todos eii prodigar y auri estremar las penas coolra 
persoiias do clase aveiilajada*. 

Vo creo, piies, no haher sido iinicas las diez poblaciones refeiidas 
en em[)ltíar lus brazos y dinero de sus habitantes para la ejecución de 
nn grau camino el ano de 71). Otras luuclias, pertenecientes á Uraga y 
á Lngo, estimo que iiicieran lo propio, en los anos de 78 á 80, bajo 
el poder dei mismo legado augnstal. 

iJuraiile esa época, y baciendo el Legado ostenlación de su nombre 
y dei de los Césares Flavios, se llevó á cabo un nuevo camino de 
liraga á la ciudad de Aslorga (via nova), siguiendo la cuenca dei rio 
Homem, atravesando la sierra de Gerez; y por las comarcas superio- 
res dei Limia, viniendo á cruzar el Sil. Oclio piedras miliarias, muy 
eslropeadas las más, subsislen aún con el nombre de dicbo legado 
Cavo Calpetano Rancio (Juiiinal Valério Festo -; en cinco se lee via 
nova a lirdcava ^, y la más lejana de todas ellas está inmediata á 
Puente Navea, en dirección de Valdeorres, á media légua de Tribes, 
fuera dei convento Bracarense, dentro ya dei de Astorga. 

Abrigo liiine convencimieíito de perlenecer á la via labrada por la 
ciudad de Chaves y sus luieve hermanas, los rastros y miliarios que 
salen ai paso dei arqueólogo desde Chaves á Villa-Randelho, Yaldete- 
Ihas, y Cossacos; lan maltrecha por los temporales y quebrantada en 
sus pnenles, después de siglo y médio, que los emperadores Macrino 
y Diadumeniano tuvieron que mandaria reparar en 217; y en f-lS, 
Maximino y .Máximo; Numeriano, en iSi ; y bacia 350 y 353, Magnen- 
cio. Asi lo publican los miliarios que han llegado hasta nueslros dias. ''• 



XV 

Tales son las conclusionçs que me sugiere el estúdio atento dei epi- 
grafe. Debo, sinembargo, confesar que varones doctisimos y anhelo- 
sos de investigar lo cierto, si bien todos ellos han alcanzado á ver 
parle de la verdad, sacan no obstante conclusiones generales diversas 
de las mias. 

Ilubner y Momrasen reconocen que la columna de Chaves se refiere 
à una obra pública; mas no Ia especifican. Ilallan incongruente que se 
interponga la mención dei Procurador por Asturia y Galicia Lúcio 
Arruncio Máximo entre el Legado de ia legión vii, Decio Gornelio Me- 



' Muitos hoiiesti crdinis, dcfonmitos prius stlgmatum notis, ad metalla aut ad 
viaruin mimitiones, aut ad hestias condemnuvit. Cayo Suetonio Tran^iuilo, Caius Coe- 

2 H(il)nei-, /. //. L. 2177, 4799, iSOS, 4803, 4814, 4838, 4847, 485i. 
^ ilul)iier, 0. c, 4802, ^.4814?, 1838. 4847. 48o4. 
' Ilubner, o. c, 4789. 4788, 4793, 479 L 



10 i REVISTA ARCIIEOLOGICA 

ciano, y el nombre de esta misnia legión vii Gemina Feliz. Y aun 
cuando no rediazan como inadmisible que la legión pudiera haber tra- 
bajado en la obra pública, sea cual fiiere (con Io cual desapareceria 
desde luego Ioda incongruência), prefieren entender que la legión está 
citada eponímicamente, en ablativo, para fijar aún más la fecba de la 
erección dei monumento^ 

Gustavo Wilmanns^ en el número 803 de sus «Ejemplos epigráficos» 
se aliene á lo dicho por IMommsen y Húbner respecto de esta inscrip- 
ción : diliriendo de llúbner, solo en imaginar que ba de correspon- 
der ai puente de una via piiblica, distinto dei puente municipal labrado 
ei ano IO'! sobre el Tâmega por los Agniflarierises. 

Y comentando en seguida los anliguos letreros dei puente de Al- 
cântara, sosliene contra llúbner que los municípios no ponian su di- 
nero y brazos, smnptiim et opera, unicamente en las obras de cami- 
nos vecinales, sino que á veces solían unirse para la construcción de 
vias, puentes y demás empresas de interés común, alegando para afir- 
mar esta doclrina, el conocido texto de Siculo Flacco y una iuscripción 
de Dalmácia^. 

Entre los distinguidos alemanes ilustradores de la iuscripción aqui- 
ílaviense, íignra también el profesor de la Universidad de Berlin Senor 
Olón Hirscbfeid, con ocasión de su escrito en honor de IMommsen ^. 

Este erudito niega bien que en la columna de Chaves se cite epo- 
nímicamente la Legión, esto es, para fechar el monumento, y que el 
LEGÃõr-GEM-FEL se haya de descifrar en ablativo. Peio yerra cuando 
atribuye à desapoderado amor dei cuadratario ó marmolista á la sime- 
tria, el haber trastrocado los renglones y querido enlazar en caso 
genitivo el nombre de la legión con el cíel legado de ella, Cornelio 
Meciano, ingiriendo á deshora en médio el dei procurador Lúcio Arrun- 
cio Máximo. Y, por lo que hace á este personaje, observa acertada- 
mente el sr. Ilirschfeld, que no es un simple procurador de Hacienda, 
sino presidiai ú siquier gobernador politico y económico; dependiente, 
por supuesto, dei legado de la Tarraconense. 

Á todos los sábios mencionados les choca en el epígrafe la inlerca- 
lación dei Procurador, entre el Legado de la Legión y el nombre de 
ella. Todos lo caliíican de inusitado é inexplicable; y todos no obs- 
tante, cuando se trata de inscripción tan solemne y de tan buena edad, 
prefieren echar toda la culpa sobre el grabador, á leer en caso pri- 
mero (en nominativo) el nombre de la Legión vii Gemina Feliz, que es 
lo razonable y congruente. 

Pêro antes de proseguir, debo hacer constar que á la persona re- 



1 Hiibner, o. c, 2477. 

2 Wilnianns, 80't, 80o. 

3 Die Vcricalhinçj dor Bhrhigrrnze m den ersíp)) (hrl Jalirinnidrrten der rimischeu 
Kaiserzeii.Vág^Mil ,n(Aa. IH útí las llommentationes J^hilologae in lionarcm Th.Mommsen 



KEVISTA AKCllEOLOOICA lOo 

dadora dei c'pii,M-afe no se le perdoriará minca la falia de liaberie 
heclio osciiro, siii necesidad. por ie|)iignaii(;ia á escribir dos veces 
Ll-lG-vilGEM-Fi:!.: uiia, abreviadas y eiilendidas eri genilivo las cnatro 
diccioiies, despiiós de las de (:oi<NKLioMAi:(:iANOLi-:GAVG; yotra, 
110 abreviado el primer vacablo sino entero y en renglón aparte, 
Lb:GlOVU(}i:MKi:i., precediendo á la linea qne ocupa el lilnio civi- 
TATESX. Candidamente supuso el redactor que, no liabiendo quien 
ignorase entonces, por Astnria y Galicia^ ser Cornelio Meciano el le- 
gado de la legiòn yii: y urgiendo mencionar luego á esta, y nada menos 
que en aventajado lugar, alendido lo que liubo de contribuir á la em- 
presa, — era suliciente é ingenioso poner abreviada la palabra Legiòn 
alli donde bacia más falta. Vino á imaginar, sin duda, que en cual- 
quiera tiempo la abreviatura leg podria atender á los dos conceplos 
diferentes: enmarafiado y antigramalical arbilrio. Mas, de toda época 
se regislran paiecidos absurdos é ingeniosidades. 

Soslengo que la Legión se lia de leer en nominativo, por lial)er con- 
tribuído con sus biazos á la obra, cual los diez pueblos dei convento 
de Braga: interpretación la más plausible, pues obvia todas las dificul- 
lades; y que no pueden menos de confesar bien encaminada Mommsen 
y Iliibner, aún cuando opten porotra. Finalmente, corrobora ítií aserto 
el introducirse en esta memoria vial, para fecbarla, el nombre dei 
legado de la Legión : lo cual seria fuera de estilo, á no baber ella tra- 
bajado corporalmente en la obra. Eu oiro caso, para datar la inscrip- 
ción bastaban y sobraban los Emperadores cônsules, el Gobernador ge- 
neral de la Tarraconense y el Subgobernador de Asluria y Galicia. 

Somelo dócil mis apreciaciones todas ai verdadero saber y probi- 
dad literária de cuautos lian consumido sii vida con entusiasta y acen- 
drado amor en tan peregrino linage de estúdios. Quien asi los cultiva 
acertará á poner en su punto el ceio por la verdad que me aguija y 
que ba llevado á mis manos la pluma. 

Madrid, 2 de Abril de 1888. 

AURELIANO FkRNÁNDEZ-GuEHHA Y OkBE 



CONVENTO DAS FLAMENGAS EM ALCANTAEA. 
OS ARCHITECTOS FRIAS 

(Continuado de pag. 77) 

De cinco indivíduos de appellido Frias nos dá noticia o Dicciona- 
rio Anistico do conde de Raczynski. Recordemos: 

Valeriano dk Frias de Castilho, — tbcsoureiro do arcebispo de 
Braga, primaz das Ilespanlias. «Pessoa intelligenie em Arquitectu- 



106 REVISTA ARCIIEOLOGICA 

ra» *, e como tal enviado por D. fr. Agostinho de Castro aos do- 
minicanos de Yianna, ás vesporas da trasladação do corpo do Santo 
Arcebispo D. Frei Bartholomeu dos Marlyres, para armar a eça sobre 
a qual haveria de repousar o caixão, em quanto durassem os officios 
e absolvições, tiabalho que «sahiu baslantemente apparaloso e magni- 
íico», conforme diz Frei Luiz de Sousa -. 

EuGKMO DE Fkias, imagiimrio, debiuador, pintor minialurista e or- 
namentista dos códices e pergaminhos do tempo. Auclor do frontespi- 
cio do Compromisso da irmandade de S. Lucas, executado em ICOO, e 
que o diplomata prussiano, entendedor pouco fácil de contentar, achou 
«de boa execução e de satisfactorio elfeito.» 

Luiz DE Fm AS, que o conde de Uaczynski, por informação do vis- 
conde de Juromenha, dá como «architecto, /(7Ao de Nicolau de Frias.» 
Das restantes informações, que se lèem apoz esta, mais para diante 
nos occuparemos. 

Nicolau dic Frias, aarchitecto, citado por Barbosa Machado co- 
mo artista que honra o seu paiz» — expressões do auctor do Diccio- 
nario. 

Seguem-se a este preambulo informações do visconde de Jurome- 
nha, como se sabe, um dos mais assíduos, mais zelosos e também 
mais competentes collaboradores de Uaczynski, colhidas, como as an- 
teriores, nas chancellarias dos Philippes. Vêem em seguida a menção 
de Cyrillo e as referencias á lista do cardeal Saraiva. 

pEDiio DE Frias, 7narceneiro. O conde copia, traduzindo-o, o que se 
lè na Lista acima citada, acerca do famoso samblador d'esse nome. S. 
Luiz accrescenlára ao que o conde traduziu: «llé fcila (a obra do re- 
tábulo da capella-mór da igreja do Carmo) de semblagem com cohim- 
nas, diz a chrouica do Carmo, tom. \.° pag. 580» ^. 

São estes, pois, os cinco Frias conhecidos, parentes, porventura, 
todos entre si, por descendência e aííinidade, como o terceiro e o quar- 
to são avô e veto, e não páe e fdho como se lê em Uaczynski. 

Foi a transcrita inscripção sepulchral da igreja das Flamengas de 
Alcântara, que, pelas averiguações a que deu margem, nos habilitou 
a assentar este ponto de um modo positivo. Ora, essas averiguações, 
partindo da existência de mais um Frias, de mais um ignorado aichi- 
tecto d"este appellido, levaram-nos ao conhecimento da existência de 
de mais outro Frias ainda egualmente architecto e também ao serviço 
da Casa dEl-rei de Portugal. 

Assim, o quadro dos architectos Frias seria fixado na seguinte no- 
ta, na qual se inclue a rectificação que tem de fazer-se no tocante á 
filiação de Luiz de Frias 



1 Vida (lo Arcebispo, L. VI, cap. V. in fíiie. 

~ Esta Irasladagão verilicou-sn a 24 de iiuiio dí^ tfiOO. 

^ Obras completas do Cardeal Saraiva, T. VI — 187G. 



REVISTA AUCIIEOLOGICA 107 

Nicolau de Fiuas. pae de 
T/ii'0(losio de Frias, pac de 

Luiz he Fiuas (o do l)ia\ AnisL), pae de 
T/l coei os i o de Frias Pereira (?) 

Por tuiiiseííiiiiito: T/teodosio de Frias Pereira d neto de Theodosio de 
Frias (o das Flamengas), como Luiz de Fiuas é nela, e não fd/io, de 
Nicolau de Fiuas? 

Gomo se vè, liça por esta nota elevada desde já a lista de todos 
os artistas Fiuas a sete, e augmeiítada a dos architectos desse appe- 
lido, descendentes do primeiro. Nicolau de Frias, com mais dois. i»es- 
ta poj-ém uma dúvida :—Tlieodosio de Frias Pereira é com elíeito neto 
de Tlieodosio de Frias sepultado nas Flamengas? Ha aqui uma questão 
de datas a destrinçar. Posteriormente a exporemos. Por agora, sejam- 
nos permiltidas ainda mais algumas linhas consagradas ao exame da 
inscripg.ão sepulchral das Flamengas, 

Em quatro partes ou ramos se pôde dividir a inscripção sepulchral 
de Theodosio de Frias. Na primeira parte, declara-se cuja seja a se- 
pultura, tilulos, empregos e filiação do sepultado, bem como o nome 
da esposa. Na segunda, expõe-se o motivo que moveu os cônjuges a 
fundarem o seu jazigo neste mosteiro. Na terceira parte da inscripção 
diz-se: «e fez as rasas do mosteiro novo por mandado de sua mages- 
tade com a ordem do qual coreo (sic) emquanlo vivèo por amor de 
Deus.» Pondo de parte o que ha de obscuro e confuso na redacção 
d"este trecho, a primeira pergunta que occorre fazer é: — O que são 
as rasas? Essa pergunta, porém, é de fácil resposta; pois se deve 
intender que o artista que abriu a inscripção se esqueceu de gravar 
uma haste horisontal junta á haste vertical do r, de modo a figurar 
um T e um r conjuncios, d'onde resultaria a palavra "RASAS (traças), 
ficando perfeitamente intelligivel a phrase ', 

Assim (juiz-se aífirmar que Theodosio de Frias dera o risco ún mos- 
teiro novo. Em documento que lhe diz respeito veremos mais adeante 
inserta essa palavra;— íyacízs. O emprego do s por ç não é circumstau- 
cia que embarace, altendendo á imperfeição ortographica da inscripção. 

Mas o mosteiro novo de que Theodosio de Frias fez as traças ó esse 
em cuja egreja elle se acha sepultado? 

Na mencionada Relacion feita pela madre Calharina do Espirito Santo 
nem se menciona o nome do architecto do convento nem a data precisa do 
seu acabamento, ou, ao menos, a da entrada das religiosas na sua nova 
casa; apenas ahi lemos a summaria novidade de que a transferencia d'ellas 
das casas onde se achavam alojadas para a sua nova e definitiva habitação 
se effectuara «jwr ser o sitio de Nossa Senliora da Gloria muito doentio. i> 

Ora, segundo as expressões de J. B. de Castro, menos omisso neste 



1 Na quarta partp ila inscripção são indicadas, conforme o uso, as datas do fal- 
lecimento dos st,'puUados. 



108 REVISTA ARCHEOLOGICA 

ponlo que O P. Carvalho, as religiosas Flamengas que primeiro povoaram 
o mosteiro da visitação, leiído entrado em Lisboa em ITiSií, foram man- 
dadas transferir para elle pelo piedoso monarclia seu protector quatro 
aniios depois, 1580, «em cujo tempo (o mosteiro) se tinha acabado de 
edilicar.» ' 

Siippondo que o rei intruso fizesse proceder a essa edificação nos 
primeiros meses do anno seguinte ao da chegada das Flamengas, isto 
é, no correr de 1583. nenhuma duvida se oppõe a que Theodosio de 
Frias estivesse já no caso de traçar os planos da obra. Dado que seu 
pae fosse da geração de 1540, como computámos^ conjecturando que 
em 1()10, data provável da sua morte, fosse já margeando os setenta 
e podendo acaso ter casado aos vinte cinco, se Theodosio viesse ao 
mundo um anno depois, pertenceria aos nascidos de 1566, o que lhe 
daria a edade de dezesete ânuos á data em que se suppuzéram co- 
meçadas as obras do mosteiro philhpino. l*recoces como ainda então 
eram as aptidões, acompanhando o desenvolvimento iutellecluni o phy- 
sico, não custa a crer que, ou por ajudar seu pae, talvez o verdadei- 
ro mestre das obras, e ir assim practicando a arte, ou por ser já 
servidor da casa real, o que não é provável, dirigisse de facto a planta 
do mosteiro, que, aliás, nada tem de recommendavel. 

As expressões: — «e fez as rasas (traças) do mosteiro novO'» pare- 
cem indicar a existência de outro. É natural, com elfeito, que se 
Theodosio de Frias, ou o gravador da inscripção por elle, se quizesse 
referir a esse mesmo mosteiro onde o architecto e sua mulher haviam 
escolhido sepultura, dissesse antes: — e fez as traças deste mosteiro.)) 
Onde ha um mosteiro novo, pode haver, ou ler havido, um mosteiro 
vel/io. Ora, o mosteiro do Calvário, de religiosas observantes Fran- 
ciscanas, ^ que ficava fronteiro ao da Quietação, foi fundado em 1617; 
isto é, trinta e um annos após aquelle. Não será acceitavel a presum- 
pção de que haja sido Theodosio de Frias o architecto da obra, ou de 
paile delia, e assim haja feito as f7'aras d'este mosteiro, noro em re- 
lação ao das Flamengas, que em 1624 já contava trinta e nove annos, 
emianto que o do Calvário apenas linha sete? 

O sepultado das Flamengas adquirira a obrigação de residir, des- 
de abril de 1605, no palácio fronteiro ao novo convento; palácio re- 
centemente adquirido para a coroa, outra noticia que as pesíjuisas a 
que esta sepultura deu matéria, nos habilitam a dai- com certa indi- 
viduação. JMorando fronteiro á obra mais fácil se lhe tornava a sua vigilân- 
cia. Fssa coincidência levou acaso as piedosas fundadoras a propor-lhe 
a direcção das conslrucções de que haviam mister. 

Apezar de nos não ter o chronista da ordem, fr. Fernando daSo- 



^ Hoje, i.° de março (1(^ 1888, dia oin (pio oslos apontamentos estão sondo coor- 
dpnados, complctam-sn exactamente 3U7 annos cjiio as primeiras qiiatríj religiosas 
(latiieníías elieiraram Xa ha regas. 

^ Hoje a Escola Normal. 



RKVISTA ARCIIEOLOGICA 109 



ledade, deixado esclarecimentos alguns a esse respeilo, u que não é 
de cxtranhar, crrrnos que Iodas as circunislancias nanadasna Ciiionica 
Serapliica no locanle á edilicacão do (Calvário nada IoIIiímu a tjue nella 
lenha intervindo este iMÍas. Kinalinenle, a algum arcliileclo devem as 
duas noLtres damas íundadoras ler encarregado o afeiçoar a anliga 
estancia do velho judeu que ahi morava ao seu novo deslino, cons- 
truido no lerreno da anliga <niiiila do Parlo o dormitório que um ven- 
daval destruiu logo ao ler-se acabado, levantado a egreja, e levado a 
cabo as mais ollicinas do mosteiro, 

(CoNtiNm) Gomes de Biuto 



MISCELLANEA 

I — ínscripção de Aeminium 

Existe no Museu do Instituto de Coimbra um cippo descoberto em 
177)] junto ao terreiío do antigo (^astello, que vem descripto a pag. 
i) do respectivo Catalogo do modo seguinte: «Outra lapide sepulchral, 
de O.^^HO de largo por 0,"'3Í) de alto, com uma cavidade oblonga na 
face superior. Falia a pedra, que cobria a dieta cavidade, e na qual 
devia estar aberta a piimeira linha da inscripção. . . Na noticia, que 
d ella escreveram. . . J. da S. I*ereira e L. de S. Heis, um e outro co- 
piaram tambern a primeira linha da inscripção, cuja pedra desappareceu 
depois, lendo Pereira i. p v. D. A. e g. c ciVT, e Heis IPVDACS ^ EIVT. 
É facil, porém, de conhecer que ambas estas leituras são deficientes 
e obscuras, não sendo já agora possível inlerpretal-as e acertal-as pe- 
los traços mutilados que na pedra existente apenas se entreveem das 
extremidades inferiores das leltras i. v. D. c. s. C. I.VN...» 

Ilúbner transcreve a inscripção (C. I. L., u, n.*^ 394) sem propor 
restauração da primeira linha. 

Devido á obsequiosidade do meu antigo mestre e amigo o sr. dr. 
J. A. Henriques, poude obter um calco da pedra, onde consegui fazer 
uma leitura quasi completa da 1.-'' linha. É a seguinte: 

[ I ann{oriim) . . . . 

ann Ji. s. e. h{ic) s{ita) c(sí). ] | 

de C PVBLíCIsS G1£NT [Dec{imus)?]Piiblicius Gent \ 

ianiis /VXORI »■ ETv iMODES [iamts?] uxori,et Modes [tina?] 

tina? F ▼ MATRl ▼ F ▼ C f^Hia) malri /{aciendum) c{u- 

S ^T^T ■»■ I. ravcrunt). \ S[it) t{ibi) Hen-j) 

l{evis). 

. . ., de tantos annos, aqui está sepultada. Decimo? Publicio Gen- 
ciano e sua filha Modestina, mandaram elevar este monumento» 



110 REVISTA AUCHEOLOGICA 



elle á memoria de sua esposa, ella á memoria de sua mãe. Seja-te 
leve a terra. 

A leitura da l.'^ linha c evidente; apenas é muito duvidosa a lei- 
tura da primeira leltra. Parece-me vèr vestígios dum c: pois que a 
haste vertical, que tem sido tomada por i, é certamente falha da pe- 
dra. Em tal caso, intendo que essa leltra fazia parte do praenome, pro- 
vavelmente Decimo. Mutilada a inscripção pela parte esquerda (segun- 
do o calco accusa, e claramente se deduz do excesso das Irez pri- 
meiras linhas sobre a ultima (juasi todas alinhadas no começo), creio 
que alli estaria o final do cognome, provavelmente Genliamis. Prefiro 
Moilesliiia a Modesta, em attençãoao espaço. 

Por cima das linhas existentes havia, em meu parecer, mais uma 
ou duas, onde se lia o nome da fallecida, acompanhado naturalmente 
da indicação da sua edade e da formula aqui jaz ele. Kste modo de 
ver fnndamenta-se em ser absurdo suppur que alli faltasse o nome da 
fallecida, sendo inadmissível o pretender vel-o no íinal da primeira li- 
nha e no começo da segunda. 

II — Inscripção de Conimbriga 

No Museu do Instituto de Coimbra estão também duas lapides mu- 
tiladas, mencionadas no Catalogo (\)-a§. IO e II), descobertas em Con- 
deixa-a-velha. 

I— Uma d"ellas, segundo o calco, com que me obsequiou o sr. dr. 
J. A. Henriques, diz : 

/////7/S • SII.V\NV«; [Iitliii]s? Silvanii[s \ ol\isipo- 

0/ISIPONENSI5 nensi[s \ Sa]turniuo f{ilio) \ 

5 a T V R N I N O -F [piiissimo) /[acicwhnn) c(uravit)? 

p;;? f? c? s. t. t. l s{it) t{ibi) i{erm) l{cvis)] 

. . . s Silvano natural de Olisipo fez erigir este monumento á me- 
moria de seu amantissimo lilho Saturnino. Seja-te leve a terra. 

Numa inscripção descoberta em Lisboa (C. 1. 1.. 11, n.° 2i27) appare- 
ce um Q. lulius M. F. Gal. Sibanus, e noutra de Chellas {C. I. L., u, 
n.°291) encontra-se um C. Tulius Si[oanus\ Temos pois provavelmente 
na inscripção de Conimbrií^a um d'aquelles indivíduos ou um seu parente. 

^ — Na outra inscripção^ segundo se diz no Catalogo, apenas se le: 

lllllllllllíll^ ' [d{ns)]M{anibus)[s{acnim)\? 

//Il/I/U FRON 1 . . .//:^ Froii \ [to] an{noriitn) 

ío • AN • ÍJC LX\ [h{ic) s{itiis) e[st.] S{ií) 

li. s. c. s. t. t. l. t{ibi) t{erra) l[evis)\ 



REVISTA ARCIILOLOGICA 111 

Consaqração aos deuses manes. . . .li? Frontão, de se- 
ssenta annos, aqui jaz sepultado. Seja-te leve a terra. 

Talvez na segunda linha deva lòr-se l [f]. Mas também pode ter 
havido na pedra . . .// Fron[ioiii] an. LX, e segnir-se a dedicação feita 
por outrem. 

III — Inscriprão de Pax J/dia 

A seguinte inscripção está numa lapide «metida na parede ao rez 
do chão no tardoz da casa do despacho antigo da egreja de S. Thia- 
go,» em lieja (calco enviado pelo sr. J. Tavares Lança*): 

C A N D I l. A Candila\la an[norum XXII | h{ic) 

LA • ANXX" s{iíci) e{st).S{it) t{ibi) í{en-a)l{evis). 

H S E-STTI. 

Aqui jaz CanJilala, fallecida aos 
vinte e dois annos. Seja-te leve a terra. 

A lapide está mutilada na parle superior. A inscripção foi já pu- 
blicada no C. I. L., II, n.*^ 58, segundo uma copia de Acinla com a 
leitura de gandia na ■1/'' linha. Iliibner propõe na 2.^ linlia l- [f]. 
Não deverá considerar-se Candilala como o nome da pessoa fallecida? 

Lisboa, 25 junho 1888 Borges de Figueiredo 



BIBLIOGRAPHIA 

ÍAs publicações, com cuja Irocn se honra a Revista Ahcheologica,. suo mencionadas 

pela ordem da recepção) 

BriJ-F/niNO DELí/I.MiM^niALK IsTiTiiTO Ancui:oí.OGico Germânico. Ses- 
sione romana. Vol. ni. Fase. 1. iloma 1888. 

F. Barnabei, Di alcune iscrizioni dei território di Iladria nel Piceno scoperle in 
monte Giovc. nel comwte di Cermiípiano. — A. Mau. La hasilica di Pompei. — P. Wol- 
tcrs, Das Clialcidicum. der Pompejanisclien Basilica. — O. Hossbach, Tcller des Sika- 
nos. — V. irartwig. Nereide im Vatican. — T. Moiiiinseii, Tre iscrizioni Puteolane. — 
Ch. Huelsen, Miscellanea epirjraphica — Sitzungsprotocolle. 

AcADÉMiE DES I.NsciupTioNs ET Belles-Lettres. Comptes rcndus 
des séances de Tannée 1888. Quatrième Série, Tome xvi. Bulletin de 
Janvier-Février. 



1 O sr. íjauça, resi(lf>nte em Beja, tem-me obsequiado com muitas notas e apon- 
tamentos, uns quo já tive occaçião do publicar, outros que apparecerão opportuna- 
mentp. Aqui lhe reilLU-o sinceros agradecimentos. 

O mesmo sr. Lança possue grande ([uantidade de moedas portuguezas e roma- 
nas, que me consta deseja ceder. As moedas portuguezas passam de 3.000; as roma- 
nas são perto de 400. 



112 REVISTA AUCIIEOLOGICA 

Nas aclas das sessões desta célebre Academia encoulram-se pre- 
ciosíssimas noticias sobre todos os ramos da arctieologia, frequente- 
mente acompanhadas de estampas. Eis o snmmario deste boletim: 

Séances de Janvior-Février — Coinmunieatiuns: I Leilre do M. Eiliii. le Blaiit, 
Direetuur de TEeole de l\on\o (sobre dois iuteressdiítissimos satropluigos clirislãos, pro- 
venientes (los jardins da rilla Lndovisi, e tona capsa de prata oval. descoberta em Ain 
Séidd. perto de Tchessa). II Lettre du méiiie (sobre escavações executadas nas cníacum- 
lias e sobre diversas inscripções latinas de Honia e do Grande- São- Bernardo). III Lettre 
du luèiiu' (sobre um sarcopliatjo christão do IV" século, encontrado nos fundamentos 
d'uma capellíi arruinada, em Tliêsan). IV Qnntriême note sur ies fouiUes de Clierchel.píLr 
yi. Victor Waille. V Lettre de ^l. Edm. le Hlant (sobre uma serie de barros cosidos, acha- 
dos em Homa ; sobre uma estatua colo!<sal d'Apollo Ciliiaréde, achada na margem direita 
do Tihre. em (rente do porto de liipettn: sobre fraçinentos de baixos relevos e de inscri- 
pções provenientes de Carthago). VI Lettre dii mtMiie (sobre as ultimas descobertas fei- 
tas nas catacumbas pelo com. ./. B. de liossi, Wilpert c Ubalilo Giordanij. — A[)pentlice 
Rapport du Secrétaire perpetuei de l' Académie des inscriptions et belles-leltres sur les 
travuiix des commissions de piddication. . . — Livres olFerts. 

Ukvtk dh i/Aht ciMiLTiE.N, pubHóe sons la direction il'nn comité 
d"Arlisles et dArchéologiies. :]|""' Année. 4.'' série. Tome vi, 1.'''''' et 
2."*'' livraisons yanvier à jiiin. 1888). 

Esta Revista, piimoiosamente illustrada, è redigida por dislinctos 
archeologos e artistas francezes, allemães. inglezes, belgas, italianos, 
etc. Ella constitiie o melhor repositório periódico da arte christã. pres- 
tando relevantissimos serviços á sciencia. Dos summarios, que seguem, 
dos íasciculos correspondentes aos dois primeiros triaiesties deste an- 
no, ver-se-ha a importância e variedade dos assumptos que encerra. 

1 Z" 1 i V r. : L'art de la fonderie des mélaux en Allemarpie à la fin du moijenà>jíe, pai- F.Fes- 
ting — La legende de la Licorne ou du Monocéros. par le Dr. Ki'('d. Scimeiílcr, por Jides 
Helbig — Iconograpliie de S-iinte Cécde d'aprés les monumentos de Borne (2""= et dernier 
article), par Mgr. X. B^rbicr de Montault — De (fuelques injUiences auvergnates at péri- 
gourdines dans les égiises romanes du Poitou et de Saintonge. par .los. Hertlielé — Ele- 
mentos d'iconographie chrélienne. Ti/pes sipnboligues (3.""-" artic-lo), par L. (iioqiiet — 
Église de Mont-derant-Sassey. Iconographie duportait, par Lt'oii Gerniain — Les émaux 
à lamelles. par Mgr. X. íi. de Montault — Statues dela Vierge et de Saint Jean à 
réglise de Saint-Cyr-snr-Loire. par L. de Farcy — La nouvelle façade de Véglise cathé- 
drale de Santa Maria dei Fiore à Florence, par le prof. V. Aiubrosiani — La Chdsse 
de Sainte Waudre, p. .1. H. 

2.""^ livr.: Dr la place d donner aux imageset aux ohjets d'art religieux, dans la dé- 
coration extêrieure et intérieure des mnisons, p;ir le elian. (]. Dehaisiies — In discours sur 
les beaux-arts et les écoles professionelles, par.lules ilelliig — Deux réUcpiaires de Téglise 
Saint-Sernin à Toulouse, par C. Douais — Les croisades et les inventaires de nos églises, 
par le Dr. Fréd. Scliiieider — Deux chapes en broderie du A7F"- siecle (1."'' art.), par 
L. de Farcy — De 1'origine du sti/lr gothiípte, par L. (]loquot — Impressions d'un pélé- 
rin sur les monuments de Bome et les oeuvres de la Benaissance, par A. L'h('réteyre — 
Le trêsor de rabbaye de Cluny. par A. iienet — Les drapa mortuaires des róis de Fran- 
ce : Brotraits de César Horgia ; Note de Dom Calmet sur le surhumêral ; La Vierge 
d'apri'S les monuments de Borne ; Relitiues et Souveuirs de la Passio)i de N. N., á Rome, 
par Mgr. X. IJ. de Montault — La nouvelle façade de Véglise de Santa Maria dei Fiore 
d Florence, par le prof. V. Andirosiani. 

Em cada livr. encontrani-se mais as .seguintes secções: Travaux des Sociêtés sa- 
vantes — Bdjliographie — Index bibliographique — Chronique ; etc. 



REVISTA ARCIIEOLOGICA 113 



ANTIGUIDADES DE CARQUERE 

A egreja de Carí|iiere c. de Uézende, na Beira-AIta) fica situada 
jiinlo de um mono chamado pelo povo (se bem me lembioj mcdtjrro 
ou medòvra de N. Senhora de Can/uere. Esle morro é uui castro, co- 
mo se reconliece pelas muralhas (}ue ainda se lá avistam. Tanto alli 
como perto tem apparccido muitos vestígios da civilisação romana, 
taes como telhas e oulios barros, moedas e iuscripções. 

Algumas iiiscrii)çr>es são dilliceis de lei': e, como na occasião em 
que eu lá fui, Janeiro de 1888, me não [)ude demorar, deixei de tirar 
os respectivos calcos. Apresento-as pois fragmentadas e ainda assim liy- 
potheticamenle em parte. São ellas: 

A entrada da porta de uma corte: 

N 

NN L 

P-F-G 

Km um muro da casa da residência parochial, defronte da egreja: 

ADA 

vc 

R ....IIV 

I- M- X 

H- S- E- S- T- 

P- F- C 

Numa parede da cosinha da mesma casa ha outra, lambem dene- 
grida, onde se lè um numero, de certo uma idade. 

Vè-se, ainda assim, (jue erão iuscripções funerárias. 

Mais importantes porém são as seguintes, que estão em poder de 
uieu primo Manoel Nicolau Osório Pereira Negrão na sua quinta de 
Mosteiro, e já tinham sido lidas por elle e pelo seu e meu amigo o 
Ex.""' Sr. Dr. João de Vasconcellos, do Marco de Canavezes, um e 
ourto grandes entlmsiastas pela archeologia e intelligenles cultoies 
d"ella: 

oVNVA 

CASABI F . 

AN LX 
Rev. Arch., n." S — Agosto iSSS. S 



•H4 REVISTA ARCHEOLOGICA 

A primeira lellra parece mais ser S do que iim O ; alem d'isso o 
nomo SVNVA appnrece nas inscripções liiso-romanas da Lusitânia pu- 
bli.-adas pelo Sr. l)r. E. líiibner. Eu leio pois a inscnpção assim: 
Sunua, /ilha de Casabo, viveu GO oimos. 

ME LIA 

TOCETA 

A. XXV. F. 

M. C. T. 

Parecc-mc que se pude interpretar assim: Melia Tnceta annorum 
XXV; fieri momimcntiim curavit íesíamento. 

Estas duas agora actiam-se gravadas em duas pedras que repre- 
sentam toscamente duas figuras Immanas, como se vè no esboço (lado 
na est. VI (n. 1 e 2) e que se devem comparar com o esboço de outra 
(n. 4) que existe no museu Martins-Sarmento de Guimarães e teve 
a mesma proveniência que estas: 

D M 
SAFA 
AMA 
LXXV 

Adeante do M da primeira linlia lia um espaço limpo, onde podia 
caber um S; vé-se pois que o S da S.-"^ linha não é SACKViM, mas 
se liga com as outras leltras d'essa linha para constituir um nome. 
Temos pois: Aos Deuses Manes. Safa Ama, de 7õ annos. 

D M S F 
AMA 
XXCII 

O F da 1.^ linha é por si uma inicial, e não se liga com as letlras 
da 2.'' linha, pois que AMA se encontra na inscripção precedente. Na 
3.^^ linha podia haver mais um X ou um A no principio, e mais um I 
no fim, porque a pedra está safada: mas isto é sem importância. A 
leitura é pois, adoptando o que está: Diis manibus sacrum. F(ulvia? 
Flavin?) Ama, de S2 (annos). 

Comparando estas duas inscripções com a de Guimarães já referi- 
da, e que é D. M. S. F. AMEN\. LXV ^ , achamo-nos em presença 
de dois nomes, Ama (repetido) e Amena, que com certeza se ligam 



1 Cfr. Rev. de GuimarãcSj (;irt. do Sr. F. i\l. Sariiicjitn). 



REVISTA ARCIIEOLOGICA U5 

grammalicalmenle. Também é interessante pertencerem á mesma lo- 
calidade. 

Km (]arquere appareceu ainda ontra inscripçãn, muito interessante, 
e lanihcin em poder de hi(3u primo .Manoel Negrão, que tem já uma 
bella cullecção arclieologica; esta inscripção eslá numa pedra, de uns 
iá8 cenl. de comprido e uns 40 de largo, em cuja parle superior ha 
um nicho com duas liguras escul|)idas toscamente e que representam 
as duas pessoas lallecidas a (jue a pedra servia de monumento, 
(Est. VI, n. :J.) Lè-se bem L) .M e na linha terceira ANXX, mas tudo 
o mais se acha gasto. A pedra é de granito grosseiro. * 

Linguistameule ha por tanto que colher nas inscripções transcri- 
ptas os seguintes nomes indígenas: Ama, Amena, Casabus, Melia, 
Safa, Sunua (já conhecido cá), e Tocda. 

Ouvi dizer (jue em C.ai'(juere appareceu um touro de ouro, peque- 
no; não o vi, mas é provável que seja egual a algumas eslatnelas que 
se guardam nos Museus do reino e se relacionam com as ideias reli- 
giosas dos nossos maiores, os Lusitanos. 

No morro de Carijuere, de que fallei no principio d'este artigo, 
ha um grande rochedo chamado O penedo da tíenhora, com algumas 
cavidades feitas pelos devolos que lhe vão extraliir pó de pedra que 
depois tomam, cuidando que assim se livram das sesões. É uma 
crença análoga a tantas outras que correm pelo pais; no logar da 
Sobrena, concelho do Ervedal (Extremadura), existe por exemplo uma 
semelhante com um santo de pedra. 

Ao alto do morro ergue-se um nicho onde, segundo a tradição, ia 
resar a mulher de Egas Moniz, aio do nosso primeiro rei (sec. xii); 
neste nicho está uma imagem da Virgem com que se liga uma lenda 
de um jacaré e de uns novelos, como succede com a Senhora da Lapa, 
na mesma província. Na igreja mostra-se ainda o jacaré. 

Resumindo tudo quanto íica dito, nota-se o seguinte: que em Car- 
quere ha um grande elemento pagão, que nem o Christianismo nem 
o tempo poderam ainda apagar. A Senhora de Carquere, com aquelle 
penedo tão significativo e aquella lenda, deve, quanto a mim, lepre- 
sentar uma divindade pagã; de mais a mais o penedo está ainda alíei- 
çoado de modo (pie parece ter servido de base a algum idolo ou cousa 
semelhante. Nada disto deve causar estranheza, porque é sabido o 
modo pelo qual a religião christã se implanta nos povos pagãos; as 
crenças e os costumes não Ibrão destruídas, mas adaptadas ás novas 
ideias; as divindades forão substituídas pelos santos, pela Virgem, 
etc, e até ás vezes se aproveitaram as próprias imagens e os nomes, 



1 Podem ver-se. somelhanleineiite a este, vários cippps funerários que cntèrn ni- 
chos com persunap;cns em relevo, — por exemplo na Epirjrdphie (jallo-romuine de la 
MoS)'llc. Paris. 1888. eslainpi ix e x. Alguns cPesses cippos gallo-romanos são termi- 
nados em angulo; os nichos também ás vezes são arredondados como este nosso. 



il6 REVISTA AKCDEOLOGICA 

como siicceden com Santa Felicidade e SaMo Perpeluo f= Felicitas 
Perpelio (l;i Romana), a Senhora da Saiide, Senhora da Esperança, 
Senhora da Virtude, etc, que tinham os seus correspondentfis nas 
deificaçõos de Salas, Spes, Yirfiis, e assim por deante. Carquere por 
tanlo é apenas um caso entre mil. 
Lisboa, 20 de Agosto de 1888. 

J. Leite de Vasconcellos. 



CONVENTO DAS FLAMENGAS EM ALCÂNTARA. 
OS ARCHITECTOS FRIAS 

(Continuado de pag. 109) 

Aventurámos a supposição de que que todos os cinco Frias até 
agora conliecidos fossem parenles. Foi uma tentação a que as circum- 
slancias. aliás, nos estavam convidando, e que ainda cremos não ser 
de todo iiijnslificada. 

Que improbalidade, com effeilo, poderá liaver em que esse sam- 
hlador célebre, esse Pedro de Frias que já em I50I iliustrava o appe- 
lido, distinguindo-se na samblagem e na talha, quem sabe se elle mes- 
mo, filho já de algum outro artista, será o patriarcba d"esta família 
que parece ter tomado para si o exclusivo, nos fins do decimo sexto 
século e primórdios do século seguinte, de uma das manifestações 
mais nobres da Arte — a sciencia da architectura, fazendo condigna 
continuação aos Alvares e aos Arrudas? 

Quem nos diz que esse Valeriano de Frias de Castilho, entendido 
cm architectura, que em KíOO dava em Vianna provas do seu préstimo 
na Arte, não era parente, pela linha materna, acaso, d'estes Frias lodos 
já nossos conhecidos? 

Esse mesmo Eugénio de Frias, que no próprio anno em que o 
Ihesoureiro do Arcebispo de Braga dirigia os trabalhos para a con- 
slrucção da eça do Santo Arcebispo, executava o frontespicio do Com- 
promisso da Irmandade de S. Lucas, não poderá ser irmão, ou lilho 
mesmo, do primeiro Theodosio, não poderá ser outro filho de Nico- 
lau de Frias, ou outro seu neto? 

Emquanio uma paciente e aturada leitura dos livros das chan- 
cellarias dos lieis de Portugal e correlativo exame nos documentos de 
que essa leitura nos apontar a proficuidade não i)uder, ou por nós ou 
por outrem, sêr levada a effeito, procuremos condensar nesta modesta 
Icnialiva não só Itido (jnaiito anda apurado acerca dos Frias já co- 
nhecidos, como tudo quanto agora {ludémos ai)iu'ar, em rápido bos- 



líEVISTA ARCHKOLOGICA 11" 



qiiej;ir, íicltc.i dos Frins iiõvainijiiU; .'ippiírecidos. Servirá, assim, csle 
estudo, se não é demasiada pretensão nossa, de ponto de pailida |)ara 
mais completo e mais profundo trahallio. 

Comecemos pelo patriarcha da lamilia, Nicolau de Parias. Mediante 
(IS esclaiecimenlos «pie nos niinisliam os livros da cliancellaria de Fi- 
lippe 11 de Portugal, custam pouco a seguir os marcos (pie assigna- 
lain a actividade artislica de Tlieodosio de Frias; pcjde dizer-se que é 
mais fácil acompanhar o filho, ainda lionlem desconhecido, do que se- 
guir o pac já mais familiar aos scienles d*estas matérias. 

Não sabemos de Tlieodosio du Frias onde e (juando nasceu, mas 
sabemos de certo (juando morreu, e onde, muito mais (jue provavel- 
mente. Sabemos também (juando começou a sua carreira o(fkinL as 
cmnmissõcs que exerceu, e o sabemos de modo tão positivo que, [)elos 
documentos que existem somos levados a suppôr que o filho de Nico- 
lau de Frias não só exerceu a sua actividade artística em Lisboa, mas 
em Madrid lambem, se é (pie ahi não foi só por sollicilar uma collo- 
cação otíicial na pátria. 

De Nicolau de Frias, porijm. tudo o que sabemos, é que teve dois 
irmãos clérigos e duas irmãas freiras. D"um dos clérigos, não dos diz 
o nome Fr. Luiz de Souza, de quem apuramos estes esclarecimtínlos; 
outro, foi o F." António de Frias, prior em Unhos «Igreja de grossa 
renda», diz o chronista, e «em cujo serviço, foi bom imitador das vir- 
tudes de sua ii-mãa». Fsta irmã dos Frias, Sor Felipa do Espirito San 
to, professou em Chellas a pouco mais dos dezeseis annos. Setenta ves- 
tiu o habito, morrendo aos oitenta e cinco, no delCl". * 

A outra irmã de Nicolau de Frias foi Sor Ignes de Jesus, domini- 
cana em o mosteiro de Abrantes. 

Dos parentes de Nicolau de Frias, é quanto está sabido. Da famí- 
lia que elle procreou, apenas conhecemos agora o seu lilho Theodosio. 
Era Eugénio de Frias, o imaginário, seu filho também, seu sobrinho, 
seu neto? Muito conjunclo seu parente deve ter sido, vista a sua 
contemporaneidade. Nada mais potlendo, por agora, adiantar, venha- 
mos á actividade artislica do nosso architecto. 

O primeiro acto conhecido em que Nicolau de Frias averiguada- 
mente interveio é o da primeira medição das aguas de Relias, a que 
elle procedeu em 1573, por ordem do presidente e vereadores da ca- 
mará de Lisboa, e na qualidade de Mestre dobras da cidade. O fa- 
do certificou-o o próprio architeclo no documento (]iie se lê a pag. 
287 do vol, 3.° do Panorama; a data colhe-se da carta regia de á de 
março de 1573, na qual D. Sebastião «folga de saber as diligencias 
que a camará tem feito sobre a agua livre, por ser cousa tão neces- 
sária para a prouisão e armamento da cidade^» Nicolau de Frias, em vez 



1 Hist. de S. Domingos L. I, cap. 27. 

- Sr. Frciío iroiivcira, EleinentoSy pag. o&8. 



•118 REVISTA ARCHEOT-.OGICA 

íle designar precisamente o anno em qne procedera a essa primeira me- 
dição, diz que fora feita «em tempo do sr. rei D. Sebastião que Deus tem.» 
Vem em seguida o nefasto anno de 1578, e com elie a nomenção de Nico- 
lau de Frias para siíiador do campo, em Africa, em companhia de Filippe 
Terzo, egualmente nomeado para cargo idêntico. Mais feliz do que o 
seu camarada, Nicolau voltou ao reino, sem haver mister de ser res- 
gatado, ^ continuando, ao que parece, simples mestre de obras, sem 
emprego na Casa Real. O documento a que anteriormente nos referi- 
mos, e que é uma certidão das duas medições feitas por elle, é assl- 
gnado em Lisboa, a 25 de junho de 1588, e appareceu no processo 
de uma demanda sobre aguas entre os frades de S. Francisco e os de 
Santo Eloy do Porto, como se relata em a noticia que antecede a pu- 
blicação do documento. 

Neile se dá Nicolau de Frias modestamente como amestre de 
obras das igrejas d'csle arcebispado de Lisboa, e obras da cidade.» Pa- 
rece curial suppôr que, se fora architecto d'el-rei e fidalgo da sua ca- 
sa, preeminência que parece andar inherente a este cargo, Nicolau de 
Frias não deixaria de mencionar esses tilulos e em piimeira linha. 
Como quer que seja, a sua nomeação de ^rmestre de minhas obrasy> 
segundo grão hierarchico das funcções de architecto real, data de 1507, 
e essa circumstancia nos leva a suppôr uma de duas cousas: — ou que 
Nicolau de Frias era já considerado architecto régio desde a sua no- 
meação de siíiador do campo na expedição de Alcacer-Kibir, ou que 
foi nomeado para aquelle cargo de fins de 1588 em diante. 

No primeiro caso, talvez Nicolau Frias não ousasse invocar a 
sua qualidade de architecto régio, ignorando acaso se Filippe lhe con- 
firmaria a nomeação. Este ponto não pôde, por agora ser suííicienle- 
mente esclarecido^, porque a piimeira revisão a que se procedeu nas 
chancellarias de D. Sebastião não nos deu cousa alguma acerca de 
Nicolau de Frias, o que se explicaria pela precipitação e desordem 
com que o infeliz monarcha fez os aprestos daquella funesta jornada. 
É certo que Filippe II vindo a Lisboa, occupou logo Nicolau de 
Frias. Observando a grande falta de agua de que a cidade continuava 
a padecer, mandou-lhe repetir as meoições que elle já havia feito por 
ordem da camará. O rei intruso approvou estas medições, bem como 
os seus architeclos, diz Nicolau de Frias na certidão já citada, sem 
declarar, todavia, o anno em que essa nova medição se eííectuou, e 
limitando-sc ao caso enunciado: c vindo el rey nosso senhoi- á coroa 
d'estes reinos». Este serviço mandou-o Filippe fazer a Nicolau de 
Frias, ou como servidor da sua casa, implicitamente considerado tal 
pela nomeação d'el-rei D. Sebastião, ou porque, lendo noticia de que 
fora Nicolau quem, na sua qualidade de mestre de obras da cidade, 



' Terzo, como já rnmicionarain S. Luiz, Piíiczyiiski o o sr. Visconde de r.astilho, foi 
resgatado pelo Cardeal-líei. 



ItKVISTA AliCllEOLOGICA MO 



fixara as iinMlirões alguns aDiios antes, enlendeu que melhor se iiavia 
de (lt.'sein[)enliar do urdenado este artista, do qne outro qualipier, 
alheio ao objecto de (jiie se tratava. Talvez por ambas estas razões. 
Emtaiito, Filippe 11 no ultimo amio do seu domínio (a 1 1 de junho de 
1597) elevou, como dissemos, o antigo mestre de obras da cidade, 
seu arcliitccto, a mestre das obras dos seus paços da Ribeira, <ida ma- 
neira tjiii' o linha e servia Filipix' Tercio, por cujo fallecimeiito o dito 
caryo vatjou». É natural (jue esta nomeação se não íizesse esperar 
após a morte do architeclo italiano, da qual não ponde ainda avei'iguar 
a data. Filippe Terzo projectava, e acaso começara a construir o tor- 
reão chamado depois da Casa da índia, e então conhecido pelo — 
forte—; espécie de construcção fortificada á beirario com que Filippe 
determinava assegurar a immtiuidade dos paços de U. Manoel contra 
algum golpe de mão tentado por mar, senão contra elle, contra a le- 
gencia que o representava. 

Acaso foi na prosecução d'essa obra que a morte veiu siirprehen- 
der o seu auctor. 

Nicolau de Frias, nomeado mestre das obras de paços da Ribeira 
immediatamente a esse succésso, teria por missão acabar a obra do 
seu antecessor. 

Dois annos depois d'esta nomeação, o successor de Filippe II co- 
meça o rol das liberalidades com que regalou os Frias, arbitrando ao 
successor de Filippe Terzo o ordenado de (J0;>000 rs. (alvará de 10 de 
fevereiro de 1599). 

Em todo o movimento artístico do ramo — architectura — que des- 
cende desde D. João 111 até D. João IV, parece-nos ver, mais ou me- 
nos caracterisadas, certas regras de administração que a este ponto 
respeitam. Assim como á situação de architecto régio vemos ligada a 
qualidade de cavalleiro da casa real, do mesmo modo se vè lambeín 
inalteravelmente observada a praxe que consistia em tirar os mestres 
das obras dos paços reaes da classe dos artistas que já eram archite- 
ctos régios. Por outro lado parece que, independentemente da classe 
de architectos régios se davam nomeações de architec.tos militares, 
persistindo através todos os reinados, que medeiam entre D. João 111 
e D. João IV, um como vislumbre de separação de attribuições, um 
rudimento da dislinçcão entre engenheiros militares, propriamente 
taes e architectos civis. Ás vezes acontece que os architectos régios 
são empregados pelo reinante em assumptos militares, em forliíicações; 
outras, é o contrario que se observa; e ambos os casos com frequên- 
cia. 

Filippe Terzo foi, naturalmente, conlractado para o ramo de enge- 
nharia e construcção de praças. No emtanto, como naque/les tempos 
a engenharia propriamente dieta não excluia os estudos de architectura 
ornamental ou civil, os artistas constructores achavam-se egualmente 
habilitados para ambos os empregos, e em ambos indistiuctamente 



iO REVISTA ARCHEOLOGICA 



eram occupados, consoante ao mérito ou aos talentos que em qual- 
quer das duas especialidades desenvolveriam. 

Assim, Terzo^ que construiu pragas, fontes e aqueduclos em Por- 
tugal, riscou e edificou o remodelado utosteiro de S. Vicente e acaso 
daria a traça para o tecto de S. Roque, porque architecto da obra, 
auctor de toda ella. não nos parece que fosse. Affonso Alvares, que 
era mestre de fortificações no reinado de D. Sebastião, era por este 
monarcha enviado á camará de Lisboa para se entender com ella a 
respeito da edificação da egreja de S. Sebastião da Mouraria, visto 
que o monarcba resolvera que elle fosse o mestre dessa obra. A 
Theodosio de Frias emfim, ao filho de Nicolau de Frias, era iniciada 
a carreira em ICOO, mandaudo-o el-rei servir «nas cousas de fortifica- 
ção do Reino e nas praças d 'elle, e mais cousas que o meu engenheiro 
mór lhe ordenar». (Alv. de !24 de marco de ICOO), 

Ora Filippe Terzo, engenheiro militar, e Leonardo Turriano, que 
lhe succedeu no cargo tiveram de ordenado 24i$000 réis annuaes e 
18r>U00 de ajuda de custo para renda da casas, o que dá um total de 
42?>000 rs. annuaes. É bem verdade que Terzo chegou a gosar de 
líOO cruzados de ordenados, mas este engenheiro reunira, por morte 
de António Rodrigues, em 1572 ás funcções do seu cargo as de mestre 
das obras reaes, e em 1590 as de architecto, conforme se vê em Ra- 
czynski. Vê se pois que Nicolau de Frias, que entre estes dois artistas 
se encontra substituindo o primeiro no ramo da architectura civil, já 
foi agraciado com mais 18;>000 do que o que percebia o seu anteces- 
sor, por semelhante capitulo, se é que esse excesso não representa 
ps honorários de alguma outra situação não conhecida. 

Pôde crerse (lue o velho architecto se finaria em IGIO, podendo 
conjecturar-se que a sua edade orçaria pelos 70 annos, suppondo-se- 
Ihe ims trinta ou quarenta na occasião da jornada d\\frica. 

Em Agosto d"esse anno, com effeito, foi seu filho Theodosio inves- 
tido no officio de mestre das obras dos Paços da Ribeira «da maneira 
que tinha Nicolau de Frias, seu pny, porque vagou, avendo respeito a 
sua suficiência e a seus serviços e aos do dito seu pai». fAlo. de 3 de 
agosto de 10 10). 



Quando após a leitura da ínscripção sepulchral da egreja das Fla- 
mengas, impressionados já pela nenhuma londjrança de que no Dic- 
cionario Artistico se commemorasse o nome do architecto (|uc ali se 
lisera sepultar, fomos avidamente ler o que neste precioso repositó- 
rio está impresso acerca dos Frias, julgámos á primeira leitura 
que tudo se reduziria a uma simples rectificação de nome. 

Na obra do conde dii Rac/.ynski le-se: «Fiuas (Loiiis dk),» architecte, 
fils de Nicolau de Frias.» Mas mais abaixo, em periodo separado, lè- 



KEVISTA ARCHEOLOGICA 



121 



se t.iinbein: «En 1G30, il remplaça son pôre probablemeiíl apnis sa 
mori, (laiis reinploi (1(3 mailre des Iravaux (Ics pahii.s njyaux.)- Heíle- 
cliiido, i-econlieceiíios que o viscfjiule de Jmomentia, conCuiidiíi Luiz 
cuiii Theodosio, dando aqiielhi (*oino íillio de Nicolau, e deixando de 
mencionar o arcliileclo das Flanierijías. 

Recorremos, pois, á Torre do Tombo. Eis, em resumo, o resultado 
das primeiras pcsfpiizas, que, infelizmente, ainda nao tivemos occasião 
de renovar. 

C/ianc. d,' Fil. I. L. 7, foi. If). 

Alvará de li de junho de 1597 — Mercí! a Nicolau de Frias «meu 
archilecto» do carito de mestre das obras dos pa(;os da Ribeira, em 
siibslilui(;ão de Filippe Tcrcio fallecido. — Já nos referimos a esle 
di[)loma. 

C/ianc. de Fd. II, L. 8, foi. 195. 

Alvará de IO de fevereiro de 1599, estabelecendo a Nicolau de 
Frias o ordenado de dO;>000 rs. —Também já dissi'mos o que nos pa- 
receu a este respeito. 

Mesma Chanc. L. 9, foi. 239. 

Alvará do tlieor seguinte: «Eu El-Rei faço saber aos que este meu 
aluara vyreni (j auendo respeito aos seruiços (] tem feitos Tbeodosio de 
frias (] me seriie nas cousas de arquitctura e com minha licença se 
tornar (sic) ora para o Reino onde ade seruir no mesmo hei por bem 
de lhe faser mercê nelle de cem cruzados cada aimo pagos no rendi- 
mento das terças com obrigação de seruir nas cousas da fortificação do 
lieino e nas traças deíle, e mais cousas q o meu engenheiro mór lhe or- 



nar)^ 



1 



Este Alvará é datado de Madrid, aos i24 de março de IGOO. 

Mesma Chanc. L. 9, foi. 244. 

Alvará de 6 de outubro de 1601 —Nomeação de Th(3odosio de 
Frias para os oificios de Juiz da Balança da moeda (Vesla cidade e de 
arecebedor do dinheiro das partes viuas da mina Tj vagarão por faleci- 
cimento de pedro homem soares». — Ordenado, 24^.000 rs. annuaes, 
sendo 2O;SOO0 rs. como Juiz da Balança, e 4:5000 rs. pelo outro cargo. 

Por favor do meritissimo contador da casa da Moeda, o sr. Eugénio 
Sedano Bandeira de Mello, vimos no livro dos ordenados dos empre- 
gados d'este estabelecimento do estado, referente a KJOG, o assento 
relativo a Theodosio de Frias, como Juiz da Balança, e cremos ter 



1 O (íiigenlieiro múrera Leonardo Turriano, nomeado em ["iOSpara este cargo, 
por fallecimento de Filippe Terzo. 



i22 REVISTA AUCIIEOLOGICA 



conseguido pelas inferências tiradas do exame de documentos já deci- 
fiados pelo sr. Marcos Fernandes digno paleograplio, actualmente em- 
pregado na Torre do Tombo, e já impressos, mas ainda não publica- 
dos^ que nos conste, determinar qual casta de emprego fosse o de 
recebedor do dinheiro das partes vivas da Mina, que Theodosio de Frias 
accumulava com o cargo de Juiz da Balança. 

É a casa da moeda uma das repartições publicas, onde a antiga 
terminologia tem mais persistentemente resistido ás alterações dos 
tempos. Vários termos teclinicos antigos se conservam ali ainda, como 
ariel [do tempo de D. Manuel), barra de ouro ou de prata que se fun- 
de na rilheira. Assim, «parles» se chamam ainda hoje, como então, na 
casa da moeda e nas repartições publicas os clientes do estabeleci- 
mento, e «partes vivas da Mina» eram todos os traficantes d'aquella 
nossa possessão que pelos galeões do estado ou caravellas de particu- 
lares mandavam o oiro ou a prata em barras à casa da moeda de Lis- 
boa, para nella serem amoedados. O juiz da balança era, assim, o pro- 
posto da administração do Estado para receder o metal já amoedado, 
afim de o entregar a seus donos, e da entrega que lhe fazia se des- 
carregava o thesoureiro em seu livro próprio. 

Cominando a pesquisa dos diplomas registrados nas chancellarias 
Philippinas, referentes aos Frias, ahi se nos depararam mais os se- 
guintes, passados em favor de Theodosio de Frias; de seu íilho Luiz 
de Frias e de seu neto Theodosio de Frias Pereira. 

Chanc. de Fil. II, l. 12, foi. 39 v. 

Alvará de 21 de fevereiro de I60;j — Merco a Theodosio de Frias, 
(ícaual/" fidalgo de minha casaco do logar de architeclo vago pelo fal- 
lecimento de Domingos da Moita, com ordenado egual ao do fallecido 
(oO;5000 rs. annuaes). 

Domingos da Motia havia sido nomeado architeclo d'EI-Rei por 
Alvará de 28 de Julho de 10(U. A morte não o deixou ascender ao car- 
go de «mestre de minhas obras» (Chanc. de Fil. II, L. 17, foi 27()V.°). 

Mesma Chanc. L. 18, fl. 6. 

Alvará do theor seguinte: «Eu El-Reí faço saber aos que este meu 
aluara vire q por confiar de theodosio de fi'ias meu arquiteto e 
cauaT" fidalgo de minha casa q nas cousas õ q o ocu|)ar dará boa 
conta de si ey por bem de o encarregar da Siqierintendeiicia das obras 
q se ouuerã (sic) de fazer na quinta q foi de Joaõ Bautisla rovelasco 
q está em Alcântara, e se tomou para os meus próprios, e todas as q 
ouuerem de fazer hu jardineiro q nelle hade estar e dous mocos (mj 
que lhe hão de assistir se farão com intervenção do dito Iheodosio de 
frias o qal auera por isso trinta mil reis de ordenado em cada hum 
anuo, no rendimento da dita qumtaa cõ declaração q hade morar e 



REVISTA ARCHEOLOGICA 



123 



assislir nella de dia e de noite para ordenar o q for necessário ao Be- 
neficio da dita quintaa.» Em Lisboa, a 20 de abril de 1605. * 

Mesma Chanc. L. 2.'} foi. 200 

Alvará de 3 de Agosto, de 1010 -Mercê a Tlieodosio de Frias, 
(ícavalleiro íidalgo da mirilia casa, e meu architecto», do oííicio de 
mestre das obras dos paços da Ribeira d'esta cidade de Lisboa «e da 
maneira (jiie o tinha Nicolau de Frias, seu pae». Já nos referimos a 
este documento. 

Mesma Chanc. L 2.0. foi. .3 v. 

Alvará de 11 de novembro de 1610. Mercê a Luiz de Frias «meu 
moço da camará» do lugar de meu architecto que vagou «polia pro- 
moção» de Tlicodosio de Frias, «seu pai», ao cargo de «mestre das 
obras dos meus paços desta cidade de Lisboa». 

Mesma Chanc. L. 21 foi 22H. 

Alvará de 9 de maio de 1612 — Nomeação de Tbeodosio de Frias 
para o cargo de Almoxarife dos Paços da Ribeira «alê que de todo 
sejam acabadas as obras dos ditos paços». 

Chanc. de Fil. III, L. 30 foi 189. 

Alvará de 25 de abril de 1625 — Mercê a Tbeodosio de Frias para 
que por sua morte possa nomear, conforme requerera, um de seus 
filhos ou genro no oílicio de Juiz da Balança da Casa da Moeda, de que 
é proprietário. 

Mesma Chanc. L. 26 foi 86 v. 

Alvará de 9 de Setembro de 1631. —Mercê a Theodosiode Frias 
Pereira (por sua avó, D. Isabel Pereira, conforme a inscripçao tumu- 
lar) «meu arquiteto» de um dos três logares de icstadar arquitectura», 
vago «por Eugénio de Frias ser ocupado em outros otficios».— Orde- 
nado — 20.:>0(Í0 rs. annuaes. 

Mesma Chanc. L. 26, foi. ISO. 

Alvará de 15 de março de 1633. — ^Mercê a Theodosio de'Frias pa- 
ra poder nomear, conforme requerera agora de novo, o oíficio de juiz 
da Balança «do ouro» da Casa da Moeda em seu neto Theodosio de 
Frias, (evidentemeule o de cima^apezar da falta do appellido Pereira), 
visto como o agraciado representara a el-rei que os íilhos e o genro, 



1 Acaso a residência de Tlieodosio de Frias foi a perjiicna casa que ainda hoje 
existe, como restos das dependências do antigo Paço, no Lurijo du Calvário. 



12i KIí VISTA ARCIIEOLOGICA 



a lavor de mii dos quaes obtivera poder fazer a dila nomeação, «os 
tinha acomodados». 



Agora, uma duvida: 

Tlieodosio de Frias, o sepultado das Flamengas, morreu, segundo 
o epitapliio em fins de 10^4. A mercê que lhe é feita, datada 
de abril de Kí^o, ainda se comprehende, sendo o diploma a confir- 
mação d"essa mercê, outhorgada no requerimento que elle fizera para 
a alcançar. 

Como se ha de entender, porém, que o morto de 1C24 ainda era 
•1033 esteja requerendo para poder nomear o neto no oíDcio de Juiz 
da Balança, visto filhos e geiu-o estarem acomodados? — v Conforme 
agora de novo requerera.)) Confessamos não poder, por agora, explicar 
satisfatoriamente esta emburilhada, a não ser que ainda, por virtude de 
novas pesquizas, appareça um terceiro Theodosio de Frias, que venha 
assim a collocar o appelido Pereira no gráo de bisneto do filho de 
Nicolau de Frias. 

De todo o conjuncto destes documentos se colhe portanto : 

\.° Que o Luiz de Frias, do Dictionario Artístico é neto, e não fi- 
lho de Nicolau de Frias. 

2.*^ Que Tlieodosio de Frias esteve em Hespanha, servindo como 
Archiieclo a Filippe iii (2." de Portugal) até março de 1000. 

3.° a) Que o mesmo Theodosio de Frias superintendeu no arran- 
jo da antiga quinta da Nijmpha, dependente do palácio de Alcântara, 
sendo licito, portanto, suppôr que não só os restos do baluarte que 
ainda agora se vêem na rua do conselheiro Pedro Franco, junto ao 
edificio em construcção para escola de desenho •.( Marquez de Pombah), 
como tandjem o systema de castellos e galerias com embrechados e 
nichos que ainda ali conhecemos, e de que estes restos faziam parte, 
seria tudo obra d'este architecto, e assim também os tanques que o 
sr. Vilhena Barbosa menciona, no seu artigo, á cerca da quinta do 
Calvário, a pag. 23 do vol. 2.° do Archivo Pilloresco, um dos quaes 
tanques, o da ilha, ainda o vêem as pessoas que passam na calçada 
da Tapada, ficando fronteiro á entrada doesta propriedade real. 

b) Que se justificam plenamente as razões [)elas quaes o mesmo 
dislincto pesquizador e mestre se inclinou a crer que o palácio d'Al- 
cantara fosse tomado para a coroa por sequestro em tempo dos Fi- 
lippes, conhecida como fica desde agora a epocha em que esse palá- 
cio e quinta se tornaram propriedade real. 

4.° Que. alem d"estes primeiros três archileclos Frias, houve um 



REVISTA ARCIIEOLOGICA 



i25 



(liiarlo, neto de Tlioodosio de Frias, e que, á moda liespauhola, jiiii- 
lou o appellido de sua avó «Pereira» ao de seu pae. 

Eis, por agora, (jiianlo se acha averiguado acerca desía fainilia de 
artistas dos rjiiaes um. o segundo d'elles, não parece ler sido nada 
desfavorecido pela loiluna em tiimpos (pie a miséria devia ser o mais 
certo (juintirio (Je quem tivesse algum préstimo em Portugal. 
Junho, 1888. 

Gomes de BRrro. 



UM MONUMENTO DE AEMINIUM 

(licctifieação) 

Havendo tido occasião de examinar o monumento de que dei co- 
nhecimento aos leitores da lierisla. a pag. 00-08, cumpre-me rectificar 
algumas asserções inexactas, a que me havia induzido a pouca clareza 
do calco que recebera, e cujo papel não havia abrangido toda a la- 
pide. 

As dimensões exactas do monumento são: i,'"30 de alto, e 0."'4G 
de largo. 

Na parte superior nada falta da inscripção, havendo um largo es- 
paço, absolutamente despido de lettras ou ornatos, entre a primeira 
linha e a extremidade da pedra. Abaixo da ultima linha dá-se exacta- 
mente o mesmo facto. 

A inscripção diz: 



JAT AVGMENTVM 
?• El • PVB • NATO • 
Jeecto QVE -PRI^I 
cIPI • i:> N FLÁVIO 

\AL • CONTANTIo 



O-FELICIINVCTOAV 
VSTO • I^ONT • MAXt 
RIBPOT-PPPROGN 
ViTAS • AEM1N1ENSII5 



A formula inicial da inscripção é pois at augmenlwn rei pubfUcae) 
noto ele: a(jui lemos um novo exemplo da orthographia ai por ad, 
do que ha muitos exemplos (Cf. C. I. L. II, 4514; ibid. atleclus e 

'jllOf.) 

Lisboa, Io agoslo 1888. Borges de Figueiredo. 



126 



REVISTA ARCHEOLOGICA 



MISCELLANEA 
I — Inscripção de Aennnium 

No artigo Alguns passos lium labj/rint/io. Se Coimbra foi povoação 
romana e que nome teve, publicou em I87Í) A. F. SimõfS n seguinte 
nscri()Ção, que também se encontra no Catalogo do ílusen do Instituto 
de Coimbra. Supplemento 1.°. p. 5, n.° IC. De nenliiuna d'essas vezes 
foi o monumento publicado devidamente, pois se não atlendeu á dis- 
posição das linhas que compõem a inscripção. 

Lapide de l"',Oi. dalto e O'", 46 de largo, descoberta em 1878, 
quando se demolia um lanço da antiga muralha da Couraça de Lisboa, 
ai) Arco dn Traição; hoje no Museu do Instituto de Coimbra, (calco 
enviado pelo meu amigo sr. Dr. Júlio Augusto lleniiques). 

D{iis) M{ambiis) S{acrum \ 
Cadio j Cariauo \ ann{orum) 
XXI I Alleicca | Avita mater \ 
filio fa{cicndum) c{urãvit). \ 
DiCy rogo, qiu transis: sit tibi | 
terra levis. 



Consagração aos deusesma- 
nes. Alleicea Avita fez elevar 
este monumento á memoria 

de seu tillio Cadio Cariano, fallecido na edade de vinte e um annos. Tu 

que passas, dize (eu t o peço): Scja-te leve a terra. 

O nome de Cadio encontra-se noutra inscripção de Aeminium,, hoje 
perdida (C. /. L., 11, n.'' 380). 

II — Inscripção de Mijrtilis 

Em Mertola foi descoberto em 1883 um fragmento de lapide se- 
pulchrai, que faz parle das minhas collecções onde apenas se lè: 







D y 


M ^ S 








C 


A 


D I 







libcr 


C 


A R 


I A N 









A 


N N 


^ XX 


I 




tabcUae 


A 


L L 


E I C E 


A 


codex 


fechadas 


AVITA 


MATER 


aberto 




FILIO 


FA ▼ 


C 






DIC-ROGO-QVI TRANSIS-SiriIBI 








TERRA I.EVIS 







D • ^'l • 5 D[iis) M[anihus)\S[ccrwn)\\ 

M I NJíc/of Aíí;3[/c/o?. . .] 

(^onsagraçcão aos deuses ma- 
nes. Aqui jaz Minicio. . . 

Borges de Figukiredo. 



REVISTA ARCIIEOLOGICA 127 



BIBLIOGRAPHIA 

/ Ax publicaçõcx, com citja troca sp hnnrn a Revista Ahchkologica, são mencionadas 

pela ordem da recepção) 

AcADKMiK DE!; Inschiptions i:t ]íf,lles-Lf::ttri:s. Comples rendus 
des sôances de Tannée 1888. Qiialriéme Série, Tome xvi. Biillelin de 
Mars-Avril. 

Toxto : — S(!aiicos,(lc Mars-Avril — Communicalions : VII Letlrc de M. Edm. Le 
Hlant. Din^cttnir de THcolo do |{ome {sobre nm monnmenlo da caíaciimha da via Saln- 
ria, em lloiiia. cm que são inscriptos (juatro doa fdhos de Saiila Felicidade). VIII Letlre 
dii iniMiio (sobre varias i)iscriprues latinas). IX i')i contrat rappelant la li''(jende de Sar- 
daiiapale, par M. .1. Oppert. X Lettre de M. Edm. Le IJIniit (subre in.<<criprões latinas). 
XI l^etlre dii iiiêine (sobre Insrriprões latinas). XII Lettre du niéiiie (sobre uma laça 
de vidro onde esta fajurada a rcsnrreição de Lazaro, e sobre ama iirna em que está re- 
presentado llemdes destruindo as vinhas de Sj/leu). XIII Lettre du niôine {sobre inscri- 
pções latinas/. XIV La condition des esclaves á Baln/lone. par M. J. Oppert. XV Letlre 
de M. Edm. Lo Hianf (sobre inscripeCes latinas). XVI Dn texte des livres xxvi à xxx 
de Tile-Live, par M. O. RÍPinanii. XVII Lettre de M. Edm. Le Biant (sob)e inscripções 
latinas e chrislãs). XVlIl Letlre du iiiOme (sobre um baixo relevo representando o sa- 
crifício de Abrahão). XIX Sur le «L^ivre des six príncipes,» par M. 15. Ilauréau. — Li- 
vres oílbrts. 

Eslampas : Fragment d'inscription portant les noms de qualre des fds de Sainte 
Felicite. 

Revue de l'Art curétien. Livraison de juillet 1888 Lille. Société 
de St-Auguslin, me du Metz, 41. 

Texto : Une peinture étranrje.pav .1. H. — Wit Strosz. par Brykezynski_. — Un Vase 
en cristal du trésor de St. .Vare de Venise^ par X. Barl)ier de Moutault. — Elndes d'Ico- 
noqraphie reUqieu^e. par Paul Allard. — h' Exposition rétrospective dWrt industriei, par 
.1. 11. — Élrments d'Iconoqrapbie chrétienne (({iiatritmie article), par L. Cloíjuft. — Non- 
velles et Mêlanges. — Travaux des Societés savantes. — Bibliographie. — Lulex bibliogra- 
phiqne. — Chroniqne. 

Estampas : VIIÍ í,''» Vase en cristal de roehe du Trésor de Saint-Marc,à Venise 
IX Pt X Leltrines du Cartniaire de Vabbaye de Baignes. XI UHotel de Cluny, vue aen- 
semble, restitution; e numerosas gravuras no texto. 



BoLETiN dí:l Ce.ntro Artístico de Granada. Tomo ii, n.*'^ 41-46. 
Traz entre outros artigos : 

N." 41 Iconistica espanola de la cruz, dei crucifijo y de la Virgen cu los siglas mé- 
dios, conferencia por F. Brieva. 

N." 43 Medima-Elvira. por M. (iomez Moreno (continua no n.° 44). 

Estampas : Objectos encontrados en las excavaciones de la Sierra de Elvira, lám. 

XIU-XVI. 



128 REVISTA AliCHEOLOGICA 

BULETIN DE LA InSTITUCION LIBRE DE EnSENANZA. Madrid. Tomo XII, 

Traz o seguinte artigo de archeologia: 

N." 268 Paraíso y purgatório de las almas scgnn la aiilologia de los Iberos, por D. 
Joaquin Cosia, (continua nos n."» 269 e 770). 



BuLLKTTiNo dkllI.mimiuiale IsTiTUTo Archeologico Germanico. Ses- 
sioiíe i'oinana. Vol. iii. Fase. 2. Uonia 1888. 

Texto: II. lli^ydeinaiin, Ossorvazioni sulla viorte de Priamo e di Asllanaite. — P. 
AVoUers, Beilrdge zur griechis.chen Ikonographie. — A. Mau, Scavi di Pompei. — Ch. 
lUiflson, Osservazioni suWardidelliira dei feiíipio di Giove Capilolino. — A. Barbiiii. 
Scari di Grosselo. 

Estampas: lu (Baixo relevo representando a morte de Priamo). — iv (Busto de 
Arcliidamos) — v {Fac-siinile d'nm desenlio, da cullecçrio dos Uílizi de Florença, re- 
presentando uma pon;ão de columna do templo de Júpiter Capitolino). 



Revue Arghkologique, publiée sous la direction de MM. Alex. 
Bertrand et G. Perrot. Paris. — Troisième série. — Tome xi ; Mars- 
Avril et Mai-Juin 1888. 

Numero Mars-Avril. — Texto: — Ant. Heron de Villefosse^ Figure en terre Man- 
che trouvée à Cdiidebec lès-Elbeuf. — Clermont-Ganneau. Sarcophage de Sidon reprê- 
sentant le mjlhe de Marsyas — E. Muntz. IJAnlipape Clèment Vil. Essaisw Vhistoire 
des Arls à Àvignon, vers la fin dii w" siècle (suite.) — Franz Cumont, Les dieux éter- 
ncls des inscriptioas latines. — 11. d'Arbois de Jubainville, Le char de guerre des Cel- 
tes dans queUpies textes hi&loriques. — Jacques Guillemand, Les inscripiions Gau- 
loises. jSouvel essai d' inlerprétalion (suite). — A. de Boislisle, Contrai de lõSl relatif 
aiix OHvrnges de nieniiiserie de la hasse-cour du clniteau de S<iint-Germain. — Paulo Mon- 
ceaux, Fastes êpowpniques la de ligue thessalienne ; Tages et statéíies fédéranx. — L. 
de Ij.miuy. Ilistoire ^éologique de Mêtelin et de Thasos. — S. W. Listes de.-< ocrulistes 
romaim mentionnés sur les cacttets. — Bullelin mensuel de VAeadémie des Inscripiions. 
— Síiciêtê nalionate des Antiqua ires de Frane.e. — Nouvelles archeologiques et corres- 
pondenee. — Bddingraphie. — R. Cagnat, Revue des piiblications épigr xphiques relatives 
á 1'anliqnilô roniaine. 

Estampas: — vi Figure en terre blanche trouvée á Caudcbec-lès-Elbeuf. — vii-viii 
Sarcophage de Sidon. — ix Carte de Mételin. — x Carte de Thasos. 

Numero Mai-Juin. — Texto : — Max. Collignon, Tèle en marbre trouvée à Tralles 
(musée de Covstantinople). Deioclie, Eludes sur quelques cacheis et anneattx de Vépo- 
que mérnvingienne{m\W). — H. de lá Blani'liér(!, Carreaux de t'^rre cuite à fignrines 
déroucerls en Afrique. — Abel Mailre, Cimetiére gaulois de Saint-Manr-les- Fosses. — 
Ch. (ioutzwillier, La Vénus de Mandeure. — liarun de liaye. Les bijoux gottiqiies de 
Kertch. — Salomon Heinacli Cbrimique d'Orient. — Uol. viens. de rÀcad. des Inscr — 
Soe. nat. des Anliq. de France.- -Nouvelles archeologiques el correspondence.—Bibliogra- 
phie. — R. Cagnat, Hevue des publiealions é.pigraphiques relatives à iantiquité ronuvne. 

Estampas: — xi-xii-xiii Carreaux de terre cuile á (igurines déronverts en .\friquc. 
XIV Ti^te en marbre trouvée « Tralles (musée de Conslauliiiojde). xv Sculptures de Cy- 
vié. — XVI La Vénus de Mandeure. 



REVISTA ARCHEOLOGICA 129 



UNA INSCRIPCION ClílSTIANA INÉDITA 
DE MÁLAGA 



La opulenta casa de Banca, que gira en esta plaza bajo el cono- 
cidu iioinbie de IIijos de M. Larios, ha eraprendido hace alguii tiempo 
la iinportaiilisima olji'a do la apertura de uiia anchisiuia via de coinu- 
nicacion, que partiendo dei paseo publico, que se conoce con el nom- 
bre de Alameda, vaya á terminar en linea recta en la antigua Plaza 
real. lioy de la Constitucion, siguiendo la direccion de Sud á Norte. 
Esta nueva artéria alraviesa precisamente el centro de la antigua 
ciudad musulmana, (\ue queda por dicha zona complectamente destruí- 
da, desapareciendo una complicadísima red de antiquísimas y estreclias 
ca lies moruuas, muy semej antes en su aspecto y en el de la genera- 
lidail de sus casas, á las que se ven eu Tanger ; pêro muchomas apro- 
pôsito para nuestro ardiente clima que las grandes avenidas, con que 
se mueslran lan ufanas las cuidades dei Norte como Viena y Berlin, 
Paris y Londres, que en Málaga eslan llamadas á liãcer las veces de 
inmensos paseros vacios. ^ Al abrir los cimienlos de las nuevas casas, 
(|ue en diclia avenida de Larios lian de levantarse, y en el lugar que 
ocupaba antes el llamado Callejon dei Perro, entre la Calle de San 
Bernardo el viejo y la de la Bolsa, apareció como á unos três metros 
de profuudidad, el dia i2G de iMayo de este ano, una piedra, que me- 
dia de largo treinta y três cenlimetros, de ancho por la parte supe- 
rior treinta y por la inferior Irece, con un grueso de poço mas de 
siete. Estaba suelta, no formaba parte de construccion algnna anti- 
gua, á su airededor no aparecierou ni huesos humanos, ni monedas 
romanas, ni restos de cerâmica de ninguna clase, haciendo ver lodo 
ello que habia sido alli transportada acaso de algun cementerio Cris- 
tiano no muy distante. Parecia haber servido para los cimientos de las 
paredes de una mala posada, que se encontraba en aquel callejon sin 



* Esta monomania, inesplicable en los paises cálitlos, no es por cierto nueva sino 
bicn aneja, piiesto que ya en el siglo primero preocupo á Neron hasta el punto que. 
para veria realizada, pego fuego á Roma, t-ulpando de ello luego cá los cristianos á 
quienes sacrilicó hajo este pretesto inhuinanamenle. Por enlonces lauibieii se dccia, 
segun el testiruonio de Tácito que «la antigua fúrma de calles altas \ cstrechas era 
uKis apropúsito para la salubridad, porque uiitigal)an los ardores dei sol, niientras 
vias tau auclias > estensas, no defendidas por sombra alguiia, baeian sentir el calor 
con mas inlensidad» et nunc jmlulain ialiludinem et uulla umbra dejensam (jruviore 
acstu ardescere. Táeit., Ann., xv, 43. 

ReV, ArCH., N." (J — Setemiíro 1888, g 



130 



REVISTA AlíCHEOLOGICA 



salida, posada que lenia el aspecto, como alguna otra de esta ciudad, 
de haber sido eii sii origen una casa morisca. La piedra, apesar de 
su gran espesor, se habia partido desde el angulo de ia izquierda, en 
direccion diagonal liacia la base. En sa forma primitiva debió ser casi 
cuadrada, ocupando la mitad de la derecha una inscripcion romana 
gravada en octio lineas, apareciendo trazada sobre la primera y de- 
bajo de la última una ligera guirnalda, formada como de uii brazo de 
liiedra y á la izquierda, desde el renglcn quinto subiendo hasta el se- 
gundo é inclinada á la izquierda tambien, una palma, ligeramenle es- 
culpida con puntos, sobre la dicha losa. La leyenda, que está íntegra 
y en gallardas letras Irazada, dice asi : 




liicdra 
AVRELIVSIV 
LIANVSN A 
TIONEM AF 
R AMQVI VI 
XI T AN NVI 
M • X • DIES- 
X I M ANE T 
INDEIGLORIA 

Itiedra 



Su lectura é interprelation es por demas sencillísima : 

Aurelius Iiãianus, natione afra, qui vixit ann{os) VI m(cnses) X dies A7, 
manet in dei gloria. 

Está en la gloria de Dios Aurélio Juliano, natural de Africa, que vivió seis 
anos, diez meses y once dias. 

Lo primero que se hace notar en las formas ortográficas de este 
monumento es la terminacion de acusalivo nationem afram, en vez 
de la de ablativo, en formula tan frecnente y conocida, mera errata 
dei gravador, no estrana en epigrafia romana K 

Es de observar tambien que solo apareceu puntos entre las pala- 
bras y abreviaturas de la linea sesta y ai final dei mismo renglon. 

La frase última, que por cierlo es inusitada, determina el caracter 
Cristiano de esta epigrafe, en el que se encuentran suprimidas la for- 



' C. I. L., II, 177. E. S. E. L.j cap. viii § ii p. xlii. 



REVISTA ARCHEOLOGICA 131 

mula inicial pagana D. M. S y la terminal S. T. T. L, occupando el lu- 
gar dtí la una y de la olra dos ramas de liiedra, como ya se lia indi- 
cado. 

For lo que hace á los caracteres paleográficos, opina el distingui- 
do Profesor lliibner (jue alendiendo á sus lonnas, la fecha mas anti- 
gua que piiede asignarse á este monumento es la dei siglo IV. ", y lo 
convence su comparacion con losdeotras três lápidas tarraconenses * 
gravadas dei 31^ ai "I.il de J. C. ^ 

De Hossi ^, Le Blant'* y lliibner^ lian establecido los solidisimos 
fundamentos de la epigrafia Cristiana, ciência lioy baslisima. en la ijue 
se exige una erndicion profunda, una critica serena é imparcial y un 
espiritu libre de preocupaciones. Las copilaciones por aquellos sábios 
publicadas y los luminosos comentários que las acompanan han dado 
a conocer de que modo en los primeros tiempos de la Iglesia el for- 
mulário de las lápidas funerales cristianas siguió la plantilia pagana, 
sin alteraciones sensibles, hasta que desligándose algun tanto de ella 
principia á adoptar otra mas própria, y peculiar de los íieles que pa- 
saban á mejor vida. En el cuarto siglo comienzan á figurar en esteli- 
nage de epigrafes el anagraraa de Cristo, el alfa y la omega, la pa- 
loma, asi como las formas depositio y decessit; en el imediato apa- 
rece la cruz sobre las piedras tumulares, el anela y el pescado con las 
fórmulas amplificadas Hic REQViESCn IN PACE é iniioctvmvlo 
REQVIESCITBONAE MEMORIAE, que reemplazan à la arcaica hse, 
y lambien el calificativo piadoso de famvi.vs dei. 

Pêro ai separarse por compleclo la epigrafia sepulcral Cristiana de 
la pagana, ademas dei absoluto olvido de toda memoria á los manes 
dei finado y de todo pensamiento mundano, ritualmente espresado, de- 
seando que la tierra dei sepulcro no oprimiese las yertas cenizas dei 
incinerado ó los no quemados restos mortales dei inhumado, se dibtin- 
guió por caracteres aun mas acentuados. Era uno de ellos la supre- 
sion de toda ascendência, otro la omision constante de la pátria y de 
la condicion social y por último la designacion dei dia de la muerte. 
Sin embargo á propósito de tales generalidades y referiendose preci- 
samente á esta nueva inscripcion malacitana, me hace notar el ilustre 
Profesor lliibner, ya aludido antes, que tiene observado que sobre 
lodo en Espana las formas paleogra ficas y las fórmulas epigra ficas se 
mantienen com mucfia mai/or tenacidad que, por egemplo, en Itália. 

Como ya se ha dicho, pues, y de conformidad con las indicacioues 
espuestas, en el epigrafe trascripto, ademas de la supresion de las 
aludidas formulas espresadas por las siglas DM-S asi como h-S-e y 



^ E.S. E. L. 782 cá 784. ^ Q. I L., ii, 410o, 4106 y 4108. ^ luscriptiones chris- 
tianae urbis Romae septimo século aníiquiores. Romaei861. * Inscriptionschrétiennes 
de la Gaule antáieures au VIII siècle. Paris. 1856-1865. '•> Inscviíitiones Hispaniae 
chrisdanae. Berolini, 1871 ; Iitscripliones Brilaniae christianae, Berolini, 1876. 



132 REVISTA AliCHEOLOGICA 

iiltimamenle por las conocidas sttl, aparece la insólita manf.t 
IN DEI GLORIA' qiie marca el caracter Cristiano dei monumento, es- 
lando precedidas de otras puramente paganas. El nombre y el cognom- 
bre dei iiiluimndo. sin el prenombve acaso por no lial)erl() aun reci- 
bido y L'i tieinpo (jue hahia corrido desde su nacimiento hasta su inuerte; 
pêro ni cruz, ni anágrania de Cristo, ni otro signo alguiio Cristiano, 
mas que la ya indicada fiase final de que aíjuel nino de seis anos go- 
zaba de la gloria de Pios. 

Traláiidose pucs de un documento Cristiano de la indicada época 
no dfho encarecer su im|)orl;incia, porgue nadie puede ignorar queen 
l;i Historia eclesiástica de lísp;ina no ahuiidan monumentos genuinos de 
remota lecha y (pie la Siloge Imebneriana no re^^slra lápida alguna 
anterior á la indicada cenluiia, siendo las de esta en corto número. 

San Âdo -j- 875, Obispo de Viena en Francia, Viemm Allobrogum, 
y Usnardo y S97, monge de Saint-Germain-des-Près, que vino á Cór- 
doba en tiempo que la ociípaban los Moios, redaclaron dos Martirolo- 
gios en los cuales y bablando precisamente dei 13 de Mayo refieren 
contestes que el mencionado dia fue el nutalicio de los Santos, confe- 
snres Torcuato, Ctesiplwn, Secundo, liulalecio, Ceciiio, Esicio y Euphrasio, 
quienes ordenados Obispos en Roma por los Santos Apostoles, ftieron d 
predicar la palabra de Dios à los Espaí/oles, aun imbuídos en los errores 
dl' la genlilidad. . . Despues de haber evangelizado diversas ciudadesy con- 
vertido d la fe de Cristo numerosas multitudes, descansaron Torcuato en 
Acci, Ctesiphon en Vergi, Secundo en Abula, Indalecio en Urci, Ceciiio 
en Eliberri, Esicio en Carteia ? * y Euphrasio en Eliturgi ^. 

Desde que se escribieron estos dos Martirologios hasta que fuc 
redactada la conocida Historia compostelana pasan Ires largos siglos, 
en los cuales el estraviado fervor de algunos devotos provoca las co- 
nocidas falsificaciones de los dos textos diversos y desemejanles de 
las supiieslas Epístolas dei l'apa San Lcon, en una de las que se dan 
por guardianes dei cuerpo de Santiago, hijo de Zebedeo, á Theodosio 
y Anaslhacio y en la olra por discijiulos de aquel Apostol á Tessifon 
y Torcuato. Dichos documentos escritos en un latiu muy espanol, si 
es permitida la frase, se apartan en su estilo de la manera como por 
enlonces se manejaba el idioma en Itália, á juzgar por otros análogos 
y genuinos redactados en la coite de Uoma^ sus mal aconcejados au- 



1 Los códices traeii Carcerae y Ciirtesac, iniiy prol)al)l(!iiioiito por Garte/;ie. 

'■^ S. Adónis M,ir(yrolof,'iiirij. Idiliiis Maii. col.'20() y 207. ed. Migiic. Usuardi Mar- 
tyrologium. Idibiis Maii, col. 'óõ y 50, ed. Migue. Kl l(!xlo de Usnardo es trascrito 
dei de S. Ado suprimido el relato, que latid)ieii se liaoniilido en la version que an- 
tecede, y afiade diclio Santo de lo (|ue avino á los Apostólicos ai Negar ;i Guadix. 

3 Sol)re el latiu de la corte de l{onia eii los siglos viu." y xi." y su deseinejanza 
con el de los dos indicados doi-uiueiitos falsos, pueden verse numerosas epistolas pon- 
tifícias, como las Lronis III fiipnc Epistolae nd Oimbim M. edidit Couringius, 1055 V 
las Kplslulae Vnidijlcum ruinanunun iitcdiUw ediílil Loevenfcld. 1885. 



REVISTA ARCHIíOLOOlCA 133 



tdics iii ;iiiii accil.iioii á velai' bajo las formas de una lengua, que de- 
bió series laniiliar, sii niaiiera proviíirJalisiuia de foruiiilar los mas 
vulgares peiísamieulos. Auibas supueslas epistolas, la rpie empieza 
\iiSi-at frafcrnilas vcstra y la que rouiieuza Vobis in Clirislo cri-dodi- 
hus, hau sido relegadas eulre las falsas eu la segunda edieiou dei lU;- 
f/csld PoNti/iciini romauovum de JalCé, publicada em Leipzig por Lo- 
Nvenfeld, Kaileubriumer y Kwaid, bajo los auspícios dei profesor Wat- 
leuliacli, estimando los uuevos editores que diclia falsilicacion fue lie- 
clia á medidos dei sigio xi *. 

Ilay uu documento importaniísimo para la Historia de ia propaga- 
ciou dei cristianismo en la antigua Bética que es el tau conocido Cnn- 
cilio ilihiTriía/to, que se conjetura celebrado eu los primeros anos dei 
siglo lv^ y antes de la i)ersecucion de Diocleciano, que empieza eu 
el 303 para terminar dos anos mas tarde -. Entre los Prelados que 
suscribieron diclio Sinodo estan Félix de Acci, Sabino de Ilispalis, Si- 
naííiio de Epagro, Cantonio de Urci, Patrício de Malaca, Osio de í^or- 
didja, Cameriuo de Tuci, Secuudino de Caslulo y Flaviano de Eli- 
berri, sin que deje ocasion á dudar el texto sobre el lugar donde ta- 
les Obispos se congregaron : ctim conveiússent sanei i rdigiosi Episcopi 
in Ecvlesia Eliberrilana. 

Durante el período gótico, que corre dei 410 ai 711, el nombre 
de los prelados de Eliherri no cesa de aparecer en los documentos au- 
tênticos de aipiellos tiempos. En el concilio tercero de Toledo donde 
Uecaredo ratilicó e.ou los próceres dei reino su adjuracion dei arria- 
nismo en o89, figura suscribiendo el acta conciliar, Stephanns Eli- 
hcrrilanac Ecdcsiae PJpiscopiis.'^ En el séptimo, que se rennió el 08'í rei- 
nando (Ibindasvinto, aparece la firma dei Presbítero Reparato en re- 
preseutaciou de Ethcrio, Ohispo ilc Etiberri K En el decimo tercero, ce- 
lebrado en G83, cuando ocupaba el trono Ervigio, se encueulra entre 
los vicários de los prelados, que no pudieron concurrirpersonalmente, 
Felij- Abba, Ergabadi Eliberritani cpiscopi ^. 

Pasada esta época três veces secular comienza la dominacion mu- 
sulmana y en uu códice escurialense, donde entre otras cosas se mar- 
can los nombres de las ciadades de Espana, que sou sedes episcopales, 
figuran como tales Malaca é lliberri^, poços renglones antes de dos 



' JalTi". Rpfjesta Poutifirum vomunoruni, ed. secunda, tom. i. p 517. ]■ 4:1:28. Voiíis 
(Icíf.: Omniltiis) in (-hristo crcdeiUihus et euncto populo catliolico scribit di! passione 
S. lai'ol(i Zehedei et de corponí eiiis a partiltii.s llierosoliniitnius in tlispaniatn trans- 
lalo (lluiiis epistolac ciM-le coiniupiiticiao duae rect^nsioncs exstaiU; cui vuio Leoni 
ascril)Oiida sit, inter docUssimos liaud constat. Leonis IX r.'gestis eain inserimu:*, 
([Uia ciiis Icinporibus confecla vidontur). 

- Klorfz. /<:. S.. xii. Irat. ;i7. cap. 't. § 205, p. 178 3 Ihid., vi Irai. (i. cap. \. 
p. I'i8. * Ihid, cap. D, p IS!. •• Ihid.. i-ap. 15, p. 209. Ewaid et Loewe. Exem- 
pla scriplurae visirjulicae, tab. xxix. •' Ewald et Loewe, Excmpl. script. visig. lab. vi. 



■134 REVISTA ARCHEOLOGICA 

notns referentes d los eclipses dei sol de los aíios 778 y 779. En la 
division de los obispados espafioles escrita en el siglo xii.° *, cuando 
ya Granada llevaba uno de ser la capital de la comarca ^, atrlbuida 
àqiiella falsamente por su autor á los tiempos de Vamba ^ entre los 
sufi aganeos dei de Spalí se designan * ai de Malaca y ai de EUbcris, sin 
que se ocurriese ai falsilicador el trocar el nonibre de esta última po- 
blacion por el de la modernísima Granada. 

Fueron Migwi de Lana, liijo de un morisco de dicha cuidad, y el 
celebérrimo jesuita de tan funesto rcnombre, Gerónimo Roman de la 
Higucra, aquel en sus conocidísimas invenciones de la supiiesta Torre 
tnrpiana y dei incomparable Monte Uipulitano y este en sus no menos 
absurdos Cronicones fingidos, los que tomaron sobre si en el siglo 
XVI." el empeno de concordar la Granada musulmana de origen judio 
con la lliberri ibérica, excitando el fervor de los fieles con tan estu- 
penda noticia, que vénia á unir la silla arzobispal, creada en los dias 
de los Beyes católicos en el último baluarte dei islamismo, con la epis- 
copal, fundada por San Cecilio, consagrado por San Pedro y San Pa- 
blo, y estabelecida en un pueblo, que fue de los primeros en conver- 
tirse à la fe de Jesu Cristo. Con la persistente tenacidad con que mu- 
chos errores se arraigan entre nosotros y mas aun si estan sosteni- 
dos por un inmoderado fervor piadoso, ha venido propagándose de 
siglo en siglo esta mistificada concordância, sin que ni aun hoy diadeje 
de tener los mas intransigentes prosélitos entre los que, partidários de 
determinadas doctrinas, intolerantes en demasia, no quieren conven- 
cerse ni confesar por un momento que los escritores árabes, con ser 
herejes, pudieron tener razon en un punto, que se roza tanto con los 
origenes dei cristianismo en estas regiones. 

El ya citado Monge Usuardo en su aludido Marlirologio escribla en 
el siglo ix°. hablando dei XIV Kal. lul, ó sease dei 18 de Junio, que 
dicho dia en Malaca, cuidad de Espana, entregaron su alma ai cielo, 
muriendo d pedradas, despues de haber sufrido muchos tormentos los 
Santos Mártires tíiriaco (sic) y Paula Virgen^. La primera edicion de 
este libro vió la luz pública en Lubeck, ciudad de Alemania, por los 
anos de 1475'', y la segunda ó mejor tercera ' en Florencia en 
1486^, es decir un ano antes que los Reyes católicos reconquistaran 
à Málaga dei poder de los Moros, y esto explica que sus nuevos pobla- 
dores cristianos á excilacion de Innocencio viii lomasen por Patronos 



1 Florez, E. S., iv. Irat. 3, cap. íi. p. 207 § 172 y p. 201) i^ 176. ^í Edrisi, 
tratl. Dozy, Leyde, 1866, § 203 p. 250. Aben Aljattiib, 'llist. do Granada, trad. E. 
Lafuente Alcântara, Inscrlpriones árabes de Granada, p. 15. not. 1. ^ Florez, E. S, 
IV, trat. 3, cap. 5, p. 182 y 183, §^' 131 y 132. ' Ihid.,p. 238 5í§ 278 y 279. •"> Usuar- 
di Martyrologium, xiv Kal, lul., col. 167 y 168, ed. Migix!. ^ Ibid., co\. 543,544, 
587. ' Ibid. •* Ibid., col. 544, 587. lirunet, Manuel du Libraire. 



líEVISTA ARCHEOLOGICA i35 



d(; la ciudad á dichos Santos, en Ia creencia de que en la indicada po- 
blacion liabian siifiido el marlirio. La edicion usuardina, que manejo, 
ai pie dei texto consagrado á cada dia dei afio, contiene entre otros 
vários esclarecimentos de interes, unas obserraciones criticas bastante 
eruditas y en las referentes á la fecha antes indicada el ilustrado co- 
mentador que las redacta dice respeclo á los mencionados santos que 
Usuíirdo fiití el primevo que dió á couucer su marlirio, sin que se sepa 
de donde saco la nolicia,si bien pudiera conjeclurarse que atando esluvo 
en Espana oi/ese referir este acontecimiento conservado por la tradicicn y 
ai volver a Fvancia inclui/ese su relato en el libro que escribia, porque in- 
dudablemente hasta altora no han apareculo actas de elíos que sean di- 
gnas de fé '. Que el iMonge de Sainl Germain-des-Près debiò acaso te- 
ner conocimiento de estos Mártires ai Uegar á Córdoba por la Iradi- 
cion oral conservada en el pais pareceu corroborarlo los textos, árabe 
el uno y latino el otro, que han sido publicados en Leiden por el pro- 
fesor Reinart Dozy en 1873 dei compendio y refundicion de unos ca- 
lendários cordobeses, que datan de los primeros anos dei siglo xvi.°^ 
donde precisamente en la fecha mencionada dei 18 de Junio se lee en 
el ahuhdo estracto latino que, en dicho dia era la festividad de Ciria- 
co y Paula, que fueron muertos en la ciudad de Cartagena cuya festi- 
vidad celebrábase en. . . Córdoba ^. La ciudad aqui mencionada era la 
Carthago nova de Espana, porque cuando en el mismo documento se 
habla de la de Africa en el dia 18 de Júlio se le llama precisamente 
Carthagine magna *. El pasage antes citado dei códice latino es como 
se ha visto de difícil lectura en un pasage determinado ; pêro no por 
eso tan oscuro que deje de comprenderse que en la Sierra cordo- 
besa se conservaba el festival de dichos santos siete siglos despuesde 
su muerte, persistindo alli de conseguiente no interrumpida la tradi- 
cion de su martírio, oscurecida no mas que en punto à la ciudad en 
que lo sufrieron. 

Pêro esta duda viene á aclararia un Ms. de la Bibliotheca de la Ca- 
tedral de Toledo, que algunos suponen dei siglo x ^ y otros dei XI.°^ 
que contiene el traslado "de un Ilimnario, que se conjectura redactado 
en el periodo gótico, tanto mas cuanlo que en sus diversos fólios no 
Jiay una alusion por remota que sea d la dominacion árabe \ Su texto 
fné publicado en 1775 por el Cardenal Larenzana en su reimpresion 
dei Bveviarium gothicum, que en 1500 hizo estampar el Cardenal Xi- 
menez de Cisneros. En el mencionado códice toledano bajo el numero 



1 Usuard., col. 167, 168. 2 Dozy, Le calendrier de Cordoue, Leyde, 1873. p. vi. 

3 Usuard.. p. 6i.— xviii. In ippo est festum Quiriaci et Paule interfectoruni in ci- 
vitate Cartagena, et festum utriustjue in niontanis Sancti í\tu1í in. .. Cordubc. 

* Ibid.. p. 72 et sepultura eius (Esperati) est in Cartagine magna. 

■' Florez, E. S., iii, p. 9i. "■• Amador de los Rios, Historia critica de la literatura 
cspaíiola. I, p. 471. ' Ibid., p. 472, nota. 



136 KEVISTA ARCIIEOLOGICA 

Lxxiv se registra el Imnus in diem Sanctorum Siriaci et Paula XIII 

Koleiídas liiiiias (sic),que pai'ece redaclado con presencia de las actas 
genuínas niaitiriales, hoy, como ya lie diclio, de todo pnnto desco- 
nocidas, y en el referido hiiniio se dice ; primero, que Paula fue 
coinpauera de Ciriaco en el niartirio, socic (sic); Itiego, que el terri- 
ble àiwUno era enlonces Presidente en Cartago, praeses Carlagi- 
nis (sic); despues que los liizo conducir á su presencia, in aiúam, 
y no habiendo logrado conseguir que idolatraran, lleno de fúria los 
mando azolar, tundit corpora; y por último que fueron muertos 
á pedradas junto á unas palmeias, jusla. . . arhorcs palniarnm y que, 
ecliados sus cuerpos en una lioguera, la lluvia dei cielo estinguió el 
fuego. 

Existen numerosos testimonios que vienen á justificar como du- 
rante la presecucion de Diocleciano, que apenas duro três anos yllegó 
á su término en 305, egercia las funciones proconsulares en la Zeu- 
gitana un magistrado llamado ÀnuUims, que recidia precisamente en 
Cartago y que dejó funestisíma memoria en el egercicio de su magis- 
tratura. Desde luego San Oplalo Obispo que fue de Milevi en la Nu- 
midia, que redaclaba su Historia dei Cisma de los Donatistas despues 
de finalizada la última presecucion de la Iglesia, escribe que durante 
esta estuvo de procônsul dei Africa Anulino, cuya crueldad contra los 
cristianos espone con vivisimas frases K En el acta dei martírio de San 
Félix, Obispo de Tubyza, se dice que en esle pueblo se dió à cono- 
cer en Junio dei 303 el Edicto, publicado en Nicomedia á fines de 
Marzo dei mismo ano ^ y en dicho mes de Junio comenzó el proceso 
contra el mencionado prelado, que conducido à Cartago, compareció 
ante el Procônsul Anulino, quien lo sometiò à un nuevo interrogató- 
rio. En la referida acta se repile varias veces el iioinbre dei citado 
magistrado romano, de cuya crueldad se liabla tambien en la dei mar- 
tírio de San Saturnino y demas companeios ^. Conservase ademas el 
traslado de cuatro epistolas imperiales de Constantino, dos de ellas di- 
rigidas á Anulino, Procônsul dei Africa, otra á Ceciliano Obispo de 
Cartago y la última á Milciades, Obispo de Roma, y á Marcos, en 
cuyos dos jiUimos documentos se liabla dei diclio Anulino, tambien 
como Procônsul dei Africa anu despues de dada la paz á la Iglesia *, 
habiendo lleffado á la vez hasta nosolros el contexto de una comuni- 



1 Optaiu?, De Srhimalc DoiiatintttnDii. lilt. iii. «^ viit, i». 61 > 65. cd. Dupin, Paris, 
1702.... in proviíii-ia priii-niiMil;iri . . . íirtiI Aiiiiliniis. 

2 líusobius, Historia prrlrsiaxlini, lih. 8. cap. 2. — Lactaiitiiis, Dr morte persecii- 
torum, cap. 12 y t-i- — -t'''" Saiirti Fcliris rpisropi, ed. lialiizi, ri tnl. líuinarl. ^ Veanse 
estas actas en ias adiciones de IJaluzio > Huinart en la cilada iinpresion Parisina de 
1702 dei San Oplatu, De Schimale donlitislariun, pag. TiG á 162. ' Eusebius, llist. 
ecdcsiusl., lib. x. cap. v, vi. vii. 



UKVISTA ARCllEOLOaiCA 137 



cacioii encaminada ai mismo Constantino por Anuliinis v{ir) c{larissi- 
iiius] l'r(ic()iisiil Africac •. 

Sabido es (jiie desde Augusto todas las províncias, que formaban 
la vasta eslensiou dei império romano, quedaron divididas eu dos ca- 
tegoi'ias, unas que admiinstraba el senado y otras el soberano ^. De 
las Senatoriales el Africa y el Ásia Cueron gohernadas porvarones con- 
sulares, las (lemas [)()r personages pi'etorios •* llamandose los unos y 
los oiros procônsules * y proconsulares las províncias ^. Eslaban aí 
frente de las imperiales magistrados designados por el emperador con 
la denominacion de Jj'(j(ili. Augusli, ó bien Vroprelorcs^\ pêro mny 
liiego tanto los Procônsules, como los Legados de Augusto recibieron 
el nombre genérico de Prai'.<idi's '. Plinio, el naturalista, en el primer 
siglo, conllrmando y aun ampliando lo espuesto anteriomenle por Mela ^, 
babia diclio que la region Zeugilatia era lo que propiamenle se llamaba 
Africa, donde estaba la Cartago romana, levantada sobre las minas de 
la pimica ^. lo cual repitieron estraclándolo en el lercero Solino y en 
el quinto Marciano Capela ^". Por lo demas es muy sabido que M//f/m 
se encontraba enclavada cn la Bética, que era província senatorial *', 
y Carlhago nova, boy Cartagena en la Terraconense, que fuc impe- 
rial '-, de la que se separo despues para dar nombre á otra nueva que 
se formo mas tarde ^'\ Uesde el segundo siglo las províncias dei impé- 
rio se agruparon con arreglo á las regiones, que occupaban, dentro de 
ciertas divisiones territoriales, que se llamaron Dioeccsis, con cuyo nom- 
bre figurai! en el Código de Theodosio y en la Notitia dignilatum. 

Cn unas listas de fines dei siglo tercero, de las províncias en tiempo 
de Diocleciano, que sin nombre de autor se conservan en un Ms. dei si- 
glo vu." en la rica Biblioteca capitular de Verona y ba sido publicado, 
primer por MalTei yen nuestros dias por el profesorMommsen, despues 
de una detenida revision dei códice, se lee que h diocesis dei Africa lenia 
varias provindas, la primera de las cnales era la proconsularis zeugi- 
íana •*, y respecto de las diocesis de las Espanas, sefiala entre sus pro- 



1 Sancli Augusliiii Epist. 88, olim 68. Los textos, que Eusébio y San Agustin 
nos dan á conocer, coneunvn ;i proljar qno en cl siglo tv." como en el xix." los po- 
lilicos, por conservar sus respectivas posiciones, á la vez que su preponderância, lo 
uiisnio se prestaa ;i degollar sin piedad á los cristianos que adoran contritos y de 
liinojos la cruz santa, y lo inisnio suben en romeria á un venerado Sanctuario dei 
culto católico que se afanan por encontrar con sus hernianos el sepulcro de Iliram. 

-'Dion. Cass., Hist. rom , íiiJ, 12. 3 ihkl., o3, 13 et li.— Srab. 17, W, 2o. ' Ibi 
(I., 5;{, 13. •"' Lamprid. in Alex. Sever.. 2i. *" Dion. Cass.. Hist. row.. 33, 13. " Suet., 
in Claiid.. 17.— Lamprid.. in Alex. Sev 46. « ^pia. j, 22, p. 8. et i, ."{3, p. 11. ed 
1'artbev. '' l'lin.. //. JY.. 5 23. '" Solino Poli/hislo): S xxvin. Marlianus Capella. De 
Xupt. Phil. et Merr.. cap. vi, § 6G9. n Plin. //. X.. 3, 7 el 8. i- Ibiil., 3, 18. i^ Hufus, 
Lil)ettii!i proviwiartim nniiiinanim «llispaniae prnviíiriae vii. Tarracouensis, Kaitha- 
giiiieiísla. Uaetica.» '' El códice propiamente dice procotmdarix hizacii>a zewfitana, 
(jue ha restabelecido el sábio editor con su reconocida competência [ior procônsul ar >$ 
zcugilana liizacina. 



138 REVISTA ARCHEOLOGICA 

vincias, como fíufus, Silvius y la JSotitia dignitatum, la Bélica y Ia Car- 
lag'uK'im\ eii cuyas respectivas regiones estaban Málaga y Caiiagena. 
Eli oiro catálogo lambien de províncias un siglo mas moderno, reda- 
ctado por ui) tal Polcmius Silvius, cuyo traslado existe en un Ms. dei 
siglo xn.°, que ai presente se guarda en la Biblioteca de Bruxelas, 
cuyo texto lia sido igualmente editado por e! mismo ilustrado comen- 
tador Mommsen, liablaiido de las províncias dei Africa se menciona 
como la primera la Proconsidaris in qua Carlhago *. 

Todos los que lian manejado las copilaciones bizantinas saben que 
fiie Diocleciano el que sustituyó en los procedimientos civiles ai sis- 
tema formulário el de los juicios eslraordinarios y conocen la consti- 
lucion dada por este emperador y Maximino en 18 de Junio dei ^94, 
refundiendo en los Praesides las atribuciones, que hasta entonces ha- 
bian sido de los iudices^, para resolver los asuntos litigiosos entre 
partes. Kespecto á la manera de proceder, en los criminales, tampoco 
liay ocasion para dudar que imperando el mismo soberano los gober- 
nadores de província, llamáranse Proconsides ó Praesides ^ dentro dei 
território que les eslaba coiiíiado, lenian una jurisdicion privativa ^, 
ius gladii ^, que no podian delegar ^, y que los facultaba para impo- 
ner penas á los delincuenles, conociendo de los procesos ', estando 
revestidos de un imperium. que egercian dentro dei distrito de sn 
mando ^ y dei que quedaban despojados ai regresar á Roma ^, tam- 
poco puede nadie ignorar que desde los albores dei cristianismo era 
reputado como delito público gravísimo el profesar la entonces nueva 
doctrina, que atraia sobre la cabeza de los íieles crueles castigos ^^\ 

De los leslimonios adncidos se desprende, pues, que durante la per- 
secucion de Diocleciano fue Anulino Procônsul dei Africa con residên- 
cia en Cartago, reuniendo à sus facnilades administrativas como Prae- 
ses las judiciales como ludex, para entender dentro de los limites de 
su província esclusivamente, en los procedimientos criminales, que se 
incoharan contra los cristianos que en ella morasen y no pudieran ser 
compelidos à idolatrar. Es decir que el Ilimno lxxiv dei códice tole- 
dano se ajusta en un todo á los mas exactos antecedentes históricos 
que han llegado liastra nosotros, coligiéndose de ello que debió ser 
redactado como dije en un principio, con presencia de las actas ge- 
nuínas dei martírio de Ciriaco y Paula, viniendo á corregir en parte la 
tiadicíon conservada por el martirologio francês dei noveno siglo, que 
supone ser Málaga el lugar de la muerte de los dos mencionados már- 
tires, y porei calendário cordobes dei onceno, que lo íija en Cartagena. 

Los falsificadores espanoles no dejaron de tomar como asunlos de 



1 Polemi Silvii Lnterculns, ed. Th. Mommsen, Lei pz i},', i8o3, pag. 253. ~C. lust., 
3 3. 2. 3 /A. 1, 18, L "/>., M8,4. •• Z) , 1, 18, G ^ 8. '•/>.,!, 16, 6, pr. ^ i)., L 
IG, li. « 1)., \, 16, 8.; J). 1. 18, 3. " 1)., 1. 16. 16. '" Tacit., Ann.. xv,44. Spar- 
tianus, in Sever., i7. 



REVISTA ARCIIEOLOGICA 130 

SUS invenciones la iillima persecucion de la Iglesia y el martirio de 
Ciriaco y Paula. 1^1 descarado impostor Solatio Ilerrera, que hasta fal- 
sifico su apellido trocando el verdadero, que debia llevar, por el de 
Medina Conde, estando sentenciado á no publicar cosa alguna sobre 
(inahiuier matéria que fuese, hizo estampar sus Conrarsacioncs mala- 
(jucnas bajo el «nombre de Cecilio Garcia de la Lena, que era su so- 
brino ', \i\\ este deplorable libro, muy encomiado por el mal gusto re- 
gional moderno, se imprimió por primera vez una inscripcion, que se 
siiponia gravada en esta ciudad, en conmemoracion de los empera- 
dores Diocleciano y Maximiano o/> novam supcrtitionem purgatam. Se- 
mejante epigrafe se decia copiado por Morejon de un Ms. anónimo, si 
bien era cotilrabecho sobre otro falso, que con igual motivo vénia 
aplicado á Clunia, snpcrtione Christi uhiqiu; ddeta- . 

Tamayo de Salazar, cnyas insípidas ficciones á nadie se ocultan ^, 
en su Comniemoracion de. todos los Santos hispanos'', presenta las su- 
pueslas actas de los Mártires malaguenos, tomadas, segun asegura, 
e.v Legendiario Astiiricensi. En este insulso papel apócrifo se amontonan 
sin tino los mas triviales errores históricos. Despues de comenzar 
afirmando que Diocleciano llevado de su iracundia contra los cristia- 
nos hizo enviar; \ fecit dimitti! por todo el império jiieces y presidentes ; 
jiudices et praesides! con el solo intento de forzar à aquellos á adju- 
rar, se asegura muy {v^wíimhmmie que dei Africa tino á Málaga cierto 
Juez lex Africa venit Malacam. . . ludex. . .1 no sin haber hecho antes 
perecer á muchos cristianos, mientras recorria la Espana |dum per His- 
paniam vagareturi; ante el que comparecieron Ciriaco y Paula, quie- 
nes resistiendose á idolatrar, despues de atormentados, fueron man- 
dados apedrear en las afueras de la Ciudad por semejante Presiden- 
te \Praesesl Todo este relato acusa un desconocimiento completo dei 
mecanismo administrativo romano en las províncias durante los siglos 
tercero y cuarto. Ni el emperador mando nunca com pretexto alguno, 
ni aun para perseguir á los cristianos, tal enjambre de///(//a'5e/P/Y/e- 
sides por todo el âmbito dei império, ni, aunque la critica moderna 
espanola lo haya repetido en nuestros dias^ pudo jamas darse el caso 
absurdo de que viniese á Malaca un índex, que despues de haber eger- 
cido la jurisdicion criminal por toda Espana, estableciese su tribunal 
portátil en esla ciudad, desempenando funciones privativas dei Procôn- 
sul de la Bética, en cuyo território estaba enclavada Málaga^. 



^ Berlanga, Monumentos históricos malaqueíios, p. 311 á 317. - C. 1. L., u. 169* 
et 233 *. 5 Godoy Alcântara, Historia critica de los falsos cronicones. Madrid, 1868, 
p. 237. ^ Tamayo do Salazar, Conimemoratio omiiiiiin Saiicloriim liispanorurn, Lug- 
diini. 16r>o, vol. 3. p. i)^'^ á õio. 

•"^ Los Bolnndistas eii sus Actas Sanctoruni, Tuvic\, tom. 3, die 18. pag.o73. trasla- 
dan. aiiiK|ue sin prestarie absoluta fe, el texto de Tamayo de Salazar dei acta citada dei 
Legendar itis Astnricensis. 



140 REVISTA ARCHEOLOGICA 



Oiro falsario mas solapado, pêro de igual desfachatez, el laimado 
Roman de la lligutM-a, eii sli Historia de Toledo, Ms. de la Biblioteca 
nacional, reproduce, alribuyendola á Corufia dei Conde, una inscri- 
pcion fingida, que ya corria entre algunos colectores liempo antes, como 
exarada en honor de Nei"on por haber concliiido con los que novam 
(jeneri liiimano siipeislilioiíein iiieukabaiil ^ En su fingido Flávio Dex- 
tro afirma luego que el Centurion de Capliariianm se llomala Ccujo 
Conielio, era espanai, y padre de oiro Centurion nomhrado Cciíjo Op- 
pio, natural de Málaga, donde liabia sido bautizado por Sanliago ; y 
en sus luliani Adrersaria anade que los Santos Mártires Ciriaco y 
Paula 2 eran hennanos, ambos nacidos en Málaga, parientes consan- 
guineos dei Centurion San Oppio, tambien malagueíio, habiendo sido 
convertidos por San Torcuato, obispo malacitono, discípulo de Sanliago, 
!/ muertos durante la persecucion de Neron ^. 

Tales son los contrahechos documentos, que han concurrido á en- 
tiwviar las mas genuínas noticias que hasta nosotros han llegado dei 
martírio de estos dos jovenes cartagineses, muertos por la fe de 
Cristo en los primeros anos dei siglo iv." 

Ahora bien entre la venida de los Varones apostólicos á evangeli- 
zar estas regiones mediterrâneas hasta la celebracion dei Concilio lli- 
berritano en una ciudad ibérica, immediata á la moderna Granada y 
la última persecucion subida por la Iglesia pasan unos três siglos, 
siendo acaso en los dias de Constantino en los que parece deber colo- 
carse la nueva piedra de Málaga dei nino Cristiano natural dei Africa, 
quizas de la misma Zeugitana, que muere á los seis anos y cuyos pa- 
dres, que pndieron haber alcanzado los dias de Diocleciano y huido 
de Anulino refugiandose en Malaca, espresan llenos de la mas fervien- 
le fe que su hijo reposa en el seno de la gloria de Dios. 

Málaga 1.° de Júlio de 1888. 

Dh. Berlanga. 



1 6'. /. /.. II. 2;u *. 

2 En cl Martirologio de l'siianlu se ll;iinn íi oslos Mártires Siriaci el 1'anfoe. eii ol 
flalondario cordohcs Qnirinci cl l'aula,e\i el lliinno Toledaiio Sirlncn, Paulcque, y en 
los (lociiriienlos r,i!sos, .htlutn. Adccrs. y hrr). .\stii)'lp)isis, (hjvidri ri i^diihir am alecta.- 
do purismo. ^ Martin de líoa cii su Aniiiiitrddíl crlrsiànlini ilc. Mnlaija, IGl2x', ) 1'edraza 
ei) su liistori.<i rrlesifislica dr (irn)iada. l(i3H, s(! (íncargaroii de i)0j)ularizar on ambas 
províncias las sandeces de los falsos croiiicones. 



REVISTA ARCHEOLOGICA 141 



A ¥VA\{\ DA LADRA 

[O sr. Viscíimle ile Saiila Mónica, lilliirato distinclissiino, acaba do. publicar uma 
siífíUiiJa edição do si'u Fabulario, livro (pie. comk» todos os seus, não eiilra iio merca- 
do, mas é dislnbuido graciosamenlo pelos seus amigos c a[)reciadon's. Não é a(pii, 
pela Índole da Hcvislu, o loj.'ar jtroprio para la/.er a apieciarãf» d'('st(! livro, sob todos 
os pontos de vista interessante; o (pie me reservo fazer noutra jiarte. Alludo. porrm, 
a([ui a esse notalulissimo livro, poripie juntaniento com elle foram distribuidos dois 
o|iusculos do mesmo auctor mas publicados aiionymos; uu), intilulado A lurrn de dois 
cluiras (certamen poético entre dois poetas); outro, (pie tem jjor titulo A Feiri da 
Ladnt, poemeto em verso solto, onde o fecundo e jovial poeta nos apresi-nta umíjuadro 
liei da C('lebre leira lisboeta, onde elle a pbotográpba com toda a i)erfei(;ão. 

Nesta ultima olira, abundam certas alliísòes liistoricas e etbnoíírapbicas, d'essas 
(pie j^reralmente escapam ao vulgar, e que só um observador coiisummado sabe em- 
[u-egar. Abi menciona o auctor a nossa candeia clássica, dizendo: 

Veneranda candeia, em vão te busco, 
Hepresontante da romana lâmpada, 
Ninguém le encontra já, salvo na aldeia. 
.\li. SLi<pi'ns.i da lareira ao muro. 
LaiHjas ainda a luz escassa e tremula 
Sobre a velha que lia, quaes outr ora 
As castas mo(;as da nação togada 

Observação rigorosamente exacta, naturalmente já por outrem feita, mas de certo 
nunca tão hi^m expressa. 

Nessa ultima obra mencionada vem. pois, uma nota (a primeira e relativa ao titu- 
lo) cuja transcripção nã.i fica deslocada nas paginas da Revista, porque ella vera 
determinar a origem da designação d'essa famosa feira semanal, uma das mais notá- 
veis antiguallias lisbonenses. Segue a interessante nota.] 

B. m: F. 
«A feira da ladra 

Eslou persuadido de que a palavra — /aí/ra — não é aqui o femi- 
nino de ladrão, mas sim de lazaio ou ladro, isto é, lazarento, misera- 
ravel. Houve anligrimenle em Paris uma célebre feira de Sainl-Ladre, 
em vez de Saint-Lazare, e davam os francezes o nome de ladreries 
aos hospilaes de leprosos. Nós ainda a estes chamamos — lazaras, 
e á pobreza acompanhada de miséria e de immundicie, — /í7:rm-a, 
termo que também j;'i significou lepra. 

Temos ainda o nomo de um insecto nojento (ladroj, provavel- 
mente assim chamado por acompanhar a immundicie (lazeira) e pro- 
duzir uma irritação na pelle. 

Jorge Ferreira de Vasconceilos diz na sua Eufrosina — Feira da 
Santa ladra, querendo talvez significar da pobreza, miséria, á qual 
na mesma peça chama lazeira. 

Não pretendendo, por quanto deixo dicto, ter achado a etymologia da 
palavra; pai-ece-me, comludo, não ser inadmissivel que, tomando 7rt(/m 
como feminhio de ladro, e este como significando leproso, lazarento, 
immundo, pobre, feira da ladra ou feira ladra, indica bem o que ella 
é e foi, salvo em epochas excepcionaes, quando cousas ricas e até 



142 REVISTA AllCHEOLOGICA 

preciosas lá foram parar, como aconteceu depois de 1833, pelos mo- 
tivos que todos conhecem. 

É certo que esta feira é antiquissima^ fazendo-se ás terças-feiras 
no Rocio, juntamente com a de fructas, hortaliças, mercearias e até 
gado. Era a feira da semana, que ainda se encontra em muitas ter- 
ras do reino. Uma parle d ella passou provavelmente para a praça da 
Figueira, e outra para a da Alegria. D'aqui foi, por edital de 27 de 
abril de 1835, transferida para o Campo de Sant'Anna, dando por 
esse tempo nascença a vários bazares. É a sua epocha de gloria em 
tempos modeinos ; finalmente, está hoje no campo de SanU Clara, 
onde ainda todas as semanas attrahe immensa concorrência I 

Não tenhamos vergonha da nossa velha feira; semelhantes se en- 
contram nas primeiras cidades do mundo. Toda a casa por mais rica 
que seja (e por isso mesmo que é rica) ha de ter um barril do lixo, 
onde se lancem cousas que ainda são úteis para muitos, e onde não 
raro vão sumir-se algumas de subido valor.» 

V. DE S. M. 



FECHO DE ABOBADA, EM ODIVELLAS 

(est. vn) 

Os fechos das abobadas das duas naves sul e occidental do claustro 
chamado ?iovo no Mosteiro de Odivellas, da ordem de Cister, são or- 
nados já das simples rosetas symbolicas, já das insígnias prelaticias, já 
dos emblemas da paixão do Christo. Dois fechos, porém, se distinguem 
dos restantes. Um delles contem esculpido um livro: numa das pagi- 
nas e como que indicando que elle é o fundamento da instituição a que 
obedecia o mosteiro, lô-se uma paraphrase do primeiro versículo da 
regra de S. Bento; na outra, vè-se uma breve paraphrase dos artigos 
da mesma regra relativos ao silencio. 

Na juncção, porém, das nervuras duma das abobadas vê-se outro fe- 
cho que consiste num medalhão com um busto d'homem. É enygmatica 
esta escuiptura. Deveremos considerar que se quiz alli pôr a imagem de 
algum santo? Mas, nesse caso, o que se vé da veste não se pai'ece 
muito com o habito fradesco, e a cabeça não está cercada de nimbo 
ou auréola. Quereria alli retratar-se o architecto? É possível, mas pou- 
co provável, que fosse tomar logar entre os symbolos religiosos com 
que adornou os outros fechos. 

Eu inclino-me a crer que no medalhão se quiz representar S. Ber- 
nardo ; reílcclindo em que talvez houve a intenção de reunir alli os 
dois fundamentos da instituição: S. Bento, symbolisado pela sua regra; 
S. Bernardo, reformador d'esta, representado em figura como o chefe 
da ordem de Cister. 

Lisboa, O outubro 1888 Borges de Figueihedo. 



REVISTA ARCHEOLOGICA 143 



BIBLIOGRAPIIIA 

Los uRONc.Ks DE Lascuta Honanza y Aijusthkl que pulilíca Manuel Rodriguez 
de Berlaiiga. Málaga, cl'j Ijccclxxxi (a 1884,) — 4." íig. e rnap. 

Distingue-se sobremodo o sr. Dr. D. Manuel Hodriguez de Berlanga pela sua gran- 
díssima illuslrarfio e pela sua deilicaffio á sciencia da antiguidade, ás (piaes se devem 
os mais complelus trabaltios sobre os monumentos epigrii{)liico-juri(licos da Hispânia, 
e outros muitos escriptos de subido valor noutros ramos da arcbeologia que IIh' liào 
assignado um distincto logar entre os [)rinL'ipaes arcbeologos não só da 1'enir.sula 
l'\renaica mas ainda da Eun-pa. 

A longa lista das suas imjjortantes obras veiu juntar-se mais, ultimamente, um li- 
vro sobre Aos Bi oures de Liiscuta lionanza y Aljustrel, traballio amplíssimo, onde o 
sr. Dr. Herlanga patontóa mais uma vez a sua vastíssima erudição, e a sua íinissima 
critica. 

Esta sua edição, que se deve considerar definitiva, dos bronzes de Lacusla. de 
Bonanza, e de Aljustrel, pois que não s('^ condensou quanto sobre elles se escreveu, 
mas os acompaidia de eomenlarios valiosos, esta edíeâo r precedida d'uma vasta in- 
troducção em que o sr. Dr. Herlanga tracta com a maior proficiência da geographia 
e da historia antiga da llispíiitia. 

Depois de nos mostrar um perfeito quadro do estado actual dos estudos históri- 
cos em Ilispanha, passa a tratar das línguas antigamente aqui falladas, emíttindo a 
theoria de (jue as línguas modernas do sudeste, nordeste e noroeste da líispanba, por 
outras palavras, os idiomas actuaes da Catalunha, das províncias vascongadas e da 
Gallísa teem distínctos princípios, representando as três raças mais antigas, iberos, 
celtas e bascos, que pelos Pyreneus vieram á península. 

Occupa-se em seguida dos locaes onde se estabeleceram essas três primeiras ra- 
ças, estribando-se nos escríptores gregos e romanos; e passa em revista os monu- 
mentos epígraphicos, lapidares e monetários, que restam dos Iberos, investimlo com 
a classificação dos seus caracteres, conseguindo rectificar algumas inexactidões que 
corriam e determinar o valor de alguns signaes, e demonstrando que os alphabetos 
ibérico e obulconense provêem ínnnediatamcnte do phenicio antigo, conservando em 
geral a forma originaria, mas recebendo alguns caracteres modificação na figura em 
consequência do contacto de varias tribus iberas com os colonos gregos. Esta parte 
do trabalho do sr. Dr. Herlanga é d'uma extraordinária importância. 

Sobre a língua d'essas inscripções expressa o auctor a seguinte ponderação jus- 
tíssima, que só não attendem os ignorantes pretenciosos : cpara hacer revivir una 
letigua antigua, que haya desaparecido por completo dei conocimiento de los hom- 
bres, dejando solo algunas leyendas soterradas, que el acaso baga volver muchos si- 
glos despues á la luz, es indispensable, primero, un texto bilíngue, para determinar 
por los nombres propios el alfabeto, y segundo, el conocimienio de una lengua viva 
emparentada por su ascendência con el idioma perdido, para deducir su formacion 
gramatical y sus equivalências lexicográficas.» 

Seguindo chronologícamente a colonísacão phenícia e grega, sob um ponto de 
vista peculiar, discorre judiciosamenfrt sobn^ os documentos lapidares e numismáti- 
cos que esses povos deixaram na península, discutindo os melhodos que se teem pro- 
posto e tratando tão dillicil matéria com uma proficiência e lucidez inexcediveis. 

Nem o auctor tem a prett^nção de ter dicto a ultima palavra acerca dos comple- 
xos assumptos de que trata na Introducção, nem talvez sejam insusceptíveis de dis- 
cussão algumas de suas asserções ; mas é incontestável que o illustre arciíeologo ma- 
nifesta na sua obra uma erudição vastíssima, um são critério muito raro, e uma sa- 
gacidade extraordinária. 

São obras d'estas que a um tempo honram seus auctores e a nacionalidade a que 
estes pertencem, e que fazem progredir a sciencia. 

Lisboa, 4 agosto 1888 B. de F. 



144 REVISTA ARCHEOLOGICA 

Soror Maiuan.na. a ininuA poutlcueza, por Liu-iano Coi\lt.'iro, Lisboa, 1888—8," 

Teve afinal sou termo a controvérsia da vcraciílaJe ila existência da freira por- 
tugueza, a quem se attribuiam cinco cartas iramor dirigidas a um oflkial francez ao 
serviço de Portugal durante as luclas que seguiram a restauração da nossa indepen- 
dência. D'essas cartas, cujos autographos se perderam naturalmente, saiu uma tra- 
ducção franceza em 1661), que constitue ao presente o original. Punlia-se em dúvida 
a existência da freira, e por consequência a aullientieiílade das cartas. Hoje não se 
pode j:l duvidar d'uma nem d'outra coisa. De (jue existiu Mariamia Alcofrado, são 
prova os documentos descobertos e produzidos peio sr. Luciano Cordeiro no seu ex- 
cellente livro, Soror Mariama ; da authenticidade das cartas, ou pelo menos de que 
só uma babitante do convento da Conceição de Beja as poderia ter cscripto, também 
me parece não ser licito duvidar- se. 

Do confroido de varias noticias exaradas em diversas edições francezas das car- 
tas, e d'oulras informações que noutros escriptos se encontram, sabe-se que eilas fo- 
ram dirigidas ao Cavalbeiro de Chamilly, (jue esteve em Portugal, e no Alemtejo, 
desde 166:5 até 1667, e que liras escrevera Marianna Alcoforado, freira num convento 
daquella província; numa das cartas allude-se a uma designação local de que só um ba- 
bitante de Beja pode ter exacto conhecimento, e noutro ba allusão a certa freira, que 
se nomèa, do mesmo convento. Isto por um lado. Por outro, Luciano Cordeiro prova 
ter existido na nvsma epocha uma Marianna Alcoforado no convento da Conceição 
de Beja; prova (jue a alludida designação locativa não pode do modo algum ter sido 
empregada por pessoa estranha ao mesmo convento; e prova emlim que nesse claus- 
tro existiu no mesmo tempo a outra freira nomeada nas cartas. Não iia pois maneira 
de descrer da authenticidade d'estas. 

Pode alegar-se ainda, bem sei, contra sua authenticidade, que o Cavalheiro de Cha- 
milly, necessariamente conhecedor do mosteiro, liaveado contado a alguns amigos 
minuciosamente a sua aventura, alguns d'elles, niquella epocha d'uma lilteratura es- 
sencialmente erótica, se lembrou de phanlasiar aipicllas cartas, nova imitação das 
famosas epistolas de Heloisa, para deleite d'uma sociedade profundamente deprava- 
da. O argumento (que já ouvi formular a alguém) é comtudo destruído por varias 
considerações, que actualmente é ocioso expor, visto que no livro de que falo, a 
verdade acima indicada se afjr^^senta com toda a evidencia. Ainda assim notarei um 
argumento em favor da authenticidade absoluta das cartas, que ellas próprias minis- 
tram, e é que, o geral dos auctores francezes não reconhecem no estylo delias aquella 
pureza de linguagem (jue seria para esperar num original francez, e que geralmente 
só podem apreciar bem os d'essa nação. Mas não só elles o notam; pois ainda quem é 
algum tanto lido na litteratura da França não pode deixar de notar no original das 
cartas da freira algumas phrases em que transparecem os idiotismos portuguezes sob 
palavras alheias, conhecendo-sc por vezes que o Iraductor teve de luctar com certas 
diíficuldades para executar a versão. 

Luciano Cordeiro expõe a questão, deduz os factos, demonstra a sua (liese com 
uma lucidez e precisão admiráveis, deixando-nos inteiramente convencidos. Talvez 
alguém desejasse por vezes mais brevidade; mas eu julgo que clle não disse de mais. 

O distinclo littcrato quiz restituir á linguagem portugueza as carias de soror iMa- 
rianna ; e conseguiu de feito que a sua traducção seja a melhor de todas quantas até 
Iioje teein apparecido. Não contente, porém, de as tornar álingua original, pretendeu 
dar-lhes a feição da linguagem da epocha em (jue foram escriptas. e um certo sabor 
das expressões áquelle tempo empregadas em livros mysticos e outros; e pode dizer- 
se que muitas vezes o fez com grande felicidade. 

É capital o serviço |)restado por Luciano Cordeiro ã historia e lettras ])atrias 
com a demonstração da aullKiuticidade absoluta das cartas da freira portugueza ; e 
por isso lodos o devemos felicitar e íicar-lhe reconhecidos. 

Lisboa, 12 outubro 1888. B. de F. 



REVISTA ARCHEOLOGICA 145 

PONTEVEDRA MONUMENTAL 

(UESENA AHQUEOLOGICA) 
I 

Intuoduccion 

Hace algunos anos que el nombre de Pontevedra no sonaba sino 
ai liablarse de la liabilidad y destreza de los canteros de sii comarca; 
de la ferlilidad de su campina y vallecillos cercanos, y de la belleza 
de su ria y de las demás famosas rias bajas. Villa, á la que bieii pu- 
diera aplicarsele el lan llevado y traído calificativo de oscura, comenzó 
á recobrar, en fecba no muy lejana, la importância que luviera en 
siglos anteriores. 

Elevada á la categoria de capital de província por el Ueal Decreto 
de 30 de Novíembre de 1833 y realzada con el titulo de ciudad, por 
Real Carla, bien repleta de erudicíon nn tanto indigesta é inoportuna, 
fechada en ^3 de Novíembre de 1830; progreso constante y rápido, 
debido à causas muitiples, intrínsecas y extrínsecas, conviente á Pon- 
tevedra en una de las mas importantes y de las mas bellas poblacio- 
nes de Galicia. Ya es bien conocída por los poderosos elementos de 
riqueza que encierra su comarca; por el génio industrial que alíenta 
á sus habitantes; por el alto grado de cultura social à que rapida- 
mente se ha elevado la anliguâ villa; por los gloriosos hechos de ar- 
mas que en su historia se registran. Yo creo que merece tambien ser 
conocida como ciudad monumental. * 

Dejo á un lado cnanto á la Antiguedad (propiamente dicha) se re- 
fiíere y todo lo que basado en meras snposiciones no sale dei terreno 
de la índuccion. Sea, ó no, la ciudad Cambriaca que nombra Pompo- 
nio Mela. reíierase, ó no à ella la estacion Ad duos pontes que el Iti- 
nerário de Antonino coloca entre Viço Spacorum y Grandimiro, en la 
via per loca maritima á Dracara Asturicam - y haya existido la acró- 



^ La historia (y aun la existência) de los magnificos monumentos arquitectó- 
ricos de Pontevedra ha permanecido tan ignorada que, no se liace ni la más iijera 
mencion de ningunos de ellos, en las Noticias de los arquitectos n arquitectura de 
Espana desde su reslauraciou, recogidos por D. Eugeuio LIaguno y Ancinola y 
puhlicadas (con notas y adiciones) por D. Yuan Agustin Gean-Bermudez (Madrid, 
18á9). ' 

2 No sè si ai hacerze Ia reduccion terminante de la estacion Ad Duos pontes à 

Pontevedra, se ha tenido hien presente ia indicacion (jiie se hace en ia Historia 

Compostelana (ÍJh. I, cap. C.; pág. 187 dei T. XX de la Esp. Saqr.) cuando sedice 

que (antes de 1114) Petrus quoque Vimaraz cum uxore sua dedit inter atnbos pon- 

Rev. Arch. n.» IO, — Outubro 1888. 10 



14G REVISTA ARCHEOLOGICA 

polis de la antigua ciiidad fortalecida, donde hoy se eleva el convento 
de S. Francisco, ó donde, hasta liace poços anos, se levantaban las 
torres dei palácio dei Arzobispo y sefior de la villa; de tales leja- 
nos tiempos, poço queda (si algo queda) en Pontevedra y nada me he 
de ocupar de ello. 

Para figurar Pontevedra entre Ias ciudades monnmentales (y es- 
pecial y mayormenle entre las de Galicia) le basta^ y le sobra, con los 
restos que le quedan de los magnificos edifícios con que se enrique- 
ció en los últimos tiempos de la Edad Media y primeros de la Moder- 
na. Era enlonces Pontevedra, ai decir dei Licenciado Barlolomé Sa- 
grario Molina de Málaga, que escribia su Deacripcion dei lief/no de 
Galicia en Mondonedo y la imprimia alli mismo en el ano de 1550, 
el maf/or piwblo de Galicia, y de gente rica por la mai/or parte. Su en- 
grandecimento no debia datar sino de tiempos harto próximos; pues 
que entrado ya bastante el siglo xvi, en el ano 1515, todavia los vi- 
cários, el procurador y los cofrades de la Cofradia de S. Juan, dieron 
facultad á Pêro Vernaldez, mercador, para que comprase el foro dei 
chão he terretorio sijto enna mof/re/jra para que posades fazer. . . foros 
censos dei dicho terretorio a las personas qtie vos queserdcs e por ven 
toberdes para que fagan casas en el dicho terretorio, (Cartulario de la 
Cofradia de S. Juan foi. G;{ v."); y allá por los mismos tiempos en que 
escribia Molina realizaba el celoso concejo de Pontevedra obras de en- 
sanche en la poblacion como no se han verificado en los siglos siguien- 
tes (ni aun en los presentes tiempos) más que á favor de la desamor- 
tizacion, y á costa de los edifícios religiosos y de las construcciones 
militares. ^ 

Tambien durante la primera mitad-del mismo siglo xvi se levanto 
el magnifico monumento que bastaria por si solo para colocar á 
Pontevedra entre las poblaciones gallegas en que con mas desarroilo 
y brillantez se ha mostrado el arte arquitectónico. 



tes sp.Ttmn partem Ecciesie ile FahhuhJld Beati hicohi ecclraia'. Dedil etiani rillnm 
de Fliihmiplld ciim suo servitiali relirieiídose, sin duda alçruiia, ú la villa acUial 
de i<'al)oad{'le, situada entre el Puente San Favo y S.'* Eulália de Puente Caide- ■ 
las. Asi como la circunstancia de (jue três sitçlos despues (en los coniienzos dei 
XV) era cosa distinta la sacada de Salinas y de la villa dtí Pontevedra. de la Sí/cw/a 
de entre ambas Purntex {\U'í\^e Galicia Diidomatica, tomo III, página 28). 

3 En io44 liabia hecho el concejo una plaza nueva, segun dice en la Cícritu- 
ra de traspnso (|UC! otorgó por descargo de nuestras conciencias, en favor de la 
Cofradia d(í San Juan, de la iiension de 12 mrs. sohre una casa que fucra cedida 
(nos fup dada) pnr (latalina Afonso por cirntos iiirs. qae era obrigada a paguar ai 
dicito concejo; por quanto nos liizimos encsla diclia ujlla vnn placa nueba // para 
eito derrocamos vna casa en la cual se pagiiba de pcnsion a la confraria de sanjuan 
siete mrs. viejos e un cornado e médio que con dose mrs. pares menos médio cor- 
nado . 



REVISTA ARCIIEOLOGICA 147 



II 

Santa Maria 

Llamasela, con razon y exaclilud, pe77a dei antegallego, *y es, sin 
duda algmia, el monumento único completo, y el más bello, que exis- 
te en Galicia, i)rodiiclo de la arquitectura ogival en su último pe- 
ríodo. 

Da tcstimonio de que esta iglesia parroqulal de Santa Maria fue 
edificada á expensas de algiinos vecinos, (como tambien lo fue la co- 
legiata de la Corufia) ia interesantisima inscripcion que se lialla en el 
muro dei lado dei Evangelio, baio el coro, y dice: 

AQUI i MANDOU : FAZER 
lUAN ■: DE CEUE ; E SU MUGE 
R •: DUAS ; BRAÇAS ; DE PAREDE 

Y yo puedo vanagloriarme de haber encontrado una fecha cierta y 
fija de la obra, y, aun más, un nombre, que debe figurar entre los 
de nuestros primeros artistas, ai decir que en 10 de Júlio de 1517, 
Jnan de los Guetos maestro de la obra de la iglesia de santamaria la 
grande, como vicário e procurador de la Coíradia de S. Juan Pau- 
lista y en unión con los demás colVades, otorgò escritura de amjnça 
e composicion con los hijos de Martin Gomez, juez que fue de Caldas 
de Reyes, sobre cierto foro que bizo en 1487 (Cartulario de la mis- 
ma Cofradia foi. GG y G7). 

La obra tardo, sin embargo, más de médio siglo en estar concluí- 
da; pues que Ambrósio de Morales en la relacion de su Viage que 
bizo en 157^ eu Galicia y Astúrias ^ dice hablaudo de Pontevedra : 
«la Pesqueria en este lugar es un grau trato, y los que la siguen lian 
beclio una Iglesia á nueslra Sefiora, que se llama Santa Maria de los 
Pescadores, y han gastado mas de Ireiuta mil ducados en ella, y tie- 
nen animo para gastar otros veinle mil que faltan para acabaria». 

La iglesia parroquial de Santa Maria a grande, ^ se compone de 
Ires naves, cada uno de três bóvedas, que miden las de la nave cen- 
tral nueve y médio melros en cuadro, y las de las lalerales el mismo 
largo por la mitad de ancho; y, como prolongacion de la nave central, 
un áljside, dei mismo ancho que ella, y catorse y médio de fondo, 



* El Sr. Lopez Ferreiro, Galicia en el lúlimo lercio dei siglo XV, pag. 509. 

^ Publicadít por cl F. Florez — Madrid 1763. 

^ Este nombre se le da va en el testamento olorgado por Juan Boieiro, en 
1341, ai legar a ssaufa Maria a grande para o lume hun maravedi (Pergamino de 
S.'" Domingo de Pontevedra. 



148 REVISTA ARCHEOLOGICA 

terminado en ochava ó, mejor, en semi-exágono. Además, á cada lado 
dei àbside, y dando frente ã cada una de las dos naves menores, se 
anadió una capilla; olras dos fiieron agregadas à los lados de estas, 
como tainbien otras ciiatro, dos á cada lado, unidas á estas últimas y 
entre si, y dando frente á las naves menores; con cnyas adiciones la 
planta total dei templo viene à afectar la forma de cruz. 

Las naves estan divididas por cuatro machones acodillados, ó de 
planta crnci forme, como de un metro de grueso, cantonados de una 
pilastra en cada uno de sus cuatro frentes y con una columna muy 
poço relevada, de lino fuste funicular perlado, en cada codillo; unas 
y otras con capileles corridos formando una franja de follage. 

Las uueve bòvedas de las uaves, las oclio de las capillas y las 
dos de la capilla mayor, son todas de la misma altnra y de muchas 
claves y complicadas nervaduras, algnnas de las ciiales ofrecen com- 
binaciones poço comunes, y miiy bellas y originales. Dan Inz à la 
iglesia ventanas estreclias semicirculares, abiertas una en cada capilla 

La decoracion arquiteclónia es rica y hermosa. El intradós dei ar- 
co de entrada, ó boca, dei abside tiene un precioso feston cairela- 
do con finos calados, de puro gusto ogival; y análogo adorno, pêro de 
gusto plaleresco bastante proniuiciado, ostenta el arco de boca de la 
capilla de la banda dei lado de la Epistola mas alejada de la cabecera 
dei templo. Y entre las dos capillas de la banda opuesta, ó sea dei 
lado dei Evangelio, que dan á la nave menor, se eleva esbelta agnja, 
como tambien debió liaberla entre Ias otras dos capillas que hacen 
pare.ja á estas, en la banda de la Epistola. 

El ábside tiene un roseloncito en sn pafio central y, en los otros, 
ventanas semicirculares agimeradas, con decoracion de gusto plate- 
resco. Por el exterior luce, lo mismo que los fastiales, coronamiento 
de cresteria, tambien de gusto plateresco. interrumpida por figuras de 
médio ciierpo; y los estribos ó contrafuertes, tanto dei ábside como 
.de entre las naves, estan coronados de pináculos ó agujas. 

En el pano dei lado dei Evangelio dei ábside, se puso el escudo 
arzobispal de los Fonsecas, con sus cinco estrellas. Debajo está una 
imágen de la Virgen, sobre repisa ogival, ybajoella y resguardado por 
una reja, un arco sepulcral eliptico, con lu^na de tapa prismática á dos 
aguas y la inscripcion: Scpulfura de afnnsol de hartuldo': procura- 
dor \ de santa maria [ a grande. 

Dos puertas, adornadas de sus correspondientes portadas, se abren 
en uno y otro costado de la iglesia. La dei lienzo de la Epistola tiene 
la fecha de 15:]1), y ai lado muy borrosa inscri[)CÍon de letras romanas, 
y se rednce á una interpilaslra con aríjnitrave plateresco, cabezas en 
las enjutas dei arco, y encima, en três nichos, las efigies de la Vir- 
gen, S. Miguel y Santo Domingo (?) La dei otro lado, muy sencilla, 
ofrece más caracter artístico y mejor dicho arqueológico, con su arco 
entre pilastras coronadas de candelabros. 



REVISTA ARCHEOLOGICA i4í) 

El muro de los pies de la iglesia, no solo contiene una sobervia 
lacliadn. sino f|un por ul interior eslã decorado formando á modo de 
contra faclirida. 

Al exterior tieno coronamienlo horizontal de cresleria con un Cris- 
to en el cenlio, entre la Virgeii y S. Jiian; dos aguj^s, (en sustilii- 
cion de los coiilraliieiies de los arcos divisórios de las naves en el 
interior) compnestas de três cuerpos y cada uno de ellos de Ires co- 
linniias colocadas en triangulo, formando la central nn ángnio mny 
saliente, con dos estátuas entre ellas; y en médio la portada, flanquea- 
da de las estatuas de Sau I'edro y Sau Pablo, con la muerte, ó trân- 
sito de la Virgeu sobre el arco. y encima dos Evangelistas de médio 
cuerpo; sobre los cuales se abre una veiUana circular, y mas arriba 
apareceu la Virgeu y la Tiinidad. 

La contra portada, (ó sea la decoracion dei muro de la fachada 
por la |)arte inlerioi' de la iglesia) es nniy notable. Se compone de nue- 
ve zonas, ó fajas divididas en lies coin[)arliunenlos, á cada lado de 
la puerta por una pilastra y una fajã vertical platerescas, (lo mismo 
que los frisos) y llenas de esculturas en que se veu representados buen 
numero de asunlos bíblicos; como la creacion de la mujer; Adam vKva, 
fuera ya dei Paraiso, él cabando la tierra y ella hilando; la muerte de 
Abel; la vocacion de Jesucristo à S. Pedro, y otra porcion de escenas 
en que se veu uotables dela lies y accesorios de puentes. casas, moli- 
nos de viento, arboles, etc. ele. Eu dos liornacinas de bóveda concói- 
dea, colocadas una ai lado de cada pdastra entre ella y una bella co- 
lumnita abalarislrada, y sobre repisas, eslan las estátuas de S. Sebas- 
tian. desnudo, y San Pedro. 

El coro alto, que se eleva contra esta pared, no es sino una adi- 
cion moderna, que asienta sobre pilastias adosadas á los pilares, con 
piso de tablazon ordinária. 

Conservaiise en e^Vã iglesia varias pictóricas que merecen alguna 
atencion ya (lue no por pura importância artística, por sii valor arqueo- 
lógico y por el papel ínteresante que representan (quízá) en la histo- 
ria de las bellas artes, dentro de la localidad y de la region gallega. 
Una tabla, con la Virgeu. sentada, entre S. Pedro y San Pablo, casi 
de tamauo natural, se baila eu uno nicho bajo el coro, dei lado dei 
Evangelio. Otras dos tablas con la Conccpcion y el anuncio [)revio dei 
ángel a S. Joaquiu, en figuras como de á três cuartos dei natural, 
se baila en los compartimientos laterales de la zona inferior de los 
três que tiene el altar churrigueresco de la capilla de en médio, de 
las Ires dei lado de la Epistola, y debajo de ellas se encueulra uu 
friso con vários bustos en disposicion parecida á la de tantos como 
pinto, en relablos, el sevillauo Pacheco. 

En ai altar mayor, hay relablo dei siglo XVII con altos relieves y 
estátuas, y en el iumediato á Ia puerta lateral dei lado dei Evangelio, 
uu curioso frontal de acero, de no mucho relieve. 



150 KE VISTA ARCIIEOLOGICA 

La pila de agua bendita dei lado de la Epistola, es una curiosa 
obra marmórea, de ancha boca y poço fondo, adornada de querubines 
y escudos, con la legenda: daítohiene en banda, y ai rededor, en leiras 
romanas dei siglo XVI. la inscripcion esta pia dov anton dabea dalo- 
7i('lada de la 7}ao quedando oculto cl resto por el pilar á que está ado- 
sada. La otra pila es imitacion de ella, en piedra comum. 

Aumentan la riqueza decorativa de esta linda iglesia vários suntuo- 
sos enterramientos. En la capilla mas próxima á la puerla lateral, de 
la banda dei lado de la Epistola, se baila un arco sepulcral elíptico, 
con penaciía, que cobija estatua yacente de muger tocada, ropas con 
pliegues muy simétricos y las manos juntas y levantadas, y unido á 
él, pêro en el muro que da frente ai cuerpo de la iglesia, y con una 
aguja adornada de frondas entre uno y otro, ó sea en el rincon de la 
capilla se abre otro arco tambien adornado de penacha, y en él ins- 
cripcion en letra de lortis muy cubierta de cal, lo que aumenta la di- 
ficultad de su lectura. Frente por frente de este arco, en la pared de 
la capilla correspondiente, de la banda opuesla, hay otro plateresco, 
sin estátua; y en el muro dei lado da Epistola, entre ia puerta lateral 
y el muro de los pies de la iglesia, hay otro arco sepucral con pe- 
nacha y flanqueado de agujas, ocupado por un altar moderno. 

El mayor numero de sepulcros baila base en el exterior dei tem- 
plo, y de ellos es buen ejemplar el que permanece en uno de los pa- 
nos dei ábside. ^ 

De la orfebrevia propia de la misma época de la construccion de 
la iglesia, y quizá dei Irabajo de los plateros que, en buen número, se 
sabe vivían en Pontevedra por esos tiempos, (jueda un curioso ejem- 
plar en la sacri.stia de Santa INIaria. Es un caliz de ii7 centímetros de 
alto, com 13 de diâmetro en Ia base y i3 en la boca, de factura com- 
pletamente ogival; base de estrella de seis puntas intercaladas con 
otros tantos lóbulos; tallo tambien exagonal, con nudo 6 manzana for- 
mada por un anillo con seis facetas, y copa semiovóidea adornada de 
follages cardosos y el letrero, en caracteres de tortes : 

-f este cales e de santa maria a grande gomez fernandez percu- 
rador. 

Oiro caliz (segun me dijeron) más anliguo se deshizo en 1850, 



■^ En cl cimiterio ãn iylrsia de santa maria de povírvedra se mando enterrar 
.liian de Santa Fé, en 13:ií). liaciendo un l<'^'ado de seis libras á la própria iglesia. 
Cnyo testamento se íruarda entre los iieriraininos dei monasterio de Armentci- 
ra en el Arrliivo llistoiícn Nacional, lia sido pulilieado en el Eco de la veidad, perió- 
dico de Santia.Lío, en 18(58. pa?. í)'^, y por el sr. ('uveiro en el apêndice de su 
obra sobre el dialecto çt.illet^o. Y siglo y médio adelaiite en 14flG, .kian Garcia de 
Sameyra dlsjiuso en su testamento, ([ue men corpo seja sepn/fado enno cnnitnio 
da iijlesia de santa maria Ajjvando enna si'pulluia donde jaz meu filio. Et que fa- 
çan un letreipv sobre la dila sepultura en que seja escripto o meu nome. (Cartu- 
íario de la cofraria de S. Juan, foi. oO v.) 



REVISTA ARCHEOLOGICA 151 

conservandose la copa convertida en braserillo ó cazoleta de un in- 
censário, que licne latnliieii foilages ogivales relevados y ei lelrero: 

ave maria de grada plena domitms tecon. 

Âiinqne falto de valor aríiiieológico y poço rico de arlislico, mere- 
ce que se cite el Teiicio, que con el dicho caliz se guarda represen- 
tado por una íigiirita do plala branca arrodillada sobre un cirial, dei 
siglo XVII ãl xvMi, con la leyenda: Teiicro lii/zo el arrahal ano lõHU, 
que es lievaíio eiili-e las dos cruces parroquiales de la ciudad en la 
procesion dei Corpus. 

III 

Santo Domingo 

De esta iglesia conventual ha escrito el sr. Lopez Ferreiro*^ que «la 
arquitectura «ojival en Galicia, exceptuando en los ábsides de Santo 
Domingo de Pontevedra, nunca Ilegò á adijnirir formas bien definidas, 
ni pudo sustraerse ai predomniio dei eslilo românico.» Y poço antes 
habian escrito los srs. Fernandez-Guerra y P. Fita, en el Capitulo V 
de sus liecuerdos de un viaje, verificado en 20 de Setiembre de 1879, 
que í Al extremo occidental de la poblacion existen casi intactos los sa- 
grados y poilenlosos muros de! lemi)lo de Santo Domingo, joya dei 
arte gótico, merecedora de la mayor atencion y estúdio. Apresurese 
(afiaden) la fotografia á conservar para los entendimientos generosos 
y bien encaminados, aquellos elegantes y ricos arbotanles, botareles, 
ojivas y columnas; y a|)resúrese quien debe y puede, á leparar y 
restaurar monumento de lamana valia, dedicandole á fecundos y pa- 
trióticos fines.» Poço antes dejaran dicho que «Ennoblecieron á Pon- 
tevedra, durante la centúria xni. Franciscanos y Dominicos, dotandola 
de suntuosisimos templos, en que apuro el arte sus gaias más se- 
ductoras y escogidas.» 

Acerca de la historia dei convento, el Obispo de Monópoli, D. 
Fray Juan Lopez, ai escribir las fnndaciones dei reijno de Galicia, en 
el Capitulo xxxvin dei Libio I de la Tercera parle de la tJisloria gene- 
ral de Santo Domingo, y de sv Orden (Valladolid, 1613) deee (dei de 
Pontevedra) que «no tiene escritura ninguna, de la cual conste el 
ano en (pie se fundo» y (]ue, segun. e! libro de la província, se habia 
fundado en 1343 y en la eia 1321 (ano de J. C. 1283) se compro el 
sitio, de una sehora llamada dona Sancha Roca Helada. algo desviado 
de la villa. Y es seguro que en los primeros anos dei siglo xiv exis- 



8 Obra citada, pág. 5 li. 



152 REVISTA ARCHEOLOGICA 

tia ya; porque en 1305 hiso manda Maria Eanes Gibara, legando a os 
conventos dos íJ'radt's predigndores de Tuij et de Pontevedra, ij d oiros 
cincoenla soldos para vião a cada hinin convento {Eco de la Verdad 
pàg. 71). 

Sobre la historia artistica dei edifício lo qne se sabe es que los 
frailes liicieron eu \X\0, un conicambio con cierto notário de Redon- 
dela dandole la milad de una casa en esla villa y recibiendo de él un 
soto, et demai/s cem lUbras pequenas de portugueses, arraçon de qua- 
renta pares por ires libras, para ainda de fazer o Coro do dito moes- 
teiro. ^ Posible es que esla sea la feclia de la construccion de los cinco 
àbsides que hoy subsislen y que cotistiluia la cabecera dei templo á 
la cual se designo en la citada escritura, con la palabra Coro que con 
muclia frecuencia aparece aplicada ai ábside mayor de las iglesias. 

En ese mismo ano de 1330 estaba ya fundada (segun se dice) la 
capilla de Santa Catalina en la iglesia conventual de Santo Domingo. 
En 1440, se otorgó la dejación y disembai'go de un molino estando 
asoo alpendere do moesteiro de san domingo de pontevedra (Cartulario 
dei propio convento, foi. 171;. 

En la capilla de S. Jorge se hacian ya precisos algunos reparos 
antes de 1454; pues en ese afio se abrió el testamento de Payo Go- 
mez de Sotomayor donde decia : // mando aa capela de san jurgo que 
esta enno dito moesteiro de santo domingo por que rrogue a deus por 
myn cinquo florijs douro para o rreparnmento da dita capela; (Id. id. 
130 V.) ai propio tiempo que se mandába enterrar en la capilla de 
Santo Tomás, de la niisma iglesia conventual, cuya capilla habian he- 
clio su padre y él. Y en 1401, Constaiiza Alvarez Aldao, mujer de 
Juan Marino de Goyanes, bizo legado de una casa a capela de san Pe- 
dro mar tire que esta enno moesteiro de santo Domingo de Pontevedra. 
(Id. id. 1.) 

Esta iglesia se hallaba aún, cuando ocurrió la exclaustración, sin 
haberse terminado la reedificación comenzada en los fines dei siglo 
xvn ó princípios dei seguiente. Al derribaria se conservaron feliz- 
mente sus cinco âbsides que permaneceu completos, asi como una 
parte descubierta, dei crucero dei lado da Epistola, 

Poligonales son todos cinco ; iguales los cuatro de los lados y mu- 
cho más grande el central, segun uso constante. Todos ellos tienen 
bóveda de abanico, con tímpanos calados, en cualrifolia, en el cen- 
tral. El mayor mide nueve metros escasos en su boca ; conliene colum- 
nas en los rincones que forman los panos ; está ornamentado por el 
interior, en su parte inferior y en cada pano, con una arcada orna- 
mental, de três ogivas con iiilrados lobulado , y por el exterior con 
robustos estribos à lesaltos escalonados, y rasgadas ventanas ogivales 
agimeradas, que ocupan toda la [)arle alta de los panos libres. 



" Pergamino dei archivo de la misma casa conventual. 



EEVISTA ARCIIEOLOGICA 153 



La (lisposición de los ábsides laterales es análoga á la dei mnyor, 
con la dileroricia de que este tiene siete lados y los cinco de ellos li- 
bres coti venlanas, y los oiros solo cinco lados, y [)or tanto Ires libres 
nada más. 

La ornameníacinn es iconográfica en vários de los capiteles de 
los arcos de entrada ó boca, y de Ihjres cruciformes prismáticas en 
las qnitalluvias y arqnivoltas. Las molihiras son mny meniidas, y 
finos los fustes de las colnmnas. Las venlanas de lodos los ábsides 
tienen un vano de cnalrifolia en la enlreogiva incluyenle de los dos 
arquitos Irebolados (jiie consliluyen cada veiilana. 

Forman parle de la ornamentación iconográfica, como asnnlos his- 
tóricos y simbólicos, la luclia de dos guerreros, y un perro (que 
adorna un capitel dei ábside primero dei lado de la epistola), y la de 
aves monstruosas, con los cnellos enroscados moidiendnse sus cabe- 
zas y olras de unos cuadrúpedes enlazadas en la cola ique eslan en 
el capitel correspondienle dei ábside situado ai oiro lado dei central). 
Completania las miiclias figuras que hay en los capiteles dei ábside 
central ; una que tiene dos pergaminos (colocada en un capitel dei 
ábside dei extremo dei lado de la epistola), los dos bustos bifrontes, 
con manos (]ue tiran de las orejas de oiro lercero busto colocado en 
médio (en otro capitel de la entrada dei ábside primero dei mismo 
lado de la Epistola), y el javali y la ave que adornan el capitel fronlero 
ai que tiene la figura con los dos pergaminos, ó filácleros. 

Si no llegaron á estar pintados, como es muy de presumir, los 
muios de lodos eslos ábsides, por el interior, lo esluvo cierlamente 
uno dei ábside primero dei lado dei Evangelio. piies se conservan dos 
figuras bastante completas de guerreros 6 soldados, que con la dei 
Salvador (de que dice el Sr. La Iglesia *** que se conservaba parte) no 
dejan duda de que el asunto representado era la Resurección. 

No conservo noticia, ni casi memoria, dei caracter de estos restos 
pictóricos; pêro creo poder afirmar que son producto dei árle de la 
Edad iMedia, y no defieren mucho de las interesantisimas existentes 
en la catedral de Mondonedo. 

Bien pudiera ser ((ue estas pinturas se debiesen á Fernan de Mo- 
sonço pi/nlor, que, en 143^, fué testigo de cierta donación (|ue, á 7 
de Deciembre, hizo Sancha Eanez, moller de Fernan Gomez fernro a 
la Cofradia de ^ lii;"' "'tn ser admitidos por colVades ella y su ma- 
rido; y de la que poços dias despues (el iS) hizo juan Pescado, à la 
propia Cofradia para que se cumpliese exactamente la voluntad de su 
dibinta mujer Maria dos Santos. O, sino. de Juan Garcia pijnlor y 
tambien cofrade de la de S. Juan, que fué asimismo testigo de otro 
contrato otorgado en el ano siguiente de Li33 : ó de Gonzalo pintor, 



*" Artículos publicados en la revista Gnlicia de la Comua en 1887. 



434 REVISTA ARCHEOLOGICA 

ó de Juan Fernandez. igualmente pintor, quienes, en 1435, 1440 y 
1441 leiiian sus respectivas casas á uno y otro lado de la que, en la 
rrua das tranquas ó iroffanqiias, fué, en parte donada y en parte des- 
pues vendida por Teresa Perez da Varcea, viuda de Duran da Barcea, 
á la cofradia de S. Juan, y aforada por es(a à nn clérigo; y cuyo 
Gonzalo es sin duda el Gmizah Affonsn pintor que fué testigo de vá- 
rios contratos otorgados en 1430 y 144^2, y liabia comprado en 1446 
unas casas en la misma calle de las Trattanqiias, y no siendo ni de 
unos ni de otros, bien pudieran ser las tales pinturas obra de Cristo- 
bal (?) Rodriguez pintor que en ese misnio ano de 1440 fué testigo 
de una escritura de censo otorgada por los cofrades de la de 
S. Juan '1. 

El número de los ábsides que constituyen la cabecera de esta 
iglesia es lo que hace de ella una singular excepción entre las igle- 
sias conventuales de franciscanos y dominicos de Galicia ; pues nin- 
guna de las que se conservan construídas en la Edad Media, en la 
misma Pontevedra, en Santiago, Orense, Lugo, la Coruna, Tuy, Be- 
tanzns. Vigo, Vivero y Rivadeo, no lienen sino, cuando más, três 
ábsides, sin ninguna llegar ai número de cinco que se pusiéron à 
la de dominicos de Pontevedra. 

Por lo (lemas, la disposición, dimensiones y ornaraentación de es- 
tos ábsides no ofiece nada de extraordinário ni singular, ni se separa 
de lo que es comun y general en los ábsides de las iglesias francis- 
canas y dominicas de las poblaciones mencionadas. 

Del edifício conventual de Santo Domingo se conserva, adernas de 
la cabecera dei templo, una parte de la construccion civil. Es la ar- 
cada abJerta en el lienzo meridional dei claustro, que le separaba dei 
Capitulo, y está compuesta de cinco ogivas equiláteras, de unos dos 
melros de ancho, con arquivoltas de flores cruriformes prismáticas, 
conteniendo cada una dos arquitos gemelos trebolados y un loceton- 
cito cudrifuliado, y asentadas sobre pilarcilos guarnecidos de três co- 
lumnas. Dos leonês, cuyas cabezas asoman por el vano, íiguraban 
custodiar el ingreso, en sentir dei Sr. La Iglesia '-. 

Conservase tambien la puerta qne ponia en comunicacion el tem- 
plo con la sacristia, abierta en el brazo dei crucero dei lado de la 
Epistola. Es de forma ogival con ar(]uivolta corrida de boceles y jun- 
cos, funículo y hojas, y estaba adornada de las efígies de S. Pedro y 
San Pablo, de Santo Domingo y de otros santos y santas; en la clave 
el Padre Eterno y en el dinlel (en las moclietas?) dos bustos, el uno 
de eilos dei Salvador con nimbo crucífero y resplandores. 



'' Noticias recogidas en (ioeumentos insertos en el CartuUmo de la citada co- 
fradia dtí S. Juan, foi. 1 v., 2 v., 14, 18 v., 20, 9, 21, 23 v. y 19; y en el dei con- 
vento de Santo I)OMiin.í,'o, foi. 183. 

'- Kn el ano pasado de 1887 estaba ya toda esta arqueria libre de las capas de 
cal que ocultaban sus molduras y decorado. 



REVISTA ARCIIEOLOGICA 155 

En el ábside mayor se conserva la antif^ua mesa dei aliar, com- 
piiesta de una sola piedra de três melros (algo excazos) de largo por 
más de uno y médio de ancho, con moldura lodo ai rededor y ada- 
|)l;nido ia niisma forma de la planla dei áljside, de lo que el Sr. La 
Iglesia deduco (pie eslubo aislaíla en médio de ('1. 

La principal necrópolis de Ponlevedra fué el monaslerio de Sanlo 
Domingo. .Vnles de mediar el siglo xiv, en i;i44, Juan Boieiro se 
mando enterrar no Cimilerio de ssoíito Domingo, haciendo el corres- 
pnndienle legado para o lume de la iglesia (Pergamino dei convénio). 
Va\ aiincl mlsmo ano, de i:]í)7, en que Ponlevedra era guarida dei 
arzobispo composlelano, D. Juan Garcia Manriípie, cuando se habia 
levanlado en armas en favor de D. Juan 1 de Portugal y fué sitiada 
por Ruy Lopez Dávalos, (entre cuyas gentes de armas figuraba el ce- 
lebérrimo D. Pêro Nino. conde de Biielna), otorgò testamento liamona 
(louzalez, de Casal de Çide, moller de Fernan Nunes Capote, escudeiro, 
mandando enterrar meu corpo dentro enna cabstra do moesteiro de san 
domingo de pontevedra, y especificando que fuese enna sepultura en que 
jaz meu padre; E mando híf conmigo (anade) hun tonel cheo de vjmio 
Et dous garros íquartas?) de pan e çen mararedises ao conuenfo para 
huna pitaura (Carlulario dei convento de Sanlo Domingo, foi. 172 
V.) Y probableniente se referira à sepulcros existentes en el mismo 
claustro la fumlaciou que se hizo en testamento, sin principio, fecha, 
ni nombre de testador (inserto en el propio carlulario dei mismo mo- 
naslerio de Sanlo Domingo, foi. lii) en que se dice : en fui da niisa 
cantada que vaan os fra//res con cruz dizer huun Hesponsso cantado con 
agna hee//ta sobre las sepulturas dos ditos meus padre ij madre i/ i/rmaa 
que jazen enna caustra do dito moestero onde fezeron os arquos y esta 
hi huna cruz enna parede. 

Un siglo despues, en 1400, encargaba Gonzalo de Casal en su 
testamento, quo le buscasen sepultura en Santo Domingo de Ponteve- 
dra (Id. id. foi. 2.) 

De los sepulcros que hubo en el ábside principal ó mayor nos dá 
detallada noticia Fernan Eanez de Solomayor, hijo legitimo de Pêro 
Alvarez de Solomayor (que ya muriera) en su testamento otorgado 
en 1433, é inserto en el foi. 170 dei Carlulario dei Convento, donde 
dice : por quanto eu teno ordenado enno moestero de som domingo da 
vila de pontevedra por onrra de meu linagee enna Capela grande prin- 
cipal do dito moestero para as sepulturas de meus avoos alvaro paaz 
(Pfclaez) de sfutomai/or et sua moller domna magor de grez et de mos- 
coso et para mgna madre domna eluira de biedma et para mgn eso mesmo 
que se fezese asi quatro moijmentos das quaes quatro sepulturas seen ja 
asentadas enna dita Capúa grande os três mogmenlos segundo mais 
claramente todo esto se conten em huum conirabto que eu otorguey con 
o prior et convento (cuyo contrato nos es desconocido, por desgracia.) 

A los lados dei altar mayor, dice el Sr. La Iglesia que estabaa 



136 REVISTA ARCHEOLOGICA 

los sepulcros dei duque y de la duqueza de Sotomayor; pêro que sus 
losas, con las de oiros sepulcros, pasarou ai embaUlorado de las calles, 
El patronato de la capilla iiiayor pertenecia «á la grande y nnbilisima 
casa de Sotomayor de Ponlevedra y de Galicia, y la de Montenegro 
se liabia unificado con ella por cnlaces« según la autorisada opinion 
dei citado Obispo de Monópoii. 

De los que habia en la capilla de Santo Tomás que parece antes 
se llamò de S. Andres y despues dei Ecce homo, da Payo Gomez de So- 
tomayor, sefinr de Lantano, interesantisimas noticias en su testamento 
cerrado qne fué abiei-lo á su morte ocurrida en 1454, ai mandarse 
sepultar (como en efecto lo fiié) en cl monasterio de Santo Domingo 
de Pontevedra deiilro eniia capela que diego eanez (despues dice alva- 
rez) meu padre e eu (ezemos. . . et por quanto . . }wn feno feita sepul- 
tura . . . me lanren enno movimento en que jaz. . . meu padre. . . , ana- 
diendo que manden lago (sus cumplidores testamentários) fazer huna 
sepultura para meu corpo junto con .a do dito meu padre enno lugar 
que virem que mays perteescente. > . et outro moijmento para juan fer- 
nandez de souto maijor meu hermano Et que se ponan de fora da dita 
capela por quanto de dentro non ha espado pêro que seia acerca (Gar- 
tulario foi. VàO \.) 

Con referencia á Argole, dice Gonzalez y Zúniga (pag. 88) que en 
la capilla de Santo Tomás estàban sepultados Payo Gomez de Soto- 
mayor y su bijo Suero Gomez de Sotomayor, ambos mariscales de 
Castilla, y qne sobre los cuerpos se veian (y ya no existian cuando 
escribia Gonzalez y Zúniga) «los sepulcros de alabastro con sus bus- 
tos i letreros.» 

A ellos se refiere sin duda el Sefior La Iglesia ai decir que en el 
ábside dei estremo dei lado de la Epistola ó capilla de S. Jacinto es- 
tàban (en 1807, y ya no existian en 1880) en dos arcos ogivos sepul- 
crales (que se conservan) los enterramientos de D. Pedro de Soiomayor 
y de su mnjer la infanta de Hungria Dona Juana *3. \^\ (ai lado de Ia 
Epistola) ecliado sobre colcbon, almohadones y colcha, cubierto de 
malla, con manoplas de hierro, yelmo, espada de cruz y misericórdia ; 
leon à los pies y ángeles á Ia cabeza. Ella (ai lado dei Evangelio) con 
velo ó manteo corto, y la orla dei vestido sorprendentemenle reca- 
mada y guarnecida de leonês. Alli quedo el escudo de família com- 
puesto de ires fajas jaqueladas (de oro y rojo en campo de plala) y 
una fajã (negra) encima de cada una. 

. Tambien se refiere á uno de los vultos de que habla Argole, el 
Sr. Lopez Ferreiro *S ai escribir que en una capilla dei lado de la 



13 Esta infanta, (sefrún se dice) hija dei Rey de Hungria y Bohemia, fué prisío- 
ncra dei Turco y dei Tamorian, y lescatada por el rey de Espana fué dada en 
nialriíiionio à Payo (ó Vedro) Gomez de Sotomayor, que fué por embajador de 
Espana á Turquia y 1'ersia en 1402. 

1' Obra cilada, pág. 37o. 



REVISTA AliClIKOLOGICA 157 



Epistola filé enterrado el mariscai Snero (iomez de Sotomayor, que 
inurió liácia el afio liUO; afiadiendo que ciibria «su sepulcro una losa 
con estátua yacenle de caballero corpulento y bien armado», con in- 
scripcion que comenzaba : 

AõVI lACK EL MARISCAL SVERO COMEZ 
DE SOTOMAYOR QVE EAI.LESCIO • • • 

El Sr. La Iglesia dice, referiendose á noticias recogidas bastantes 
anos antes (I8(Í7 y 1880) que en el ábside mayor eslaba «tirada á un 
lado, la tapa de un sepulcro con escultura de caballero yacenle sobre 
almoliadones, con ángeles á la cabezera y leon de nobleza á los pies, 
yelmo 6 gorro alto. . . el pelo en trova,. . . vestia calzas y ropa liasla 
más abajo de la rodiila y que bordeaba la tapa una maltratada ius- 
cripcion en letra gótica con estas leiras legibles : 

AQUI : JAZE : GONZAL : LOPEZ : DE MONTENEG. . . 

cuyo sepulcro estaba en el ábside primero dei lado de la Epistola. 

Otro arco sepulcral se conserva en esta misma capilla ábsidal, 
primera dei lado de la Epistola, cuyo titulo fué dei Buen Jesus y de 
San Pedro Mártir, y pertenecia, segun inscripcion puesta en ello, á 
la fortaleza // casa de gnndar corno fundacion de ella ; á cuya inscrip- 
cion acouipafiaba el escudo con los cinco lises, y escaques y puente 
con dos caslillos, igual á los escudos que se ven eu el extremo CS.) 
que se conserva dei crucero, y sobre los àbsidioles dei mismo lado 
de ia epistola, aun(jue muy borrados. 

CoMservabase tambien hace poços anos (y yo la he visto) la es- 
tátua yacenle de dama, vestida de largo manto y toca, con la cabeza 
apoyada sobre una mano, y teniendo en la oira un pergamino, ó fila- 
ctero. acompafiada de un ángel junto à la almoliada, que cubria el 
sepulcro colocado en el arco dei ábside menor primero dei lado dei 
Evangelio. 

De los dos enterramientos colocados bajo los dos arcos ogivos se- 
pulcrales dei ábside dei mismo lado dei Evangelio, ai extremo, (lla- 
mado capilla Soviana, ó vieja dei Espirilu Santo), solo quedaba en 
1867 (y ya ha desaparecido hace algunos anos) la estátua yacente de 
Trislan de Montenegro que ocupaba el arco dei lado de Evangelio; 
pêro se conseiva aún la inscripcion que dice: aqui esta sepultado el 
nohle caballero trislan de montenegro hijo de albaro lopez de montene- 
fjro tj de teresa sanchez de rei/no iiivrio de vim espincardada quando se 
tomo esta villa ai conde de camiíta don pedra albarez de sotomayor ano 
1464 (sic). Tambien jace aqui don fernando de montenegro. . . (dei con- 
sejo real bisneto de los diclios Tristan i conde muriò ano 1377). Las 



158 REVISTA AKCHEOLOGICA 



iillinias lineas estan ocullas por los escombros que quizá oculten tam- 
bien el busto de Trislan y algun otro. 

Esta inscripcion es muy posterior á la muerte de Tristan, como 
revelan á priuiera vista sus caracteres notoriamente romanos y mo- 
dernos (aún CLiando no lo sean lauto como siipone Gonzalez de Zuniga^^ 
que Ia cree dei siglo xvii, sino de la última fecha que contiene. 

Pêro lo importante, es que la inscripcion, segun parece, liene 
equivocado nada menos que el ano de la muerte de Tristan, pues la 
pone en I46i, y el sitio de Pontevedra en que ocurrió no se verifico 
hasta trece anos despues, y (además y principalmente) por una de las 
iuteresaulisimas noticias, totalmente desconocidas, publicadas por cl 
Sr. Lopez Ferreiro ^^, sabemos que en 17 de Mayo de 1476 dió el 
Cabildo de Santiago carta de pago ai mismo Trislan de Montenegro, 
de 53 doblas por los volos de Ilivadecoa, en Portugal, que lenia arren- 
dados. 

Ue la sepultura de este *' famoso personage pontevedrés, dice el 
mismo Sr. La Iglesia que la lapa (que fué arrojada en médio de la ca- 
pilla) contiene una buena escultura, la estátua de Tristan de Monte- 
negro, joven y hermosa figura con barba cerrada corta, caballero 
perfeclamente armado, con las manos derechas en oracion, sobrevesla 
hasta más abajo de las rodillas, espada cenida, tahali alravesando por 
el pecho, yelmo fortisimo bordeado de semiesferas en la cabeza, abra- 
zada esta y el hombro derecho por un ángel de abiertas alas que la 
sostiene reclinada sobre Ires almohadones, y descansando los pies en 
el significativo leon ; y que cerca de la lapa estaban tirados dos leo- 
nês que fueron, quizá, los pies ó soportes dei sepulcro. 



15 Historia de Pontneãra, Pontevedra, 1846, pág. 105. 

iG Obra cilada, pác;. 'Ml. 

1" De Tristan de Montenegro dice Vasco da Ponte, en su interesantisima Rela- 
cion que era de «los três iiomes que (ai Conde de Caniiíia) le daban mucha 
afrenla,. . . que como inandaban (él y su hijo Lope do Montenegro) á Pontevedra 
salian de ella cá un repiquete de campana con quinientos lionibres de á pié, y 
quarenta lanzas.» 

De su iiijo Lope de Montenegro (Lopez Ferreiro, Galicia, á pag. 377) que 
desempíiiló tuini)ieii la alcaldia de Pontevedra y dejó numerosa prole, nos dice 
Vasco da Ponte que era muy esforzado, pêro no sábio. De él descendieron (según 
Lopez Ferreiro, loc. cit.) í). Fernando de Montenegro, regente de Nápoles, Íjís- 
nelo (según dice la lápida) de Tristan de Montenegro, y D. Lope de Montenegro,, 
gnm canciller de Milan > letrado insigne; y fué su liija Teresa Sanchez de Mon- 
tenegro, muger de Peru Krvon, regidor de Pontevedra, la cual, en 1511, otorgó 
cierta auta de pension, de una casa que, dice, vie queda por erencia e sucesion dei 
sehor trislnn de monieueyro vii (dmelo et de lope de montenegro mj senor padre 
(Cartulario de la Cíjfradia de S. Juaii, foi. 02, v.) 

El testamento de Jiian Garcia de Sameyra fué abierlo, en 1497, ante o ver- 
tuoso seiíor lopo de mnnteneijro juez hordenario eiiua dita vitla (de Pontevedra) c 
su jurdiçon por el Heverendisiiiiu seiíur Arçobispo de santiu<jo (Id. id. 50 v.) 



REVISTA AKCIIEOLOGICA 159 



IV 

San-Fuancisco, y Santa Claua 

El cronista de Ia província '^ no halló sino confnclon en ias noticias 
sobre la fiindacion dei convento, ni salió de ella para coordinar las di- 
versas opiniones que la daban como contemporânea de la fundacion 
de! de Helanzos, ô sea antes de conclnir en I^^O. el provincialalo dei 
Santo Fr. .Iimn I^ivenle; como posterior á la extincion de los Templá- 
rios, en 113 lá, ó como relacionada con la muerte, en 1308, de Payo 
Gomezello (Gomez Cliarino), ciiyo sepnicro se lialló en la iglesia, y él 
entiende «se conservaria en aqiiella Iglesia que antes fué de templá- 
rios y pasados machos anos se dió ai Convento, dexando este la que 
tenia cerca de ella. De esta snerte (anade) tiene probabilidad, que la 
Iglesia que boy subsiste, fuese de Templários, y no aver sido de el 
Convento basta dicho ano de I3I2... A mi me parece tener bastan- 
te probabilidade fundado en la tradicion, que conservo algunos vestí- 
gios, Y más, porque es muy verosímil fuese la primera fabrica, muy 
eslrecba, y con esta ocasion se mejorase, no solo en Iglesia, sino 
en Claustro.» 

Lo que es positivo es que existia antes de comenzar el último cuar- 
to dei siglo XIII, pues que el caballero Árias Fernandez sobrenom- 
brado Camino (miles dietas camium) en su testamento otorgado, en 
li274 (existente en el Arcliivo Histórico Nacional enti'e los pergarai- 
nos dei monasterio de Armenteira) lego operi et conventui monastcrii 
sancli francisci pontis veleri, i200 maravedis alfonsis blancos: cuyo ca- 
ballero quizà sea aquel Árias Fernandez de Galicia, caballero mui] 
buenn e honrado e de biiena vida e siervo de Dios, que fina en Toledo 
}nartes seis dias andados dei mes de Octubre, de 1308, segun reza su 
epitáfio existente en una iglesia de la ciudad imperial. *^ 

La iglesia de S. Francisco se compone de una nave ancha, de 10 
melros y médio y muy extensa que da en un crucero tambien muy 
amplo, á cuyo lado opuesto se elevan Ires àbsides poligonales. 

El central, muy grandioso y casi tan ancho como la nave, tiene sus 
cinco p^uios dei fondo divididos en dos zonas; de las cuales la infe- 

'* P. H. Jofobo de Gartuo — Arhol Chronologico de la santa provinda de San- 
tiago. — Priíiipra parte — Salamanca 1722. 

^^ Eiio capitulo do vioestéiro de sam francisco de ponte vedra. celebraron, en 
1408, una reiínion el gardian y vários frogres. entre ellos o maestre en llieologia 
frei Rodrigo de Buscaz custodio de Santiago para ociíitarse de cierta donarion que 
se hacia para fundar un aniversario. (Cartulaiio dei Conventn II. 112 v. Y los co- 
frades de S. .luan Hautista se reunian en <'r(tbidoos, enno, cimitevio de san francisco 
desta dita vila (de Ponlevedra). ex|)resando que lo liacian segundo que aremos de 
huso !j de costume, en àerlo foro otovgiiáú en \íll. (Cartulario de la misma Co- 
fraria, 11. 3oj. 



160 REVISTA AUCHEOLOGICA 

rior. que no alcanza sino la tercera parte de la altura total, se com- 
porie de una arcatura ornamental, gemela y ogiva! con el intrados 
trebolado, en cada pano, y la superior, que ocupa todo el resto de la 
altura, no es más que una rasgada ventana, ogival agimerada en ca- 
da pano, con arquivolta de llores crucifurmes prismáticas, é imposta 
de toros y escocias finas. Está abovedado de abanico, y cada pano 
dividido dei iimiediato por una columna en el interior, y por robusto 
estribo escalonado en exterior. 

Los dos ábsides laterales ofiecen, en escala reducida, la misma 
disposicion que el central. Y la misma tiene tambien la capilla que 
constituye un contra -abside colocado, enfrente dei situado ai lado de 
la Epistola y ai otro lado dei crucero. Tiene cinco panos como los 
otros, boveda de nbanico y portada, 6 sea su a-co de ingreso que le 
divide dei crucero, con ar(]uivolta de ílorc. •>. jíoííí-^. 

Toda esta obra es contemporânea de la de los ábsides de Santo 
Domingo. 

En este mismo costado de la nave hay otras três capillas cuyas re- 
jas dan à ella. La primera tiene bóveda ogival de cinco claves y por- 
tada clásica, greco romana, con una Anunciacion representada por 
las dos figuras sueltas de la Virgen y dei Arcangel, colocadas en las 
jambas de la entrada, leyendose' en el fondo la fecha de 1590. Y la 
última, que ya toca con el coro alto, situado à los pies de la iglesia, 
está abovedada de sencilla aspa, ó sean dos aristones con una sola 
clave. 

Esta iglesia contiene mucbos monumentos sepulcrales, aun cuando 
en su mayoria de escaso valor artístico y de fecha poço antigua. 

El citado cronista, P. Caslro, dice que «en las muchas capillas que 
tiene esta iglesia, ay sepulcros de las mas uobles famílias de esta 
Yilla.» 20 

Al pie de las grades dei àbside mayor se hallan dos muy anliguas 
camas sepulcrales cada una con una pareja de estatuas yacentes de 
distinto sexo. La dei varou dei lado de la epistola representa segun 
se dice ai insigne y legendário Chorino. Mide dos metros y veinticin- 
co centímetros de largo, com tener sus piernas dubladas y cruzadas 
(y la derecha rota); está vestido de amplio ropage, con la ancha es-, 
pada sostenida por ambas manos y la cabeza con larga melena, cu- 
bierta con bajo birrete, apoyada sobre dos almohadas. La tosca cama 
tiene escudos, eu el frente con cinco flores de lis, y en el costado libre 



2" Etii Í40:) Inês Afonso muller de Rodrigo lanes Abraides, puso en su te.s- 
tamonlo mando meu corpo srr eiiterrado enno mocslciro de san fraiichco de ponte- 
vedrn jinifo onde jaz ni padre. ((^arUilario de Santo t)oiningo foi. 141 v.) 

Kn la ijílesia, sefriin cscrihió M mies en la rehicion de sii viaife eslába la se- 
pultura f(in<! Iiabia i-iiar<'iita anos (|ue niuriera y por sus muchos niilagros era le- 
nido en aijuella tierra por Santo) conipuesta de una piedra liana, delicadamente gra- 
bada, y sobre ella en coiuinnas altas un Tabernáculo de piedra bien laijrado. 



REVISTA ARCHEOLOGICA 161 

á uno y oiro lado de él se loe en ciialro lineas, de letra alemana: 

AQUI : IA7.K : Kl, MII NO UI.E : CAUALLERO : PAYO 

r.uoMKZ : ciiARiNo : r.i. imu .meiuo : seno» : dehiuan 

IO : QUK c.iAO : asi;i ili.a '■•'"'"'" siicNno : de mokos : ylos 
Piu:ui]-Eios : desta uilla : ano de : i... 

El bullo de sii companera tiene tambien amplio ropage; pêro no 
inscripcioií. 

Tanipoco Ia lionen los que ocupan la cama dei otro lado. El lleva 
trage corto, y tiene armadas las piernas con rodilleras y los brazos 
con codales; cubre su cabeza una gorra con três plumas y está la es- 
pada soslenlda por ambas manos. Dos ángeles cantonan su cabeza y 
un animalejo está á los pies. La companera lleva largo traje con es- 
clavina y toca en la cabeza apoyada sobre cuatio almoliadas. El estado 
de conservacion de estos bultos deja mucliisimo que desear estando 
muy borradas sus lineas por el continuo roce de los objelos vários 
que suelen poner en cima, 

En los dos muros de los extremos dei crucero y en el dei lado dei 
Evangelio de la nave, se encuentran hasta seis arcos sepulcrales. Otro 
liay tambien en el muro dei lado de la Epistola de ella, en la parte 
que da ai contraábside, con arco ogivo adornado de arquivolta de bo- 
jas, ocupado ahora por un altar. A este da frente una construccion 
de gusto greco-romano, con intercolumnio salomónico coronado de 
fronton partido y bajo él arco sepulcral ; á cuyo lado se levanta otra 
construccion funerária tambien de marcado gusto churrigueresco, ador- 
nada de cânones en las enjutas dei arco, y tambien con fronton parti- 
do; fechado en i68i y dedicado á la memoria dei maeslre de campo 
dei reino de Galicia {desle reino, dice) D. Juan dei Caslillo. dei Con- 
cejo de S. M. En el rinci^n dei crucero dei brazo correspondienle ai 
lado dei Evangelio, hay otro arco sepulcral greco-romano con la fecha 
de 1673 y la estátua orante dei, tambien, maestre de campo U. Juan 
Feijó de Sotomayor. Y otras dos estátuas sepulcrales oianles se en- 
cuentran enfrente dei altar de la capilla que, segun queda dicho, tiene 
bóveda de cinco claves. 

Todas esas sunluosas construcciones sepulcrales ya que no grau 
cultura ni menos refinamiento artístico, revelan el estado de prospe- 
ridad de que gozaba por esos tiempos Fontevedra. 

Segun el citado cronista franciscano, de la província de Santiago, 2* 
la fundacion dei convento de S.*'"" Clara fué en 1271, fecha de la do- 
nacion de Dona Mayor Perez (era 1309), ignorandose quienes fuesen 
sus primeras fundadoras; pêro sabieudoze que se hizo en el sitio que 



21 Cap. XXVIII dei Lib. VI, pág.» 34i de la Piimera Varln. 
Rev. Arch., n." II — Novembro, 1888. 



162 REVISTA ARCHEOLOGICA 

hoy ocupa y donde «vieron en la oracion le seiialaba el Cielo con ca- 
racteres de luzes». 

Gonzalez y Zuniga -- acoge la tradicion de que en el sitio dei con- 
vento le hubo primilivamenle de Templários, y mira como leslimonio 
y restos de su existência, cierlo «escudo en que se ven en bajo relie- 
ve unas cuantas figuras de caballos algo carcomidas dei tiempo, que 
mui bien pudieran conciderarse como blason de los caballeros dei 
temple,» no menos que la portada y lodo el mismo fastial dei templo 
(eu que tambien se halla el citado escudo) adornado de caneciilos his- 
toriados que el mismo autor considera produclo dei arte anterior ai 
de transicion dei lombardo ai gótico (segun se decia hace médio siglo) 
a que asigna el àbside de esta iglesia como igualmente los de Santo 
Domingo y San Francisco. 

El V. Sarmiento recogió una noticia, (consignada con cierta confu- 
sion en el Tomo I. de sus Obras MSS.j segun la cual es sefial de que 
se iiacia ó rehacia el convento, por los anos de 1303, la circunstan- 
cia de que Fernan Nufiez de Aidoam le mandase 200 sueldos en 
su testamento otorgado en ese ano. Cuyo D. Fernando (anade) eia 
hijo de D. Giraldo y de Dona Sancha, nieto de D. Nuno Perez Mal- 
doado y marido de Dona iMayor, «la que dexò mucho à Santa Clara». 

La iglesia da Santa Clara se compone de una sola nave de las di- 
mensionos más comunes en esta clase de iglesias conventuales, con 
techo de madera y dos puerlas en la pared dei lado dei Evangelio que 
comunican con el exterior; una de ellas modernizada y la otra^ la más 
cercana á la cabecera dei templo, ogival, bastante aguda, sin entrear- 
co, y con dos arquivoltas en las que se ven figuras muy toscas. El 
fastial conserva, por el exterior sus caneciilos adornados de figuras y 
três ventanas ogivales, una de ellas tapeada. Esta parle puede muy 
bien datar dei siglo xiii. 

La cabecera es un hermoso ábside poligonal, de los en abundância 
levantados en el siglo xv, con rasgadas ventanas en sus cinco panos, 
bóveda de abanico y tímpanos calados con grau agugero circular, y 
ornamentado en la parle inferior con três arcatiiras ogivales simuladas 
en cada pano. El retablo mayor es churrigueresco, con frontal, como 
el de otros dos laterales, de cuero labrado. 



V 

S. Bartolomé 

De la iglesia parroquial de S. Bartolomé no queda más que la me- 
moria. Fué derribada en 1842 para hacer el teatro. Pêro las noticias 



''''^ Obra citada, pág. 76. 



REVISTA ARCHEOLOGICA |g3 

qne de ella he encontrado son tan interesantes que no debo omilirlas, 
Y creo les corresponde biien lugar Iratandose de la historia artística y 
monumental de Ponlevedra. 

Por los mismos tiempos en que se construia el coro de la iglesia 
de los dominicos, se reediíicaba la parroquial de S. Barlolomé. Asi 
nos lo hace saber el P. Sarmiento insertando, en su escrito sobie la 
Moneda, la noticia de que en un testamento, en pergamino, dei mo- 
naslerio de Poyo, fechado en 1337, se hace una manda, de !á30 dou- 
hras de ouro-para refaccmcnto da igresia de San Barlolomeu de Pon- 
tei:edra. Y dos anos despnes dejó manda Juan de Santa Fé, en su 
testamento olorgado en 1339 y existente como queda dicho en el Ar- 
chivo Histórico Nacional, de AXY sueldos para a obra de san barlo- 
lomeu. 

Juan Boieiro, aun cuando en su tambien citado testamento se man- 
do enterrar en el cementerio de Santo Domingo, hizo varias mandas 
ala iglesia de San Bartolomé, de cuya parroquia sin duda era feligrés, 
dejando: ao altar grande dessa Eglesia vinti soldos; .. . ao altar de ssanta 
Maria da dita eglesia de san Berlolameo dez soldos;. . . a todos los ou- 
tros altares dessa Eglesia cinquo soldos a cada un ssalvo ao altar de 
ssan Domingo... dez soldos;... a obra dessa Eglesia três libras;. . . 
aos Respondones (acólitos ó monaguillos?) dessa Eglesia dous moravedi- 
ses;. . . y, en fin que le hagan aniversario cada anno. . . en la eglesia 
de ssan Bartolomeo, y se den dous açnmbres de boo vino e dous... 
(borrado) de pan branco. 

En esta iglesia de San Bartolomé tenia costumbre de reuuirse el 
concejo de la villa, segun vemos en cierta acta (inserta en el cartula- 
rio dei monasterio de Santo Domingo foi. 14) en que se dice, reíirien- 
dose ai afio 14U0, seendo o Concello juiz justicias e homes boos jurados 
da villa de ponteuedra juntos en concello dentro enna iglesia de san ber- 
tolameu da dita villa segundo que o han de vso e de custume. 

A la entrada de clia se acostumbraba, poço despues (y seguramen- 
te desde mucho tiempo trás, por ser muy general semejante costumó- 
bre) administrar juslicia, Alli en 143i> á Y^i de Diciembre. se resulvi- 
el litigio acerca dei pago de un censo que gravilaba sobre cieita casa 
en la rua do açougue, por sentencia dada ante a porta da iglesia de 
San tiertolameu vnde el ^^ accustuma de oijr pleitos. (Gartulario de la 
Cofradia de S. Juan, foi. 4) 

El hecho de administrar justicia en plena publicidad y á las puer- 
tas de los edifícios aparece constantemente. Pêro no siempre esos edi- 
fícios eran los religiosos en Pontevedra. En 1460 se dictò sentencia 
mandando que se cumpliese cierta cláusula dei testamento de Ines 
Perez Fiota, olorgado cincuenta anos antes, seendo o bachiller gonçalo 



23 El alcaide (?). 



164 REVISTA AliCHEOLOGICA 

mendez, alcallc eu sua abiiioiçia pubrica ante os portas das casas de sua' 
morada. . . oijndo e librando os pleitos a abdiencia da véspera. (Id. Id. 
foi. 10 V.) 

A los priíicipios dei siglo xv existia ya en esta iglesia la capilla 
propia de Ia cofiadia de san Jiian, pues que lues Perez Fiota, eu sii 
leslamento otorgado en 14 10, despiies de mandar que meu corpo ser 
sepultado enna i(/lesia de san bartokwie... enna sepultura que tem o 
sino do dito notário meu marido, dispone que por la mina mardade da 
vjnna do rrio. . . den. . . cada ano. . . aa confraria de sant juan. . . 
dez e seys nirs. de moneda relia branca en três dineros. . . Et a dita 
confraria e confrades dela que me façan cada anuo huun aniuersario 
enna sua capela de sanl juan dizendo- por mjna alma liuna missa can- 
tada cada dia de san juan do mes dagoslo e enna fim da dita missa que 
uaain solire mjna sepultura con rresponso cantando c agua beenta. (Id. 
Id. foi. 10 V.. lesliinonio de I40G). Kii oiro dociiinenlo olorgado en 
['iM^l, á 18 de Diciembre, se liace niencion de la capela de san jvan 
enna iglesia de san barlolameu. Id. Id. foi. 2 v.) 

Los coírades propibtarios de esta capilla de S. Juan Baulista, so- 
lian reunirse en cabidoo, enno cimi/lerio da iglesia de san ber tola meu ; 
corno se dice en documentos de 1440 y 14 i4; ó sea enno adro de san 
bertolameu, cual se lee en oiros de 1448 y 1491, y confirma la exis- 
tência de verdadera sinonímia enlre los vocábulos cimiterio y adro, 
para designar un mismo lugar (el cemenlerio y alrio) el que en otra 
donacion hecha á la cofradia, en el propio ano de 1491, se diga que 
fuò olorgada eno cimiterio de san bartolamco. (Id. Id. foi. 21 v., 22 
Y., 10, 48 V., y 49). 

Con llevar el alrio tambien nombre de cemenlerio, no se crea que 
fuese el lugar exclusivo de los enterramienlos de los feligreses; pues 
que no excasean las noticias de personas que por ese liempo, y algo 
(iespues, se liabian enterrado 6 se maiidaban enterrar dentro de la 
iglesia. Asi lo hiso Elvira Pedreira, moller de Gomez Pedreiro, dispo- 
niendo en sii testamento; otorgado en 1489 que meu corpo seja sepul- 
tado El enterrado dentro da iglesia de san barl/iolomeu enna mjnna se- 
pultura qui' esta ennas costas dacopela de sanfj/mn buntista. (Id. Id. 47). 
.Maesire .luan de Marin, vecino de Ponlevedra (lis|)nso en 1540 (Id. 
Id. 72) que meu corpo seja sepultado dentro de la f/glesia de san verfo- 
lameu d'la dicha rilla enna mjna sepultura donde jaz meu padre Rui/ 
de morin defunto en vna sepultura que ten un escudete con las armas 
de sotomai/or entre los bancos de los Regidores. Y Maiia Afonso de Pa- 
lácios liiso donacion, en 1540, á la Cofradia de S. Juan lianlisla (Id. 
Id. 78) de cierla casa en Ponlevedra, para fundacion de nua misa 
cantada con su responso sobre la sepultura donde jaz mi padre rrodri- 
go alonso (a^l) que está sepultado en la dicha iglesia de san bartolomó 
cerqua de la dicha capilla de san juan y dei espiritu santo en la qual 
sepultura ijo me cntiendo mandar enterrar. Y el xastre Juan Fernan- 



REVISTA ARCIIKOLOGICA i05 



dez, en el lestamctito que oloiiíò en I^rjl, mando (ic/iterrar su cucrpo 
(U'Utro de la i/ulcsia de saii Ixirudauic. . . m vna i^vpidlnra qne esta jun- 
to de la capiUn de a"", (jornez clérigo que agora fazia de nuero. . . en la 
qual estará scjiidtailo sn amo jiian fernandes clérigo que liene por scHa 
vn caliz et rn lilrcro. (Id. Id 7'i). 

Foiigo lerniiiio á las noticias sobre los ediíicios religiosos de Pon- 
levedra levantados en la Edad Media, y tiempos innnedialos, con las 
referentes á la capilla de Nnestia Sefiora dei Camifio. Para ú lume^ de 
santa maria do caniií/o, dejó diez sneldos .luan de Santa Fè en iXV,), 
y lambien le liizo sn corres[jondieMte legado Juan Boieiro, en 1IU4. 
Ivsta capilla era la dei hospital de los lacerados; segun noticia recogi- 
da por el P. Sarmiento de un pergamino de las monjas de Santa Cla- 
ra de Pontevedra, é inclnida en su Viage dei ano de 1745, por la cual 
se sabe un mercader de Pontevedra dejó en su testamento otorgado 
en 14ti(), una manda á los lacerados de Nuestra Senora do Camifio. 

En un foro dei ano de 1440, se la llama hermita de Nuestra Senora 
dei Camino. (Cartulario de Santo Domingo foi. Iu8). 



VI 

Edifícios civiles 

Gonzalez Zufiiga -'-* hace esta resena dei estado en que se hallaba 
el palácio arzobispal, cuando el escribia hace más de cuarenla anos: 
«despues de la guerra i derrota que en el liicierou los ingleses, nada 
trabajó en este edifício subsisliendo aun boi dia su formal, aunque 
mui arruinado. Bastante bien conservadas exislen alli sus dos torres, 
de las cuales la más grande i almenada, rccuerda algunos becbos his- 
tóricos de la família ilustre .á quien ha pertenecido. Esta torre que 
está situada cerca de la Iglesia de la parroquia de Santa Maria de 
esta Ciudad, es de figura cuadrada, tiene de altura :200 pies i de an- 
cho en cada uno de sus lados 4!2. Se compone ioda ella de Ires 
cuerpos, en el bajo, en dos de sus lados, tiene cada uno su puerta; 
la que corresponde ál dei Norte es mui grande i capaz, mientras 
que la dei oriente pequefiismia. En el cuerpo f en el centro de cada 
uno de sus lados hai uua ventana ojibal que tiene de alto 9 pies 
i médio, i de ancho 4 i médio; i lo mismo hai en el tercer cuerpo que 
remata con una cornisa o modillon, sobre Ia que estan sentadas las 
almcnas. Ella por su forma de anjuitectura pentenece ai siglo 12 ó I!i. 
Esta torre fué propiedad de la familia Ilustre i distinguida de los Kur- 
richaos. . . U. Enrique (II). . . recompens»j los servicios que le presla- 



2* Hist. p. 197. 



166 REVISTA ARCHEOLOGICA 



von el Arzobispo i Dean. entregando á la Mitra de Santiago no solo 
esta torre, sino taniliien lodos los b'enes que perlenecian a estas ricas 
i opulentas famílias.» 

Existe si, en la calle denominada de Clicrino ia fachada (nada más) 
de una casa. senalada con el número 4 (propiedad de D. Joaquin Gon- 
zalez) mny digna de figurar en primera linea entre las construcciones 
civiles de los iiltimos tiempos de la Edad Media conservadas en Gali- 
cia y fiiera de Galicia. Está dividida en dos zonas, ó cnerpos corres- 
pondieiítes á los pisos bajo y alto de la casa. En el priraero se abre, 
casi en su centro una puerta de arco eliptico, muy rebajado, con ar- 
qnivoIt;i corrida pometada ; á la derecha de ella se abre otra puerta 
trebolada, muy sencilla, y ai otro lado hubo una ventana con reja de 
que quedan unicamente los seíiales. 

Sobre la puerta central hay un escudo de armas jaquelado, y 
otros dos á ambos lados de Ia reja, á la misma altura que el otro, el 
uno tambien jaquelado y el otro partido con cinco lises. Una imposta 
6 fajã separa este cuerpo inferior dei superior de Ia fachada, en el 
cual se abre, sobre cada uno de los huecos dei cuerpo inferior, una 
ventana de diferente forma y ornamentacion. La que cae sobre la 
puerta lateral es rectangular, mucho más ancha que alta, y esta ador- 
nada todo ai rededor de una fajã ornamentada de pomos ; Ia que ene 
sobre donde hubo reja es de arco eliptico con ancha franja ai rede- 
dor que baja hasta la fajã divisória dei cuerpo inferior y está adornada 
de llorones, y la central es un precioso ejemplar de arquitectura ogi- 
val. Tiene arco de talon con festoo cairelado que forma cinco lóbulos; 
antepecho cubierto con gracioso grotesco, y dos agujas flanqueantcs 
que suben hasta la cima dei muro y asienlan sobre pedestales de ca- 
racter y composicion greco-romana. Corre, en fin por todo lo alto de 
la fachada, en linea horizontal, una cadena sobre la cu;il avanzaba, sin 
duda, el tejaros, conforme ai uso mny general de Ia época y de que 
es notable ejemplar de la fachada dei grande y Ueal Hospital de San- 
tiago, levantado, como es harto sabido, por acuerdo de los Reyes (Ca- 
tólicos en los [)rimeros anos dei siglo \vi. Del mismo tiempo debe 
datar esta suntuosa morada de la familia de Sotomayor. ^^ 

Otras dos construcciones civiles se conservan en Puntevedra, cuya 
antigiicdad es respetablc. 

kn la calle denominada de Isabel II, está una casa, númuro 21 
donde se conserva la inscripcion, único resto visible de ser antigua fa- 



-■' A([ui clebiera ilecirst' al^o iU Ia eonstniccioii iiiililar (jiic se (Miruciilra ;i la eii- 
Inda ili; la polilacioii por cl lado (1(; la linea Térrea á la liedondela. Peru iii lie topado 
con noticia algiina sobre ella iii conservo inuclio reeiíerdo dei edifício que. por el ex- 
terior tal cual está, no le creo mui merecedor de liacer de cl detallada descripcion. 



REVISTA ARCIIKOLOGICA 107 

bric;i, que tlicc fiió coostruida por el regidor Eslevan Marlinez en 
13o0: 

esla ohm man ('í>*^uJ"í dou f a s e r 
estruan wnrlinez r r e g y d o r 

era de ccc lxxx viu."" 

Y en la plazuela de a feira vella, ai lado de la carniceria ^^ se con- 
serva una casa con soporlales de arcos ogivales, en ciiyo primer ma- 
chon ó poste (veniendo de la carniceria) hay iin escudo de armas ja- 
quelado y la inscripcion en que se dice ipie fueron heclias arjnellas 
casas por el arcediano de Sainés, Juan Fernandez de Sotomayor: 

estas [ casas maudoa ', 
fazer [ iolian [ fcniandez ; 
de \ suuto \ niaijor '-. arcedia 
goo -^ de [ salnes -, 

Signiendo algo más que no puede leerse, principalmente por la es- 
pesisima ca[)a de cal (jiie cuhre el poste. 

El P. Sarmiento que copia esla inscripcion en su Viage de 1745, 
dice que de ella no falta letra ni hay senal de ano y que está en la 
casa de los Senores Maza y Pazos, foral dei Arcediano de Sainés. 

Las casas de Pontevedra en los dos últimos tercios dei siglo xv se 
componiaii generalmenlc de solen y sobrado nsandose por lo comun 
para designarias la locucion casas, solen (6 sovten, ó sooton, ó soloon) 
el sobrado, como en contratos de 1435, 1440. l'(41, 1444, 1446, 
1470 y 1493 (Carlulario de la Cofradia 16, 18 v., 20 v., 20, 21, 16 v. 
22 V., 27 V., 30 V. y 50 v.). Sobre esa parte de la construccion se 
dice en la donacion que en 11 de Jiilio de li 70 hiso Maria Ares á la 
Cofradia de S. Juan. de 15 mrs. (pie los im[)one sobre casa dezemo 
a deus soloon i sobrado . . . enna rrna dos caas acerqua da poria de san 
domingo . . vay de longo por taboado con oulra casa . . . e topa con seu 
soloon enna casa . . . de juan rrodriguez o jacho que agora se derrocou e 
sal con suas porias e porluas aadila rrua publica dos caas . . . que a dila 
confraria e confrades d>ia façan de novo o oulon de pedra aadila mina 
casa et acasa do dilo júan rrodriguez o jacho que agora derroca ron por 
manera que adita mjna casa non caga nen se derroga por mingua do 
dito oulon el arreparcn tan solamenle desta vez que asg fezeren o dito 
oulon o qual dito oulou de parede adita confraria et confrades dela han 
de fazer. . . fasla dia de san mjguel de sflembro. 

El sobrado vénia á constituir una parte dei edilicio, suficiente para 



26 La carniceria, situada en la cabecera de esa plazuela de a feira vella. tiene larga 
inscripcion en su fachada y ai pie de ella la fecha de 159o em que se construyó. 



168 REVISTA ARCHEOLOGICA 



servir de viviendn: como se desprende de que los dominicos de Pontc- 
vedrn liubieseii heclio, en 1438, foro de o nosn sobrado da msa casa. . . 
si!a eiina mia das oirllas. (CarlnUirio de S.'° Domini^o ITiG v.'') Era, 
sin duda, el piso alto de la casa de que careciau las ilamadas bajas; y 
en este concepto los cofrades de S. Juan ai dar á foro, en 1435, á Ruy 
Mouro, clérigo la mitad de una casa enna rrua de Domingo Lobeira, 
le impiisieroii la obligarion de que a leaantr de sobrado (Carlulario 
de la Cofradia ^5): como, en 1443, contralaron con Rodrigo Afonso 
que fasla dons anos compridos primeros. . . leiiantedes i rreparedes par 
iiosa custa de pedra, tella madera et cranaçon cierto pardinero que le 
aforaron. Id. Id. 29 v.). 

Outou, sogun C u vei ro (0/ccíowwno gíaZ/fi^o — Barcelona, 1876) y Va- 
lladares {Diccionarío gallegocastelIano — S>-^n[hgo, J884) significa «pa- 
red que termina en puiita como mitra, para echar las aguas a cada 
lado»; esto es, en pinon: y se halla nombrado con mucha frecuencia 
en los documentos. La Cofradia de S. Juan aforo, en 1467 ã Afonso 
Garcia de Poutevedra, maiinero, ameatade daquela casa baixa, .. que 
entesta contra cima con s.>u outon i eixido contra a Rua das ovellas; 
Martin G.^juiz da vila de Caldas de Rei/s, liizo foro tambien, en 1487, 
de una casa con seu euxedo e naranjo e Umoei/ra que. . . topa con seu 
outom em outro Inxido; y en 1546 Maria Afonso de Palácios dono á la 
Cofradia de S. Juan una casa, en la rua ciega, que entesta con seu 
ovton en otra casa (Cartulario de la Cofradia 11 v. 66 y 78). 

Algunas casas no estaban separadas de las inmediaías por pared 
sino por simple tabique de tablas; cuya circunstancia se especifica en 
un foro de 1434, de una casa, que se ten de longo da huna parte por 
tauoado con a casa de martín Robalino et da outra parte eso mesmo se 
ten de longo por parede con outra casa de gonzaluo ledo filio de juan 
ledo jurado que foi/; o como en la donacion que Maria Martinez liizo 
en 1441, á la misma Cofradia, de parte de una casa soten i sobrado 
. . . enna rua de don gonzaluo . . . que se ten por pared i vaij de longo 
con outra casa . . . et da outra parte seten i parte de longo por taboado 
con outra casa que fog de juan jfernandez carniceiro. (Id. Id. 10). En 
1446 se deparlia ile longo por taboado cm/ outra casa la que la Cofra- 
dia aforo á Juan Gonzalez Teçelan, en la rua de Nuno Flatel, y ya que- 
da inserto el texto de la imposion de pension hecha en i470, sobre 
una casa divida por taboado de la de Juan Radriguez, ó jaclio. 

Ilabia casas que pudieramos llamar gcmelas, como aipujlla sobre 
que se impuso censo en 14i6 (^ue era baixa y eslaba enna rrua dos 
ceias so huun cume con outra casa da dita confraria, (Id. Id. 29). y no 
escaseaban en Pontevedra las que, como esta, eran baixas. Tal era 
tambien aquella sobre la que, en 1434, impuso nueve mrs en esmola 
a confraria, Álvaro Agulla. rscudeijro, la cual tenia sua orta i eixido 
y se tenia por parede con outra casa da dita confraria da huna parte 
et da outra parte se ten con outro meu eixido. Tambien era casa baixa 



REVISTA ARCHEOLOGICA 160 

la que fué aforada en I 'iC7 ai marinero Alfonso Garcia; lo mismo que 
olra aforada veinto anos despues, (jiie eslaba cerca do moestero de 
San Francisco, (kl. Id, 15, 11 v. y 38 v.) 

Tenian, en íin, las casas de Pontevedra, adernas de sus correspon- 
dienles é iiidispensaliles portas de salida á la via publica, portms et 
friestas 6 ficslrus; noinhradas de uti modo en documento de 1411, y 
dei oiro en escritura de l'i9:{. (Id. Id. 10 v. y oO v.) 

Volvamos á ocuparmos de lo propiamente monumental, objecto es- 
[)ecial de esta resena arqueológica, diciendo dos palabras sobre los 
puentes. á que se atribuye la antigua denominacion de ambas puentes 
que llevò la villa. 

La poblacion esta en efecto colocada entie dos puentes: el dei 
Burgo sobre el Lerez, y el Puente nuevo sobre el Tomeza, de que so- 
lo se conserva el nombre de Pontenova, situado en el punto de con- 
fluência con el Lerez, y sustituido, en 1793, con el llamado Bolera, en 
el camino de Salcedo á Tuy, y en 1838 con el levantado en los Pela- 
mios, para conducir á Marui A. fines dei pasado siglo se conservaban 
aun dos estribos dei antiguo puente. 

De este puente dice el P. Sarmiento en su Viage dei ano 1745, 
que «ai S. dei Campo das Rodas, en una ensenadita dei mar, hubo 
puente que llamaban A Ponte nova. Alcancela yo, y creo que cayó 
por los anos de 1717, ó 1718, y en este ano de 174o ni siquiera bay 
vestígios de ella. Pêro se ve un penasco vivo que servia de estribo ai 
puente y en él se lee:» 

estas p d p 
on ^'■"" cos 
os ma ^''^ lis 
se " pena 

«No se lee lo que dice, pues las letras estan gastadas y confusas. 
No obstante por faltar los ; y por tener leiras Modernas cursivas m- 
fiero que es contexto gallego y letra de algun Maestro de obras que 
escribia mal, acaso dirá este Padron os maestos so a ponte. Pêro esto 
solo es adivinar y asi tengase presente la inscripcion hasta que se des- 
cubra olra semejanle para convinarlas.» 

De lo poço que puede enterderse de los caracteres que puso el co- 
piante de la obra dei P. S;irmienlo, parece decir que estas pedras po- 
neron con os maestros sen pena, 

Del antiguo puente dei Burgo sobre el Lerez, en el camino de 
Santiago, se hallaron. segun Gonzalez y Zúniga ^7 en 1831, ai compo- 
ner la calle que llaman dei Puente, «en oiro tiempo y boi Real, . . . 



27 Hist. 18. 



170 REVISTA ARCHEOLOGICA 

dos arcos de \m puente antiguo que alli esta terraplenado que dejaron 
en el niismo estado.» Ciiya fábrica, afiado yo, tal vez sea aquella à que 
conlribuyó en I ;];{<.) Juan de Santa Fé (con snjecion á las ideas y usos 
piadosos dominantes en su tiempo) legando diez sueldos para a obra 
lia ponte. 

El castillo que liahia á la entrada dei Puente fué volado por los in- 
gleses en 1711). y cnando este fué ensanchado en 180o desapareció 
completamente el castillo. 

Oiro monumento muy importante liabia en Pontevedra en el siglo 
XVI, la fuente de la plaza de S. Francisco. Era tan sobervia que de 
ella escribió Ambrósio de Morales, en su Viage, que «en grandeza, 
altura, lindeza de fábrica, y dorados, puede competir con las de Cór- 
va, aunque Ia piedra no es tal, ni el agua tan buena, aunque es mucha». 

Arrimados á los abandonados ábsides de la iglesia de S.^° Domin- 
go se encuentran, todavia el tazon y otros restos de esta renombrada 
obra ornamental de la anligua, populosa y opulenta villa, como si alli 
se hubiesen reunido para llorar las desventuras y misérias de los tiem- 
pos que se sucedieron. 



La Escoura (Alfoz dei Castro de Oro) 10 de Júlio de I! 

José Villa-amil y Castro. 



INSCRIPÇÕES DE LAMEGO 
E DE QUINTELLA DE PENUDE 

Havia noticia de que no castello de Lamego existiam algumas in 
scripçues, mas nem mesmo poderam ser incluídas no vol. II do C. I. L., 
por falta de informaçijes ao tempo da sua publicação. Na Ephemeris 
Epigraplúca, vol. IV, p. 13, vem d'aquella antiga cidade uma que existe 
«na parede da egreja de Almacave». 

Devido á extrema obsequiosidade do meu illiistrado amigo o sr. 
Dr. Cassiano P. P. das Neves, possuo hoje óptimos calcos dessas in- 
scripções do castello de Lamego, alguns acompanhados de bons dese- 
nhos. Ao mesmo tempo informou-me o mesmo cavalheiro de que, por 
iniciativa do digno piesidente da respectiva Camará Municipal o sr. Dr. 
José Corrêa de Menezes, se ftmdou naquella cidade um museu archeo- 
logico. Este museu, em cuja organisação cabe lambem muito ao dis- 
tinclo cónego sr. J. J. Ferreira Fafe, possue já, além d'algumas lapi- 
des romanas muitos outros objectos importantes de diversas epoclias 
e proveniências. 

È com a maior satisfação que eu archivo aqui esta noticia da crea- 
ção do Museu de Lamego, dirigindo a seus iniciadores as mais vivas e 
sinceras felicitações pelo seu utilíssimo emprehendimento. 



REVISTA ARCHEOLOGICA 171 



N;i HiTÍsla Árchcohf/iai iroi successivameritc dando, se isso fôr do 
agrado dos respeilaveis cavalliuiros acima iioin(3dos, noticias minucio- 
sas de lodos os objectos que o Miiseu fôr adquirindo; acompanhando 
essas noticias das respectivas estampas, quando convenha. 

Eis agora as inscrip(;r)cs que hoje lenho a archivar. 

1 — Dentro das antigas muralhas do caslello de Lamego (comp. 
0.'"78; ali. (),'";{«; ali. das lellras 0,"'075). 

G A M A I . A • !•■ i: C I T S I lU Cânula fecit sibi \ et | Rufino 

hVV et Vegeto fi[l{iis)']. 

rvfI^o i:t vegeto fi 

Gamala fez erigir este monu- 
mento para si e para seus filhos Rufino e Vegeto. 

2— Dentro (\.\?> antigas mnrallias do Caslello de Lamego (ali. O, '"OSS; 
larg. 0,"'U4;j; leltras de decadência alt. de U,'"07.) 

/^ISIRIANAV [p]isiria Nav{a?) | an{norum) XXVII, 

AN- XX Vil [D]utia Cilid) \ mater au{nonwi) LX \ 
(iVTIA • GIEI [h[ic)] s{itae) s{imt); s{it) v,obis} t{erra) 
MATER A L^ l{ei>is). \ ... 
5 /zS-S-S-V-T-L 

■ ' 'nOT/////// Pisiria Nava, de vinte e sete annos e Du- 

tia, mãe de Cilio, de sessenta annos, aqui 
estão sepultados. Seja-vos leve a terra. . . . 

1 /^ISIRIA, cf. Pisira (C. I. L., ii, 772) e Pisivus {C. I. L. ii, 418 [em 
Lamas de Moledo, pei"to de Lamego]. 790). nav, Nava? O cognome .Va- 
vm (e Naus) é conhecido {C. I.L., x, ()()7i. xu, I0í2, 1805, o946j; 
mas cf. Navia dm (C. I. L.. ii, 750, 2601, 2602, 2378). Não é admis- 
sivel aqui a leitura Pisiriana r{ixit) an(nos). 

3 — Dentro das antigas muralhas do caslello de Lamego (larg. 0,30; 
ali. 0.32 ; leltras grosseiras da decadência, mas muito profundas, va- 
riando de 0,045 a O, '"60). 

[Diiis)] M{ambits) S{acrtim). \ 
[Ob lijonorem \ [et pi]etatein \ 

ae Avitae \ a Avita 

f[ilia) /(adendum) c{iiravit). 





d ]VI S 


ob 


//() N R E M 


et 


PÍKTPlTEU 
AE avitae 






A AVITA FFG 



Gonsagração aos Deuses dos 
mortos. Em honra e veneração de ... .a Avita, fez erigir este 
monumento sua filha ... .a Avita. 



172 REVISTA ARCHEOLOGICA 

4 e O Talvez [Aureli]a AyiLi. 

4— Hentro das antigas muralhas do ciislello de Lamego (ali. 0,47; 
larg. 0,"'33; lellras do ni século de (r,03) : 

(^ A T V R O Catiiro \ et Virius \ Copori \ 

1-:TVIRIVS Cel(iitaui) J\ilt{) et Bo\ittia 

COPORI Meid... \ huteredes) ex t{es- 

CEL-FKTBO tamcnto) /[aciendimi) c)iira- 

5 VTIA MEID nint.) 

H KXTF ■ C 

Caturo e Virio, filhos de Coporo 

Celtitano, e Boutia Meid , herdeiros, por testamento cui- 
daram de erigir este monumento. 

3 COPORI (C. I. I., 11, 5657). 4 CELititani) (C. /. L., 2326, 
2221, 4967,17). 5 MEID... talvez Meidnniensis, de Caslello Meklunio 
{C. I. L. II, 2520); ou Meidama por Medama iC. I. L., ii, 911), de 
que se encontra o masculino Medamus [C. I. L., ii, 774, 2520, 2402); 
ei por e é vulgar nos nomes peninsulares. 

5 — Encontrada em Quinlella de Penude, subúrbios de Lamego (alt. 
I,"\32; larg. 0,'"45; lettras alias variando de 0,'"05 a 0,'"07): 

trcs 
figuras 
ÍM B V S~M Dibiis M[anibiís) \ Fla{vii) Par(a- 

F • PAR • P ii) P{ctrati) \ fi[lii) Ton{getami) \ 

FT^^T^ÕN ainnoriim) XVI. 

A - XVI 

Aos deuses manes de Flávio Parato, 
filho de Parato, de nação Tongetamo, lallecido na edade de 
i6 annos. 

1 DIBUS frequente. 2 PARiatus) (C. /. L. u, 4970,5), on ouiro nome 
de eunai começo. 3 'i'ON{getanws) (C. I. L., n,447) ou TO^^ig-olviseusis) 
{C, I. L, 11, 743). 

Não pôde liaver diivida na leitura, porque as lellras estão claríssi- 
mas. Quanto á interpretação que- proponho, é ella baseada em exem- 
plos. O P que termina a 2.* linha é naturalmente iniciai de Pít7\7/»5, ou 
do nome antes representado por par, vindo a ser o cognome do pae 
egual ao do filho. 

Borges de Figueuiedo 



REVISTA ARCIIEOLOGICA 173 



AS LACOBRIGAS DA LUSITÂNIA 



I 

Os nossos estudos sobre a geographia da Lusitânia, em g(3ral, 
acharn-se muito alrazados; pouca geule se occupa disso: e (juasi todos, 
que a lai assumpto se teem entregado, fizeram-iio tanto por alto e tão 
pouco maduramente, (]ne era melhor não terem locado na matéria; não 
a elucidaram, antes a confundiram. Mas no Alemtejo, outrora muito 
mais povoado (pie lioje e onde as devastações de bárbaros e mouros 
foram mais constantes, ainda essas investigações se adiam em maior 
atrazo. * 

Ora, porque eu tive precisão de estudar o que respeita a Lacobri- 
gas, aqui deixarei consignados os fruclos d'esse estudo, mostrando que 
houve três na Lusitânia, e não duas somente como teem escripto os 
antiquários portuguezes e liispanhoes. 



II 

Mas primeiro que tudo é necessário resolver uma pequena dúvida 
que se apresenta acerca do nome d"aquellas cidades, que se lè varia- 
damente — Lacobriga, Lancobriga e Langobrica. 

Esta diversa orthographia não importa diversos nomes, mas ura 
nome só. Provém tal diversidade principalmente de duas causas: l.''*a 
corrupta pronunciação das pessoas que informaram os geographos an- 
tigos a este respeito; i2.* serem umas geogra{)hias escriptas por lati- 
nos e outras por gregos. 

Presentemente encontramos quem chame a Estremoz — Eslremo- 
res. ás Alcáçovas — Alcacemas, etc; e a Villaviçosa chamam os hespa- 
nlioes Villacicma etc. 

O mesmo succedia nos antigos tempos; e d"alii vem o ler-se de 
vários modos o nome da gloriosa Évora Transtagana; ex.: Ebora, Ebu- 
ra, Aebura, Elbura e Libura; e outro tanto acontece com as mais ci- 
dades antigas. 

O lan de Lacobriga vem-Ihe do grego, onde o ly-y se pronuncia lan, 
como bem adverte o P. Flores '; e o ^'o por co é eííeito do barbaris- 
mo do povo. 



1 HiibiitM- — Not. archeol. de Port. 

2 Esp. Sag. T. XIV, p. 2áO. 



174 REVISTA ARCHEOLOGICA 



III 

Sobre a elymologia d'esla palavra Lacobriga ou Lacobrica, o eru- 
dilissimo P. Flores escreve o seguinte : 

«Lacobriga. .. es nombre auliguo de los espnnoles primitivos, se- 
guii inuestra la voz briga,* frequentissima eu lugares antiguos, que si- 
gnifica vila ó poblacion: y eu visla de que la niisuia voz suele entrar 
à composion con términos latinos, como Augusto brica, Caesarobrica, 
ele. podemos reconocer eu Lacobriga la etymologia de Lacus y briga; 
de suerte que por algun lago vecino recibiese el nombre: y esle fue 
conmum á otros logares por el mismo motivo. ^ 

Esta interpretação é muito razoável. Dava-se em mais de uma ci- 
dade a circumstancia de ter juncto de si um lago ou lagoa notável; 
e assim era natural que lhe chamassem villa ou cidade da lagoa. 

Quanto á mistura do latim com o céltico briga, provém isso, a meu 
ver, da creação de íiovas circumscripções administrativas em tempo 
dos romanos, adoptando estes a sua própria lingua (a latina) de mis- 
tura com a dos indígenas (celtas ou outros povos da Lusitânia) para 
designar a capital da nova comarca, ou toda ella no seu conjunclo de 
varias povoaçijes annexas a essa administração comarca. 



IV 

Agora respiguemos o que se tem escripto sobre Lacobrigas da 
Lusitânia. 

Uiz Rezende que Lacobriga é a mesma povoação a que chamam 
Lago>i no Algarve; e exalta a grandeza do seu nome: não deixa, po- 
rém, suppor que houve entre nós mais d'uma. ^ 

O padre Silveira escreve: <i Lacobriga. As selte estatuas que seu 
senado fez erigir a Ardiburo, sette vezes vencedor dos inimigos de 
Lacobriga, bem mostram o seu agradecimento: assim como nos fazem 
ver a barbaridade dos Vândalos, que as puzeram por terra.» Diz mais, 
que João de Barros, ou quem o fingiu, pije em nossas terras duas 
Lacobrigas: uma que é a sabida no Algarve; e outra em o Alemtejo, 
no Landroal. ^ 

O padre Castro dá-nos a ler: ^^ Lacobriga. Em tempo dos Romanos 
foi cidade mui famosa; e lembra delia Baptista Mantuano *, quando diz 



* Cf. Zeuss-Ebel, Gramm. celt. p. 86 e Diefenbaeh, Orig. Europ. p. 272.— B. dk F. 

1 Esp. Sarp-. ibiil. 

2 De autiiiuit. Lusit. L. 4, f. 186. 

3 Map. br. da Lusit. pag. 296 e 204. 
^ Isto é de liezende. 



REVISTA ARCHEOLOGICA 175 



que erigira o Senado desta povoarão selle eslaliias a Ardiboro, capi- 
tão insigne do imperador Valenliuiano, as qnaes prostaram os Vânda- 
los, quando a tomaram» ele. Em seguida opina que esta cidade é a 
Lagos do Algarve, lembrando logo que outros dizem ser. já a villa da 
Keu-a, já Abrantes, Alvòi-, Santiago de Cacém, ou o Landioal '. Em 
vez de asclarecer, coníunde. 

João Vasi'u, liispanliol, escrevendo em latim acerca das dioceses 
da llispanlia no tempo dos romanos e dos godos, escreve (e eu tradu- 
zo): nLacodrivense. Encontro duas Lacobrigas: uma no promontório sa- 
cro, cbamado agora Cabo de S. Viccnle, da qual ainda existem rninas 
e vestigios de ediíicios antigos perto da cidade de Lagos, num logar 
ou aldeia cbamada hoje a Lagoa: e outra que IMinio põe nos Yacceus 
e Antonino Pio a 45 millins de Palencia, na estrada por onde se vai 
de Asloiga a Tarragona. Qual destas porém tivesse a dignidade epis- 
copal, quem será capaz de o aílirmar em cousa de tanta antigui- 
dade?» - 

Reconhece portanto a existência de duas Lacobrigas somente, em 
toda a península, sendo uma no Algarve na villa da Lagoa, em vez 
de Lagos, cidade; e outra em llispanha, a qual, por estar fora da Lu- 
sitânia, deixamos de parte. 

O padre Henriíjue Florez escreve o seguinte: «Del iiombre de La- 
cobriga huvo algunos pueblos en Espana: por ahora solo hacen ai caso 
los que locan á Lusitânia, en que bailamos dos: uno en el Sacro Pro- 
montório. ..; otro mencionado por Ptolemeu ai oriente de Lisboa.» 
Depois de concordar com Vaseu sobre ler existido uma Lacobriga no 
Algarve e na villa da Lagoa, vacílla sobre designar o pouso da outra, 
que devia ser ao oriente de Lisboa, segundo Ptolemeu; e conclue por 
situál-a entre Coimbra e Gaia, intendendo que é a mesma Lacobriga 
do itinerário de Antonino Pio, situada entre Talabrica e Cale na via 
nulitar de Lisboa a liraga. ^ 

A hesitação de Florez é devida a estar preoccupado com a velha 
opinião de serem somente duas as Lacobrigas da Lusitânia. Em vez 
de reconhecer a existência de uma terceira, fundiu duas numa só. 



A verdade, porém, é que foram três as cidades ou povoações notá- 
veis d'aquelle nome entre nós; o que vou agora provar, levando isso 
até à certeza absoluta. 

i — Principiando pelo sul, achamos uma Lacobriga litloral no ter- 



1 Map.de Povt. T. 1, p 21. 

2 Chron. ver. memombil. Ilisp. T, I. c. 20. 

3 Esp. Sagr. Má. 



176 REVISTA ARCHEOLOGICA 

ritorio do Algarve, da qual faz menção Pomponio Mela, escriplor do 
II século, dizendo: «In sacro (promonlorio) Lacobriga et porlus Anni- 
balis» '.Da situação geograpiíica d"esta ninguém pode ter dúvidas ; 
pois licando ella no Promontório Sacro, e sendo este incontestavelmente 
o do Algarve i^ Ponta de Sagres), segue-se que no Algarve estava esta 
Lacobriga. Que ella tivesse o seu assento em Lagos, ou antes na villa 
da Lagoa, pouco importa nesta occasião: o que é preciso determinar 
é — que existia no Algarve, então pais dos Cuneos e Turdetanos. 

2. — Temos uma segunda Lacobriga no território hoje chamado 
Alemlejo,* mencionada por Cláudio Plolemeu, também escriptor do ii 
século. Elle colloca-a entre os Célticos ou Celtas, e é indubitável que 
o país clássico dos Celtas era o Alemtejo. 

Analysemos o que diz esle geograplio grego. Depois de traclar do 
Promontório sacro, passa ao território do moderno Alemtejo e escre- 
ve: (íOra os qtie habitam perlo do Promonlorio Sacro, são Turdetanos 
(de que já tinha falado) entre os qnaes ha na Lusitânia estas cidades: 

Pa.r J/ilia (Beja) 5 2u. 39. 

Júlia MiirUUs (Mertola) o. Vò. 38. 45. 

«iVy INTFAilOli d' estes habilain os Célticos, nos quaes ha na Lusi- 
tânia estas cidades : 

Langobrica 5. 45. 40. 45. 

Cepiana 5. 20. 40. 

"^ etc. 

Esta pois clarissimamente definida a situação dos povos célticos: 
não passavam de Mértola para o sul, isto é, não occupavam o Algar- 
ve; — não pousavam na costa occidental até Setúbal, que também era 
povoação de Turdetanos; — não passavam para o norte do Tejo, por- 
que alli habitavam os Lusitanos, como alfirma o mesmo Ptolemeu ^; 
— nem passavam ao oriente do Guadiana, porque alli era a Bélica, 
país clássico dos Turdetanos. Logo, todas as nove cidades ou comar- 
cas de Célticos, mencionados por Ptolemeu e de que Langobrica é a 
primeira, estavam situadas no perímetro que vou assignalar: — prínci- 
pie-se em Mértola, subindo pela margem direita do Guadiana até Elvas; 
e volva-se por Barbacena a Sousel, Évora, Alcáçovas, Torrão e Ou- 
rique. 



1 De situ orbis, L. 2. c. 6. 

* Ortelius moncioria esta "Lancol)ri},'a« na sua caria "llhpmme Votcris Descri- 
ptio, situaiulo-a jiiulo iJa iiiargiMii esquerda do Tejo acima de "(/lepiaua». — 15. iuí F. 

- Iiiteriora iioriim liahitaiit (^cltiiíi, iii (jiiilms liae iii Lnsilaiiia urbes etc — Euro- 
pae Tabula 2. — Trad. do Ulina ou Florez iia Ksp. Sagr. T. XIV. 

^ Quac vero super lios Icucut Lusitani etc. — Ibid. 



UKVISTA AKCIIEOLOGICA 177 

Qual fosse parliciilarriieiile o assento (resta i2.'' Lacobtiga, não o 
questionarei neste logar, ponjue não vem a propósito: só quero pro- 
var que existiu no Alto Alemtejo. 

:j. — A terceira Lacohriga era ao norte da Lusitânia, a qual princi- 
piava na ni;irg<Mn es(jnenla do Douro, cotno diz IMinio: e H(;av;í ell.i na 
\i.i inililar de Lisboa a Braga, entre Talabrica e Cale, onde habitavam 
os Turdnlos velhos, segundo Pomponio Mela *. 

Depois de Coimbra está: 

«Eminium X M. P. 

Talabrica XL » 

Langobrica XVIII » 

Calem XIII » 

Bracara XXXV » - 

Temos pois três Lacobrigas, distinctas em numero e diíTerentes na 
situação geographica e na gente que as povoava: ai.* juncto do Pro- 
montório Sacro ou no Algaive, habitada por Cuneos; a 2.^ no interior 
do Alemtejo, ou entre Tejo e Guadiana, habitada por Célticos; e a 3.* 
no Douro, povoada por Turdnlos Velhos. Sendo pois diversas em Joga- 
res e pessoas, não pode uma confundir-se com a outra. 

Portanto parece-me que fica já plenamente demonstrada a existên- 
cia de três Lacobrigas na Lusitânia, durante os primeiros séculos da 
Kra Chrislã. 

VI 

Restam ainda questões secundarias a resolver: i.* — sobre o logar, 
onde precisamente floresceu cada uma d'essas três cidades ou pagos ^, 
e quaes as povoações hodiernas que estão explorando os seus terrenos 
e possuindo as suas ruinas; :2.*' sobre qual d'ellas era a cidade episco- 
pal, cujos prelados figuravam nalguns concilies de Toledo no século vn. 

Villa Viçosa, 7 de agosto de 1888. 

P.® Joaquim J. da R. Espanca. 



1 111 eoque flexu (entre o Mondego e o Douro) sunt Turduli veteres, Turdulorum- 
que oppida — L. 3. c, 1. 

.2 Vet. Romanor. Itin. sive Antou. Pii. 

3 A tio Alemtejo era cidade com certeza, e provavelnieiUe a do Algarve .A do 
Douro, não sei. 

Rev. Arch., n.o 12 — Dezembro, i888. 12 



178 REVISTA ARCHEOLOGICA 

DA ORIGEM DO ESTYLO GOTHICO * 
(A propósito duma conferencia do sr. Dieidafoij) 

Ha cerca de meio século já que a interessante questão dasorigens 
do eslylo gothico se discute, e nno parece que esteja ainda em ter- 
mos de ser resolvida definitivamente. Succede isto, embora dia a dia 
progrida o conhecimento dos dados que podem resolvel-a; dados que 
se procuram assim no estudo dos monumentos nacionaes couio no 
das arcliitecturas antiga e estrangeira. 

Sendo o eslylo gothico, sem dúvida, uma evolução do eslylo ro- 
mano, o interesse deste estudo está na classificação e no exame dos 
edifícios do periodo roman. O fallecido J. Quicherat a isso se havia 
applicado com uma grande auctoridade por trabalhos de que íiós ain- 
da não ha muito tempo nos occnpámos ^ Este illustre erudito fez es- 
cola, e muitos trabalhadores distinctos se dedicam hoje tanto á ana- 
lyse como á synthese dos estylos que outrora vigoraram no espaço e 
no tempo. O nosso erudito collaborador Mr. J. Berthelé, no nosso fas- 
cículo de janeiro, se distingue entre elles ao estabelecer as intimas 
relações que existem entre os edifícios de cúpulas octogonaes do 
Poitou com a egreja de Puy-en-Velay. 

Já tivemos occasião de indicar, e os leitores d'elles certo s^ lem- 
brarão, vários trabalhos interessantes nesta ordem de ideias. Tal é o 
estudo do fallecido Ruprich-Robert sobre a ai'chiteclura roman nor- 
manda e ingltíza. onde elle desinvolve notavelmente uma bella theoria 
em virtude da qual se deveria ver no capitel espherico cubico uma 
reminiscência das egrejas de madeira da Scandinavia. ^ 

Mais recentemente fizemos conhecer as investigações e as theses 
do sr. I.efèvre Pontalis sobre as egrej.ís romans do sul da Fiança, 
e sobre as dos departamentos de Aisne e de Oise, nas quaes a posi- 
ção dos campanários tem uma grande importância. ^ 

A classificação das escolas romans foi o objecto d'uma notável 
discussão, no Congresso da Sorbonna de 1880. entre o ultimo ar- 
clieologo mencionado e os Srs. Anthyme Saint-Paul, o abbade iMiiller, 
de Lasteyrie, B. de Kersers, etc. ^ 



• Com a devida vpiiia transcrevo da Reme (UVAri Chrêlien o^lc intprossantis- 
sinio artigo deviílo á niii-lorisada penna do disliiicto arclioologo o sr. t^iis (^locjuet. 
O original ('. aciMiiiiaiili.ido de três tjraviiras: Zimbório de Aix-la-Chapelle, Palácio de 
T(ig-Eivan e Karcj" nhlxiriul de Tonnnts. — li. de V. 

í Mclanqcs ilArrliroloiiie t, 11.— lipruc de Varfchrélicn, 18SG, p. 407. 

2 V. Ucv. de rAii. rinrt., anuo t88."i, p. H5, (' MéI. d'iirrh.. \. III, p. 157. 

3 V. Uev. de rArI chrét. anno 1888. p. llí).--1886, p. 433 —1887, p. 119. 
'> V. Ihid., 1886, p. 551. 



UKVISTA ARCHEOLOGICA í 7Í) 

Destas eruditas discussões não pode deixar de resultar cedo ou 
tarde a luz, que nos ha de esclarecer sobre os caracteres esseiiciaes 
do eslylo ioni;in, e sol)re o ^'cnesis do eslylo gotlmo. 

QtiiMito a esl«3 ulliuio, niiiilo lia que diveisns p.iiscs dispulaíii, mas 
coni pouco resulladd, a sua paleruidade á lllia-dc-rr.-uiça. Oulroia 
Wiehekuig, Slieglilz, Rushiiig, Fiorillo, F. de IJaumer, S. Brisserée, 
a reivindicavam para a Allemaniia K Ainda ha pouco, démos conta 
d'um livro um tanto extravagante é verdade, mas trabalhoso e con- 
sciencioso, do sr. J. F. (>ols - que allegava, para o tirará França em 
proveito (la Inglaleria, i azoes mais serias que as dadas muito ante- 
riormente por Henlham, Milner e J. Caster. Hoje é um povo sepul- 
tado ha dois mil ânuos nas remotas regiões do Iran que a reivindica, 
pela bocca do sr. Dieuhifoy, primeiro ingenheiro de [)()ntes e calça- 
das, discipnlo e collaborailor eminente de Viollet-le-Duc. (jiie, o anuo 
passado, fez sobre este assumjito, na Sociedade central de archite- 
ctura de Paris, uma notável conferencia (jm; merece prender a allen- 
ção d os leitores. 

A these não é do todo nova, mas adquire por suas eruditas inves- 
tigações uma consistência maior. Já Lenormant havia opinado, ha 
quasi cincoeiíta annos. que os mais antigos monumentos de «ogivas» 
eram edifícios persas ^. xMas elle só tratava da fóima geométrica do 
arcoquebrado, chamado impropriamente ogiva. Sabe-se hoje que esta 
especialidade architectonica se affasta muito de ser o característico 
do estylo gothico. Na realidade, o contingente dado pelos povos asiá- 
ticos á arte europèa conlinha elementos mais importantes que a linha 
lanceolada. É isto que o sr. Dienlafoy ha iracliiílo de demonstrar. 

Menciona j)rimeiro que a inllueiicia oriental muito cedo se tornou 
conhecida nas Galhas. Élla ahi peneirou directamente, como se sabe, 
antes da queda do império romano, como o provam as inscripções 
phenicias descobei tas nas costas francezas do Medileiraneo assim como 
a abobada do tem[)lo de Diana em Nimes. Depois, uma das formas 
mais características do arte oriental, o eslylo byzanlino, que tinha 
creado Saint-Vital de Ravenna e devia levantar San-lMaicos de Veneza 
(097), chegou ao Occidente, fascinando poderosamente as suas popu- 
lações semi-barbaras. As tapessarias e as jóias dos bazares de By/an- 
cio e de Clesiphonia deram a sua feição parlinilar á aile gaoleza. 
Esta extraordinária confusão no estylo romano se mostra, como nota 
o sr. Dieulafoy, em Marselha e em Chàlons, rareando ao passo ipie 
se sobe o Rhodano e o Saòne. Os Venezianos, que linh:im fundado 
unia feitoria em Limoges, e conduziam suas caravanas de Aigues- 



' V. V. Hatissier. Histnire de rart mourniieutal. p. 512. 

2 La fili(ition (jènéaloijique de toules les érolfs gotliiqucs. V. fíec. de /'.t»7 chrél.. 
t884 p. i>iy 

^ V. a sua carta au sr. de Caumont. Reiue normande. 18'il. 



180 REVISTA ARCHEOLOGICA 

Mortes até esta colónia, semearam o sen estylo com os seus produ- 
ctos na Aquitania, na Normandia e na Bretanha. 

Posteriormente o fanatismo iconoclasta de Leão o Isaurio fez com 
que para a Gallia emigrassem alguns artistas, que foram accolhidos 
por (iarlos-Magno; os quaes colonisaram o b^ste e as provincias do 
Ulieno, e creararn o centro burguinhão. O apogeu da invasão da arte 
byzaulina foi determinado pela construcção duma serie de egrejas 
nas margens do Rheuo, no Angoumois. no Anjou e no Périgord. e 
cujo typo é Saint-Front de Périgueiix. A acção do oriente, até llOO, 
foi principalmente exercida por Byzanico e Veneza; manifesta se em 
cúpulas assentes sol)re abobadas esphericas que em quatro pontos 
vêem apoiar-se nos pés direitos, abobadas semi-cylindricas, arcos en- 
cimando columnas, e uma decoração superficial que não faz corpo 
com o systema de construcção. 

Mas este systema não poude accliinar-se no solo francez, e des- 
appareceu sem mais se desinvQlver. Nada teve elle com os brilhan- 
tes progressos d'onde dentro em pouco dimanaria a nossa architectu- 
ra. Nota-se que, pelo meiado do século duodécimo, uma completa re- 
volução se [)ioduziu na arte de construir. Ás naves estreitas e som- 
brias succederam grandes naves espaçosas d'uma suprema ousadia 
de concepção; aos muros massiços e pesados, um systema aerio de 
nervuras elásticas servindo de apoio a leves enchimentos. Dentro 
de meio século, desde 1200 até 1230. a França cobre se de cathe- 
draes edificadas segundo princípios inteiramente novos. Qne princí- 
pios são esses, e quaes são as causas que os determinaram ? 

Desde o século duodécimo que prevaleceia o emprego da aboba- 
da de arestas nervada, ao passo que começava a usar-se o arco agu- 
do. Esta abobada de arco de ogiva é a essência do estylo roman; o 
arco quebrado precede o estylo gothico e não o caracterisa. 

A essência deste consiste principalmente no desinvolvimento do 
systema do cruzamento de ogivas, na ideia fecunda de compor o lan- 
çado das abobadas de maneira que se neutralisem ou que se fii mem 
num systema de contrafortes inertes e de botaréos elásticos, e só 
deixem ás paredes as funcções de simples revestimentos. É nisso que 
está a chave do systema (}ue tão depressa se desinvolveu com uma 
lógica admirável. 

É isto que ao principio se não comprehendeu; e foi considerando 
apenas a fòrmi do arco ponteagudo que, seguidamente á questão dos 
românticos e dos clássicos, se chegou a attribuir ao Oriente a origem 
da nave golhica, porque as curvas quebradas, erroneamente conside- 
radas como o symbolo da nova archilectura, pareciam ter sido trazi- 
das pelas cruzadas. A pista era boa, mas a explicação assentava em 
dados falsos. 

Unj estudo mais completo dos monumentos mostrou depois ()ue 
a arcada [)onteaguda era uma antiga invenção dos architectos romaiis. 



REVISTA ABCHEOLOGICA 181 



;i(lo|)la(l;i pnr causa das suas qualidades estáticas e geométricas. Assim 
se desmuroiiava a seductura llieoria das curvas laucioladas, que ele- 
vavam a alma para e céo. Instruídos uislo, e abraçando ardentemeu- 
te a exageração contraria, os arclieologos concluíram então que, mes- 
mo na epoclia das cruzadas, o Oriente cessara de influir na arte Oc- 
cidental, o que fez com (]ue elles considerassem a nave e a at)oljada 
gotliica como a transformação natural da nave romau, devida aos 
reflectidos esforços dos mestres das obras para cobrir de pedra vas- 
tos espaços. Com o Hm de subtrair-se ao que esta theoria tinha de 
paradoxal, Viollet-!e-Duc ad()[)lou a sua notável e bem conhecida these, 
tão própria para lisonjear os prejuízos modernos e para tornar po- 
pulares os seus trabalhos ; apresentou o estylo gothico como um 
phenomeno espontâneo e nacional, sem [)recedentes estrangeiros ou 
locaes, devido à passagem da architectura das mãos dos clérigos e 
monges para as dos leigos e dos fra-mações. Esta lenda, mais poli- 
tica do que scientifica. foi muito preconisada. O sr. Anthymo Saint- 
Paul (leu-lhe um profundo golpe no seu excellente estudo sobre 
Viollet le-Duc et sofi sf/stème (Vnrchiteclure^ mas será diíTicil o desarrai- 
gal-a; o sr. Dienlafoy contribuirá para isso também. 

Na occasião em que este vredo architectural começava a ser pro- 
fessado, os monumentos da Syria central não estavam ainda descri- 
ptos, nem suspeitas havia das mesquitas da Pérsia anteriores ás cru- 
zadas. O primeiro golpe dado na hypolhese da origem nacional da 
architectura gothica é devido aos trabalhos do sr. de Vogue acerca 
da basílica syria de Chagga. Ueconheceu-se neste edifício do sexto 
século o arco isolando-se da abobada e suntentando o tecto, e os ar- 
cos duplos da nave central contraniurados pelos das collateraes^ isto 
é, um systema que contem o gérmen da innovação ogival. 

O sr. Dieulafoy acaba de fundamentur esta theoria em bases fir- 
mes, fazendo conhecer melhor a architectura persa e sassanida, e 
provando a existência duma arte tradicional e secular no Oriente, a 
qual se baseava, nuiilo antes de existir a basílica roman. no empre- 
po da abobada e nos processos elementares de construcção que cara- 
cterisam a arte gothica: contraforte com reintrancias. sobre os quaes 
vêem firmar-se as abobadas separadas dos arcos dos pilares e das ner- 
vuras dos arcos parallelos ao eixo da nave, galerias ou espaços oblon- 
gos abertos sobre o arqueado das abobadas, etc. Tal é a architectura 
que se desinvolveu ha mais de dois mil annos nas planuras do Iran, e 
que tinha, antes das cruzadas, influído nas costas occidentaes da Asia- 
Menor, da Syria e da Judèa, collocando as suas abobadas sobre as 
portas das cidades, dos bazares, dos palácios, dos caravançarás e das 
mesquitas. < 

Na epoclia da guerra santa, os christãos do occidente desde sécu- 
los eram tributários da arte asiática e estavam preparados para assi- 
militar os princípios delia; nesse mesmo tempo o espirito d'elles 



182 REVISTA ARCHEOLOGICA 

dirigiase á solucção dos problemas inherentes à cobertura das gran- 
des naves. O contacto da Europa com o Oriente por meio das cru- 
zadas produziu, segundo a opinião do conferente, uma evolução nova 
da arclntectura roman peia substituição da influencia persa directa, 
à influencia byzantina que fora até então o seu fio conduclor. Teriam ' 
sido pois os cruzados que haveriam trazido da Terra-Santa a cliave 
d'essa admirável archiiectura, que só elles eram capazes de desin- 
volver em toda a sua belleza. Assim, como premio do mais cavalhei- 
resco de seus feitos, a filha mais velha da Egreja haveria recebido 
em recompensa a arte mais nacional e mais cummovenle que tem flo- 
rescido na terra; a França por ter Ifio valerosamonte contribuído para 
a libertação do sepulchro de Jesus-Christo. teria sido recompensada 
com esta coroa de calhedraes incomparáveis, imagens explendidas 
da Jerusalém celeste. 

É esta a conclusão magnifica que se tira da these do sr. Dien- 
lafoy. «Eu pretendo, diz elle, que a archiiectura franceza do xu° e do 
xiii° século leria sido inteiramente differeiíle, se a Pérsia não houvesse 
existido e se a christandade não tivesse caminhado á conquista do tu- 
mulo de Christo... As Galhas, que tinham conhecido a cúpula by- 
zantina desde o x*' século, isto é, a cúpula persa transformada e aper- 
feiçoada pelos Gregos, voltaram depois das cruzadas, quer dizer, no 
xii° século, a empregos muito mais archaicos e adoptaram as formas 
próprias da Pérsia. Citarei particularmente as cúpulas de Notre-Dame- 
des-Dons, de Worms, de Loche, etc. . .» 

E o erudito ingenheiro accrescenla. «Longe de mim o pensamen- 
ts de amesquinhar a gloria dos mestres de nossas obras. A invenção 
nunca é espontânea e pessoal, mas uma longa integração de ideias. 

«A honra d'um povo ou d'uma corporação está em fixar as ideias 
vagas, em dar-lhes corpo; a gloria dos nossos mestres da edade me- 
dia consiste em terem adaptado a uma forma de edificio imposta pela 
relegião e pelo uso um programma de construcção excellente mas 
alheio. 

«D'esta fortuita combinação nasceu um edificio novo perfeitamente 
coordenado no conjunclo e nas particularidades. d'uma rara perfeição, 
onde se manifestou a transcendente personalidade dos artistas fran- 
cezes.» 

* 

]{esta-nos dar a conhecer summariamente os novos dados sobre 
a archiiectura persa, que a sciencia archeologica deve ás profundas 
investigações do auctor do trabalho intitulado Art antique de la Pcrsc. 

As arvores só crescem no solo pedregoso da Pérsia á custa d'uma 
laboriosa cultura; rigorosos invernos succedendo a ardentes estios 
forçaram os primeiros habitantes da região a abrigar-se sob espes- 
sos tectos. A abobada, por falta de madeiras, teve alli desde a mais 



REVISTA AUCHEOLOGICA 183 

remota antiguidade ingenhosas applicações. Encontram-se cupnlas de 
abobada pendente reunindo seus encostes em contrafortes interiores 
no casiello achemenida de Firns-Âboet. Os edifícios de abobadas ner- 
vadas eram frequentes antes do vi° século, epocba a que pertence o 
único monumento que as conserva, o palácio de Tag Eivan situado a 60 
kilomeiros a oeste' de Susa. Nelle se vé uma vasta nave dividida em 
aberturas alongadas por arcos de pilares encmiados de lympanos, que 
supportam abobadas perpendiculares ao eixo da nave. Estas termi- 
nam, nas duas extremidades, em arcadas de nervuras sob as quaes 
ha aberturas arqueadas. 

Arcaluras de abobadas, arcos nervados, ossatura rígida, abobadas 
deformes, decomposição de abobadas e composição de encostes, vãos 
alongados, contrafortes de redenles, tudo isso se encontra nesse 
palácio. 

Notam-se os princípios fundamenlaes do mesmo systema na pis- 
cina de Betbsaida, construída em Jerusalém antes da nossa era, e no 
Klian-Oktama de Bagdad, um dos mais bellos monumentos peisas 
do xi*^ século. Todos os monumentos mais modernos teem abobadas 
nervadas. O sr. Dieiílafoy cita, como monumentos principaes d'esla 
cathegoria. alem dos dois precedentes, os palácios de Sarvistan (iv*' e 
v° séculos), de Hatra, de Babylonia, de Clesiplionia, de Machita, di- 
versas pontes sassanidas, a mesquita Djuma de Chiraz (vni° século), 
o Khan-Okhtama, as mesquitas de Djuma de Chuster, Ispahan, Vera- 
mira (x°, xi" e xn° séculos), etc. v 

Sob a influencia do génio claro e synlhetico dos Gregos, a cúpu- 
la de abobada pendente toma uma forma simples, que, embora con- 
serve a sua origem persa, se torna o dislinctivo das artes byzantina 
e veneziana. 

A influencia iraniana exerceu-se até á tomada de Constantinopla, 
e durante mil annos se estendeu da Hispanha á Syria. Segundo o sr. 
Dieulafoy, da conquista da Palestina e da Syria pelos successores de 
Mahomet resultou a vulgarisação, nessas regiões, do uso da cúpula 
de abobada pendente, da abobada cylindrica, da abobada de arestas 
levantada, e de abobadas nervadas imitando o prololypo iraniano. 
Foi dum tal meio que as cruzadas depois tomaram os elementos 
d'uma renovação completa da arte occidental. 

Todavia, muito antes das cruzadas, o systema persa havia pene- 
trado na Europa, em toda a Burgonha, no próprio centro das provín- 
cias colonisadas pelos successores dos artistas expulsos de Byzancio. 
Saint-Philibert de Tournus (Saône e Loire), cuja importância o sr. 
Dieulafoy primeiro que ninguém indicou, foi construído de 981 a 
1019. Este edificio apresenta uma grandíssima analogia com o palá- 
cio de Tag-Eivan. 

Para explicar essa anologia, o nosso auctor presume que, entre 
as viclimas de Leão o Isaurio, havia alguns arcbitectos persas chris- 



184 REVISTA AliCHEOLOGICA 

lãos, e que foi um monge pertencente a algum convento depositário 
de seus segredos, quem construiu a antiga egreja abbacial de 
Tournus. 

L. Cloquet. 



mi8Cellanp:a 

I — Tessera curiosa. (Est. X. n.° l) 

Esta tessera, evidentemente de origem franceza, tem no anverso: 
coroa senhorial ladeada de dois pontos em forma de llorão; e no re- 
verso, unia cruz cantonada de coroas e flores de lis. A legenda, egual 
no anverso e reverso, diz: 

* MARIA * MATER * MVNERE 

II — Real preto de D. Duarte, cunhado no Porto. 

A pag. i 18 da Revista Archeologica e Histórica do anno de 1887, 
diz-se não serem conhecidos reaes-pretos de D. Duarte, cunhados no 
Porto. 

O sr. J. T. Lança, de B.J.i, commanicou-me o calco d'nm real-preto 
daguelle monarcha, em cujo campo á es(]uerda do E coroado se vê 
perfeitamente o P inicial da casa monetária do Porto. Tanto a inscri- 
pção do anverso como a do reverso, estão muito damniílcadas. 

III — Annel antigo com inscripção (Est. X n.° 2) 

O dislincto ingenheiro o sr. João Anastácio de (Carvalho possue um 
precioso annel enconiradf) em 1887 na praia da Figueira da Foz, 
numa denudação produzida pelas aguas do mar. 

O.annel, que é doiro, tem re|)resentada no sinete a figura indi- 
cada na estampa com a lettra a. Na parte exterior do arco um tanto 
gaslo, vêem se algumas lettras d'uma inscripção b: e na parle inter- 
na outra inscripção <;, em caracteres perfeitamente conservados. 

A explicação do symbolo e a interpretação das inscripções d'este 
annel devem aguçar a cui'iosidade dos eruditos, de quem desejo e 
espero conliecer as opiniões, que serão publicadas na Revista. 

B. Dií F. 



RK VISTA ARCHEOLOGICA IHfi 



BIBLIOGKAPIIIA 

DiK Bii.D WKHKr. ni:s Giiaumals ui:h Jn.ir.H in Saint-Rkmv. Vou 
E. Unljiier (SoiKler-Aljdruck aus ciem «Jalirlmck úa^, Kaiserlicli Deiil- 
stlieii Archaologisclien Instiluls», Band III, 1S8H. Ersles Helll). iii 4." 
com est. 

Ninuiiciii (]ii(! foiílicra, pouco (|ue scj;i, a lii^^toria da arcli('olii;.'ia peninsular, pô- 
de i;,'norai' os rchivantissiiiios sem iros prestados pelo illustie iirotVssor de Berlim, 
o sr. Eniilio ULihntT, ás aiili^'uidades em geral e t!m especial á e[)jgra[)liia. Se, po- 
rém, o reino de liíspanlia llie deve muilu, Porfufral llie é ainda iriais devedor. EfíV- 
ctivam^^nte, e em particular sob o ponto de vista epigraptiico, ninguém tinliamos 
tido (|ue com inteira competência houvesse tratadodos numerosos monumentos. assim 
latinos como cliristãos, que existem ou existiram no nosso pais. Rezende recolhera 
valias inscriprães, rnas não soid)era tirar d'ellas partido algum scientilico; e, hoinein 
pouco escrn[)uloso. não se pejou de falsificar algumas epigraphes. Depois d'elle, ou- 
tros antiíjuanos (imudores trataram de reunir inscrij)^"ões. ainda com menos felicida- 
de; até que Levy .Maria Jordão (Visconde de Paiva .Manso ) começou a publicar uma 
collecção de inscripções romanas do território pnrtiiguez. obra de (pie saiu felizmente 
só o primeiro voIuiiih. poisque nelle se revela t^m cada linha absoluta falta de cri- 
tica, coiuplnta inaptidão do coll»^ccionador para aqiielle trabalho, a par d'uma des- 
medida philauíia. Eis o que tinliamos. quando veiu a Portugal o sr. Hlibner a reu- 
nir os materiaes para a composição do segundo volume do Corpus Jnscriptioiínm 
íjfitinnnim, publicado pela Academia de Berlim. E pois a este sábio prefessor que 
nós devemos a reseiição critica dos monumentos epigraphicos do nosso pais. 

Este iiidefesso trabalhador publicou tia pouco no Jdlirhiick des Kaiserlich Detit- 
schen Instituis, um estudo primoroso, como todos os que saem da sua illustradissi- 
nia penna, sobre As Esculplunis do Mouiimento dos Julios em Saint-Rpuu/. 

O sábio archeoiogo transcreve a descripção minuciosa do monumento feita pelo 
sr. Artliur Schneitlers, e acompaniia-a de varias observações suas próprias, todas 
tão justas, tão profundas e tão concludentf^s que fazem considerar o seu estudo como 
a ultima palavra dieta solire um objecto tão inti ressaiite. Quem pois quizer conlie- 
cer a significação absoluta do célebre monumento, tem de recorrer ao precioso tra- 
balho do sábio professor da Universidade de Berlim 



DiE Ehgebnisse dkh Ausgrabungen zu Pergamon. Drilter vorláu- 
figer HericÍJl 1883-1880 von C. Hiimann, K. Bohn. M. Frankel. Mit 
zwei Tafein. Berlin, G. Gt'Ole'sclie Yetiagsbucliliandiutig, 1888. — 
in 4.° 

Uma das explorações mais importantes e melhor executadas ultimamente, é sem 
contestação alguma, a da antiga Pergamo da Myssia. 

Três exp'>dições aib-mãs successivamente alli foram, ellectuando notáveis desco- 
bertas naquellas famosis ruinas. A primeira expedição executou .seus trabalhos des- 
de 9 de setembro lie 1n78 até 1 de abril de 1880; a segunda, desde 21 de agosto de 
188U ate dezembro de 1881: a tercei a de 18 de abril de 188'{ a lo de dezembro de 
1886. 

A ultima sobretudo, feita também sob os auspicios do governo, e debaixo da di- 



186 REVISTA AKCHEOLOGICA 



recção do sábio Direptor do Imperial In-tiliito Archeologico Geriiianico, o sr. A. Cun- 
ze, deu os mais proíiciios resultados. 

O impuitanlissinio relatório das excavai'õos e trabalhos dos exploradores consta 
de ti es [lartes. 

A priíiirira consiste no extremamente interessante diário da expedição excellen- 
temente elaborado pelo sr. Cari lliimann, onde sé vê descripta a ordem dos traba- 
Itios, e quaes os serviços (pie a sciencia deve a todos os disliiictns membros da com- 
missão. entre os (]naes tem um logar proeminente o illustre sr. Conze, cujo dia nata- 
lício, 10 de dezembto, foi escoliiido [)ara o encerramento dos trabalhos e despedida 
dos expedicionários. 

Na se^ninda parle, o sr. Ricardo íiohn trata com a sua reconhecida proficiência 
da parte architeclonica de leilos os monumentos, e nomeadamente do Trajaneum e 
do Sanctuario de Alhene Poliade, (jiie estão na parte mais elevada da cidadella, do 
Altar {\*' Zeus Soter, da praça, do próximo templo de Dionysos. e do amplo Thoalro 
com o seu monumental terrasso. 

sr. Max Franckel discorre erudilamenfe na tei'ceira pai'le da obra sobre a epi- 
grapliia de Perj^Muio, transcrevendo varias inscripeues gregas de dillerenles epochas, 
altamenteiite interessantes, algumas das quaes ministram dados novos de grande al- 
cance, e outras conlirmam presumpções que havia, ou noções que era mister definir 
bem . 

Este relatório dos Resultados das Escavações de Pergamo é, sob todos os pontos 
de vista, uma das mais notáveis publicações archeologicas que neste aimo teem appa- 
recido na Allemanha. 

B. DE F. 

PERIÓDICOS 

{As publicações, com cuja troca se honra a Riívista Archeologica. são mencionados 

pela ordem da recepção) 

C0MML1MCAÇÕI:S DA COMMISSÃO DOS ThAHALHOS GeOIOGICOS DE PORTU- 
GAL. T(ini() r(com 9 esl.inipas). 1.S83 1887. 

A Ccimumão dos Trabalhos Geológicos de Portugal, sábinmeiítfi di- 
ligida pelo illustre geólogo, o sr. J. F. Nery Delgado, publica além 
de imnierosas meinotias de extiaoidinaiio mérito, umas commumca- 
ções de que já saiu o 1." Víjluine contendo mui las e imporlaiiles noti- 
cias sobre a geologia do nosso país. Neste volume avultam, enire ou- 
tros artigos de abalis'ulos liomens de sciencia, trabalhos do distmclis- 
simo Professor, o sr. P. Choffat. 

Eis o summario do Tomo I: 

1 Considerações acerca dos estudos geológicos em Portíigal, por J. F. N. Delgado — 
11 Anomalias ópticas de cnjstaes tessei-aes, por A. Ren-Saude — 111 De rinipossihitité 
de camprendre le Cidluvien dauf. te jura ssi que svpérieur, par P. Chofiat — IV lístiido 
petrographico das ophiles e tesclieiiites de Portugal, \wr J. Macplierson — V Nouvelles 
données snr les rallers ti])lni)iiijues et sur les érvplions d ojdiiteet de tescliénite en Portu- 
gal, par l*. (vlidllat — VI llap/iart des membres poiliigais des sous commissions his- 
pano lusitaiiii unes en viie dii (Itinijres géiilogi(|ue inleiíiational devanl avoir lieu à 
Rouifigne en 1881 —VII liéponse de la sous-commissíttn porlugaise à la circulairede 
M. Caixllini. President de la Commission inlernatidnale de n(imenc'ature géologi()ue. 
— \lll Happort de la sous-comiiiission porlugaise de nomenclalure, en viie du Con- 
grès géoldgique intei^ialiona! devaiit avoir lieu á Perliii en 1884. — IX Age du gru- 
nite de Cintra, par P. (^liíifTal. — Snr la pluce ã assignrr an]Callavien. par P. (>liof- 
fat. — Bibliographia. — XI Ostvald lleer e a flora fóssil portugueza, por W. de Li- 



REVISTA ARCHEOLOGICA 187 

ma. — XII Trarps d'nctinus cflnamires dnns In Serra (tExtrelIa, par F. A. fie Vascon- 
celtos. — XIII Troisirni/' scsxion du Caiigrèx oralofiitiiir Intenidtiowd, par P. (^Imirat. 
— XI_V Ui-rlirrrhes snr la trmiius Rrvonddiícs nu siid du SíuIo, par I*. Ctiuirit. — 
XV Elude dex raches érniitirrx reeueilUes par M. Choffut dtim les alJleiíreinenís secon- 
daires nu sud du Siido, par J. Macpliersoii. — UifAiournphid 



Hkvuk AhCHKoi.oGiQUK, publiée sons la diieclion de MM. Alex. 
Berlraiid el G. Perrot. — Troisièine Série. Tome XII, Juillel-Aoúl 
et Septembre-Oclobre 1888. 

Niinieri) Jiiillet- Aoút — Tiixlo: — (1 Mauss. Nole sur In méthnde emplnyée pour 
tracer le plan de In tnosquée d^Oiunr et de In rotoiíde du Snint-Sépulchre, à Jerusalém. 

— Banin Liidovic de Vaux, Mémoire relntifaux fouilles enlrepriscs parles li. l\ Do- 
minicains. duns leur domaine de Saint-Elienne. prés In porte de Dninns. à Jerusalém. 

— II. crArljois (le Jiibairivillf, Ln sourre du Dannbe chez líerodote. — Amiaiid. Sir- 
pourla. dnprés (es inso-ipíions de la collerliun Sarzec. — A. Miitr'*, Note sur roriyiiie 
de certaines formes de iépée de bronze. — Ediíiont le Blarit, Quehpies notes d'arcltá()lo- 
(}ie sur la checelure féminine. — Franz Cuiiiont, Le culte de Mtlhrn à Edesse. — liulle- 
tin mensuel de V Academia des inscr/jitions. — Société nntionnle des Anliqunires de Fran- 
ce. — Nouoelles archéoloqiqties et eorrespondenre. — Bibliograpliie. 

Estampas: — xvii Plnn de Véglise du S-iint-Scpuklire en 1596. d'aprés Bernardino 
Amico. — XVIII Intérieur de la rolonde du Snint-Sepidclire en J6'ífO. daprès Van Bruipi. 
peintre hoUandais. — xix Inscription coufique srulptée sur la charpente du dome de la 
mosquée d' Ornar, á Jerusalém. — xx Compnraison des épées de bronze avec Vurme du 
squale scie. — xxi Bas-rrlief dêcouvert á Toul en 1700. 

Numero Septombre -Octohre: — H. dArliois de Juhainville, De 1'emploi des bijotix 
et de Varqenterie comme prix d'achat en Irlande. avanl l introductio)i du monnnyncje. — 
Frantz Ciimont. I^e Taurobole et le culte d' Annhita. — Al hert Lebògue, £'<//f/í's s?/r 
qiielques inscriplions latines trouvées dans la Narbonnaise — Hobert Mnwat, L' atelier 
du statuaire M!/risiuus,á Césarée de Mauritanie (Cherchell). — H. de la BlaiTíbòre, Les 
inscriplions du Djebel Toumiat. — A. Uelaltre, Fouilles sur quelques carliets et nnneaux 
de 1'époque mérorintjienne (suite). = J;icques Guiliemaud. Les insrriptions Gauloises. — 
P:'UÍ .Moiieeaux. Fustes éponymiques de ta ligue théssnlienne. =^ Paliu do Lessert, De la 
formule Translata de sordentibus locis, trouvée sur les mouuments de CliercItell.^^Paxú 
Tannery, Sur les abréviations dans les mnnusrrits grecs. = Saloinoii Keiriach, Clironi- 
que de rOrient. — Bulletin mensuelle de VAcadémie des Inscriplions. = Sociéte nationale 
des Antiquaires de Frnnce. — Nouvelles archéologiques el eorrespondenre. — Bibliogrn- 
phie. =H. Cagnat, Revue des pub ications épipraphiques rela tires a rnntiquité romaine 



AcADÉMiK DKS Inscriptions ET Bellíis Lettres. Comptes rendus 
des séances de raiinée 1888. Qiiatrième Serie, Tome xvi. Bulletin de 
Mai-Juin. 

Séances de Mai -Juin. — í^ominunications : xx Leííre de M. Edm le Blant (so- 
bre os resultados das escavações feilns na egreja dos Santos mnrtyres João e Paulo, no 
Célius.) XXI Letlre de M. (l.-Cli. (lasati ísobre as antiguidades etruscas do Oriielo). 
XXII Discours pronnnrés par M. M. de la Blanchère.Wallon et G. Perrot, á finaugura- 
tion du musêe du Bardo xxiii Amrnphel et Hammurabi, par M. 0[)pert. xxiv Letlre 
de. M. Ediíi. \j(- Blaul Csobre varias descobertas feitas em Bona), xxv líapporl sur la 
inission de M. fíené Basset ai Senegal, par M. B irhier de Meviiard. xxvi Recherches 
sur riiistoire de ta lilurgie radique, par M. Alicl B^'r>raii:nt'. x\xii Nnllce sur des épiíi- 
gles en os découverlcs á l.yon. par \I. Auguste Nicaise. xxviu Cinquiéme note sur les 



188 REVISTA ARCHEOLOGICA 

foitilles de Cherchell. par M. Victor Waile. xxix Les tabletles de Tell-Amaru, par M. 
Opperl. XXX Note sur le Vatkamis gr. 2098: un manuscrit de StéíaHÍlis,i>nr M. Tabbé 
P. BaliiroL — Livres olíerts 



Revuk Dií lWhi' chktien. Livraison d'Oclobre 1888. Lille. Sociélé 
de Sl.-Augusiin, rue du Melz, 41. 

Texto: Étiide iconographique sur les Vilraux du treiziéme stecle de la cathédrale de 
Chartres par F. de Méi-y. — Les ívoires du Bas Rliin et de In Meuse au Musée de 
Dnvmstndt, par le D"" Frédéric Schnhidiíh. — CJiape du Chapilre de Saint-Jean de La- 
Iran (2.' article). par L. de Farcy. — Exmrsion de la Gilde de SK Thomas et de S'. 
Lnc dans le nord de iAllemagne, par J. H. — Nouvelles et Mélnnges. — Travaux des So- 
ciétés savanles. — Bdúiographie. — Jndex hibliographique. — Chronique. 

Estampas: xii Vitraux de Chartres, xiii Diptyque en Ivoire du x' síècle au Musée 
de Dnnnstadt. xiv Chape brodée de Latran xv, xvi et xvii Eglise de Saint- Martin á 
Hal (Fragiiients de peintures itiiirales). xvm Laiitel de la chapelle du Saint- Sacrement 
de la cathédrale de Liêge. 



BULLETINO DELL ÍMPERIALE ISTITUTO ArCHEOLOGICO GeRMANICO. SbS- 

sione romana. Vol. III. Fase. 2. Roma 1888. 

Texto: F. Duemmler, Fase/ísc/ieròen aus Kyme in Aeolls. — A. Mau, Scavi di Pom- 
pei — Ch. Iluelsen, // sito e le iscrizione delia Schola Xantha sul Foro romana. — 
Miscellen. 

Estampas: VI Vasensrherben aus Kyme in Aeolis. VII (Planta de escavações em 
Pompeia). Vlll (Planta do local da Schola Xantha). 



Boletim del Centro Autistico de Granada. Tomo II, n.°' 47-53. 



Boletin de la Institulion Libre de EnseFianza. Madrid. Tomo XII, 
11.°^ 273-270, 281 e 282. 

N ° 273. La pintura espanola desde el siglo xiii ai xv^por D. M. B. Cossio (conclue 
no n.o 274). 

N." 276. Primera determinacion de la escuela propiamente espanola de pinttwa, \)or 
D. M B. de Cossio. 

BuLLETTiNo Dl Archeologia Cristiana dsl Commeiídatoie Giovanni 
Ballisla de Hossi. Serie Quarta. Anno Quarto. Supplemeiíto. 

Este siipplemento contêm as estampas IV-XII, com documentos paleographicos e 
syml)nlo};raphici)s das duas series de inscnpçõds priscilianas; as quaes são acompa- 
nhadas das respectivas aiinotaçues. 

Revista Lusitana. Arcliivo de estudos pliilologicos e etimológicos 
relat